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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Barulho do Tempo

Há uma evidente contradição na própria essência existencial do universo: em si, todas as coisas são finitas. Contudo, a matéria da qual todas as coisas são constituídas é eterna e se recicla infinitamente. Tudo acaba, e, no entanto, tudo é também eterno.

Constantemente, tenho ouvido o barulho do tempo passando. É um som desconfortável, quase irritante. Um ruído partindo pro baixo, quase grave. Inconstante, não segue qualquer padrão identificável. É um barulho pois não é um som agradável, não é música o que faz o tempo.

A óbvia conclusão de se ouvir o barulho do tempo passando é entender que o tempo possui corpo físico. Oras, pois que só gera ruído aquilo que é capaz de vibrar. Logo, é também uma dimensão mensurável, e o melhor: palpável.

Dizem por aí que somos feitos do que as estrelas são feitas, que somos poeira estelar. Oras, somos feitos de algo menos, pois não somos capazes de compreender as estrelas. Mas todo mundo sabe que um dia voltaremos a ser elas. E que elas são vivas também, criaturas evoluídas, que talvez algum dia tenham sido mesmo nós. Creio que elas sejam capazes de compreender o tempo, de ouvir seu barulho como música.

Já gastei muita rua por aí. Cortei muito chão. Tenho fome de mundo. Já vi algumas coisas. Tenho fome de tudo. Eu quero ser vocês. Quero ser eterno e ainda assim acabar. Quero ver, e ouvir, o tempo passar; permeado pela sabedoria das coisas que são há muito tempo, que já percebem a beleza da sinfonia dos hojes. Quero segurar o tempo e apreciar a sua melodia, sendo infinitamente finito.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Cada Marinheiro tem seu Próprio Ritual

Eu não sei como conduzir este texto. Seria fácil fazer um resumo da semana vivida na estrada recentemente utilizando apenas palavras-chave como: sapo, trem, quatro elementos, anão, butuca, piscina, acampamento, jaguatirica, areia, sol, trilha, caminhada, mochila, guia, camarão, rio, etc., e assim por diante. Fico pensando em como cada decisão textual empregada aqui pode mudar o rumo das coisas, a compreensão e o impacto dessas histórias.

Diversas teorias discordam sobre como funcionaria a viagem no tempo, se é que ela funcionaria. Mesmo assim, em um aspecto parece haver uma certa concordância, que é no principal problema que seria ocasionado pela possibilidade de se transitar pelo tempo: os ripples.

Ripples são ondulações, aquelas ondinhas causadas em uma superfície líquida pelo impacto de uma pedra ou pelo movimento de um animal. Em viagem no tempo, ripples são as consequências geradas por uma alteração no fluxo temporal. Um fator, por menor que seja, pode causar mudanças gigantescas no futuro. É a história do bater de asas da borboleta, do ônibus que você perdeu porque derramou café na própria camisa e precisou trocar, da decisão tomada em uma bifurcação.

Todas as nossas atitudes geram consequências em todos os prazos. E consequências que geram consequências. Assim, sempre nos perguntamos o que teria acontecido se o caminho fosse diferente. Eu já quis ser marinheiro. Provavelmente ainda quero. Aquilo de me ver cercado por quatro horizontes líquidos, sem terra, sem porto seguro para onde se olhe. Não sei como seria hoje a minha vida se marinheiro eu fosse, não sei em quais litorais eu estaria.

Fato é que ninguém pode compreender melhor as histórias do que quem as viveu. O ritual deste marinheiro para produzir este texto é diferente do ritual deste marinheiro para pegar a estrada, assim como para viver. Cada um dobra as meias como lhe convém, estende a toalha ao sol como lhe cabe, limpa os pés da areia como lhe interessa.

Lá, vimos ripples para onde olhássemos. Nesses pequenos rituais diários. Veremos ripples ainda como consequências daqueles dias, de como aquilo mudou quem esteve lá. Gostaria de poder exprimir tudo que senti na virada de ano, nesse grande ritual coletivo, naquele momento incrível daquela semana incrível vivido e proporcionado por pessoas incríveis, mas não sou capaz por meio desses rituais ou de qualquer outro.

Essas águas irão nos acompanhar até o fim de nossa viagem, ouvimos isso logo no começo dela. E nos acompanharam mesmo, tanto que no fim dessa viagem, oferendei meu chapéu a Poseidon. Espero que ele aceite, espero que ele goste de chapéus.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Auto-Consciência do Tempo

Toda criatura constituída em três dimensões possui uma auto-consciência espacial. Mesmo os seres unicelulares mais simples são capazes de compreender o seu próprio tamanho e saber da sua localização. Todo ser vivo sabe que existe por se colocar em um espaço. Um animal sabe onde termina o seu próprio corpo e começa o próximo. No toque, no equilíbrio, no tato. A pele que roça, o chão e o céu em seus respectivos lugares. A dor ao entrar em contato com algo pontiagudo, quente ou frio demais, lacerante.

Todo ser vivo que existe e já existiu nesse planeta, e se locomove de algum jeito, sabe onde está e para onde precisa ir. Distância, tamanho, largura, profundidade. Conceitos relativos para cada criatura, perspectivas diferentes, mas conhecimentos essenciais para o funcionamento da vida. A auto-consciência espacial faz parte de todos os seres vivos.

Contudo, há uma outra auto-consciência, relativa à quarta dimensão, que apenas os seres humanos visualizam em sua abordagem com relação ao mundo. Trata-se da auto-consciência temporal. Não falamos de espaço-tempo, que é um outro conceito, utilizado em perspectivas maiores. Falamos do tempo como unidade básica, com suas próprias dimensões: antes, agora e depois.

Naturalmente, podemos aplicar vários dos mesmos conceitos do espaço para o tempo, como distância, tamanho, e quando começa e termina um determinado momento. O tempo é também uma dimensão. Porém, o problema dessa auto-consciência, e a diferença entre as duas, é que é ela que gera uma espécie tão transtornada e complexada.

A culpa de não aproveitarmos o agora como deveríamos vem da nossa auto-consciência. A própria existência de conceitos como antes e depois nos prende invariavelmente a eles, prejudicando a nossa experiência com o agora. Há o lado bom, planejamos e executamos, a sociedade evolui e contabilizamos essa evolução. O lado ruim, no entanto, é muito mais evidente. Sofremos por um passado que para os outros animais não existe; e deixamos as coisas para um depois que nunca chegará.

