quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Prólogo

A Lua. Essa criatura onisciente. Espectadora pacífica de tudo o que acontece nesse pequeno planeta azul. Com seu distanciamento que a permite visualizar vastas extensões de terras e mares, repletas de coisas vivas e não-vivas.

A Lua. Criatura de face exposta. Apenas uma sempre, é verdade, a outra eternamente escondida de nossos olhos curiosos e imaginativos. Um lado escuro, o outro iluminado.

A Lua. Iluminada e iluminando. Com seu brilho dividido. Parcelado. Em fases. Algumas mais iluminadas, outras menos. Nova, crescente, cheia, minguante. E então novamente o mesmo ciclo, as mesmas fases, o mesmo percurso no céu. O mesmo brilho.

O brilho. Qual brilho é natural? Qual brilho é original? A luz só existe porque existem os olhos para enxergar. Uma superfície que não produz luz reflete luz. A superfície absorve luz e reflete uma parte. A superfície da Lua reflete luz.

A luz. Quem produz sua própria luz brilha mais. Fontes de luz que ofuscam brilhos menores. Que cegam, que maltratam os olhos. São grandezas relativas. A Lua reflete mais luz do que produz.

A Lua. Mero reflexo de fontes de luz mais intensas. Daquelas que cegam. Um brilho parcial, reduzido. Refletido. Ainda assim, luz. Brilho. Ainda assim, ilumina e é iluminada. Ainda assim, Lua.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Everson e Aline

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Everson abriu o diafragma, não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Aline enchia a cara de cerveja
No outro canto da cidade, como eles disseram
Everson e Aline um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer
Uma amiguinha muito louca da Aline que disse
"Tem uma festa no QG, e a gente quer se divertir"
Festa de rock, com gente esquisita
"Eu não tô legal, mais ainda quero mais birita"
E a Aline riu, e quis saber um pouco mais
Sobre o fotógrafo que tentava impressionar
E o Everson, meio tonto, só pensava em ir lá dentro
"Mais uma banda, tenho que fotografar"

Everson e Aline trocaram facebook
Depois se conversaram e decidiram se encontrar
O Everson sugeriu a Yracema
Mas a Aline queria era mais se embebedar
Se encontraram, então, no parque Cachoeira
A Aline de carona e o Everson no carro do jornal
O Everson achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha coruja entre os peitos

Everson e Aline eram nada parecidos
Ela era de Áries e ele tinha vinte e seis
Ela trampava na Renner e falava japonês
E ele ainda dando uma de Jão
Ela gostava de desenhar e de anime
De Erne e Harry Potter, Leminski e Raul
E o Everson gostava de séries
E jogava playstation 2 com seu vizinho
Ela falava coisas sobre cultura oriental
Também animes e essas piração
E o Everson ainda tava no esquema
Jornal, rolê com os brother, e televisão
E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia, como tinha de ser

Everson e Aline compraram um playstation 3
Comiam no Sokulski, e foram pra Caiobá
O Ever explicava pra Aline
Coisas sobre Araucária e as maracutaia
Ele continuou a beber, deixou o cabelo crescer
Mas acabou por cortar (não!)
E ela pra eles comprou
Uma dupla igual de celular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos muitas vezes depois
E ela então um dia foi eleita
A namorada mais legal dos caras da galera

Caricaturaram os brother com desenhos e fotos
E o casal fazia muito sucesso
Ajudaram no URRA!, e mandaram legal
Nos rolês com a nossa galera
Everson e Aline ainda estão em Araucária
E a nossa amizade dá saudade semana sim semana não
Só que esse mês, não vão viajar
Porque o camarão da praia ainda está em digestão
Aa ahá

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Feliz Felicidade

Ato 01 - São Paulo em aurora.
Primeira instância de uma sequência de viagens de proporções épicas. De histórias eternas. De momentos de vivência intensa. De momentos de atingir esse sentimento etéreo tão almejado. Sentimento esse que deve não existir enquanto definição exata, apenas existe quando existem momentos como esses, e apenas enquanto ele dure. Sentimento que desejamos e indicamos, e também buscamos, por vezes quase conseguindo tocá-lo.
Assim, chegamos a essa cidade que fica quase bonita quando os raios dispersos levantam entre infinitas toneladas de concretos armados. A uma breve tentativa de fugir do concreto, em busca do abstrato, o sol se levanta numa aura cinza de poeira. Porém, a luz disforme faz dessa cena uma cidade quase bonita, quase atraente, quase calorosa, quase feliz.
Momentos de introspecção, de intro e de especção também. E de realização. Um ano difícil, mas que uma ceia de natal com uma família tão forte tende a facilitar. Primeiro chute nos glúteos de 2013, de agora em diante referenciado como 2 mil e treta, um ano que sequer merece retrospectiva.

