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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Há Um Ano - parte 2


Às criaturas da água pertence apenas o abismo de baixo, o mais pesado de todos. O abismo dos céus lhes foi negado. Mas tudo bem, não nos importamos. Em nossa sensitividade abstrata vivenciamos todos esses mundos dos quais nem mesmo fazemos parte.

E quem quer que seja a entidade, física ou metafísica, que desenhou e gerou o universo, deve ter decidido não dar asas aos seres líquidos por saber que assim lhes seria fácil demais dominar absolutamente tudo. É natural que estejamos presos aos mares e às marés.

Somos líquidos. Mas não na ideia baumaniana da modernidade líquida. Na ideia de que somos adaptáveis, nos adequamos ao recipiente. Vivemos uma vida líquida. Não no sentido fluido superficial. Mas no sentido de dois hidrogênios e um oxigênio se replicando continuamente, rumo ao infinito de nossos recipientes imensuráveis.

Somos duas gotinhas de chuva despencando do abismo de cima, se entrelaçando durante a queda. Somos o elixir da vida, a nossa mútua panaceia particular. Poderíamos morar em nosso abraço de universo inteiro, nascido em novo big bang a cada vez que nos encontramos. Cada um de nossos abraços é uma explosão de sensações e experiências e mundos surgindo.

Minha deslumbrante criaturinha do abismo do mar. De todas as explosões de sensações que nos permitimos, você é a maior. De nossos dois hidrogênios e um oxigênio, que somos nós. Em nós cabe, e transborda, um universo inteiro de emoções. Cabe minha pequena cura diária para os males deste mundo louco.

Vivemos já um ano dessa imensa intensidade com teor de tempestade, alagamento, tsunami, enchente e inundação. E que toda a água de nosso mundo nunca se evapore.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Há Um Ano

As tardes de inverno têm a ingrata mania de se despedirem do Sol com um vento sul gélido, capaz de arrepiar até a alma mais radiante. Aquele, contudo, era um inverno um pouco menos rigoroso. De vez em quando, andávamos em mangas de camisa, sorridentes, por uma cidade contente por estar alheia ao constumeiro frio da estação que não esbranquiçava seus campos.

Ano a ano, aguardamos ansiosamente a primeira névoa da manhã invernal, a primeira geada, o dia mais frio do ano, anunciado pela televisão, semana após semana em recorde a ser batido.

Assim, não que não fizera frio. Houve lá os seus dias de graus quase negativos, e até de antecipação de neve, aquela que retornou a nossas terras em 2013 depois de 38 anos, e desde então aguardamos ano a ano também a sua continuidade, o seu não-evento-isolado.

Houve até mesmo um dia daquele inverno em que descobri o significado da expressão "quebrando gelo", muito dita pelos moradores mais antigos, que saíam de manhã, durante suas infâncias e juventudes, "quebrando o gelo" da grama no caminho da escola ou da lavoura. Fiz isso, como fizeram tantos antes de mim.

Naquele inverno, uma tarde quente. Não diria agradável, mas não que não a fosse, apenas não quero que fique aqui caracterizado uma espécie de contradição aos dias frios, ao associar o termo agradável àquela tarde quente. Não era agradável porque era quente, o era apenas por ser uma tarde. As tardes frias podem ser agradáveis também.

Uma tarde quente. Agradável também. Um convite para uma noite não enregelante. Uma festa. Pessoas ávidas pelo mundo. Muitas pessoas que eu sequer conhecia. Vamos então conhecer.

Um lago tranquilo. Naquela noite o meu chapéu caminhou por cabeças diversas. Amanheceu jogado atrás do sofá. Mas tudo bem, já perdi meus adereços outras vezes, quando ganhei muito mais. Não é importante o que se perde, já lhes disse, afinal, ao que nos resta.

Naquele noite de inverno, não muito mais do que isso. De manhã, uma poesia, sobre um lago tranquilo. E quem diria? Nada mais, palavras. Como tantas outras. Ouvi uma vez que, desde que surgiu a linguagem, qualquer sequência lógica de palavras organizadas têm noventa por cento de chances de serem absolutamente inéditas. As possibilidades são praticamente infinitas. Portanto, às favas com quem disse que todas as palavras já foram ditas.

Há ainda muito a dizer. E gosto demais hoje de ter a possibilidade de sentar à beira desse lago tranquilo, de observar suas pequenas ondinhas reverberando. De sentir o clamor de suas profundezas que só os peixes podem desbravar. De observar o fulgor do sol refletido em suas águas, e saber que aquele brilho é a coisa mais fascinante que a natureza já foi capaz de produzir.

