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terça-feira, 28 de junho de 2016

Vendendo Minha Alma pela Minha Carreira Política - Capítulo 3 - Trampolins

Um trampolim para pular na piscina de dinheiro!

O impulso necessário para o salto tão aguardado. E os Tios Patinhas dos nossos tempos, com seus ternos de mergulho, caem de cara no dinheiro. É o que importa, a piscina aquecida, o fluxo sempre constante, trocar essa água sem interrupção. Que venha sempre mais!

Mas o que usar de trampolim, como fazer essa corridinha horrenda até a beira da piscina e ser autorizado a aproveitar o seu conteúdo? Preciso me fazer conhecido. Ocupar cargos eletivos menores, naturalmente. Sim! Ser eleito por uma pequena parcela dos eleitores, é o primeiro passo para ser eleito pela parcela maior.

Escolas. ONG's. Conselhos. Associações de moradores. Clubes. Grupos organizados. Uniões de estudantes. Associações comerciais. Grêmios. Qualquer coisa serve! É começando de baixo que se cresce.

Você pode começar como o limpador da piscina. Ou a pessoa que limpa o chão em volta dela. É possível ser apenas aquele que fica olhando por sobre a cerca, não convidado. E a vontade de pular vai aumentando. Quem não gostaria de provar aquela água tão agradável?

Use o trampolim!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vendendo Minha Alma pela Minha Carreira Política - Capítulo 2 - Pregão

Quem dá mais?! Para qual partido político devo migrar? Gostaria de filiar-me ao partido que melhor levanta as minha bandeiras. Cuja ideologia mais se assemelha às coisas em que acredito. Deve haver algum, entre a miríade de partidos em nossa super-democracia, cuja premissa ideológica seja algo com que concordarei plenamente.

Porém, não! Vou escolher o partido baseado em representatividade política. É claro! Por que eu me filiaria a um partido minúsculo, que não tem chances de ganhar nada? Ou, caso algum figurão daquele outro partido queira me cooptar, vamos lá! Afinal, mesmo que não seja eleito, alguém lá será, e algum cargo na administração eu terei!

E não é assim que funciona desde sempre? Vice do meu vice. Minha alma está para leilão. Venderei para a melhor proposta, naturalmente. Ninguém mais se importa com ideias, deixemos isso para os românticos. Em se tratando de carreira política, fazemos pregão. Quem gritar mais alto no mercado de almas, tem mais chances de se posicionar bem no draft dos políticos.

Após a escolha muito bem pensada do partido, devo agora preparar-me para as coligações. Claro, pois nossas bases ideológicas são semelhantes, não são? Não? Oras, não importa, juntos podemos vencer aquele filho da puta que também se candidatará.

O que importa é a soma de nossos números, não de nossas legendas. Siglas são apenas letras amontoadas. Sem significado. Sem valor. Tenho certeza que nossos fundadores escolheram palavras arbitrárias. Usemos social, trabalhador, cristão ou democracia no nome, e já temos milhares de seguidores automaticamente.

- Pré-candidato a vereador, tradição no comércio, muito conhecido! Quem dá mais?!

- Pré-candidato a deputado, já ocupou cargos municipais, grandes chances! Quem dá mais?!

- Pré-candidato a qualquer coisa, famoso na internet ou na TV! Quem dá mais?!

- Ex-governante, querido em várias camadas da sociedade! Quem dá mais?!

- Candidato a prefeito procurando um vice! Quem dá mais?!

O tempo está se esgotando. Batam o martelo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

En El Uruguay, La Gente Está Muy Loca

Choveu miseravelmente durante os dois dias em que estive em Ponta do Diabo. A Ponta do Diabo é o que os uruguaios chamam de Punta del Diablo. Gosto dessa tradução porque parece que estamos falando da pica cabeçuda e veiúda do próprio Diabo. Outro dia, fiquei sabendo que todo pinto é diferente. Cada qual tem as suas especificidades muito características. Como uma impressão digital, não existem duas picas iguais. E também não há duas bucetas iguais.

Parei para imaginar se Deus limpava a bunda direitinho. Acho que quando você é Deus não deve ter muito tempo para ficar limpando o rabo minunciosamente, esfregando o papel higiênico em cada ranhura do cu à procura de algum resquício de bosta. Provavelmente ele apenas dê uma limpada geral e deixe para resolver o resto da situação mais tarde, no banho. Mas isso é apenas uma conjectura. Afinal, ninguém deseja sofrer as consequências a longo prazo por não ter limpado o rabo durante a vida.

Ficou chovendo durante os dois dias em que estivemos lá. Era um tempo fechado, sem a menor intenção de melhorar. Na verdade, não ficamos dois dias, foi uma noite cercada por um final de tarde e um início de manhã.

Mesmo com esse problema climático, o lugar estava ótimo, a bebida era barata e consegui, na nossa última noite no estrangeiro, deixar meu suco gástrico naquele país. Passei a madrugada vomitando a tequila que bebemos. Ali, estabeleci a meta de não vomitar mais do que uma vez por mês ao longo dos próximos anos. Chega uma hora em que um sujeito cansa de ver os seus restos alimentares interiores se estrebuchando e saindo por onde deveriam entrar.

***

Alguns dias antes, acabávamos de cruzar a fronteira. Acho um absurdo que as pessoas construam aduanas e proíbam as outras pessoas de atravessá-las simplesmente por terem estado a vida toda delas do outro lado. Como se as pessoas dali não cagassem também.

Carimbam papéis, atestam documentos, olham para a tua cara suja e cansada a verificar se aquela foto ali é você mesmo. Se eu fosse um ladrão de identidades, um falsificador ideológico, a última pessoa com quem eu me pareceria seria eu mesmo.

Em último caso, até aceitam uma propina. Pedem, muitas vezes. É possível comprar qualquer sujeito, todos têm seu preço, não importa a moeda corrente: dólar, peso ou real. “Só não aceitamos o euro, o que eu faria com essa porcaria?”.

Compraria uma pessoa, eis o que eu faria. Pronto!, agora você é meu, atravesse a fronteira e grite que são todos uns pendejos. Cumpram minhas ordens e todos serão poupados. Talvez Deus tenha até bicho carpinteiro, só assim para que ele tenha essas ideias.