Com isso, não aproveitamos o momento. Vivemos vidas vazias de agora, mas cheias de antes e depois. Fotografamos um acontecimento para que depois lembremos do passado. Há que se viver mais no âmbito do agora. É preciso deixar de lado essa auto-consciência temporal que permeia nossa espécie, pelo menos de vez em quando. Precisamos passar mais parte do nosso tempo vivendo de verdade esse tempo que estamos vivendo. Não o antes ou o depois, mas sim o agora. Porque é o agora que importa.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Sobre a Estética da Vida e da Morte que nos Aguarda

É natural que queiramos planejar o futuro. Somos a primeira espécie que possui capacidade de pensar o tempo de maneira analítica a povoar esse planeta. Aliás, inventamos o tempo, portanto somos capazes de pensá-lo como quisermos. Pensamos no passado e no futuro. Conjugamos malditos verbos. Quem liga para o subjuntivo do pretérito? Pensamos demais. É natural, mas isso não significa que é certo.

As pessoas da minha idade deveriam todas estar morrendo. Não se preocupando em acumular matéria física à sua volta, objetos que orbitem à sua massa irrelevante, para que quando finalmente morram, daqui a quatro ou cinco décadas, deixem tudo para que seus herdeiros deixem tudo para seus herdeiros. O que todos esquecem é que o ser humano não nasceu para viver. Nasceu para morrer. Rápido. Antes dos 30.

Gosto de passar minhas horas com quem me faz boa companhia. Um café da manhã antes do trabalho. Uma maluquice extrema pelas ruas na madrugada. Uma tarde de sábado na grama. Um almoço com cara de jantar em um domingo do contrário natimorto. Conversas que são apenas por serem, sem mais explicações. Coisas que passamos a apreciar melhor com a maturidade dos anos.

De uns anos para cá, tenho visto mais beleza nas coisas. Meu senso e padrão estético se tornaram menos rigorosos. Acho que é assim mesmo, a gente vai vivendo mais e as coisas vão ficando mais bonitas. A vida e as pessoas vão ficando mais bonitas. Outro dia, descobri que em uma das luas de Júpiter há mais água do que em toda a Terra. Quem poderia subestimar a superioridade daquele mundo ínfimo e infinito? Infinito porque nunca chegaremos a conhecê-lo. Nem em dez gerações.

É coisa de um ser humano que se aproxima de sua morte. Aproximar é um de nossos verbos que possui conjugação para as quatro dimensões hoje conhecidas. Podemos nos aproximar tanto no espaço quanto no tempo. Tornamo-nos próximos de nossas mortes, mesmo que ela já não chegue mais tão cedo. As pessoas da minha idade deveriam estar morrendo. Não se preocupando com a conta não paga; com o cachorro do vizinho; a chuva do final de semana; ou o senso estético dessa porcaria toda.

Tenho sentido falta de escrever. Tenho sentido falta de amar. O que posso fazer? São meus vícios. Não é possível viver sem eles. Continuamos nos movendo. É o óbvio. É o que precisamos fazer para não morrer qualquer dia com a cara na calçada enlameada pela chuva de início de uma noite de primavera. De toda maneira, parece que passamos mais tempo nos preocupando em não morrer do que em viver. Reitero: as pessoas da minha idade já deveriam estar todas mortas.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Sobre a Certeza

Há alguns dias a Lua me pediu um poema. Encomendou a poesia para usar em alguma serenata para seu amante em céus que não ouso caminhar. Me deu os temas, algumas palavras chaves, uma possibilidade de rima e métrica em que ela já estava pensando, e disse “agora te vira”.

Comecei a escrever, e o relógio me parou. Ou me parou o relógio. Meu relógio parou e eu parei, se assim ficar mais bem compreendido. As horas tornaram-se um vulto espesso e gigantesco, praticamente infinito, como uma fabulosa neblina que cobria absolutamente tudo. É certo que a neblina acontece quando o mundo está triste, mas esse não era um poema de tristeza, era apenas um truque do tempo.

Assim eu vi o tempo tomando forma, e ele só fazia isso com o objetivo de parar, de não mais correr. Em meio àquela névoa, percebi que o tempo parou, na verdade, por um objetivo maior: para que eu terminasse o poema que a Lua pediu. Mas o relógio só ficava parado na companhia da Lua, nos outros momentos o tempo se lançava vertiginosamente rumo ao futuro.

O ar me ia faltando, as pernas me iam tremendo. Sentíamos falta mutuamente: eu e o ar. O ar não serve para nada se não houver quem o respire, ou ao menos quem use asas para nele pairar. Haveria um mundo se não houvesse ninguém para presenciar a existência do mundo? O mesmo vale para as horas.

A Lua começou a me apressar, queria logo o poema pronto. Oras, todos temos compromissos, não compreende? Oras, temos compromissos com as horas. Nova, crescente, cheia, e minguante: fases também de nossas vidas. E como outrora dito: tudo minguará.

Mas então percebi que se eu nunca terminar o poema, talvez o relógio possa ficar mais vezes parado em companhia da Lua. Mais tempos para que o tempo seja eterno e me falte o ar. E mais oportunidades para poemizar.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Tempo

O universo tem uma maneira curiosíssima de lidar com as coisas, pelo menos até o ponto em que podemos interpretá-lo. Somos criaturas de quatro dimensões, sendo uma delas impalpável, nossa capacidade de entender o que cerca nosso planetinha é limitada demais.

Sabe-se que não é possível calcular com exatidão tanto a velocidade quanto a posição de uma partícula ao mesmo tempo, só podemos ter um desses dados, a leitura de um compromete a própria existência do outro. Se algum dia o ser humano for capaz de saber com precisão velocidade e posição de uma partícula ao mesmo tempo, e eventualmente estender essa capacidade a aglomerados de partículas, seremos capazes de prever o futuro, pois com esses dois simples dados é possível prever exatamente onde essa partícula, ou aglomerado de partículas, estará em qualquer momento vindouro.

Se o aglomerado de partículas for todo o universo, e o ser humano conseguir algum dia calcular isso, poderemos saber com precisão todo o futuro de todo o universo. Assim, essa é uma teoria física que, de certa forma, prevê a existência do destino. Ao sermos capazes de saber onde as partículas estarão, poderemos ser capazes de alterar seus cursos, mas essas alterações são praticadas por partículas, pois que afinal somos amontoados de partículas também. E dessa forma, mesmo essas alterações poderiam ser previstas.

Nossas decisões mais independentes, praticadas no interior de nossas sinapses cerebrais, não são mais do que trocas de informações entre partículas, que, segundo essa teoria, podem ser previstas também. O livre-arbítrio é nada mais que conexão de partículas, e pode ser predito.