Ainda que naquela tarde de inverno, quente e agradável, que se despediu do Sol sem enregelar nossas almas, mas, pelo contrário, a deixando disponível para o calor do mundo. O calor das outras almas. Ainda que naquela tarde eu não soubesse, e só viria a saber meses depois, tudo mudava.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Taxidermia


O nosso amor morreu naturalmente
Ele nunca sofreu as indizíveis violências
Da extremada paixão
Ele nunca respirou ofegante
Após o baque do choro vertido
Ele nunca se escondeu de si mesmo
Em buracos sombrios infrangíveis
Nosso amor foi vivaz
Foi luzeiro saliente
Externado e nunca extenuado
Morreu tranquilamente
Morreu naturalmente
Tal qual antes nasceu
O nosso amor não será esquecido
Será embalsamado
Lhe tirarei as entranhas inertes
Preencherei de palha o interior
Taxidermizarei nosso amor
Vou expô-lo na sala de estar
Deixar com que ali permaneça
Baluarte do amor de outrora
E que ainda ali existe
Lembrança bem vinda
De um amor que morreu naturalmente
Que foi taxidermizado
E que nunca será esquecido

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Tempo

O universo tem uma maneira curiosíssima de lidar com as coisas, pelo menos até o ponto em que podemos interpretá-lo. Somos criaturas de quatro dimensões, sendo uma delas impalpável, nossa capacidade de entender o que cerca nosso planetinha é limitada demais.

Sabe-se que não é possível calcular com exatidão tanto a velocidade quanto a posição de uma partícula ao mesmo tempo, só podemos ter um desses dados, a leitura de um compromete a própria existência do outro. Se algum dia o ser humano for capaz de saber com precisão velocidade e posição de uma partícula ao mesmo tempo, e eventualmente estender essa capacidade a aglomerados de partículas, seremos capazes de prever o futuro, pois com esses dois simples dados é possível prever exatamente onde essa partícula, ou aglomerado de partículas, estará em qualquer momento vindouro.

Se o aglomerado de partículas for todo o universo, e o ser humano conseguir algum dia calcular isso, poderemos saber com precisão todo o futuro de todo o universo. Assim, essa é uma teoria física que, de certa forma, prevê a existência do destino. Ao sermos capazes de saber onde as partículas estarão, poderemos ser capazes de alterar seus cursos, mas essas alterações são praticadas por partículas, pois que afinal somos amontoados de partículas também. E dessa forma, mesmo essas alterações poderiam ser previstas.

Nossas decisões mais independentes, praticadas no interior de nossas sinapses cerebrais, não são mais do que trocas de informações entre partículas, que, segundo essa teoria, podem ser previstas também. O livre-arbítrio é nada mais que conexão de partículas, e pode ser predito.

O tempo passa. E ainda não podemos prevê-lo, não podemos brincar com ele, alterá-lo. Nada disso é real, amontoados de partículas também. O destino pode nos fazer receber visitas, e escrever poemas épicos que ele já sabia que escreveríamos. Todos nossos amores, ódios, amigos e inimigos, todas as vezes que você já pisou no cocô do cachorro na calçada da frente de casa até hoje, tudo isso, passa como o tempo. E fica para trás. Como uma caixa escondida no fundo do sótão, que você não consegue alcançar, por mais que tente.

E podemos dizer que nossos sentimentos são as únicas coisas que nos conectam aos tempos em que não estamos. A lembrança de algo é a existência daquilo que está no passado e não existe mais. Mas ali naquelas partículas transitando no cérebro, aquilo ainda existe. E viaja no tempo.

Me sinto como a velha árvore que se curva sob a força do vento. Me sinto como aquela caixa do fundo do sótão, nunca alcançada. Ando pelas ruas desertas de madrugada, e me sinto como a lâmpada do poste, que há anos observa a noite consciente de que existe para iluminar o caminho de ninguém. O tempo continua passando, e o cansaço vem chegando. Já não sou mais o mesmo, e ainda não é possível prever aonde está indo o amontoado de partículas que sou.

Se for algum dia possível prever o futuro de todas as partículas, seremos capazes de prever também os desígnios do coração. Não das sístoles e das diástoles, isso é fácil. Mas sim das intenções obscuras do coração, das explosões de oxitocina e dopamina. Será possível prever o amor, a forma de agir do coração apaixonado.

E nem A nem B nem C têm culpa. Aparentemente, a culpa é das partículas. A culpa é do tempo, que corre e movimenta cada partícula. Que gera transmissões cerebrais, e explosões hormonais, e nossas ações e inações, e os amores e desamores.

Mas essa teoria pode estar completamente errada. Podemos nunca ser capazes de prever nada, porque talvez não haja o que prever. Talvez, e só talvez, as sinapses sejam mesmo livres. E nossos amores também surjam sem estarem pré-programados para acontecer. Talvez o tempo e o destino não façam com que as coisas sejam da forma como eles querem, mas apenas deem as cartas, e jogamos com essas cartas como queremos e podemos.

Talvez o universo tenha mesmo essa maneira curiosa de lidar com as coisas. E talvez isso aconteça porque ele também se surpreende com o inusitado, com o que ele não imaginava que aconteceria, e ache isso engraçado. Todas essas memórias. Todos esses amores. Todos esses amontoados livres de partículas. Eu prefiro que seja assim.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Perdidos

Escrever cartas de amor errando propositalmente o destinatário é uma ignomínia imperdoável. Uma falta desconcertante de tato e de devido respeito ao sentimento em si outorgado a quem quer que seja. Que todas as cartas de amor encontrem (fatalmente?) os seus destinatários, mas que sejam os destinatários corretos, os amantes de direito.