No final das contas eram todos uns pendejos e umas pendejas mesmo. Atravessamos diversas fronteiras, a maioria delas municipais ou estaduais. Mas quando foi preciso confrontar nação contra nação, duas vezes correu tudo bem, apesar de que na primeira nem sabíamos o que viria a ocorrer em qualquer das possibilidades; ninguém nos parou. Na terceira vez deu tudo errado. Pouco importa: en el Uruguay, la gente continuaba muy loca.

***

É preciso prestar mais atenção quando não se está em território conhecido. Todos acabam sendo vítimas; ao menos acreditam que são. Todos são bandidos também. Há um pequeno assassino preso em cada mente, matando o nosso tempo. Quando se está no estrangeiro, não há também que se perder tempo.

Mas há que se tirar um tempo para dormir. Os carros do outro lado da rodovia nunca sabem quem sofre mais, todos são a maior vítima do mundo e os outros motoristas, esses sim, são uns pendejos. Mas se ninguém errasse, ninguém morreria. Oras, todo mundo precisa de um saco de pancadas, só evitem as colisões frontais. Evitamos todas elas, e cá estamos: vivos.

Nas rodovias, revoltosos. Nas ruas, os malucos. “Esto habla dos idiomas: español y mierda!”. Pelos vistos, por quase comprovação empírica de estudo social de massas, essa é uma situação recorrente.

Distribuímos cigarros e visitamos um cassino. Não daqueles suntuosos templos de adoração jogatinesca, onde o Diabo certamente ficaria de pau duro. Apenas um casarão com tapete empoeirado e máquinas programadas para tirar as moedas de velhos e velhas claramente desacorçoados com a vida que levaram. Suas caras sujas e cansadas dariam a entender que foram expulsos de todas as fronteiras que já tentaram atravessar nessa vida.

Ao contrário do que todos pensam, é preciso muita coragem para se tornar um velho que desistiu de tudo. Há poesia também na derrota.

***

As pessoas falavam diversos idiomas, e, quase sem exceção, todos se entendiam. Há algumas línguas que são universais. O querer se comunicar é uma delas. Conheci muita gente que estudou comunicação durante anos e ainda não aprendeu a falar. Balbuciam monossílabos manhosamente, na esperança de conseguir aquilo pelo que ainda não têm capacidade de lutar.

Na Província Cisplatina, conheci muita gente que nunca esteve em uma aula sequer relacionada à comunicação, mas é capaz de humilhar comunicacionalmente qualquer um. O meio e a mensagem que ardam nas chamas do inferno, a comunicação se dá entre seres humanos, e disso não há teoria que dê conta. Na verdade, essa parte do texto devo certamente suprimir na versão final. Não se fala de comunicação a comunicadores, são todos uns traumatizados.

Entre filhos da puta, pendejos, cabrónes, assholes, schwanzlutschers e ainda outros mais, acabamos globalizando um pouco mais o nosso léxico de pessoas.

É como se as pessoas pudessem ser colocadas também em um dicionário. Claro que não seria simples defini-las, mas elas viriam com o nome de batismo civil, classe gramatical a que pertence (diferente da definição de gênero, vejam bem, verbo nenhum é feminino ou masculino), e uma ou mais breves definições, resumidamente. Haveria também um exemplo de aplicação na frase. É sempre possível aprender uma pessoa nova.

Aprendemos um dicionário inteiro de pessoas nas estradas. Praticamente um desses idiomas modernos, as pontas dos galhos nas árvores pictóricas que começam lá na Torre de Babel, e são formados por um pouco de cada outro idioma. A globalização está aí para isso.

Conta uma antiga lenda que um dia Deus e o Diabo se encontraram para jogar uma partida de Batalha Naval. O Diabo resolveu tirar um sarro de Deus e inventou um novo idioma para confundir seu adversário durante o jogo. Cada vez que o Coisa-Ruim ia escolher uma coordenada para lançar sua bomba, falava uma coisa ainda mais sem sentido do que a anterior. O Todo-Poderoso começou a ficar muito puto e jogou a brincadeira para o alto, mandando tudo à merda. Talvez o Cão até estivesse tentando provar alguma coisa sobre a Ira e aquela baboseira toda, mas o fato é que ficaram sem se falar por mais alguns séculos.

Na verdade, acabo de inventar essa lenda. Quem não gostou, que pare a leitura agora e vá para o Diabo que o carregue. Ou para Deus.

***

Quando arranjamos confusão lá, ninguém entendeu. Provavelmente porque brigávamos em português. A garçonete queria derramar café em todo mundo; é o sonho de toda garçonete antes deslumbrada e hoje frustrada. A vida não vai para frente pra ninguém. E nem adiantava pedir a ajuda divina, Deus estava cagando. Espero que ele tenha limpado a bunda dessa vez.

Saímos de lá sem pagar, não que isso nos orgulhe, mas precisava ser feito. Um cognato que em português é substantivo, em espanhol vira verbo fica muito difícil de traduzir, e de calcular também. Cambiar é uma coisa difícil. Não que isso nos orgulhe, mas há festas e festas.

Em outra, subimos em cima das mesas. A calçada estava tomada. A rua também. A particularidade acústica da região histórica nos fez acreditar que acontecia uma balada no teatro, o que seria a festa mais louca desde quando os monarcas celebravam sua falta do que fazer com prodigiosas orgias nos palácios reais.

De qualquer forma, insanidade não faltou. Minha imaginação esteve em Ibiza, ou naquelas outras praias mediterrâneas ao sul da França e da Espanha, onde as pessoas dançam. Era uma calle pequena, cheia de gente, com uma música frenética ricocheteando nos prédios antigos, com as pessoas atirando a mais variada quantidade de líquidos distintos e indistinguíveis nas outras. É possível que tenha sido incluído nos ares até uma boa porção de dejetos humanos.