O tempo passa. E ainda não podemos prevê-lo, não podemos brincar com ele, alterá-lo. Nada disso é real, amontoados de partículas também. O destino pode nos fazer receber visitas, e escrever poemas épicos que ele já sabia que escreveríamos. Todos nossos amores, ódios, amigos e inimigos, todas as vezes que você já pisou no cocô do cachorro na calçada da frente de casa até hoje, tudo isso, passa como o tempo. E fica para trás. Como uma caixa escondida no fundo do sótão, que você não consegue alcançar, por mais que tente.

E podemos dizer que nossos sentimentos são as únicas coisas que nos conectam aos tempos em que não estamos. A lembrança de algo é a existência daquilo que está no passado e não existe mais. Mas ali naquelas partículas transitando no cérebro, aquilo ainda existe. E viaja no tempo.

Me sinto como a velha árvore que se curva sob a força do vento. Me sinto como aquela caixa do fundo do sótão, nunca alcançada. Ando pelas ruas desertas de madrugada, e me sinto como a lâmpada do poste, que há anos observa a noite consciente de que existe para iluminar o caminho de ninguém. O tempo continua passando, e o cansaço vem chegando. Já não sou mais o mesmo, e ainda não é possível prever aonde está indo o amontoado de partículas que sou.

Se for algum dia possível prever o futuro de todas as partículas, seremos capazes de prever também os desígnios do coração. Não das sístoles e das diástoles, isso é fácil. Mas sim das intenções obscuras do coração, das explosões de oxitocina e dopamina. Será possível prever o amor, a forma de agir do coração apaixonado.

E nem A nem B nem C têm culpa. Aparentemente, a culpa é das partículas. A culpa é do tempo, que corre e movimenta cada partícula. Que gera transmissões cerebrais, e explosões hormonais, e nossas ações e inações, e os amores e desamores.

Mas essa teoria pode estar completamente errada. Podemos nunca ser capazes de prever nada, porque talvez não haja o que prever. Talvez, e só talvez, as sinapses sejam mesmo livres. E nossos amores também surjam sem estarem pré-programados para acontecer. Talvez o tempo e o destino não façam com que as coisas sejam da forma como eles querem, mas apenas deem as cartas, e jogamos com essas cartas como queremos e podemos.

Talvez o universo tenha mesmo essa maneira curiosa de lidar com as coisas. E talvez isso aconteça porque ele também se surpreende com o inusitado, com o que ele não imaginava que aconteceria, e ache isso engraçado. Todas essas memórias. Todos esses amores. Todos esses amontoados livres de partículas. Eu prefiro que seja assim.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sobre Ser Lembrado (ou não ser esquecido)

Ou ainda: Ensaio Sobre a Memória

Atravesso a vau as grandes correntezas da memória, que se esvaem em imensos rios correndo para os oceanos do tempo. O destino é uma página amassada. Armazeno em minhas masmorras muitas mais lembranças do que deveria, ou gostaria. Tudo que fica para trás de nós, em algum lugar fica guardado, e dizem não ser possível voltar no tempo. A memória é a melhor máquina do tempo.

Certa feita, a minha caverna com as pinturas rupestres me revelou ter o medo de partir da existência sem deixar nada, sem ter realizado grandes feitos. Oras, isso é impossível, a própria existência por si é um feito grandioso. Um feito que invariavelmente deixa marcas indeléveis por onde passa, pois que ao tocar em uma outra existência qualquer, dela fazemos parte para sempre. Ensina um dia algo a alguém, e mesmo que pereça sua existência, enquanto aquele alguém existir, e ensinar o seu algo a outra alguém, ou simplesmente o mantiver, lá estará você. Em aprender a recíproca é verdadeira.

Imaginem que lindo seria poder acessar absolutamente todas as memórias da humanidade. Tudo o que cada criatura já viu ou sonhou e, inconscientemente, achou por bem armazenar em seu incomparável arquivo interno. Poderíamos lembrar de tudo o que já aconteceu, de todos os que foram esquecidos, de todos os que nunca são lembrados.

E são coisas como essa as que fazem a vida ter um pouquinho mais de sentido. Talvez seja esse meu único real objetivo na vida (e na morte); mais do que a rua, a selvageria, ou o caos. Não é sobre ter nomes em placas, de forma alguma, que isso fique reservado aos engenheiros da história. Apenas ficar bem acomodado em algumas masmorras já me dá por satisfeito. Receber e entregar cartas. Convites. Fazer parte dessas listas que circulam por aí.

E mesmo depois que corra muito tempo, continuar nessas masmorras. Mesmo que lá no cantinho, como um objeto de decoração velho e desbotado. Mas nunca esquecido. Maior do que a vida e a morte, a memória vence o tempo. Faz com que o que fazemos em vida ecoe na eternidade, como dito outrora. E faz com que tudo o que já foi, continue sendo, mesmo que todas as leis da vida não o permitam. Não ser esquecido é diferente de ser lembrado.

A maior grandiosidade (toda grandiosidade é maior que as pequenezas, mas algumas grandiosidades são maiores que as outras); a maior de todas acontece quando em comunhão entre a memória, as marcas, o tempo, e tanto mais; quando não somos esquecidos. Mas há muito ainda a se dizer, pois que há ainda muito a se lembrar.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sobre Fazer Novamente Tudo Aquilo que já Fizemos Uma Vez

A Teoria do Universo Inflacionário seria uma ótima pedida se estivéssemos levemente preocupados com a física quântica no momento em que os nossos universos descem às suas próprias ruínas. E enquanto cavalgamos em direção à essa auto-proclamada ruína, percebemos que estamos fazendo novamente tudo aquilo que já fizemos um dia.

O tempo teria um fim, mas não que ele acabasse, seria talvez o limite dele, o momento em que ele grita para os seus próprios labirintos: "Chega! Já deu, já basta!". E então ele voltaria atrás, por todo o trajeto recém concluído, da mesma forma como veio, rastejando, lurking por todos os caminhos, despretensiosos ou não, já feitos algum dia. Até aquilo que outrora havia sido o seu começo, para então iniciar novamente o mesmo ciclo.

Sem diferença nenhuma seriam trilhadas essas estradas. Os mesmos paralelepípedos, o mesmo calçamento de petit-pavé empoeirado, as mesmas faixadas de prédios antigos que brilham sem ter luz, os mesmos bêbados mal-agasalhados. E então seriam repetidos os mesmo erros, do mesmo formato e tamanho, na  mesma proporção. Pois que quem erra uma vez, erra sempre.