Eu sou uma tempestade no deserto. Sou aquele vento agitado trazendo aquelas nuvens carregadas, mas que nunca chovem. Nuvens negras em paisagem de céu apocalíptico. Areia em polvorosa. Se cada grão esculpido milimetricamente ao longo dos séculos por erosões contínuas fosse uma criatura viva, teríamos a mais linda revoada de todos os tempos.

Eu sou também o deserto regurgitando essa areia recebida há milênios, como uma ampulheta universal, regurgitando a mais linda das revoadas em direção aos céus. Se fôssemos criaturas dos céus, voando no abismo das nuvens, invejaríamos a estabilidade dos chãos. Como se dá o contrário, invejamos a liberdade das asas.

Amores perdidos podem nunca ser reencontrados. Nunca achados, nem no fundo das gavetas, sob documentos esquecidos, talões de cheque desutilizados, relicários abandonados, memorabília de coisas que mesmo nossa memória decidiu não arquivar. Nem lá no fundo do armário, do guarda-roupas, do guarda-armas, naquela blusa que já não serve mais há uma década, mas ficou ali, nunca aqueceu corações em campanhas invernais.

Nem lá no fundo do deserto, o amor perdido pode ser reencontrado. Odeio estar em corredores cujas paredes não podem ser alcançadas simultaneamente pelos meus braços estendidos. Quero ter tudo às minhas mãos, quero tocar o mundo, quero curar essa inveja das asas, e das estabilidades dos chãos também. Pois que depois de voar, de nunca reencontrar o que foi perdido, quero querer voltar. Voltar e perceber que no fundo daquele gaveta, no relicário abandonado, oras... eu não olhei direito. Estava ali.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Amores Inacabados

Somos mestres em amores inacabados. Daqueles filmes cujo final inexplicado deixa uma sensação de desconforto no ar, de que o realizador da obra deveria ter sido ligeiramente mais específico. Aqueles amores de ônibus, paixões platônicas que duram apenas os 40 minutos do trajeto entre um começo, passando por um meio, e ironicamente chegando a um fim. Quarenta geralmente longos minutos, encurtados quando os amores tornam os tempos relativos.

Mas esse é só um exemplo de amores inacabados. Existem outros: dos telefones, nos quais a voz nunca assume forma física; os virtuais, nunca reais, que por vezes até se tornam realidade, mas um início tão metafísico não pode ser consumado com todas as eternidades. Apesar que fato é que existindo por si só, eterno é. Durante 15 minutos, te amei para sempre.

Não tenho um mínimo de respeito, necessário à convivência pacífica, por quem acredita que todas as boas histórias já foram contadas. Histórias existem em sistemas infinitos, em progressões geométricas nas quais casas nos tabuleiros de xadrez viram montanhas incomensuráveis de trigo. Há ainda tanta coisa a contar, tanta coisa a viver, tanta coisa a sentir. Eu sinto, e sinto muito!

Mesmo que seja um romance mal escrito, desses que se vendem em bancas de jornal. Erotismo barato, papel reciclado, capa desgastada antes mesmo de ser vendida. Tudo desbotando ao Sol, desbotando até mesmo à Lua, dada sua perenidade. Mas oras, são essas histórias também. Têm seu brilho, suas boas passagens, e seus autores podem mesmo ser citados entre aspas em obras um tanto quanto mais profanas.

E que seus autores não sejam jamais esquecidos, nem mesmo seus atores. Pois que tudo que inacabado é, por acabar estar. E oras, dir-se-ia que se nossos amores estão ainda inacabados, então significa que eles vivem conosco para sempre, ainda existindo, e coexistindo com tantos outros amores. Mesmo que estejam todos inacabados, celebrando a eternidade.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Desamar

Um dia desses, a Rosa Púrpura sentenciou que uma das maiores loucuras que um ser humano pode cometer é escolher deliberadamente amar, que criatura nenhuma deveria fazer isso em sã consciência. O amor só tem, segundo esse ponto de vista, efeitos negativos a longo prazo, e o bem que ele faz nunca seria real. É um pensamento que questiona pontos como a inabilidade para não-relacionamentos, e o triste medo das solidões que as pessoas carregam consigo exatamente quando estão sozinhas. Pensamento que sai de ventrículos e átrios calejados, ignorando a autonomia da sensatez lógica.

Ela disse também, em outros tempos, que minha sina se configura claramente em uma vida solitária, desprovida de alcateia, feita de caminhares em florestas cobertas de frias neblinas pela manhã, onde minhas pegadas ficariam marcadas na neve apenas pelo tempo necessário para não serem seguidas. Em outros tempos já disse eu que, oras!, aceito esse destino... O que temos a fazer além de aceitá-lo? Lutar contra ele é de uma nobreza admirável, e isso fazemos. Porém, há lutas que não foram feitas para a vitória.