Saindo dali, algumas horas mais tarde, controversamente precisamos da ajuda da Virgem Maria. Certamente naquela festa não havia nada de Virgem, nem mesmo a ascendência astrológica, e a mãe do filho de Deus devia estar assustada e bem longe de lá. Mas quando clamamos por ela, a santa não nos abandonou à nossa destemperança alucinógena. Oras, o que nos é oferecido, é aceito. Mas acho que quando ela nos indicou o caminho, até mesmo o Diabo ficou feliz. “Ufa! Desses aí eu gosto”.

***

Todo mundo quer foder. Essa é outra língua universal. Todas as pessoas querem acabar a noite acabadas. Mas não há muito que ficar falando da foda alheia. Exceto, talvez, que torcemos para que algumas pessoas tenham um tempo a mais do que Deus tem para despender limpando o cu. Sei lá, como nem todo mundo criou o universo, é natural que haja alguns cus bem limpinhos por aí.

Foda é quando a foda fica alheia a você. As oportunidades são especialistas em nos perder. A verdade é que todo mundo quer jogar café em todo mundo, mas todo mundo quer transar com todo mundo também. É a lógica do louva-a-deus, aquele animalzinho verde e frágil: eu te como enquanto você me come a cabeça. E de foda em foda o mundo gira.

Tanto gira que lá anoitece mais tarde. Isso quase dá mais tempo de sol, se você parar para pensar que somos criaturas noturnas (vespertinas, talvez) que não acordam tão cedo, e, quando acordam, é porque nem foram dormir. Vagamos as estradas sonolentas, com caras de madrugada.

Há tanto crepúsculo quanto há aurora em um mesmo dia; exceto quando o sol é apenas um amontoado de nuvens. E em um deserto asfáltico, entremeado por vacas e pasto e merda de vaca, que, por efeito, é quase tudo o que os interiores daquele país possuem, vemos a luz fugidia descer a encosta da colina por trás de alguns imensos moinhos de vento, não mais impulsionando simples moedores de milho, mas sim bastiões da moderna usina eólica de energia.

As noites não acabavam nunca. Pareciam Sodoma e Gomorra, porém sem o fogo e o enxofre. Bobagem, só parecia que estávamos nos divertindo imensamente mesmo. As noites traziam tudo o que são acostumadas a trazer: prazer e confusão mental. Bobagem também: não se define o que se encontra nas noites de outro país.

Não acreditem em nada do que eu digo: toda história que não está acontecendo exatamente agora, e que não está sendo vivida, não é real. Falamos isso para os gatos daquele cemitério, que insistiam estar vivos, mas agiam como guardiões dos mortos. “Hey, faça mais um carinho em meu pelo sedoso ou a tua alma vagará eternamente pelo limbo uruguaio!”.

***

Gostaria de ficar naquele limbo para sempre, em meio àqueles malucos da Dieciocho de Julio. Se aquela rua, entre a colossal estátua do Artigas em seu cavalo simbiótico, compostos pela mesma massa de bronze, e a feira livre da Tristán Narvaja, não for o próprio limbo, então, por eliminação, só poderíamos estar nos portões do inferno, onde Dante foi aconselhado a deixar detrás de si a esperança. Aposto como o próprio Diabo, e certamente também Deus, devem dar umas voltas por ali de vez em quando, no fim da noite, em busca da melhor maconha ou de algum bom rabo.

Montevideo também não nos queria ausentes. Toda vez que deixávamos aquela cidade o céu desabava em aguaceiro. Ou então algum outro desastre não-natural nos acometia. Por isso choveu miseravelmente por dois dias em Ponta do Diabo. Depois, de volta a terras autóctones, o clima se resolveu, eram apenas pancadas isoladas de maus humores passageiros.

De toda feita, a viagem e as viagens dentro da viagem não custaram muito. O grande custo está em se manter vivo, em não arriscar acabar com a própria existência. Por exemplo, quem nunca comeu intestino de boi não sabe se a recepção pelo intestino humano será proveitosa ou não. E se deixei lá meus dejetos, trouxe de lá um pouco de tinta. O eterno ciclo do nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, poderia ser atualizado para algo como de um lugar nada se tira sem deixar algo em troca. É como dizem: “nenhuma foda sai barata”.

Por fim, como tudo que começa de fato acaba, o Deus castellano, o Deus do portuñol, latino, de sangre caliente, nos deu adeus. O Diabo nos acompanhou e nos soltou dizendo “voltem sempre”. O Uruguai desditoso nos quis e nos quer. E deixou-nos com a certeza de que lá, muito mais do que aqui, la gente está muy loca.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Crônicas da Rua

1 - São todos uns idiotas. Alguns são mais idiotas do que os outros, e alguns são idiotas por razões diferentes. Mas são todos uns idiotas.

2 - Naquele tempo, andávamos em um auge de insanidade. As noites eram frenéticas e, não raro, duravam um final de semana inteiro. Víamos o sol nascer de um lugar diferente a cada dia. Sem nem saber direito para onde ir, íamos aonde desse vontade. Em uma noite específica, havíamos deitado a cidade aos nossos pés, éramos os reis da rua, todos se ajoelhavam e nos louvavam à nossa passagem. A caminho da madrugada, fomos parar em um apartamento onde todo mundo estava nu. Dormimos exultantes com nosso reinado.

3 - Não tenho paciência para quem me dá sono. À minha volta, preciso das pessoas insanas, de quem não teme a morte e muito menos a vida. Quem está disposto a aceitar tudo o que o mundo tem a oferecer. Caminho lado a lado com esses bandidos corruptores incorruptíveis, ladrões de coisas mais nobres, vencedores do tempo. Esses que tiram a vida para dançar e bailam brilhando por onde os outros caminham.

4 - Eu não me apaixonava havia dois anos. Desejava constantemente que ela ainda estivesse participando das minhas aventuras, em lugar de apenas povoar meus sonhos. É disso que a matéria-prima da vida é constituída: ansiar por algo que não temos, que está distante. É o que nos faz sair por aí entregando jornais ou fechando grandes acordos. Ao menos, o mundo estava cheio de paixão voando por todo lado, mesmo que não acertassem muita coisa. Os amores são aves cegas.