Trilhamos a rua e a noite, cavalgamos em direção à ruína num mundo sem aurora. E atingimos ela antes daquele coalho de berinjela. Fumaça, névoa, gases e neblina compunham o ambiente. Hora de retomar antigas antíteses, falar do que nos convém. A rua continua aqui, tanto tempo depois, da mesma forma. Oras, pois se essas personagens continuam elas também as mesmas. O tempo não muda nada no fim das contas.

Aqueles rostos conhecidos fustigavam a fumaça com suas almas, exalando temores contidos. Aqueles rostos que já planejaram ser personagens de fato, e, oras, pois serão, sim, serão personagens de suas próprias histórias, e daquelas que devemos, que temos a obrigação de contar. Não porque alguém disse que temos, mas algumas missões nunca precisaram ser passadas. Se bem que estamos mesmo acostumados a aceitar apenas aquilo que acreditamos que merecemos, seja assim tanto quanto se fala de amor.

Pois então que escrevamos pela metade. Oras, não se erra por inteiro mesmo. E nenhuma ruína é completa. A fumaça então como personagem, lurking entre as pessoas: lá estava ela açoitando a noite com sua alma, no meio da fumaça que pairava no ar rejeitando as ordens de "deixem o recinto", e vejam bem, logo vem a aurora. Mas esse deve ser o começo da próxima história.

sábado, 9 de março de 2013

Prédios

Abriu a janela lentamente. Dezessete andares de queda livre o observavam de baixo para cima, tal qual o maldito abismo de Nietzsche. Mas o abismo nunca olha de volta porque você olhou primeiro, ele na verdade não se importa minimamente com quem olha ou deixa de olhar pra ele. A visão que tinha diante de si estava, além de tudo, presa às leis de Newton, ela caía, sentia a gravidade. A gravidade que nos prende ao que nos importa, que deixa perto de nós todas as coisas. Mas é ela também que torna aquele abismo de tão intenso. É Isaac Newton que faz com que Friedrich Nietzsche seja tão perigoso... 

Adorava janelas. Tinha uma leve queda por prédios. Janelas são o ápice da liberdade, por onde todas as coisas podem passar, entrar e sair, sem condições ou obrigações, por onde voam aqueles que estão presos ao céu. Ficou observando por longas horas, mas que pareceram minutos, tinha de lá uma bela vista, que começava no céu e descia à cidade, atingindo o chão. 

E é no chão que está a base de todas as coisas, mesmo tudo o que voa esteve um dia no chão quando nascido. Tudo o que está preso ao céu, está também fatalmente e primeiramente preso ao chão. Lá estão as estruturas que permitem a existência desses dezessete andares, é novamente o céu preso ao chão. 

Afastou-se lentamente da janela, mas a manteve aberta, deixando passar por aquele retângulo toda a liberdade existente. Sentou-se no chão do apartamento, um chão construído no próprio céu, por aquelas mesmas bases. 

Pegou um bloco de liberdade na mão e o depôs sobre outro, começou então a preparar uma pilha de liberdades. O céu continuava passando pela janela lá fora, e no céu o tempo deve passar mais devagar. Pássaros são os principais e mais belos viajantes no tempo que existem. 

A pilha de blocos estava cada vez maior, então ele puxou o bloco que sustentava a base, e deixou que todas aquelas liberdades caíssem. Elas desmoronavam uma a uma, ocupando os espaços que lhes cabiam em sua nova configuração existencial. Desciam em câmera lenta, não, lentamente mesmo, mais devagar do que a gravidade as puxava, mais devagar que o próprio tempo, mesmo no céu. 

Pois então caindo, ele assim poderia diminuir a velocidade do tempo... Ao menos era o que parecia. Voltou a se encaminhar para a janela, observar mais um pouco. Percebeu então que construíra e destruíra suas próprias liberdades, e que podia agora construir e destruir o seu próprio tempo. Dezessete andares. Quão devagar passaria o tempo ao longo de dezessete andares? Juntou novamente suas liberdades. Janelas são, reafirmamos, o ápice da liberdade. 

Era um mundo intenso aquele. Vivia regurgitando vidas. Usava blocos para tudo, eram dezessete andares de blocos. Entre os espaços ocupados do mundo, permeava-se o vazio de solidão. E sabe-se que há muito mais espaço vazio do que ocupado no universo. Ou talvez os espaços vazios estejam de fato ocupados de vazio, pois um buraco está sempre cheio de vazio. De qualquer forma, era muita solidão. 

Por isso, ele construía o seu próprio mundo, se utilizando daqueles blocos, das liberdades, do seu tempo, um mundo de fantasias, mas que eram por muitas vezes mais reais do que a realidade em si. Mas ele olhava pela janela, observava o céu, e via o seu próprio tempo passar. Pelo seu mundo. 

Uma ave então passou zunindo, bem próxima, cruzando o tempo. Uma fantasia ela também, uma solidão, um espectro alado de solidão viajando no tempo. Pulou. Dezessete andares, e que passaram muito lentamente. Teve tempo de observar cada centímetro e cada segundo da queda, o tempo passava bem devagar. Visualizou todo o mundo que havia construído, as bases, e vivenciou todo o espaço vazio de solidão que existia no universo daquela queda. 

Então, em determinado momento da lenta queda, o tempo parou, e assim a queda também. Ficou estático em pleno ar por um mísero instante, e, logo depois, viajou no tempo. Passou por uma espécie de vista virtual de si mesmo, teve uma projeção astral e se viu viajando no tempo. Subindo novamente, dezessete andares de ascenção dessa vez. 

Viajar no tempo é um mundo de fantasias também, de solidão e de liberdade. Viaja-se sozinho, mas é a melhor viagem possível. Destrói-se blocos, e os reconstrói de outra forma. Passa-se sozinho por todas as eras, por todas as coisas, sem a companhia nem mesmo do mundo real. Viaja-se de fantasia. 

Parou novamente na janela. E novamente pulou. Dessa vez, sem viagens no tempo.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Crônica Matogrossense


Aproveita-se o céu como possível, não que sejam asas aqueles que chamam flaps, as asas nem mesmo batem, e designa-se em inglês um nome que nem sequer caracteriza o etéreo sonho de voar, wings não seria mais nem menos apropriado, visto que é mecânico, não se necessitam penas, mas sim parafusos.

Mania essa de imitar a natureza, aclamada simetria e perfeição, nada mais natural que não ser natural, até os cheiros e gostos são sintéticos, não que a batida de amendoim não seja feita com amendoim, mas que atrativos carregaria ela sem os corantes e aromatizantes artificiais com nomes de compostos químicos.

Em meio à selva amazônica produzimos água artificial, com o intuito de encher ainda mais a cheia dos rios, e artificial aqui é o depósito, não o depositado, mas tudo o que é artificial é feito de coisas naturais, até mesmo pessoa, barragem, usina e energia.

Como surge um provérbio, interrogação, talvez uma coisa só visto a vida que todas as coisas, naturais ou não, carregam, e voam com o vento, sem bater asas, a própria vida assim o faz, talvez um neologismo recorrente, ou uma frase qualquer pronunciada a esmo e propagada a mesmo, quase sem querer, relógio atrasado não adianta, e gatos são autolimpantes, tais quais os fogões modernos, lamberiam eles seus pêlos internos, imitações da natureza, interrogação.

Tendéu.

O Lopes diria ou faria qualquer coisa sobre qualquer assunto ou situação, e quem será Lopes se não a figura mais mitológica do tempo mais moderno, fumando pó de serra, visto que o fogo pega mais rápido, açudealagamentoigarapé, ou o nome que se dê, pois o nome é só o signo a designar o físico, ou o abstrato mesmo, Lopes poderia se chamar Flaps, e os flaps serem conhecidos como lopes, um bom português.

Rodamos tampas como há vinte anos fazíamos nas madrugadas, visitamos os pampas, que aqui não se chamam pampas, desígnio geográfico, geológico, ou regionalista, terras matogrossenses, com quantos 'esses' lhe for possível pronunciar, Teles Pires, e um pôr-do-sol com quanta chuva as nuvens podem carregar.

Andorinha toma banho nas nuvens, seriam essas as mesmas nuvens do sul, apenas compostos hidrostáticos, todas as nuvens são a mesma e uma só, essa maldita mania de conturbação, e um dilema prosaico ainda permanente, águas tranquilas ou turbulentas, com quantos relâmpagos lhe forem necessários, sempre preferi raios aos não-raios, e mares e marés aos rios e cheias, afamados dez anos a mil.

Tendéu.

Uma folha desce, sobe, com a corrente, desce rio abaixo, sobe norte acima, rumo ao que um dia será amazonas, semi-oceano, a folha desgarrada de seu galho ainda carrega a vida de que todas as coisas naturais são providas, o que é uma folha na correnteza se não um objeto a esmo e a mesmo sem vontade, mesmo que sua vontade primêva tenha sido se lançar ao rio.

Assim, na correnteza dos anos, aquele nomeado e conhecido por Piazon me conta sobre como conheceu Curityba, mas qual Coritiba teria ele visitado, me ensina a andar por Core-Etuba e chegar à casa de sua prole, e quem vai aproveitando o céu volta sobre rodas, visto que quase explodiu sua cabeça, a ele reservemos a pinguinha do não-aeroporto, pois que as coisas com mais frequência são não do que sim.

As cidades eram pequenas, e os mundos imensos, hoje os mundos são pequenos, imensas são as cidades, os tempos devem ser vividos por aqueles que vivem seus tempos, antes agora e depois, viver os tempos alheios não salva ninguém, mesmo ficando eu volto, um saudosista realizado, aproveitar o céu uma vez mais, viver pra sempre mesmo morrendo, presente embora ausente, pois que a presença ou a vivência só podem ser físicas e abstratas, tais quais seus nomes.

Tendéu.

Você não tem medo de morrer, interrogação, não, eu tenho medo de não viver, exclamação, sessenta e três anos a seis mil e trezentos, e Pedro e Euthália vivem, assim, batendo asas, naturalmente, neologisticamente, mitologicamente, na correnteza, sim e não, tendéu, enfim e pra sempre, ou mais, muito mais.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Go Back


Um dia o tempo parou, e então deixou de ser dia, já que dia nada mais é do que uma forma de mensurar o tempo, logo sem tempo sem dia, tudo ficou estático e as coisas deixaram de ser e de acontecer. Ninguém previu aquele momento chegando, pois o tempo nem mesmo começou a passar mais devagar, ele simplesmente parou de uma hora para a outra. Porém as pessoas sentiram aquilo, tinham consciência, sabiam que havia algo de errado, afinal como consequência imediata a Terra parou de girar! Os animais e tudo o mais que vivia também tinham consciência, ainda tinham uma espécie de livre arbítrio, podiam se mover e fazer o que quisessem, mas durante todos os instantes em que o tempo ficou parado todas as coisas animadas que se arriscaram a interagir com algumas determinadas coisas inanimadas, tocando-as ou coisa parecida, simplesmente desapareceram sem deixar vestígios, assim como os objetos interagidos. Explodiram em energia. Encontraram sua antimatéria.

Depois de vários instantes, que ninguém nunca soube dizer se duraram alguns segundos ou uma centena de séculos no que seriam as antigas contagens, o tempo voltou a correr, porém para trás. O tempo estava voltando. Claro que esses antes de parar foram os últimos tempos, afinal se alguém chega até o fim de uma viagem e começa a voltar, os últimos passos de sua viagem foram dados naquele ponto mais distante em que esteve. Teorias borbulhavam, claro que muita gente explodiu, mas alguns dos cientistas que sobreviveram tentavam explicar, era alguma tramoia do universo, taxa crítica de expansão, big crush, fim dos tempos, whatever. A razão da velocidade relativa a qual o tempo estava voltando era a mesma de quando ele ia para a frente, a Terra demorava 23 horas, 56 minutos e aqueles segundos lá para dar um reverse rotation completo.

O que importa é que ninguém queria saber de teorias, queriam explicações. Como previamente informado, as coisas vivas não foram diretamente afetadas, as árvores ainda cresciam e ninguém nunca morreu antes de nascer, mas a vida se tornou algo entre estranhíssima e inviável, afinal as coisas antes feitas se desfaziam, e as coisas antes desfeitas se refaziam. Muitos alimentos precisaram deixar de ser comidos, eram direta ou indiretamente coisas vivas também, ou que pelo menos um dia haviam experimentado a vida, mas ninguém nunca soube explicar porque só alguns explodiam os estômagos alheios. Adaptabilidade? Evolução das espécies?

A medicina não podia fazer muita coisa, nenhum médico se arriscava a bisturizear alguém, pois o objeto poderia derreter-se subitamente em suas mãos e voltar a ser matéria-prima. Nenhuma chapa de X-Ray foi tirada outra vez, pois as ondas faziam aleatoriamente o caminho contrário, em direção à máquina. Claro que ossos quebrados se recompunham, mas à mesma razão que antes, à razão que o corpo vivo conseguia suportar sem pinos derretendo em seu interior. Aliás todos que algum dia tiveram algo handmade substituindo qualquer coisa de natural, ou tornando algo supra natural, sentiram seus corpos queimando e incrementaram as estatísticas. Nada mais se decompôs, os vivos agentes decompositores ainda se alimentavam, mas os corpos mortos se recompunham.

Quando uma coisa viva nascia, e pela primeira vez respirava, sentia um ar mais limpo a cada segundo, as partículas de sujeira e poluição voltavam às chaminés, se refaziam ao fogo que queimava para trás, se refaziam em matéria sólida. Nenhum veículo automotor voltou a funcionar, nem mesmo os movidos a biodiesel, pois o bio do diesel já era tão sintético naqueles últimos tempos que deixava de ser bio. Se algum carro era ligado a energia desvirava fumaça, o combustível desvirava energia e voltava pro tanque, nada rodava.

As culturas se desescreviam, se despintavam, se desesculpiam, se desfilmavam, à mesma razão que eram antes criadas agora se descriavam. Ao princípio foram as contemporâneas, depois as modernistas, romancistas, e assim inversamente proporcionalmente cronologicamente por diante. As pessoas ainda aprendiam, mas o que havia para ser aprendido minguava, alguns séculos antes só sobrou a Byblos para ser lida. Os linguistas se viam envoltos em névoa, como afinal poderiam conjugar seus queridos verbos já tendo acontecido todas as coisas que ainda estavam por acontecer? As cores também se desfaziam, e tudo que em um momento qualquer foi pigmento de sapo voltou a ser pigmento, porém there was no sapo. Nada nunca ressuscitou.

Cacos de vidro de todo o mundo uniam-se novamente no que haviam um dia estado copo, janela, bailarina de vidro, ganso de enfeite e tudo o mais que algum acidente, imprudência ou distração desutilizou. Era um espetáculo ciclópico os cacos alçando vôo para os lugares de onde tinham caído e juntando-se peça a peça. Claro que, por estar revertorizado o tempo, os vidros logo se desfaziam em areia.

A engenharia também sofreu, prédios inteiros deixavam de haver, pareciam corpos sofrendo o que um dia havia sido conhecido por decomposição, que como previamente informado é um ato biológico já não mais existente nas novas configurações cronológicas, primeiro a melanina virava pigmento de sapo, depois o tecido epitelial voltava a ser cimento e água, ao mesmo tempo a camada subcutânea virava argila, os nervos e as veias voltavam ao petróleo que um dia os fizeram plástico, por fim sobrava só o esqueleto, mais resistente, mas que tarde ou cedo voltaria à terra. O verbo morar já não era preocupação linguística.

As calotas polares desderretiam, e as micro coisas vivas que fossem por ventura aprisionadas no processo de recongelamento explodiam em energia derretendo um pouquinho de gelo ao seu redor, que instantaneamente desderretia. E com isso Gaia vivia a mesma era glacial de outrora, tornando as vidas ainda mais difíceis, o que não explodia hipotermava. Quando por fim o último ser humano desapareceu das faces do planeta, não porquê havia a espécie um dia nascido, mas sim porquê estava ela destinada a morrer, qualquer que fosse a direção apontada pela seta do tempo, fechou-se um ciclo, porém o tempo continuou retilíneo uniforme.

O petróleo virava carcaça de dinossauro, a carcaça de dinossauro não virava dinossauro, e com isso se acumulava, juntando-se a todas as outras carcaças, visto que nada mais se decompunha. Por essas épocas também nada mais vivia além de algumas monocotiledôneas e dicotiledôneas resistentes ao tempo e aos tempos. Com efeito a entropia diminuía, nada se criava e nada se perdia, no entanto tudo se transformava com menos frequência. Os continentes voltaram a ser Pangeia, as águas se reaqueceram, a temperatura subiu e os vulcões engoliam lava. As terras emersas se desformavam, logo nem água mais houve, então o planeta rochoso virou stardust, depois o caminho de leite e por fim o universo. E tudo o que havia sido, por pelo menos duas vezes a mesma coisa, nesse instante nada mais era do que Big Bang.

E então o tempo voltou a correr para a frente.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Horas


O que seria de nós
Criaturas tão cronológicas
Se as horas também se atrasassem
E perdessem seus compromissos?

O que seria de nós
Se um horário fosse marcado
Mas as horas nunca viessem
Ou chegassem muito depois

Imagine estar esperando
E o próprio tempo não vir
O horário não mais chegar
No minuto determinado

Quisera o tempo passar
Que seja sempre sincero
E nunca se percam as horas
Estejam sempre no horário

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Ensaio sobre o Fim de Ano - Parte 1

Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle all the way...

Um dos grandes símbolos dessas épocas festivas, os "Holidays", como são chamados por aí. Época de assistir filmes temáticos na Sessão da Tarde, com crianças enfrentando bandidos perigosos; e velhos barbudos vestidos de vermelho salvando o dia e sendo exemplo de bondade e compaixão.

Época de comidas típicas, do peru à lentilha. Tempos de vestir-se de branco, relembrar, agradecer ou lamentar, torcer e esperar; e outros infinitos verbos no infinitivo. Momento de férias (não para todos), de descansar e se preparar para uma nova jornada. Épocas de viradas.

Mas... que viradas? A contagem de tempo hexadecimal, que usa o padrão dos 60, é a forma humana de determinar pequenos espaços de tempo. O número 60 foi o escolhido por ser considerado um dos mais adaptáveis, sendo ele o MMC de 1, 2, 3, 4, 5, 6, 10, 12 e 15.

O calendário gregoriano é uma das formas ocidentais de marcar a passagem do tempo em médias escalas, teve início com o nascimento de Cristo (erroneamente contabilizado, já que ele teria nascido no ano 4 a.C., antes do próprio nascimento). Tem como base o sistema lunar, porém erros de implantação e até interesses políticos, fizeram ao longo da história com que ele não seja considerado tão eficiente.

Qualquer que seja a medida utilizada para determinar a passagem do nosso querido, convencionado e relativo tempo; o fato é que cada mísero instante pode ser considerado uma virada. Mais ainda serão viradas as horas, dias, semanas, fases da lua, meses, semestres, e por fim o ano. "Por fim" em termos de média escala, pois poderíamos considerar como viradas mais intensas ainda os quinquênios, décadas, séculos e milênios. As celebrações de Réveillon anual têm origens distintas, ocidentalmente falando a culpa e do Imperador Julio César. 

Em geral nada muda drasticamente de 31 de dezembro a 01 de janeiro, fora as piadas de "só vou tomar banho ano que vem". No entanto, qual o motivo de tanta expectativa em torno dessa data tão específica? O objetivo claramente (entre outros) é libertar-se do que está ficando no passado, e iniciar uma nova jornada no ano que começa. O primeiro de janeiro nada mais é que convenção, assim a "virada" individual poderia acontecer em qualquer outro dia. Mas não o é.

Isso acontece porque as pessoas precisam de algo objetivo e claro que as disciplinem a variar, como uma data específica, pois se dependesse unicamente de cada indivíduo, a maioria deles seguiria com suas vidas pacatas sem esforço inovativo algum. "Esse é o dia da virada, em que tudo muda, e eu começo uma nova vida", apesar de nada mudar, e as vidas serem as mesmas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Relativo à relatividade

Professores passam diversos textos acadêmicos que até devem ser muito úteis. Eu não os leio, nos intervalos entre uma aula de telejornalismo e uma de teorias da comunicação, estudo sobre física quântica, astronomia, sociologia, geopolítica, etc.

No retrovisor vejo o reflexo do reflexo, e as coisas que ficam pra trás parecem estar indo pra frente, sinto as coisas se repetirem, e o movimento também é relativo. As idas e vindas do movimento são relativas, e tudo o que é relativo às idas e vindas é relativo. Carinho e afeto são relativos, e o tempo que se tem a dedicar assim o é. E dedica-se o tempo que se tem, ao que for, e o tempo que restar, com ele se faz o que quiser. Mas nunca o tempo é pouco, é apenas relativo.

Tudo depende do ponto de vista, tudo depende da perspectiva. Depende de quem olha e de onde olha. Existe a ideia de que acima da velocidade da luz é possível viajar no tempo, e bem, todos têm teorias sobre como fazer isso. Mas a bem da verdade viaja-se no tempo a todo o tempo, tendo em vista que o próprio tempo é relativo. A relatividade é relativa.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Antecipação

Desde o início dos tempos, um dos grandes objetivos e utopias da humanidade é prever e saber o que acontecerá no futuro, próximo ou distante. Na Grécia, os oráculos eram como representantes dos deuses na Terra, previam o futuro de acordo com o que esses lhes falavam serem suas intenções, pois do futuro nem mesmo os deuses sabiam direito. Em tempos pós-medievais Nostradamus profetizou, e muitos dizem que ele acertou quase tudo, mas quase não é tudo. Fiéis dizem que a Bíblia sabe tudo o que foi e será, com precisão numérica, e contam o futuro em seus versículos. Em tempos modernos as previsões tomam formas diferentes, meteorologistas preveem a chuva ou não-chuva, matemáticos preveem as probabilidades, entre outros.

Entretanto, algo nunca mudou e nem mudará quando se trata do futuro: a antecipação. Sentir aquela dúvida quanto ao que vai ou ao que pode acontecer, aquele friozinho na barriga. Formar monólogos e diálogos surreais na cabeça antecipando as possibilidades.

Como, por exemplo, uma pergunta que precisa ser feita, mas é procrastinada pela falta de tempo, e a antecipação toma conta e transforma tudo em nervosismo e introspecção, e falamos: "precisamos conversar", e ouvimos: "conversaremos". E a pergunta pode nunca chegar a ser feita, perguntas não feitas deixam respostas natimortas, aquela criatura que quis nascer e não pode. A antecipação se torna constante.

Antes de produzir algo que sabemos será bom, esperamos que seja mesmo, e antecipamos todas as formas de dar errado, nunca as de dar certo, pois se der certo talvez não tenhamos de lidar com as consequências, ou as consequências sejam agradáveis. Ontem entrevistamos pessoas de garbo, vereadores e advogados, engenheiros e professoras, e eram só três pessoas nisso tudo. Tudo correu bem, desossamos e concretamos. A antecipação se torna alívio.

E pra finalizar um evento de porte internacional, uma cidade mobilizada, 100 mil pessoas num ambiente só com o mesmo espírito e objetivo. Começados os preparativos em dezembro, agora, com roteiro minucioso nada mais falta além de embarcar e voar, e continuar voando um final de semana inteiro. E o que antecipar do Rio de Janeiro? Nada, não há que se antecipar, há que se viver, há que se voar, e saber que o que tiver que acontecer acontecerá, independente de prevermos isso ou não. A antecipação se torna realidade.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Nove anos

Apesar do que alguns pensam, não existe geração espontânea, tudo o que nasce provém de algo, e esse algo provém de algo ainda mais antigo. Assim, minha mãe provém dos meus avós.

Nove anos e 2.500 quilômetros nos separam atualmente, eles estão no norte do Mato Grosso e a última vez que vi Euthália Trindade e Pedro Ornellas foi em 2002. Depois que nasci morei com eles boa parte da infância, minha mãe era solteira, e irmã mais nova de 10 irmãos, a criação e apoio que obtivemos dos meus avós foi essencial para tudo no que se seguiu em nossas vidas. Esse mês de agosto tem sido de muito saudosismo pra mim, pois é mês de aniversário de ambos, nove anos é tempo demais sem ver pessoas que estão entre a lista seleta de pessoas que você realmente gosta. Nove anos.

Na última terça-feira, 23, a Dona Euthália fez aniversário, 84 anos se minhas contas estão corretas, e nos últimos meses notícias de familiares de distanciamento reduzido vinham chegando, informando que sua saúde, que já é debilitada há uns 10 anos piorava gravemente. Mas felizmente ela melhorou, minha vó é forte, mais forte do que muitos de nós jamais serão.

No próximo sábado, 27, é a vez do Seu Pedro, que completará 89 anos de vida, mais uma vez caso minhas contas não estejam erradas. Ele tem estado bem de saúde, apesar da quase total cegueira que já o acompanha há tanto tempo. E nada disso o impede de dar umas voltas pelas ruas pra "ver as morenas".

Nos últimos anos, além da distância exagerada, problemas diversos me impediram de voltar ao Mato Grosso para visitá-los. Sei que nada é eterno, e que cedo ou tarde eles vão morrer, e quando isso acontecer será triste, mas que a vida que tiveram valeu a pena e foi gloriosa. Tudo o que eu quero é que isso demore ainda alguns anos pra acontecer, pra que eu possa voltar lá uma vez mais, e sei que são muito fortes os meus avós, e que com certeza eles vão aguentar firmes por mais um bom tempo, pra que no próximo agosto me bata esse saudosismo novamente, mas que sejam apenas alguns meses de distância.

Nove anos é tempo demais.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mudanças

Não consigo ficar muito tempo fazendo a mesma coisa. Quando tenho um longo caminho a percorrer procuro ir fazendo zigue-zague, se vou a pé faço mais curvas. Acho que a rotina cria monotonia e tudo o que é monótono fica insuportável.

Aí que nasci numa cidade onde só morei por 3 meses, vivi com meus avós no MS um tempo e passei 6 anos da minha infância em Toledo, estou há 11 anos em Araucária. Penso até que posso suportar um bom tempo por aqui ainda, apesar de 11 anos ser muito tempo, e sinto falta de uma mudança mais radical, tipo ir pra Dinamarca, sei lá...

Enfim, fato é que nesse fim de semana que passou ocorreu uma mudança bem intensa. Carreguei geladeira, e outras coisas mais pesadas, deixamos os gatos por uns dias, estragamos um armário, vendi o aparelho de som, tive uma ideia pra revolucionar as cozinhas, e viajei no baú do caminhão baú, fui sem ver o caminho mesmo, cheguei num lugar que eu nem sabia onde era e nem imaginava como fazer pra chegar lá de novo. Mas não importa, o que vale é que aquele troço lá era meu, abrimos o portão e o portão era meu, sujei a porcaria do chão e não só a sujeira era minha como o próprio chão era meu.

Comemos pizza no quintal, no condomínio ao lado um cachorro magérrimo latia, e depois passei uns 10 minutos olhando as estrelas, nos matos assim é melhor de ver as estrelas.

As mudanças não acabam por aí... tem mais por vir, sempre tem mais por vir... afinal não consigo ficar muito tempo fazendo a mesma coisa.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Crônicas do Cemitério

Gosto de trabalhar no cemitério.
A morte nunca foi um tabu para mim, sempre soube que é esse o destino de todas as coisas viventes, e que toda criatura ao nascer tem como única perspectiva morrer. O que acontece nesse intermédio é lucro.

Quando vim trabalhar aqui algumas pessoas comentaram que "será o lugar perfeito pra você trabalhar" e "tem tudo a ver com você". Talvez a minha morbidez não seja tão absurda, ela é só natural, não vejo a morte como algo tão triste assim, as vezes ela até é uma coisa boa. O problema é que as pessoas geralmente não têm uma perspectiva tão aberta, elas não querem morrer, não querem que as pessoas que gostam morram, e por isso não se preparam para o inevitável, e quando acontece, a dor da perda se torna muito maior do que a vida que a pessoa que está partindo viveu.

Nas últimas semanas têm sido demolidos uns túmulos antigos, de 1988, os primeiros do cemitério, que já nem têm dono mais, talvez até os donos originais já estejam dentro deles. Acontece que a maioria dos sepultados nesses túmulos deteriorados e corroídos pelo tempo são crianças, recém-nascidos, que sequer chegaram a três, quatro dias de vida, muitos saíram mortos de seus respectivos úteros.

Nasci em 1988. É estranho ver pessoas que teriam hoje a minha idade e nem chegaram a viver, poderíamos ser amigos, companheiros de farra, talvez uma namorada, idealistas, quem sabe estaria um deles aqui comigo nesse exato momento.

Sempre fui a favor da mortalidade infantil, por mais absurdo e desumano que pareça, mas fato é que eu sou meio desumano mesmo. Mortalidade infantil é controle populacional, e não vou entrar aqui em detalhes dessa minha opinião. Mas ver a situação por esse ângulo diferente me faz pensar, titubear, não a ponto de deixar consternado. É que pra essas crianças o tempo nunca passou, mesmo hoje elas ainda têm quatro dias, e são lembradas por familiares com os rostinhos que saíram do corpo da mãe, se é que são lembradas. Essas crianças não têm amigos, namorados(as), ideais, e nem estão aqui nesse momento, porque o momento delas foi outro.

E é estranho pensar nisso...

No Reason

Ever since the day I was born
I keep asking why I am here
If there is any meaning in the life
What has destiny prepared to me?
When the clouds come to cover my eyes
And an angel come to ask for his fee
I might wonder if wanted this truly
Or if just sought a release to be free

There's no reason
Nothing to be done
There's no why
Ask me no more

Why someone should ask for the reason?
In the beginning no one asked me why
But the reason is the same as before
Motivation was never more than a lie
And even knowing no answer will come
I still look up and question the sky
If there's lack of reason to be born
Why should there be a reason to die?

There's no reason
Nothing to be done
There's no why
Ask me no more

quarta-feira, 8 de junho de 2011

...

Em seu universo não existe o presente. Gostaria de ter nascido no passado, especificamente em 1955, para poder curtir os anos 70, o melhor de todos, segundo ele, desde aspectos culturais até políticos. E ao mesmo tempo, pensa muito no futuro. O tempo o intriga, o deixa inseguro. Tem medo que o tempo passe rápido demais, e de não deixar um legado, não algo material, mas um ato, um grande feito. Assim, poderia ser eterno.

Jhonny Maylon de Castro, paranaense, 23 anos. É do tipo comum entre os rapazes da sua idade, altura e peso. Pele bem clara, quase pálida. Mas tem um “ar enigmático”, transpira intelectualidade. Com seus cabelos revoltados, castanhos e cacheados. Os olhos são da mesma cor que o cabelo. Olhar perdido por trás das lentes de seus óculos. Sorriso fácil.

Ele tentou definir-se como hipócrita, prepotente e arrogante. Talvez para criar uma barreira durante a entrevista. Mas essa barreira era de gelo e foi logo derretida, pois entre um pergunta e outra não demonstrou essas características. Foi apenas um pouco debochado e irônico em alguns momentos. Mas sempre sincero e descontraído. Sentado despojado em sua cadeira na sala de aula.

Jonas, como alguns amigos traduzem seu nome, trabalha em um cemitério, e cursa Comunicação Social com habilitação em Jornalismo na PUC-PR.

Como todo bom brasileiro é amante do futebol. Seu time do coração é o Paraná Clube. Ele também tem paixões europeias, seus sonhos são conhecer a cidade de Viena na Áustria, e morar na Inglaterra. A banda alemã Scorpions ocupa o primeiro lugar em sua lista.

Jhonny adora todo tipo de arte, especialmente o cinema e literatura. Seu escritor favorito é Herbert George Wells, famoso por seus livros de ficção cientifica. Nas poucas horas livres que Jhonny possui, inspira-se em Herbert, e gosta de escrever, mais sobre coisas, que sobre pessoas. “As pessoas são muito complicadas. É difícil transformar os sentimentos em palavras. É como o amor, impossível defini-lo, é abstrato”, conta o estudante, em tom de voz suave.

Ainda sobre pessoas, ele diz que a maioria são demagogas e insignificantes. E em relação ao universo a humanidade é a coisa mais insignificante de todos.

É realmente um lugar intrigante, pouco habitado e paralelo, o mundo de Jhonny.



Eu, por ela (nada mais justo que o primeiro texto do meu blog não seja meu).