O grande segredo para lutar quando a derrota é inevitável, é não lamentá-la quando ela fatalmente vem. Sentar-se inconsolável sobre o campo outrora florido, coberto agora de sangue da batalha, não vai mudar a sina pré-determinada e antecipadamente conhecida. Perdemos muito mais do que ganhamos, o mundo é muito mais feito de não do que de sim.

Há corações espalhados por aí que carregam consigo fardos pouco pesados, outros não levam nenhum. Contudo, todo músculo cardíaco possui seu próprio limite de peso, tal qual os elevadores que não levam mais do que oito pessoas, ou 560 quilos. É claro que, em último caso, eles levam sim além dessa quantidade, o problema é que isso não é seguro, e vai causando um mau funcionamento com o excesso constante. Acredito que os corações que carregam os maiores fardos são aqueles elevadores de serviço, capazes também de carregar consigo até 16 pessoas. Toda quantidade é abstrata, que claro fique, apenas nossos corações não são corações de mãe.

Em todos os casos, há batalhas e batalhas, lutas e lutas, guerras e guerras. E a maioria delas sequer foi feita para ser travada. No entanto, há uma coisa, acima de todas as outras, que a criatura solitária que uiva para a Lua nunca entenderá em sua perene existência: escolher desamar. Afinal, como é possível que duas existências que entram em confluência trazendo benesses mútuas podem decidir deliberadamente, em um momento qualquer, por se afastarem? Se o bem que ele faz é real, por que escolher não mantê-lo?

Mas o quê?!, isso é que está certo. Sim, está. O bem por si só não basta. Não nos contentamos com o suficiente, queremos a floresta toda quando temos uma árvore. E até que está realmente certo, mesmo sendo absurdo. Escolher deliberadamente amar pode ser uma loucura, praticada por criaturas insanas; no entanto, escolher deliberadamente desamar é uma loucura muito maior. Uma loucura que criatura nenhuma em sã consciência deveria cometer.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre Açúcar e o que Fazemos do Mundo que Temos

Nas papilas gustativas carregamos os sabores do mundo, inclusive, e principalmente, aqueles nunca provados. Tantas possibilidades em infinitas combinações. Aromas, temperos, consistências, sabores. Doce, salgado, amargo, azedo, agridoce.

Tenho a impressão de que os melhores amores são aqueles nunca amados. Os melhores mundos, aqueles nunca explorados. As melhores histórias, aquelas nunca contadas. Como se o que nunca sabemos nos atraísse muito mais, sem nem mesmo percebermos. E são tantas também as combinações entre amores, mundos e histórias. No fim, parece tudo a mesma coisa.

Há diversas formas de adoçar a vida, de açucarar o paladar.: Roubando guloseimas abandonadas em festas de aniversário coletivas. Vivenciando tardes de passeios inusitados em parques e museus, com milkshakes adocicados. Em trens carregados de açúcar, cargas que viajam sem que nem mesmo nos demos conta. Todas essas coisas acontecendo à nossa volta. E, vez por outra, nos perguntamos quando faremos parte desses amores, mundos e histórias.

A resposta nunca vem. Porque quando fazemos parte, não percebemos. Mas é como o nosso pôr-do-sol, ele acontece em paletas cromáticas inspiradas, em tons de todas as cores quentes, incandescendo o azul do céu. Porém, tal beleza se justifica pela quantidade exacerbada de partículas em suspensão por nossos ares. Nosso pôr-do-sol é tão belo porque é poluído. Assim são também os nossos amores, mundos e histórias. Assim também é o nosso açúcar.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pré

Antecipação. Lamentação pré-concebida. Comemoração antecipada. Pré-determinada. Mero prefixo grego. Pré-fixo. Anunciação da partida. Coração partido. Anuncia previamente o que predefinido está. Precoce.

Antes de mais nada, primeiro as coisas que devem vir primeiro. Não se puxam carroças com sufixos. Pois então que antes do carnaval, temos pré. Não que aqui se façam muitos pulos, nossos métodos de sub-trópico são outros. Aqui se carnavalizam as ruas antes dos tempos, e apenas isso, em prefixos. Aqui, e agora, se puxam carroças de som com motores de potência. Os sufixos vão em cima.

Ainda pré. Pré-requisitos. O que se deseja quando não se deseja nada? Ser desejado. E essas convenções sociais irritantes. Pré-hipocrisia. Antecipação do que se quer e do que se não quer. Pré-firo mil respostas negativas à ausência absoluta de respostas. Haja pré-disposição para amar. Predisposição para dispor.

Antes de amar, mais nada. Ainda pré. Pré-amor. As pessoas deveriam ser mais sinceras com o que sentem. Com o que pré-sentem e pressentem também. Pressinto o que poderia ser sentido. Pré-sinto o que ficou de lado e nunca será. Só é amor se autorizarmos. Prévia de amor, amor não é. Pré-via. Uma via nunca trilhada amor não será.

Antecipação. Comemorar ou lamentar. Pré-cisão. Precisão em antecipar. Só é amor se você assim pré-determinar. À frente de carroças de som com motores de potência, é tudo amor. Menos sufixos, que esse sentimento não permite sufixos. Apenas pré-carnavalizar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Mudanças, e um pouco mais

Nunca fui de acreditar nesses conceitos hiperbólicos. Tudo o que implica perfeição é perfeito em sua inexistência. Muitas coisas existem apenas para desexistir, e podemos pensar que seria melhor se nunca tivessem existido. Porém, por outras tantas vezes, elas podem ser gloriosas em sua perene existência, e o seu desexistir é desimportante.

Um cenário diferente é por quantas vezes necessário. Cenário, andares e caminhares, relacionamentos e relações, conhecimentos. Mudanças são o que permeiam as consequências, como outrora tratado. E como são elas tão necessárias, a Terra que gira, a Lua que se torna Sol, e versa-vice constantemente, e assim também associado a todas as tantas estrelas que permeiam esse céu do passado.

Passado, o qual se vive de memória. E todos temos uma eidolon wall muito própria, essas paredes da memória onde as sombras dançam, independentes de que haja luz ou não. E geralmente não há. Nas minhas paredes, memórias distintas e distantes dançam. Aquela noite de cabaré, onde uma voz sobre outra voz traduzia simultaneamente o que aquela bela música tencionava passar com sua essência. Alguns receptáculos de amor nunca consumados, contratos nunca referendados. E uma sessão, praticamente um festival, de déjà-vu's.

Oras, contudo, tantas quantas forem as memórias e lembranças (sinônimos distintos), tantas serão as paredes e sombras dançantes. Vive-se disso, sem querer chegar a desexistir. Somos saudosistas de uma geração que já ficou velha, que envelheceu rápido demais, que pensa que ainda pode suportar o peso do mundo em pernas bambas de artrite, e uma corcunda protuberante.

Dentro desses conceitos hiperbólicos de que tanto se fala e nada se entende, buscamos recuperar o que perdemos, o que agora desexiste. As sombras continuam dançando, e me parece que alguém, miraculosamente ou não, conseguiu recuperar alguma coisa. O saudosismo ainda impera, há quanto tempo as mudanças vêm ocorrendo? Mudanças que nunca chegam a mudar nada, é tudo ainda tão igual.

Igual, porém diferente. Sem aquilo que tivemos, sem conceitos hiperbólicos, sem novas sombras a dançar. A busca por um novo cenário, com todas essas coisas que desexistem dia após dia, mudanças desejadas ou não.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Feliz da Barata

Éramos três homens de terno desfilando pelas cidades em um veículo amarelo. Temos o costume de conjugar o início de nossas histórias no passado, sempre "éramos" ou "era" ou "foi", não sei o porquê de fazermos isso sendo que as histórias continuam sempre. O certo seria Somos três homens de terno desfilando pelas cidades em um veículo amarelo.

E é isso mesmo o que somos, fomos e éramos, e ainda seremos enquanto o mundo for mundo, apenas por termos sido uma vez. Até porque existem fotografias nas quais estamos eternizados, de terno preto diante de um veículo amarelo. Imagina se usássemos óculos escuros, pareceríamos a máfia. Entra uma garota no carro, namorada de um de nós. Vestido preto com rendas e bordados, um sapato delicado de donzela. E ela desfila com os três homens de terno preto em um veículo amarelo.

Nessa tarde, celebramos a vida e as vidas, as idas e vindas e a união das vidas e das vindas. Agora há um casal que ruma para o Rio Grande do Sul, ou já deve até estar lá enquanto alguém (quicá você) lê esse determinado relato. O casal não usava terno, usavam amor, vestiam-se de amor da cabeça aos pés, e também desfilaram no veículo amarelo. Um casal que é amor desde sempre, e continuará sendo enquanto o mundo for mundo.

Após uma tarde de amores, ternos e veículos amarelos, algumas vezes usamos plural/plurais demais, a palavra plural também tem plural. Assim, no singular e acompanhado de plurais, cada homem de terno seguiu seu rumo em direção à noite. Desembarquei no local onde a maioria das almas desgarradas se unem, se juntam, acoplam. E lá estivemos, agora apenas eu de terno, às margens do caos, vivendo a própria ordem.

Acendo um cigarro. Não, acendem por mim, a fumaça se une a todas as outras fumaças. Juro pra você que é apenas neblina, termina o teu lanche, temos só até as dez, garota. Idas e vindas, muitas pessoas conhecidas, outras tantas desconhecidas. Mas essas almas desgarradas já sabem que esse lugar é propício para isso.

Encontro a quase-atriz, que não o foi por doença. O ex-amigo que ainda é amigo porque, oras, amizades não podem ser deixadas assim. Amigo uma vez é amigo sempre, mesmo que não o seja em tempo verbal presente. Somos três homens de terno, assim como, sim, ainda são amigos. Encontro também o trio maravilhoso, dançarinas da alma, as garotas mulheres que bailam ao som do palpitar dos corações ao seu redor. Encontro a musa das alternatividades, que em breve se destina ao litoral, talvez cansada da austeridade demagoga do universo inteiro.

Todas essas pessoas se conhecem e se desconhecem. Por fim, ainda de terno, sem veículo amarelo, e sem tantas outras coisas que me fazem alguma ausência no meio de tanta sobra, já no limiar da noite. Nessa hora, encontro a atriz que sim, ela sim é atriz, e é tanto quanto mais lhe possa caber em estatura diminuta, porém de um coração imenso, de mãe também.

Observamos quando um carro se aproxima. E pensávamos, ainda pensamos, que a noite não tinha ideias de piorar. A noite sempre arranja uma forma de piorar. Mas observamos a barata, eu pensava em um filme que vi outrora onde um escorpião iniciava a película e terminava a vida sob um pneu de um carro na estrada. A atriz, revelou-me depois, pensava em situação semelhante. Então, ainda agora, passa um pneu de um carro esmagando a barata, ceifando-lhe a vida, espalhando seus líquidos corpóreos pelo asfalto gelado.

Rimos. Era o que nos restava, é o que nos resta. Fim de noite, no lugar onde as almas desgarradas se encontram, onde os amores se acoplam, onde todos se conhecem e se desconhecem, onde tudo é plural e singular. Início de manhã, o ônibus chega. Feliz da barata.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Me Vê Meio Quilo de Amor

De primeira, por favor.

Sou afeito a solilóquios. Passo o tempo a divagar, por vezes levo mais tempo planejando do que executando. Mas oras, pois se dizem que é assim que se atinge o sucesso; aquele invólucro que te faz embalado a vácuo, diferente de meros mortais, que caminham anônimos pelas ruas anônimas. Porém, sei que há um lugar onde as placas das ruas nos dizem quem foram aqueles sujeitos.

Passamos tempo demais conjecturando como serão nossos amores. Planejando conversas que nunca virão a acontecer, noites épicas que nunca chegarão a ser aurora; e dias de almoço com sogros, seguidos de tarde de filme água-com-açúcar (adoro escrever a palavra açúcar), com, quem sabe, um passeio no parque e sorvetes antes do pôr-do-sol.

Me vê dez reais de amor. Será o suficiente? Quando nem dentro de nós mesmos somos suficientes. Então abstraímos juízo de valor para o abstrato. Oras, pois que não se pode quantificar o imaterial. "Eu amo você um tantão assim" - e isso nunca deve ter passado de dez reais.

Esses amores não se encontram nas prateleiras do supermercado ou da pharmácia, estão todos sold out. Suas histórias mal e mal estão nas páginas de alguns poucos e mal afamados escritos, daqueles que tarde ou cedo acabarão de lado, por um motivo qualquer. Esses amores não podem ser descritos ou delimitados, prescritos ou delineados. Eles são o que desejam ser.

E não podendo ser prescritos, eles devem simplesmente ser. Acontecer como quer que queiram. Sem atribulações ou atribuições. Sem nem mesmo retribuições. Apenas ser.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre Voar e a Destruição de Nossos Tempos

Dizer que "voar é vencer o ar" é um paradigma muito contraditório, visto que só se voa porque o ar existe. Caracteriza-se então, uma relação de parasitismo, em que se tira ligeiro proveito do ar, de forma prejudicial, pois que com a fabricação de aeronaves, e a queima dos afamados combustíveis fósseis por parte dessas, polui-se-o, esse que é essencial para o exercício de sua mesma existência.

Não tem o que esquecer, quando não há nada para lembrar. A memória é exatamente o principal problema, e é ela que serve pra nos ajudar a não levar mais pedrada. Conquanto por vezes ela falhe, engane, deturpe a existência do real ou do surreal. Ou ainda aquele real imposto.

Eu diria que medo de sentir medo é medo também, mas dizer isso pra quem? Eu diria que se esconder da visão é cegueira também, mas dizer isso pra quem? Estou falando com as minhas vozes. Todas essas colegas de tempos imemoriais, e que, quem sabe?, teria a memória as inventado, como dizendo que "olha, você existiu antes". Mas não, não existiu antes, quiçá nem agora, menos ainda depois.

Voar é abstração, é metáfora também, explicação deveras desnecessária àqueles que têm visão poética. Mas oras, algumas pessoas possuem almas apaixonantes. Filmes reprisados, histórias recontadas. Assuntos demais.

Tudo bem destruir o ar de vez em quando. Tudo bem rasgar o chão e definhar de vez em quando. Mas oras, cuidado com ideologias distorcidas! Cuidado com o estouro da manada! Cuidado com a falta de inimigos, ou mesmo de armas! Não há o que vencer, se não há a quem enfrentar. Como não há o que voar, quando há falta de ar. Como não há o que amar, quando, oras, quando não há.

Voar é uma ideologia também, quando não é natureza. Jimmy diria que "mama, I've gotta try". Não sabe você que todos os heróis já morreram? Em tempos tão opiniáticos, deve-se lembrar que é sempre mais fácil falar do que realizar. Também é fácil falar que é mais fácil falar do que realizar. Difícil é voar. Difícil é aprender a voar sem destruir o ar.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Quero Morrer numa Festa

Odeio essa inquietude e essa angústia, porém não consigo viver sem elas. Acho que é assim que as pessoas são, odiando o que são e o que fazem, mas nunca se livrando disso, porque se livrar disso seria se livrar delas mesmas, e tenho a impressão que isso ninguém quer, ao menos não conscientemente.

O câncer talvez seja a melhor das doenças, pois ele faz com que as pessoas se livrem delas mesmas. O amor é como um câncer, uma deformação nas células, uma mutação, que faz com que elas se multipliquem descontroladamente. O amor talvez seja a melhor das doenças. Ele faz com que as pessoas se livrem delas mesmas, criando universos paralelos de mundos fantásticos, onde a tendência de tudo é dar certo. Repito, tendência.

Mas a paixão platônica talvez seja uma doença ainda pior, ou melhor dependendo do ponto de vista, pois para ela não há remédio. Pensamento polifásico é placebo, projeção do sentimento adquirido na musa é placebo, a própria imaginação é placebo. Mas lindas mesmo são as paixões platônicas que duram algumas horas apenas. Dentro do ônibus as vezes, uma vez por dia. Ou numa festa.

Cachorros de rua estão sempre em festas. Conglomerados de selvageria em meio à selva urbana de civilidade. Agora, quem saberá dizer qual animal é o mais selvagem? Se você levar um cachorro de rua para casa, tratar, dar banho e alimento, cuidar com carinho; não importa, ele vai pular o portão e fugir, cheirar cus por aí e rolar na terra, e por fim pegar sarna. É o que eles fazem, e é o que nós fazemos. Uma vez cachorro de rua, para sempre cachorro de rua.

Na rua também há câncer, e talvez também haja amor... Talvez o próprio câncer ame. Oras, por que não? Talvez ele sinta uma espécie de amor autodestrutivo pelas células que ele mesmo cria, talvez ele até faça isso porque ama demais. Porque, afinal, o amor é de fato uma das melhores doenças. E é também autodestrutivo.

Meu colchão melhorou, o emprego melhorou. Mas melhorar nada mais é do que apenas ficar menos pior. Quem sabe se assim o amor também melhore, ou despiore. E também essa paixão platônica de festa, com uma pitada de câncer. Por isso tudo quero morrer cachorro de rua. Quero morrer numa festa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Vermelho

Vermelho é a cor da discórdia. A maçã que Éris atirou às deusas era vermelha. "À mais bela das deusas". E quem poderia dizer qual delas é a mais bela? Por isso Heitor morreu. E quando os deuses resolvem se intrometer nas contendas dos homens, o que está para acontecer não pode ser menos do que épico.

Ainda vai levar um bom tempo para que se apaguem as manchas vermelhas daquele banheiro, não importa quanto tempo durem essas vidas. Pois que algumas vidas podem durar apenas um respirada. Ou um suspiro. É também a cor da paixão, e se se apaixonar é assim tão difícil, por que definir e escolher uma cor para esse sentimento? Alguns amores podem durar também apenas um suspiro.

E quão terrível pode ser quando os deuses resolvem se intrometer nos amores dos homens? Não acho que eles façam isso, apesar de por vezes eles próprios fazerem parte desses amores. As definições dos níveis de gostar e se apaixonar são como os tons de vermelho. Cinquenta tons de vermelho numa paleta cromática que, na verdade, tende ao infinito. Não que paixão seja infinita, apenas as cores a são.

Não gosto de artigos, por isso meus títulos são sempre um substantivo, ou adjetivo, ainda as transformando em nomes próprios. Acho que todas as palavras têm o direito de, ao menos uma vez na vida, serem um nome próprio. Não é um vermelho, é o vermelho. Todos os amores têm também esse direito. Não é um amor, é o amor.

As linhas são tênues e sinuosas, divisões metafísicas, apenas outra forma de catalogação. Os diferentes tons de vermelho são só subdivisões, e alguém poderia chamar qualquer um deles de laranja. Gostar é só gostar. Paixão e amor são apenas títulos de nobreza, disputados pelos pequeno-burgueses da vida conjugal. Gostar é grande por si só.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Retrospectiva

Nenhum ano que começa com sidra com gosto de vômito dentro do ônibus dirigido por um motorista que buzinava para todas as pessoas na rua, nenhum ano que começa assim pode ser ruim.

E agora é aquela época de todas as retrospectivas, acho essa a maior prova de que o homem ainda deveria estar fazendo fogo batendo pedras. Não dá pra acreditar no potencial de uma criatura que precisa de datas estigmatizadas pra fazer acontecer alguma mudança em suas rôtas vidas. Somos a espécie do “ano que vem eu faço” “ano novo, vida nova”. E as coisas são todas as mesmas tanto em 31 de dezembro quanto em 01 de janeiro, apenas mais um nascer do sol.

Ano de dias épicos, dias de ano épico. Uma época épica. Seriam poucas as linhas para descrever o que de tão intenso existiu, e que ainda existe. Pois que tudo o que vivemos continua lívido enquanto existir lembranças. E a memória é a própria forma de fazer as coisas perdurarem. Além de sua principal função, que é evitar que levemos mais pedradas.

Então, podemos até dizer que retrospectivas são necessárias, para não deixar com que as coisas que existiram deixem de existir. É como escrever uma frase num caderno e guardá-lo em algum canto remoto. Ele um dia será localizado, e aquela frase esquecida deve voltar à vida que um dia teve. E as pessoas precisam realmente botar vírgulas em suas orações para fazer as frases terminarem. Virada de ano é o mais universal dos checkpoints.

É bom observar as fotos, a memória virtual, pois que hoje em dia nem físicas mais as fotos são. Apenas meras representações pictográficas de um momento, digitalizadas em uma espécie de santuário das coisas que não existem de verdade. É bi-virtual. Memória da memória. O que é mais real? A foto, ou momento que ela representa? Ou seria ainda a memória viva daquele momento, e daquela foto? Talvez todos juntos não cheguem a formar uma realidade.

Foram quatro canecos de chopp ganhos; um comboio pra Araucária; piscina de madrugada; danças germânicas de madrugada; um livro; pré-carnavais; amigo punk; a morte e seus amigos; um prêmio estadual; os dois melhores shows com dois dias de diferença; umas maratonas; um videoclipe finalizado porém não concluído; um reset; cama elástica na chuva; sonhos e surrealismo; muito reconhecimento; uma ilha inteira; o Mato Grosso inteiro; madrugadas inteiras; vidas inteiras; e tanto quanto mais eu possa ter esquecido, pois que nem toda memória é assim tão estimulável.

Enfim, no fim, apenas do dia, do ano, ou o que quer que seja. Para que comece de novo, tudo igual, mas tudo novo, com essas representações tão necessárias quanto dispensáveis. Para que ano que vem seja tudo igual, mas tudo diferente. Pra melhor.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Angústia

Ando de bicicleta por aí pra não precisar respirar. Sinto falta de ar a todo momento e não gosto de carros, por isso chego à conclusão que estou dirigindo as máquinas erradas. Se é que a gente nasce pra alguma coisa, nasci pra ser diretor e não motorista.

Eu com a galera.
Hoje sei que a angústia deve ser a pior das doenças, pois mesmo os piores demônios têm medo de morrer. Eu não tenho. Somos cachorro de rua, fedendo na chuva, cheio de pulgas, revirando latas de lixo, se contentando com aquele osso semi-roído, e procurando aqui e acolá um pouco de sarna pra se coçar.

Penso demais, e por pensar demais acabo perdendo demais, acho que a maioria das pessoas é assim, deixam de realizar por ficar cogitando as formas de realizar, deixam de ser por ficarem esperando que sejam; mas tenho a impressão que já disse isso antes. Por pensar demais acabo dizendo coisas vezes demais.

Ainda há que saber o que é o amor. Esse Leviathan assustador, que angustia, faz pensar e tira o ar; que todas as pessoas buscam, e depois fogem dele; ao qual escrevem-se poemas fadados a serem rasgados. Gosto de escrever poemas, desde que alguém goste de lê-los.

Acho que venho fazendo bem em não querer definir o que é o amor. Apenas o pensamento, a angústia e a falta de ar devem ser suficientes. Pois que não é preciso respirar.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vazio

“Eu não te amo mais”, foi o que ela disse, com todas as letras e sem titubear. Não teve coragem de repetir, mas nem precisava, uma única vez era suficiente.

Naquele momento tive a sensação, quase certeza, de que o que ela sentia era desamor, e não falta de amor. Algo como o oposto do sol não ser a lua, pois o oposto do sol é o lado de trás do sol, ou de dentro, depende do ponto de vista. Não vejo como pode se deixar de amar, acredito que ou se ama pra sempre, ou nunca se amou de verdade.

Hoje eu sei que o pior sentimento existente é a falta de sentimentos. Houve épocas em que eu acordava sentindo um leve, porém marcante, gosto de sangue na boca, mas dizem que matar só é difícil da primeira vez. Morrer também deveria ser difícil só da primeira vez, a cada vez que eu morro fica mais difícil.

Quando ela disse aquilo e virou as costas para se afastar num elegante movimento de adeus, algo morreu dentro de mim, e não foi o que eu sentia por ela, porque como disse, talvez eu nunca tenha sentido nada... ao menos não por ela.

No exato primeiro momento de ausência dela, passei a perceber que sua presença talvez não fosse tão importante, e aquilo me surpreendeu no começo. Porém, logo assimilei que outras coisas faltavam também, e eu não sentia mais o cheiro da comida.

A partir desse prelúdio de uma catástrofe anunciada, esses abismos sensoriais se tornaram cada vez mais recorrentes, frequentes, insidiosos e destruidores. Na verdade, formava-se um paradoxo complexo com as minhas emoções, pois quanto menos eu sentia, mais eu sentia o não sentir.

Era uma agonia acachapante, aquela sensação de vazio. Precisamente um vazio intenso e único, que afligia todo o meu viver, a palavra precisa era vazio e vazia, pois seu próprio nome se tornava ausente de significado, e era cada vez mais intrusivo.

Havia dias em que eu acordava me sentindo extremamente bem, havia dias em que acordava simplesmente não me sentindo. