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sábado, 9 de março de 2013

Prédios

Abriu a janela lentamente. Dezessete andares de queda livre o observavam de baixo para cima, tal qual o maldito abismo de Nietzsche. Mas o abismo nunca olha de volta porque você olhou primeiro, ele na verdade não se importa minimamente com quem olha ou deixa de olhar pra ele. A visão que tinha diante de si estava, além de tudo, presa às leis de Newton, ela caía, sentia a gravidade. A gravidade que nos prende ao que nos importa, que deixa perto de nós todas as coisas. Mas é ela também que torna aquele abismo de tão intenso. É Isaac Newton que faz com que Friedrich Nietzsche seja tão perigoso... 

Adorava janelas. Tinha uma leve queda por prédios. Janelas são o ápice da liberdade, por onde todas as coisas podem passar, entrar e sair, sem condições ou obrigações, por onde voam aqueles que estão presos ao céu. Ficou observando por longas horas, mas que pareceram minutos, tinha de lá uma bela vista, que começava no céu e descia à cidade, atingindo o chão. 

E é no chão que está a base de todas as coisas, mesmo tudo o que voa esteve um dia no chão quando nascido. Tudo o que está preso ao céu, está também fatalmente e primeiramente preso ao chão. Lá estão as estruturas que permitem a existência desses dezessete andares, é novamente o céu preso ao chão. 

Afastou-se lentamente da janela, mas a manteve aberta, deixando passar por aquele retângulo toda a liberdade existente. Sentou-se no chão do apartamento, um chão construído no próprio céu, por aquelas mesmas bases. 

Pegou um bloco de liberdade na mão e o depôs sobre outro, começou então a preparar uma pilha de liberdades. O céu continuava passando pela janela lá fora, e no céu o tempo deve passar mais devagar. Pássaros são os principais e mais belos viajantes no tempo que existem. 

A pilha de blocos estava cada vez maior, então ele puxou o bloco que sustentava a base, e deixou que todas aquelas liberdades caíssem. Elas desmoronavam uma a uma, ocupando os espaços que lhes cabiam em sua nova configuração existencial. Desciam em câmera lenta, não, lentamente mesmo, mais devagar do que a gravidade as puxava, mais devagar que o próprio tempo, mesmo no céu. 

Pois então caindo, ele assim poderia diminuir a velocidade do tempo... Ao menos era o que parecia. Voltou a se encaminhar para a janela, observar mais um pouco. Percebeu então que construíra e destruíra suas próprias liberdades, e que podia agora construir e destruir o seu próprio tempo. Dezessete andares. Quão devagar passaria o tempo ao longo de dezessete andares? Juntou novamente suas liberdades. Janelas são, reafirmamos, o ápice da liberdade. 

Era um mundo intenso aquele. Vivia regurgitando vidas. Usava blocos para tudo, eram dezessete andares de blocos. Entre os espaços ocupados do mundo, permeava-se o vazio de solidão. E sabe-se que há muito mais espaço vazio do que ocupado no universo. Ou talvez os espaços vazios estejam de fato ocupados de vazio, pois um buraco está sempre cheio de vazio. De qualquer forma, era muita solidão. 

Por isso, ele construía o seu próprio mundo, se utilizando daqueles blocos, das liberdades, do seu tempo, um mundo de fantasias, mas que eram por muitas vezes mais reais do que a realidade em si. Mas ele olhava pela janela, observava o céu, e via o seu próprio tempo passar. Pelo seu mundo. 

Uma ave então passou zunindo, bem próxima, cruzando o tempo. Uma fantasia ela também, uma solidão, um espectro alado de solidão viajando no tempo. Pulou. Dezessete andares, e que passaram muito lentamente. Teve tempo de observar cada centímetro e cada segundo da queda, o tempo passava bem devagar. Visualizou todo o mundo que havia construído, as bases, e vivenciou todo o espaço vazio de solidão que existia no universo daquela queda. 

Então, em determinado momento da lenta queda, o tempo parou, e assim a queda também. Ficou estático em pleno ar por um mísero instante, e, logo depois, viajou no tempo. Passou por uma espécie de vista virtual de si mesmo, teve uma projeção astral e se viu viajando no tempo. Subindo novamente, dezessete andares de ascenção dessa vez. 

