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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Crônicas de uma Gata Solitária

As coisas tinham muito mais cor quando Dorothy estava no mundo mágico de Oz. Lá, os tornados levavam as pessoas para viagens mágicas por mundos de criaturas que se preocupam com o que os outros sentem ou deixam de sentir. Por mundos onde as escolhas que fazemos geralmente nos levam a caminhos gloriosos, de estradas também coloridas, de destinos fantásticos.

Mas Dorothy voltou de Oz, acordou para um mundo cruel e sem tantas cores, em tons de cinza, onde a poeira se acumula e não faz questão nunca de dispersar. As coisas mantém seus lugares como previamente determinados, em instâncias das quais nem mesmo elas lembram.

Agora, Dorothy está sentada diante da porta. Observa o mundo lá fora, analisa as luzes e sombras que bailam sob o vento, farfalhando folhas que ela não vê, pois que vê apenas os movimentos das sombras projetadas no chão de concreto duro e frio. Ela avalia os perigos desse mundo cinza, e as lembranças do mundo colorido, e decide permanecer. A inércia age sobre Dorothy, e ela apenas observa...

Pois Dorothy espera o retorno do Homem de Lata, do Espantalho e do Leão Covarde. Ela grita por todos os cantos, clama pela presença deles. Procura, sente suas presenças, e sente ainda mais suas ausências. Dorothy dorme, e durante o sono a memória não martiriza. As lembranças de mundos coloridos não aparecem para ela, a não ser em sonhos conturbados, os quais ela felizmente se esquece quando de olhos abertos.

Então Dorothy fica lá, por vezes sozinha, por vezes na dela, por vezes gritando sua dor para o mundo. Observando e esperando, quem sabe, pelo tornado que virá tirá-la novamente desse mundo sem sal, sem cores, e trazer de volta as saudades de um mundo mágico de cores e criaturas fantásticas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Personagens

Creio que Bukowski adorava gatos. E frequentar essas rodas de poker é como ir aos páreos de cavalo. Dizem que dá pra ganhar muito dinheiro por lá mesmo sem jogar, com determinada habilidade. Mas é determinante uma relativa preguiça dessa obrigação monetária.

Ninguém nunca morreu de opinião, essa doença tão frequentemente transmissível. Certa vez falaram que essas personagens não têm vida. Oras, isso se dá pelo fato delas não serem reais, não podem mesmo ter vida, isto está reservado para as criaturas que usam oxigênio de alguma forma. Não vejo motivos para passar dos 40 anos de idade. Passar tanto tempo gastando oxigênio. Essas parcas personagens sem vida viverão muito mais do que nós.

Há ainda aqueles que levantam bandeiras, por Bukowski ou pela causa dos gatos. Oras, os gatos podem se virar sozinhos, só precisam mesmo de alguma coisa pra matar de vez em quando. Para levantar uma bandeira, a pessoa deve também aprender o hino, defender o brasão, cumprir com todos os deveres cívicos enfim. Mas as vezes algumas bandeiras são necessárias, ou podemos simplesmente nos esconder atrás delas, o que é suficientemente cômodo.

Poderíamos debater o dia todo sobre árvores que crescem no concreto, os oásis dos tempos modernos, urbanidades tão vívidas. E como fazem elas com essa escassez de oxigênio? Oras, elas mesmas o fazem. Todo mundo já desejou fazer fotossíntese. Elas levantam as próprias bandeiras, sem se preocupar com quanto tempo viverão.

Poderíamos jogar poker valendo cavalos. Poderíamos ter gatos e bandeiras, bandeiras com gatos. Poderíamos consumir todo o oxigênio que nos for permitido e convencionado. Pois a própria respiração é mera convenção. Criando nossas próprias personagens e levantando as bandeiras delas. Pois que essas coisas sem vida não podem nem mesmo respirar sozinhas.