Ato 02 - Vinte e quatro horas entre o céu e a terra.
No céu, entre nuvens, entre águas. Na terra, 24 horas depois, entre mares e marés, terras e terra e águas. Semi-Ilha. Superagui não é insular, carrega antes o prefixo "pen". Mas visto do céu, do voo, é apenas um amontoado de terras verdes, não importando assim as conexões marítimas ou terrestres com o continente. Da janela do avião, semi-oval semi-redonda, identificar as formas do litoral, semi-baía semi-estuário. Oras, pois que localização geográfica independe do ponto de vista, é tudo concreto, não importa o quão contrastante isso seja com a beleza do natural.
Partindo da maior cidade de concretos armados de uma América Latina inteira, são 10 horas da manhã e ali estão os rios, baías, estuários, sejam ilhas ou penínsulas de recanto quase intocado, através da escotilha da janelinha do avião. Uma breve pausa em casa, em uma daquelas que podemos chamar casa, para 24 horas depois estarem os rios, baías, estuários, sejam ilhas ou penínsulas de recanto quase intocado, em contato direto com os meus pés.

Ato 03 - Superagui em crepúsculo.
Mesmo somados todos os idiomas, não existiriam palavras suficientes para descrever o quão épico é e foi o pôr do sol de tal semi-ilha. Paletas crepusculares supra-reais, de tantas cores e de todos os tons, de modo que a imaginação não consegue não se perder, ademais ela se encontra. Tudo isso em areias que correm ao vento da mesma forma que corre o próprio tempo. Contemplação, intro e espectiva, nada mais.
Foto: Maruza Silverio
Tantos momentos, que torna-se impossível reencontrar na memória todos os detalhes, sem distorcê-los, sem alterar o passado, quanto mais transferir para quaisquer escreveres. Houve uma união natural formada por laços temporários de necessidade relativa, construída sob moldes de uma família, sobre membros de acampamentos que também podemos chamar casa. Amizades sinceras, divididas na mesa, na panela de lentilha, no copo de summer drinks, e na caminhada pela praia. Houve a presença das dançarinas da alma, as garotas mulheres que bailam ao som do palpitar dos corações ao seu redor, aqui multiplicadas por dois, iluminando a própria luz, com seus quatro sorrisos de uma espontaneidade extremamente sincera. Ainda houve um cão Sábio, que não pode ser nada além de uma alma onisciente presa em um corpo que não o pertence.
Houve uma ceia, uma ida à areia, queima de fogos, estouro e preparação de bebidas. A saga de anoitecer e morrer todo dia, todo ano. Se cada dia perdido é uma chance desperdiçada, uma nova morte, entremeada de infinitas vidas, é também um novo começo, entremeado de outras tantas infinitas vidas, de outras tantas e das mesmas possibilidades.
E então vem a chuva, 15 minutos depois da meia-noite, como se apenas estivesse esperando o espetáculo terminar para trazer seu próprio show. Como se quisesse com muita água apenas levar 2 mil e treta e trazer 2014, de agora em diante referenciado como 2 mil e catarse. Houve corridas e danças na chuva, que serviram deveras como lavadoras da alma, e aí já era 2 mil e catarse.

Epílogo - Araucária em madrugada.
E a felicidade de sempre. Ou de quase nunca. Dos momentos lembrados enquanto a Lua alvitra estradas no céu. De volta ao que se tem, ao que se espera, ao que me espera. Anoitece no dia, é manhã do ano, e a vida não pode ficar pra depois. Um êxtase de quase-felicidade, sentimento tão desejado e indicado. Depois de alma lavada, de viagem conclusa.
Que as coisas boas que existem nesse mundo existam sempre. Pelo menos enquanto as tivermos. Fica para trás 2 mil e treta. Começa então 2 mil e catarse.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Foxy Lady

You know you are a cute little heart breaker. Saltitando pela sala de madeira improvisada, ocupando os espaços entre frestas, entre farpas. Com um cheiro de madeira nova que sobe ao ar, e a observação do seu olhar descobridor vagando austero entre mesas.

I won't do you no harm. Se aproxima de tantos quantos, e direciona uma ou outra pergunta um tanto detalhista. Conquistando as respostas por mero merecimento. Mérito incontestável de uma busca incondicional, de fatores tão distintos. O recinto todo gira. Gira em torno de seus maxilares desconexos, que assim mesmo balbuciam verbetes decididos.

You make me wanna get up and-a scream. Mas eu me comporto como antes, nada muda. Em meio à multidão de almas inquietas, em estado de espera. Em estado de aguardo. E eu a guardo entre memórias em espera. A vivência nada física de um concreto tão abstrato.

Foxy. Foxy. Saltitando pela sala de madeira improvisada.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nevermind

Nevermind
Nunca mente
A mente nunca mente
Never mente
Nunca mind
Nuncamente

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Crônicas de uma Gata Solitária

As coisas tinham muito mais cor quando Dorothy estava no mundo mágico de Oz. Lá, os tornados levavam as pessoas para viagens mágicas por mundos de criaturas que se preocupam com o que os outros sentem ou deixam de sentir. Por mundos onde as escolhas que fazemos geralmente nos levam a caminhos gloriosos, de estradas também coloridas, de destinos fantásticos.

Mas Dorothy voltou de Oz, acordou para um mundo cruel e sem tantas cores, em tons de cinza, onde a poeira se acumula e não faz questão nunca de dispersar. As coisas mantém seus lugares como previamente determinados, em instâncias das quais nem mesmo elas lembram.

Agora, Dorothy está sentada diante da porta. Observa o mundo lá fora, analisa as luzes e sombras que bailam sob o vento, farfalhando folhas que ela não vê, pois que vê apenas os movimentos das sombras projetadas no chão de concreto duro e frio. Ela avalia os perigos desse mundo cinza, e as lembranças do mundo colorido, e decide permanecer. A inércia age sobre Dorothy, e ela apenas observa...

Pois Dorothy espera o retorno do Homem de Lata, do Espantalho e do Leão Covarde. Ela grita por todos os cantos, clama pela presença deles. Procura, sente suas presenças, e sente ainda mais suas ausências. Dorothy dorme, e durante o sono a memória não martiriza. As lembranças de mundos coloridos não aparecem para ela, a não ser em sonhos conturbados, os quais ela felizmente se esquece quando de olhos abertos.

Então Dorothy fica lá, por vezes sozinha, por vezes na dela, por vezes gritando sua dor para o mundo. Observando e esperando, quem sabe, pelo tornado que virá tirá-la novamente desse mundo sem sal, sem cores, e trazer de volta as saudades de um mundo mágico de cores e criaturas fantásticas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Absolutamente Glorioso

Lágrimas são apenas lágrimas. Não importa qual seja o motivo pelo qual sejam derramadas. Apenas uma glândula cujo intuito de ajudar no bom funcionamento dos olhos acabou sendo deixado um pouco de lado ao longo dos anos em que a humanidade, darwinisticamente, evoluiu. Adaptou-se à necessidade de ser a única criatura que chora para demonstrar os sentimentos. Sejam eles bons ou ruins. Ou bons e ruins ao mesmo tempo.

Dona Euthália em uma de suas últimas fotos
A glória e a não-glória caminham lado a lado, com apenas dois dias de diferença. Com muito menos que isso de diferença, com uma tênue linha, que acaba se dispersando e se juntado uma à outra, transformando-se ambas em uma coisa só.

Uma nota 10 declarada com fervor. A justa comemoração por um trabalho realizado ao longo de quatro longos, porém curtos, anos. Uma vida nota 10 declarada encerrada. A justa, porém nunca suficiente, homenagem a uma história construída ao longo de 86 belos, e gloriosos, anos. Dos quais, 64 vividos em um matrimônio progenitor de todo um clã que já contabiliza cerca de 50 descendentes, sem perder as contas. De mãe venerável, de esposa dedicada, de avó adorável.

Equipe Gemada na Estrada e a aprovação na banca
Assim mesmo, podemos declarar duas vitórias, pois que uma vida absolutamente gloriosa como essa nunca pode ser interrompida por qualquer morte, ela continua. E ela continua no seio de todos aqueles que ainda continuam, que lembrarão dessa vida e de tudo que ela trouxe. De todas as glórias, de todas as notas 10. É preferível celebrar a vida vivida do que lamentar a morte sofrida.

O curso de Jornalismo se encerra de maneira gloriosa, com todas as lágrimas de celebração a que se tem direito por uma conquista como essa. Dona Euthália Trindade de Ornellas nos deixa, matriarca gloriosa. Com todas as lágrimas de lamentação a que se tem direito, mas sabendo que por uma vida tão gloriosa, merece-se também uma celebração.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Tratado Contra o Sistema Digestório

Que constem nos autos a Solicitação de Revisão da Criação Humana, impetrada pela minha pessoa, contra qualquer que seja a Força ou Entidade criadora do universo, pois há algo de muito errado com o corpo humano. É um erro fulgurante que permeia a existência da criatura humana desde a aurora da espécie.

À primeira vista, é parte essencial da fisiologia, não só humana, como também mamífera, e de todos os outros seres do Filo dos Chordata. Mas trata-se de algo muito além de simples fisiologia, não é apenas uma questão de manutenção da vida através das funções naturais de uma criatura. O problema está além disso. Acontece que o Sistema Digestório é um sistema corrupto e opressor. É um sistema que ocasiona mais malefícios do que benesses, um sistema que te obriga, de forma ditatorial, a realizar certas atividades em nada agregadoras ao caráter existencial do ser humano.

Vejamos então o modo como se dá essa opressão, por meio da explanação das fases do processo: primeiramente há a alimentação. Oras, pois que já foi provado diversas vezes, e por diversos seres vivos, que comer pode ser, e é, desnecessário à existência. Todo o Reino Plantae, por exemplo, exime-se dessa estafante tarefa de localizar alimento, extrair ou conseguir alimento, beneficiar alimento, sazonar alimento, e só por fim comer. O tempo perdido com esse processo é enorme, e poderia ser muito melhor aproveitado para o progresso social e científico da civilização, caso essa não tivesse um Sistema Digestório.

Então inicia-se a fase da deglutição e digestão. Aqui, há um imenso desperdício de tempo e energia, causando efeitos colaterais terríveis, como a "soneca pós-almoço". Sem contar a inumerável quantidade de músculos e ossos dispendidos para o processo de mastigação. Essa fase do processo tem ainda a grande desvantagem de se caracterizar pela quantidade desnecessária de espaço utilizada para sua realização. São tantos órgãos, glândulas, enzimas, e outros elementos que, de uma forma ou de outra, participam da digestão, que chegam a ocupar até um terço do corpo humano. Todo esse espaço poderia ser utilizado para a alocação de mais um cérebro, por exemplo, que poderia ser ainda maior e mais complexo do que o que temos atualmente.

Por fim, chega o momento da dispersão dos nutrientes adquiridos, e da excreção do inutilizável. Outra fase repleta de desperdício de energia e tempo. Apenas o tempo gasto no banheiro com a eliminação das fezes já poderia ser muito melhor aproveitado em outros direcionamentos. E as partículas sanguíneas utilizadas para carregar os nutrientes poderiam ser úteis em diversas outras funções.

Em termos gerais, todo esse processo opressor e desnecessário ocupa boa parte de nossa energia vital. O sistema todo poderia simplesmente ser suprimido, e substituído por outras formas mais práticas de adquirir componentes básicos para a vida, da maneira como diversas outras criaturas vivas já fazem. Não cabe a nós aqui nessas parcas linhas citar as possíveis substitutas ao ato da alimentação/digestão/excreção. Apenas devemos incitar em nossa sociedade contemporânea o debate acerca da necessidade do trabalho em prol da eliminação dessa estrutura maléfica e tenebrosa de nossos corpos, o Sistema Digestório.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Um Texto por Virada

As coisas são cíclicas. Oras, pois que diabos, já falamos disso antes. A prova de que as coisas são cíclicas é já termos falado disso antes. Assim, temos mais uma Virada, termo tão representativo de nossas vidas. Se aproximam os bells que jingle, se aproxima o fim de mais um ano e começo de outro. E toda essa bonita utopia de acreditar que um dia ou outro as coisas serão diferentes.