Viajar no tempo é um mundo de fantasias também, de solidão e de liberdade. Viaja-se sozinho, mas é a melhor viagem possível. Destrói-se blocos, e os reconstrói de outra forma. Passa-se sozinho por todas as eras, por todas as coisas, sem a companhia nem mesmo do mundo real. Viaja-se de fantasia. 

Parou novamente na janela. E novamente pulou. Dessa vez, sem viagens no tempo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Em Alta Velocidade

Ontem, saí alta noite do bar onde estava com alguns amigos, e peguei o carro do qual era responsável. Estava bêbado, não absurdamente, havíamos bebido bastante, porém em bastante pessoas. Num rápido cálculo mental, contabilizei umas quatro ou cinco latas por pessoa na média. Mas como não sou dos mais fortes para o álcool, estava suficientemente bêbado.

Me dirigi e dirigi para um lugar relativamente isolado, era madrugada e eu sabia que lá as chances de prejudicar alguém eram reduzidas a quase zero, eu estava lá por minha conta e não queria atingir ninguém. É naquela rodovia que corta a cidade, todos conhecem e passam por lá com frequência, tem nome de metal pesado.

Numa longa reta, comecei a acelerar, trocando as marchas rapidamente. As paisagens passavam cada vez mais rápido, árvores e casas e cercas e placas e tudo o mais. No retrovisor eu via o reflexo das luzes artificiais de iluminação pouco coesa. O velocímetro subindo, todos os ponteiros do painel colorido agitando-se gradativamente.

Ninguém é obrigado a viver, ninguém é obrigado a morrer. Velocidade é apenas uma forma de cortar o tempo/espaço, e devem existir outras. Conforme o carro ia mais rápido, memórias surgiam em minha mente, todas as situações que me levaram até aquele momento, e a certeza de que a escolha de estar ali era unicamente minha. Escolha consciente, diga-se de passagem, pois ninguém é obrigado a viver e ninguém é obrigado a morrer.

Quando o ponteiro do velocímetro atingiu a marca de 180 km/h, eu sabia que não me restava muito tempo. A reta era longa, mas eu já havia cortado boa parte dela, e cada vez mais rápido o espaço a se percorrer seria vencido em menos tempo, eu tinha certeza absoluta do que não fazer naquela curva que se aproximava.

Nos 240 km/h então aconteceu a coisa mais intensa que eu vivenciei em toda essa vida desregrada. Eu saí para fora de meu próprio corpo, como se ele não tivesse sido capaz de acompanhar a velocidade, e o carro estivesse agora viajando à frente dele. Era algo como projeção astral, se é que esse nome se faz adequado. Eu estava lá em cima, e via o rápido deslocamento do veículo e a aproximação da curva definitiva.

Então comecei a diminuir a velocidade, sem qualquer tipo de desespero, eu não estava desistindo da escolha anterior, só estava praticando uma nova escolha. O carro reduziu sua velocidade gradativamente, e a curva parecia na verdade estar ficando mais longe, pois que aquela curva era mera metáfora. Eu não era obrigado a morrer, apesar de não ser obrigado a viver.

Parei do carro, desci do veículo e olhei pro céu, lá longe aquelas estrelas não têm a capacidade de escolher, ninguém nunca falou pra elas em livre arbítrio. Por isso, a morte delas é mais próxima que a nossa. Porém, eu tinha a possibilidade de colocar tudo na balança, e uma vida é feita de medires. Vida, morte, são coisas relativas demais, metafísicas demais, coisas que carro algum pode explicar, e que velocidade nenhuma pode escolher.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sobre a Ponte

Algumas pessoas devem seguir pelas vidas inteiras que recebem sem pensar sequer uma vez em suicídio. Para outras talvez esse pensamento as acompanhe diariamente, sem faltas e falhas.

Todo sujeito deve ter aquele momento de desespero, quando reprova de ano, quando perde um membro da família, ou quando termina um casamento. No entanto, algumas pessoas vivem no desespero, sem saber de onde tirar as forças pra puxar o ar mais uma vez, sem saber a que se agarrar. E até vivem épocas boas, onde tudo parece se encaixar, em que o pensamento passa um pouco despercebido, como uma música baixinha de fundo.

Pessoas que vivem no limite, sem saber quando vai chegar a hora em que deverão tomar a decisão definitiva. E essa decisão não é uma demonstração de fraqueza, é exatamente o oposto, é necessário muita força para conseguir ultrapassar a barreira final e acabar com o que um dia começaram por elas.

O mais intrigante de tudo é exatamente a dúvida, não saber quando esse passo será tomado, ou quando ele irá acontecer naturalmente. Sim, pois por mais jovem que seja a pessoa que morre, toda criatura nasce tendo como única perspectiva o fato de que irá morrer, portanto, toda morte é natural. Fato é que o não saber quando será o momento é extremamente angustiante.
Cena do documentário A Ponte

Acredito que às pessoas devesse ser dada a opção de escolher o momento em que findarão suas vidas, pois a maior injustiça da vida é não saber quando ela acaba, e não poder despedir-se triunfalmente e da maneira mais adequada conforme a vontade interior de cada um.

Assisti ao documentário A Ponte, sobre um dos locais mais procurados para atos de suicídio no mundo, a Ponte Golden Gate, em São Francisco; e me identifiquei em cada uma daquelas pessoas, e em cada um daqueles familiares, como se todas as histórias fossem nossas.

E sei que todos eles tinham razão em seus objetivos concretizados, pois fizeram o que lhes cabia, foram fortes, e ultrapassaram os limites.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Livre Arbítrio


Pergunta - o que é Livre Arbítrio? Respostas - é algo inventado pra fazer as pessoas acreditarem que têm escolha. Ou é uma desculpa criada por alguém para justificar sua própria inação.

Funciona mais ou menos como a clássica frase “Todos são iguais perante a lei”, mas se isso é verdade, porquê quem tem curso superior tem direito a cela especial quando é preso, e porquê políticos têm direito a foro privilegiado? Quer dizer que todos são iguais perante a lei, desde que tenham cursado faculdade, todos são iguais perante a lei desde que tenham sido eleitos por maioria de votos.

O livre arbítrio funciona de uma maneira parecida, você tem o direito de escolher fazer qualquer coisa que quiser, mas se entre essas coisas cometer um pecado que seja, passa a eternidade sendo punido no inferno. Isso parece coisa daqueles ditadores clássicos que pregavam a igualdade de classes, se alguém faz o que o governo quer e obedece sem questionar ganha títulos, medalhas, dinheiro, terras, status; mas se é contra alguma coisa pregada pelo governo, ou mesmo se fala mal do “líder” pelas costas e ele descobre, o sujeito passa vinte anos quebrando pedra nas Sibérias.

Deus também é um ditadorzinho de merda, nada melhor do que Hitler, Stálin, Nero, Saddam, ou qualquer outro. Se você entregar a sua vida a ele, servi-lo sempre, e nunca falar mal dele “pelas costas”, quando os mortos se levantarem e os quatro cavaleiros vierem, você será poupado e passará a eternidade numa vida pacífica e monótona no paraíso, “Ah, depois eu faço isso, eu tenho um cuzilhão* de anos pela frente mesmo.” Mas se você não for bonzinho, não gostar da ditadura dele, ou fizer algumas coisas erradas durante sua vida, você levantará entre os mortos, será julgado e enviado para passar a eternidade sendo punido no lago de fogo.

E se você faz parte do exército que apoia a ditadura, e não gostou do que leu aqui, venha com argumentos e não xingamentos, e nem tente me converter, até por que de boas intenções o inferno está cheio, e tome cuidado, já que qualquer pequeno deslize seu e o teu ditadorzinho de merda pode te mandar para o lago de fogo passar a eternidade comigo e com mais 99% da população mundial, levando em conta que já viveram e morreram uns 13 bilhões de pessoas e vivem atualmente quase 7 bilhões, é bom que o inferno seja bem grande. Ditadorzinho de merda.



*Cuzilhão – Número mais próximo do infinito na matemática.


**Texto antigo e ruim, mas to com preguiça de melhorar.