5 - Às vezes, tenho a sensata impressão de que já ouvi todos os papos. Todas as conversas já foram tidas, são assuntos cíclicos. Por isso, abandonei as discussões e os debates, nunca se chegava a lugar algum. E eu já sabia há algum tempo que a melhor forma de tirar da cabeça algo que estava incomodando, era fazendo um furo nela.

6 - Parei para observar o oceano. Observar é um termo pequeno para o que eu fazia com os mares e as marés. Era como se eu conseguisse sentir ele de uma maneira superior. Eu chamava aquilo de contemplação. Fiquei parado na areia, a espuma branca dançava graciosamente ao forte vento e tive vontade de filmar aquilo. O mar revolto quebrava, ia e voltava. Fazia frio. Os litorais são como vírgulas, já disse certa vez, continente nenhum tem ponto final. Acabaram me chamando e fui embora. Eu realmente gostaria de ser um rio.

7 - As pessoas que caminham pela rua me interessam, naturalmente. Gosto de observá-las, ler seus pensamentos óbvios. Sento em um banco e fico esperando algo acontecer. Na rua, todos estão carregando consigo seus objetivos em uma sacola. Posso ver a marca das grandes lojas: sonho; anseio; emprego; amor; amizade; problema; dívida; decisão; viagem; novidade; morte. Cada um desses grandes conglomerados comerciais que estampam as sacolas que carregamos por aí.

Epílogo - Aguente firme querida, é um mundo muito louco.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

No Bar do Pedro

O primeiro Pedro que conheci na minha vida foi meu avô, há quase três décadas. Foi por essa mesma época que conheci também o interior, com suas estradas de chão, com seus cheiros de animais em cidades minúsculas, com as árvores e arbustos de folhas marrom, assim deixadas pela poeira acumulada nos dias quentes... Com sua música caipira.

Naquele ano em que conheci o interior, meu avô já passava dos 60. Hoje, Seu Pedro ainda trabalha todos os dias, com seu criativo ofício na marcenaria, desenvolvendo sempre uma nova engenhoca de madeira. Hoje, moro às margens da cidade grande, da agitação frenética e das árvores com troncos pintados de branco para evitar pragas, o marrom da poeira substituído pelo cinza sem vida do asfalto.

No interior, o som da viola caipira é regra, nunca exceção. O cantos dos passarinhos é frequente, não raridade. O Tuiuiú e o Cardeal são mais ouvidos. Aqui, ouvimos o barulho dos carros na rua. Ouvimos a sirene da polícia e a reclamação exagerada do vizinho insatisfeito.

Mas aqui, o mais novo Pedro que conheci na minha vida, e já perdi a conta de quantos são, não se abala. Pede para a dupla caipira baixar um pouco o som e continua dançando. Continua celebrando seu aniversário, distribuindo garrafas de cerveja. Tuiuiú e Cardeal puxam os parabéns, cantam e recantam a ode ao aniversariante, também dono do boteco.

Uma dezena de senhores com cara de interior congratula o Pedro. Andam para lá e para cá dentro dos menos de 30 metros quadrados do bar, com a cerveja que, pelo menos até acabar a grade, é na conta do Seu Pedro.

Tuiuiú e Cardeal continuam cantando músicas que já ressoam há muito mais tempo do que as quase três décadas que se passaram desde que conheci o interior. Músicas que evocam o interior em seus acordes. Formamos uma ilha na cidade em plena quarta-feira. A música é as estradas de chão, é os cheiros dos animais, é as árvores marrons e os passarinhos. É o Tuiuiú e o Cardeal, e é o Seu Pedro.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sobre Fugir

Certa feita, escrevi a uma garota determinada poesia. Amizade expressa, ela singelamente me olha e sentencia: "tenho em minhas mãos a coisa mais linda que até hoje alguém ousou escrever para minha pessoa". Naquele momento egocentrista, tudo o que pensei foi "chegará um dia o momento em que terei eu em mãos a mais bela coisa que alguém já escreveu para mim?". Oras, esse momento chegou.

Sinto saudades de sentir o sentimento bom de ter o estômago revirado sem precisar regurgitar. Aquela velha e recorrente metáfora das lepidópteras invadindo o aparelho digestório para denotar uma sensação boa. Criam casulos no interior de nossas tripas, procurando espaço entre movimentos peristálticos rosáceos, desacostumados a ver a luz. Casulos são transições, como todas as outras coisas que mudam, somos grandes casulos envoltos, atrapalhados por um metabolismo lento demais.

Saímos de casa. Tudo o que foi nosso um dia, nosso continua sendo. Pois que temos para sempre aquilo que nunca chegamos a perder. São nossas as nossas ruas por onde caminhamos em madrugadas memoráveis. Memorabilia. Física imemorial. Desfisicamente deixamos ambientes, ultrapassamos a velocidade do som, do som das vozes que nunca mais foram ouvidas.

E saímos, andamos a princípio. Lentamente como o bater de asas de uma criatura pesada demais, ou velha demais, ou fraca demais. Caminhamos e principiamos a trotar, passo apressado de quem expectativa chuva. Oras, mal sabem que quando a chuva vem, o mais correto é então parar, esperar o primeiro pingo, a primeira gota, e então dançar. A senhorita me concederia o prazer desta dança? Então corremos, o trote vira desabalada carreira.

Para onde vamos? Não sei! Corremos, e passamos (passamos a passos, correndo corramos) por todos os lugares que ainda são nossos. Fisicamente. Tenho memória do futuro, me lembro do que ainda está por acontecer. São nossos, mas lá não paramos. Vamos, para onde não sei! Em fuga fujamos. Fugimos. Para onde não sei. Pois que nunca paramos.

É como sempre disse: em qualquer nível, sentimento algum precisa ser recíproco. Mas quando o é, amigos, quando o é...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Capítulo 5 - Sem Nome, Sem Mais Nada

Ao sujeito que é uma vez facultado ver a glória, o medíocre nunca mais lhe será suficiente. É impossível ter um dia o esplendor em mãos, e contentar-se no dia seguinte com o regular, o reles, o ordinário, a semi-glória. O sujeito que é rei uma vez nunca deve contentar-se em abandonar trono, cetro e coroa, para tornar-se o bobo da corte.

Tudo desvanecerá, e isso já foi dito. Mas é assim a ordem natural das coisas, todo castelo foi feito para desmoronar, e as mais lindas cores sempre desbotam. As coisas deixam de ser e de haver a todo o tempo. A glória um dia minguará. Tronos, cetros e coroas passarão, e nada vivo há de restar. O brilho cintilante de cada estrela, um dia será trevas na imensidão de um espaço frio e profundo.

Talvez nossas pinturas tenham desbotado pela ação do tempo implacável. Talvez tenhamos virado supernova, em uma explosão desalentadora. Talvez tenhamos morrido nesse mundo nublado, onde nosso caule não tem para onde girar. Talvez o arco-íris tenha desaparecido no ar como se nunca tivesse existido. Talvez tenhamos sido números normais, pares quaisquer. Talvez tenhamos sido linhas perpendiculares afinal, e nunca nos encontremos no infinito.

O que fica da glória é a própria existência da mesma. Sempre digo que não devemos lamentar as mortes sofridas, mas sim comemorar as vidas vividas. Portanto, só me resta agradecer à glória por ela ter existido, pois que a sua existência foi auto-suficiente. Agradecemos às vidas por elas terem sido vividas. A glória existiu, e isso basta.

E agora você parece para mim um sonho bom, porém distante. Um sonho sonhado em uma daquelas noites que a gente acaba acordando meio desvairado, sem entender muito bem o que acabou de acontecer. Aí senta na beira da cama, e passa alguns minutos tentando colocar as ideias no lugar, mas isso não é algo possível... Então, a ponto de levantar e seguir com o dia enfadonho e sem graça que com certeza virá, vem um sentimento bom, um tipo de paz interior mediante uma lembrança que não se sabe nem de onde vem, e aquela sensação reconfortante de que mesmo o sonho tendo acabado, ele foi bom... Ele foi muito bom.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Na Maquiagem: Um Sorriso

Passou o chapéu pela plateia extasiada. Vários empunhavam moedas e notas de pequeno valor, fazendo bom uso de seus trocados, em troca do trabalho apresentado pelo homem de faces coloridas e roupa espalhafatosa, que ocupa o centro do palco no qual transformou até mesmo a rua.

Um sujeito mais generoso libera uma nota de grande valor. O homem de faces coloridas faz uma galhofa de quem lhe deu apenas os trocados. E isso é, contraditoriamente, um agradecimento. O homem de faces coloridas caminhou, há poucos minutos, de um lado para outro de seu palco-rua, abordando as pessoas das maneiras mais inusitadas. Um jovem distraído assustou-se de pular. Um pai preocupado o afastou com um chega pra lá.

É mais tarde, e o palco-rua é ocupado por outros artistas. Em minutos de outrora ficaram os gracejos e troças. Em um canto qualquer, em meio a outras atribuições e atribulações, frequentes mesmo nos dia a dias dos que mais sorriem, sentado está o homem. Deve tentar se misturar aos demais quando não está em seu palco-rua, ninguém pode ser a estrela de todos os shows. Mas suas faces permanecem coloridas.

Abraçado está o casal. Ela esconde as faces entre as mãos, ele a abraça em braços retentores de universos. Ela chora copiosamente, ele leva consigo um semblante carregado. Parecem estar brigando, ou o terem feito há instantes, como fazem os casais. Ele a segura carinhosamente, a acalenta. É o pedido de desculpas na tarde de quem já pediu aplausos. No palco-rua, o mundo continua. Na maquiagem: um sorriso.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Capítulo 3 – Eterno Flerte (Somos Uma Aberração Sentimental)

Precisamos conversar. A todo o momento, sem parar, é o que mais precisamos. Precisamos um do outro, e não paramos nunca de falar. Sinto a constância da presença, me ajudando a sorrir, enternecendo essa alma. Criamos um universo próprio, onde o mundo gira ao nosso favor. Girassóis enfim estão naquela nossa mesa, onde paramos um dia para delirar.

O que somos é um eterno flerte, de eternos olhares cativantes. De compromisso controverso, cantado a ventos particulares. Na rotação de um sol particular, que gira parado, vejo toda essa beleza verter em flor, e todos esses raios em um brilho a esvanecer. As madrugadas não têm graça sem você. É estranho ser ausente mesmo com tanta presença.

Mas seria melhor apagar esse sol? Matar essas flores que giram em seu próprio caule? Seria melhor destruir essa coisa magnífica que cultivamos dentro de nossas cavernas? A dúvida destroça sentimentos, arrebenta vontades, lacera as intenções. Nos sentimos oprimidos pela vida, em nossa solidão compartilhada. E conversamos sobre isso, e sobre todas as outras coisas que precisamos conversar. É tudo tão singelo!

Mas não devemos deixar de assim ser, é injusto precisar perder. Eis que sentimento nenhum precisa ser recíproco. Digo que te quero bem, e isso basta. Ouço que bem me quer, e isso basta. Pois que assim deve ser, o querer por si só, o gostar suficiente, sem cobranças ou faltas. E nos queremos bem, nos autorizamos a gostar, nos entendemos em nossos gostares. Afinal, gostamos do que somos, e somos, e continuamos a ser, uma linda aberração sentimental.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Capítulo 2 - Encantadora

Todos aqueles aos quais é permitido uma vez verem a glória, devem ter consigo para todo o sempre de tal feito a lembrança. Por vezes a lembrança há de não ser suficiente, pois que se deseja mais, a manutenção da glória. Estou viciado na glória. Estou viciado em você.

Parada no tempo, a noite voltou a correr pouco depois. E que tempos foram aqueles? Tempos de auroras programadas em etilismo vinícola. Com o amanhecer daquela noite, com os primeiros raios de sol de tão brilhante estrela, com a primeira e mais magnífica aurora dos novos tempos, vieram tempos de uma luz encantadora.

Sou arqueólogo encontrado, em sítios anciãos, que relembram vidas perdidas há muito tempo. Vidas que deixaram marcas. E o que somos além das marcas que deixamos? Quero saber cada vez mais sobre essas pinturas rupestres, que nunca param de surpreender, estuda-las. E elas trazem sempre uma peculiaridade nova e ainda mais encantadora.

Poesia, astronomia, filosofia, tudo é muito apaixonante. E o que fazemos dessas coisas, ainda conversamos com estrelas, sejam elas solitárias ou não. Ainda escrevemos e reescrevemos, sejam esses escritos para o mundo ou não. Ainda discutimos rumos e progressos, planejamentos e projetos inacabados. De maneira sempre encantadora.

Sois a mais linda das Asteraceae. Semeado. Colhidos. Encantadora.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Capítulo 1 - Uma Noite que Parou o Tempo

Era uma noite trágica que engolia a si mesma, de forma autófaga, com ventos quentes amplificando o barulho cálido da juventude frenética. Jovens passavam com seus copos insanos, embebidos nesse néctar que tem o poder de distorcer a consciência e a realidade, que nos faz mais fortes e mais fracos do que geralmente somos. O ar estava quente, a noite estava quente, os jovens estavam quentes, o mundo estava frio.

Nunca sabemos o que nos espera após a curva de cada esquina, após a virada de cada ponteiro do relógio, após as cercas de metal de cada bar. Vagando por sítios arqueológicos anciãos, procurando lindas pinturas rupestres servindo como um rudimentar design de interior para gélidas paredes de pedra. Observando o infinito além da escuridão alimentada pelo excesso de luzes no chão, procurando por lindas formações que permeiam os grandes vazios universais há muito mais tempo que a nossa existência.

Assim, a noite tendia ao fim, como fazem as coisas lineares. Estava fraca e decrépita, frustrante é verdade. Jovens animados continuavam com seus copos cheios e vazios ao mesmo tempo, chacoalhando suas almas para lá e para cá, ao ritmo do emaranhado de vozes que emanava da coletividade em ressonância melodiosa. Um copo meio cheio ou meio vazio é sempre ambos.

Mas fevereiro é mesmo o mês mais lindo. Um caminhar interrompido, uma guinada inesperada, um chamado de uma força desconhecida qualquer; trazido das profundezas das menores partículas, que comandam com seus movimentos os futuros de todas as coisas. Sim, como se tudo estivesse assim pré-agendado. E ares de boteco uma vez mais, uma névoa que sobe, como vapor vindo de tanto calor das almas daqueles jovens. E aqui estamos, como que magnetizados, olhos nos olhos.

Parado em volta está o resto do mundo inteiro, com seu subitamente desinteressante caminhar. Surge um recipiente do nectarício distortor da realidade. E então a realidade se distorce de forma ainda mais intensa em esmeraldas magnéticas, de pinturas rupestres em lindas formações, que escrutinam as gélidas paredes de pedra dos vazios universais. Os pios das corujas estão suspensos no ar; o arrastar das criaturas caminhantes para; o vapor que subia está estático; a confluência dos rios está interrompida; os jovens todos estão subitamente inertes; tudo está calmo. Tudo está fixo nessa noite que parou o tempo.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A Joaninha

Ninguém pergunta aos céus o que acontece nas abafadas tardes de Curitiba. Só queremos saber dos dias chuvosos e tristes, padrão complementar do gosto dessa capital mais alta e mais fria (e, controversamente, mais europeia) do Brasil. Andamos por aí, com o sol nas cabeças, esperando que o tempo melhore, e, vez por outra, esse mesmo tempo deve ser o assunto que permeia o nosso contrato social e as amenidades das conversas.

Sendo assim, em veículos coletivos automotores, o tédio da viagem por vezes cria parcerias pouco conexas, e insípidas à primeira vista. Oras, pois que são os ônibus os melhores lugares para amar. Para que o amor seja eterno apenas durante aqueles quarenta e cinco minutos de viagem, do Pinheirinho ao Santa Cândida, do Centenário ao Campo Comprido, do Colombo ao CIC.

Duas figuras de avançada idade sentam-se lado a lado às minhas costas, com toda a carga e história do mundo às suas costas. Amenidades aqui e acolá, e “como pode esse tempo ser tão louco?”, para que venham assuntos mais complexos, mais bem desenvolvidos. E “oras, eu também fui militar”. Duas partes de uma mesma conversa, feminina e masculina, somadas suas idades, quem sabe?, quiçá um século e meio ou mais.

Uma joaninha pousa em meu cabelo. Um desses tantos animaizinhos praticamente insignificantes perante nossa auto proclamada magnitude e importância no universo. Vermes insolentes, mal sabem que cada joaninha é mais importante que a humanidade inteira. Dessas criaturinhas que entram em ônibus sem perceber e sem saber qual rumo tomaram, e para qual tipo de trás ficou a sua outrora casa, se é que disso eles precisam e têm.

A parte feminina da conversa se oferece para expulsá-la de meus cabelos. Lá se vai a joaninha com o vento, em busca de sua casa perdida. A conversa continua e desenrola, presto atenção furtivamente, roubando cada verbo e substantivo para o meu deleite particular. As palavras proferidas pela dupla anciã se alojam em minha mente, e me fazem acreditar em qualquer coisa de belo nesse mundo.

Os pneus do ônibus cingem os asfaltos do tempo. Estamos em 1960, 70, 80, passamos por décadas a fio nas ruas curitibanas, enquanto os idosos transportam suas histórias para o insensível 2014. Senhor e senhora parecem ter tanto em comum, mas... e não são assim todas as pessoas, explorados os pontos corretos? Não, de fato não são. Somos todos tão diferentes quanto dizem nossas íris e nossas digitais, e diriam nossas zebras se as tivéssemos. Não existem coincidências.

No fim todo tubo (íris, digital e zebra curitibana), se aproxima; e é disso que são feitos os ônibus nos asfaltos. Toda conversa tem um fim, pois que fim todas as coisas têm. No entanto, aqueles verbos e substantivos alojados em minha mente, vivem eternamente. Eterna mente. Todas as coisas que um dia existem, existem para sempre. Cada velhinho para um lado, a parte masculina antes, a feminina dois tubos depois.

Talvez nunca mais se encontrem nos ônibus, ou mesmo nas ruas, curitibanos. Mas oras, para quê mesmo deveriam? Esse encontro singular é mais do que suficiente para que todas as suas vidas tenham valido a pena, pelas histórias transportadas, e mesmo que lembrados unicamente através dessas palavras que cingem os asfaltos do tempo.

terça-feira, 4 de março de 2014

Pede Quem tem a Oferecer

Triste estava a Gralha cabisbaixa, azul e triste como sempre, em céus azuis de nuvens brancas. Um sujeito de olhar perdido aporta, encara cada passante e cada ficante, mas sem a coragem de verificar a profundeza dos olhos deles. É necessário um bom tanto de coragem para encarar olhares.

O homem balbucia, expressa um certo tipo de pânico levantando as sobrancelhas repetidamente, um pânico da vida, de tudo o que a vida teria a lhe oferecer, porém puxou as mãos na hora de entregar. É um comportamento típico, oferecer para depois negar, estender a mão apenas para puxar no momento em que esta será segura. E é assim que a vida faz com todos que ousam precisar da ajuda dela.

Quem estende as mãos é o homem, mãos em concha, de sedento no deserto implorando por água. Muitos passam, a Gralha continua seu voo, muitos recusam aquelas mãos. Todos recusam. Aporta então uma mulher, não uma dama distinta da sociedade, apenas distinta por exclusão, sem damices, dessas que as vidas e as mãos também recusam. Ambos levam muito em comum, criaturas da raça humana, dessas que precisam solicitar à vida, dessas que estendem as mãos em concha.

Ironicamente, em ato involuntário, o homem estende as mãos em concha para a mulher. Eles parecem não se entender a princípio, ele apenas balbucia sem sons, ela fala de maneira ininteligível, trocam espasmos sonoros por alguns segundos. Ela enfim puxa do bolso uma moeda de valor corrente, e a deposita em suas conchas. Ele sai contente pela primeira arrecadação do dia, e vinda logo de quem, de quem também tem pedires.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Crônicas de Uma Criatura de Vidro

Minha visão está embaciada. Por que essas almas dançam tanto? Água, é apenas água sobre os meus olhos vítreos. Formando gotículas de suor, que se juntam em gotas maiores, pesadas demais para resistirem à atração que segura todas as coisas. Elas escorrem formando rios em miniatura, umidificando levemente o solo que me rodeia. Esse solo que me rodeia e que nos permeia, é um solo elevado, é de madeira.

Estou tentando entender o motivo de estarem me alçando e me devolvendo ao solo continuamente, repetidamente. Um som ao fundo se distingue entre tantos murmúrios, entre tantas lamentações dessas distintas almas. Um som que é produzido por cordas.

Passam a mão continuamente sobre os meus olhos vítreos. Passo de mão em mão, sou alçado e devolvido. A água escorre um pouco mais, já quase consigo enxergar. O som continua e as almas dançam. O torpor alcoólico toma conta do ambiente, está impregnado ao próprio ar, o teto sua, as almas dançam.

É tudo tão belo. Quando me alçam, consigo enxergar mais longe, parece que o mundo acaba naquela sacada. Mas não, tem uma rua, não sei o que existe lá, só sei que quase não há mais água. Minha visão já não é mais embaciada, e vejo que as almas que dançam possuem corpos. Me pergunto se não seria o contrário: as almas que têm os corpos, ou os corpos que têm as almas?

As lamúrias são sons um pouco mais distintos, com menos água posso também ouvir melhor, o som se propaga mais facilmente através de meu corpo vítreo. As cordas ressoam no ar, nesse mesmo ar impregnado. Os corpos dançam e eu já não tenho mais água alguma escorrendo pelo meu corpo vítreo. Me sinto deveras mais leve.

Alçam-me uma última vez, e me devolvem vazio ao balcão do bar.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Hospitais

Lembro-me muito bem do dia em que saí de uma cirurgia normal (como se abrir uma pessoa e costurá-la depois pudesse ser algo muito normal), e, ainda grogue pela anestesia, fui colocado sobre uma daquelas frias camas de hospital. Um local de uma brancura alvejante e que me alvejava, me oprimia.

Era um pequeno quarto duplo, parecia ter sido um depósito há bem pouco tempo. Tinha duas camas, bem próximas uma à outra. Como eu só passaria a tarde ali, apenas precisava tomar um soro e comer uma gelatina sem gosto, fiquei na cama mais próxima da porta de entrada e saída. Interessante como uma única coisa pode ter duas funções tão opostas entre si, nos utilizamos do mesmo artefato tanto para entrar quanto para sair.

A enfermeira aparecia vez ou outra, era um hospital tranquilo, nada dos absurdismos das emergências, ninguém vertendo sangue por ter tomado um tiro no pâncreas. Na cama de meu companheiro de quarto, um sujeito acabado parecia moribundear. Estava aparentemente muito fraco, contorcido por supostas dores, enquanto a minha anestesia passava aos poucos, e eu voltava a sentir meu nariz enfaixado e coberto por ataduras.

As primeiras horas passaram sem grandes novidades, nem anjos e nem a safada da dona morte buscando ninguém. Eu começava a ficar ansioso pela aproximação do horário da minha alta, quando o sujeito acorda lentamente de seu sono arrebatador. Ele se senta na cama, com algumas dificuldades, mas sem titubear. Puxa assunto enquanto eu degluto a gelatina insossa.

Voltei para casa naquela noite preocupado com o tanto de pus que vazava do meu curativo. Nada de mais, apenas um fluído corporal indesejado. O sujeito ficara, tinha ainda uma longa recuperação. Sua cirurgia fora muito mais invasiva, ele estava lá pois havia doado parte de seu fígado a alguma pessoa da família, ou coisa parecida.

O branco, a gelatina, o soro. Tenham aberto o teu nariz, ou o teu abdômen, a situação não difere muito. Entramos e saímos pela mesma porta, e ainda há de algum dia voltar, no absurdismo da emergência ou na calmaria do leito. Bom, eu estava em casa, e o sujeito tinha um naco de fígado a menos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sobre Voltar

(ou There and Back Again)

Decisão nenhuma é pequena. Uma pequena pedra, atirada nas águas tranquilas de um lago, forma círculos concêntricos que se dispersam continuamente, e podem, dadas as devidas condições, eventualmente tornarem-se tsunamis. Dessa forma, como dito outrora, cada pequena decisão que tomamos em vida ecoa na eternidade.

Acho que, na real, as pessoas nunca voltam completamente quando se vão uma vez. Se voltam, não são mais as mesmas, pois a cada minuto, não são as pessoas mais as mesmas que eram e foram nos minutos anteriores. As coisas mudam, de fato mudam, deveras mudam. Assim são também as pessoas. Dispersar, desaparecer, reaparecer, voltar. Voltar e não ser igual. Voltar e por onde anda.

O que eu sei sobre o passado me diz mais sobre o futuro do que o que o futuro sabe do futuro. Lhes permito que joguem as cartas. O passado sabe do sagrado e do profano porque os viu acontecer. Nem o futuro sabe do futuro. Como você está se sentindo? As pessoas perdem a todo momento as oportunidades de ter e de ser muita coisa grande, perdem a glória por simples medo de arriscar perder o que é medíocre.

Então é assim que as coisas voltam. As pessoas voltam, e elas decidem voltar, não é o futuro que decide por elas. Acredita-se em destino. Dizem por aí que ele de fato existe, que há comprovação científica. Aquela história de prever os movimentos das partículas e saber onde elas estarão. Somos todos partículas gigantes. Totalículas.

Mas voltando, é aqui que elas estão. Sendo as mesmas ou não. Cada pequena decisão que tomamos em vida ecoa na eternidade. Como você está se sentindo? Dizem-me as cartas que está tudo bem. Oras, basta olhar em volta para ver que está tudo bem, porque afinal as pessoas voltam.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Foxy Lady

You know you are a cute little heart breaker. Saltitando pela sala de madeira improvisada, ocupando os espaços entre frestas, entre farpas. Com um cheiro de madeira nova que sobe ao ar, e a observação do seu olhar descobridor vagando austero entre mesas.

I won't do you no harm. Se aproxima de tantos quantos, e direciona uma ou outra pergunta um tanto detalhista. Conquistando as respostas por mero merecimento. Mérito incontestável de uma busca incondicional, de fatores tão distintos. O recinto todo gira. Gira em torno de seus maxilares desconexos, que assim mesmo balbuciam verbetes decididos.

You make me wanna get up and-a scream. Mas eu me comporto como antes, nada muda. Em meio à multidão de almas inquietas, em estado de espera. Em estado de aguardo. E eu a guardo entre memórias em espera. A vivência nada física de um concreto tão abstrato.

Foxy. Foxy. Saltitando pela sala de madeira improvisada.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Crônicas de uma Gata Solitária

As coisas tinham muito mais cor quando Dorothy estava no mundo mágico de Oz. Lá, os tornados levavam as pessoas para viagens mágicas por mundos de criaturas que se preocupam com o que os outros sentem ou deixam de sentir. Por mundos onde as escolhas que fazemos geralmente nos levam a caminhos gloriosos, de estradas também coloridas, de destinos fantásticos.

Mas Dorothy voltou de Oz, acordou para um mundo cruel e sem tantas cores, em tons de cinza, onde a poeira se acumula e não faz questão nunca de dispersar. As coisas mantém seus lugares como previamente determinados, em instâncias das quais nem mesmo elas lembram.

Agora, Dorothy está sentada diante da porta. Observa o mundo lá fora, analisa as luzes e sombras que bailam sob o vento, farfalhando folhas que ela não vê, pois que vê apenas os movimentos das sombras projetadas no chão de concreto duro e frio. Ela avalia os perigos desse mundo cinza, e as lembranças do mundo colorido, e decide permanecer. A inércia age sobre Dorothy, e ela apenas observa...

Pois Dorothy espera o retorno do Homem de Lata, do Espantalho e do Leão Covarde. Ela grita por todos os cantos, clama pela presença deles. Procura, sente suas presenças, e sente ainda mais suas ausências. Dorothy dorme, e durante o sono a memória não martiriza. As lembranças de mundos coloridos não aparecem para ela, a não ser em sonhos conturbados, os quais ela felizmente se esquece quando de olhos abertos.

Então Dorothy fica lá, por vezes sozinha, por vezes na dela, por vezes gritando sua dor para o mundo. Observando e esperando, quem sabe, pelo tornado que virá tirá-la novamente desse mundo sem sal, sem cores, e trazer de volta as saudades de um mundo mágico de cores e criaturas fantásticas.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Fumaça

Nunca precisei conversar com ela. Ficava lá açoitando a noite com sua alma, no meio da fumaça que pairava no ar rejeitando as ordens de "deixem o recinto", e vejam bem: não demora muito para que venha a aurora.

Me pediram para escrever uma crônica, creio que todos os escreveres são crônicas, pois que escrever é uma doença crônica. Já fiz poesias com essa palavra, poesias de amor, hoje a rejeito e a amo ao mesmo tempo, e assim o é com todas as palavras para quem as usa por demais. No fim, o que escrevi não era crônica, talvez fosse algo mais.

Naqueles olhos escondidos, abaixo de uma franja desconexa, profundos e ainda assim desérticos. Como um oásis ao contrário, uma ilha de absoluto nada em meio à bela e controversa totalidade do mundo exterior. São apenas observações distantes, de um olhar que nunca chega a perfurar.

Nunca mesmo cheguei a conversar com ela. Mas acho até que esse tipo de coisa nem mesmo é necessário, um oásis misterioso é sempre mais belo. As palavras nunca são suficientes, e não sabem mesmo como ser utilizadas. A fumaça desce, começa a rastejar pelo chão sujo, atinge os buracos por onde os ratos costumam carregar suas presas, sejam elas vegetais ou animais. Atinge os becos e os cantos escuros e obscuros. Atinge cada centímetro quadrado de tudo ou de nada. Atinge os olhos profundos e desérticos.

Isso não é, então, uma crônica, e não é sobre ela. Até porque ela nem mesmo existe mais, em sua imperfeição de fumaça. Não é, então, uma escolha que se faça, apesar de que pode haver uma não-escolha, que se obrigue a fazer. É apenas um escrever como tantos escreveres, profundo ou desconexo.