As coisas são diferentes o tempo todo. De ano em ano a Virada de nossas vidas se reinventa, se renova, e temos dias bons e dias ruins. Viradas boas e Viradas ruins. Poderia haver aqui uma lista das coisas boas, das coisas que se reinventaram. Oras, falar do óbvio é desnecessário, as coisas que são sabem que são. Sempre sabem.

As coisas sempre sabem o que elas são. Esse ano, a música tem outros sentidos. E o que seria do mundo sem aquelas pessoas que dançavam em plena praça ao sol de meio dia ao som de uma sanfona. Música é só sobre diversão. E o que seria do mundo sem aqueles sujeitos que resolveram conhecer algo que não conheciam, e dançavam em pleno parque ao som de letras autorais que um dia passaram pela minha caneta. Música é só sobre diversão, nada mais. Essas coisas tão diferentes, pareceram tão iguais.

As coisas acontecem iguais, mesmo que por outras razões. Esse ano, as queimaduras provém de outros motivos. Esse ano, um beijo recusado torna-se a melhor coisa possível. Esse ano, um beijo aceito torna-se singelo motivo de agradáveis risos. E estavam lá tantas pessoas quanto sempre, tantas daquelas que se faz questão de abraçar ao menos uma vez por ano, se possível muito mais, em cada Virada, pelo resto da vida.

As coisas assim são, enfim. Cíclicas, diferentes, sabendo, e iguais, ao mesmo tempo. Indo e voltando, muitas vezes mais indo do que voltando, mas quando elas resolvem voltar.. Ah quando elas resolvem voltar. É assim que se fazem as melhores Viradas.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ciclicando

Estou aqui todos os dias, de peito aberto esperando a minha bala perdida que nunca vem. O câncer maligno que nunca me acomete. A doença rara que tantas pessoas lamentam ter. Todos os dias, esperando uma resposta desse mundo, que nunca perdeu um segundo ao meu lado, e apenas continua a girar...

Todas as pessoas que ficam em dúvida entre tomar uma ou outra decisão, acabam não tomando nenhuma. É essa lei imutável na vida. Houvesse o peixe que respirava por pulmões decidido não avançar à terra, e nada do que vemos estaria aqui. Não haveria sequer olhos para enxergar o que não estaria aqui. Dentro de si mesmo, cada um escolhe até mesmo quantos glóbulos vermelhos despender em cada esforço de troca de oxigênio.

A prorrogação do óbvio é desconfortante. Todo esse nada que continua acontecendo incessantemente, e sendo muito, sendo tão parco flerte. Algumas coisas voltam sempre, temos mais uma virada pela frente. Oras, como foram as últimas? A memória me diz algo sobre elas. Mas o que é a memória, senão uma artimanha de nossas cabeças para que não levemos mais pedradas?

Algumas coisas se reconstituem, e dizem que isso é culpa do verão. Verão, mal sabem que esse termo técnico se encontra mal empregado em nossas vidas subtropicais. Pois que assim são também as nossas vidas em temporadas, acabando um pouco mais a cada minuto, e se renovando da mesma forma. Ciclicando.

Muitas coisas chegam ao fim, mas é exatamente para isso que as coisas servem, elas começam a morrer no momento em que nascem. E é para isso que as pessoas servem. Tudo que existe tem começo e meio, cabe a cada imensa parcela desse pequeno tudo descobrir onde está seu fim. E não pensemos que isso é o mal do mundo. Essa é a parte boa.

Não pensemos também que o que se faz, se faz por gosto. Algumas coisas são feitas, e mesmo existem, apenas porque assim precisam ser, queiramos ou não. E assim as coisas seguem, todas e cada uma, com suas benesses e malefícios. Com suas doenças raras, e vidas mais raras ainda.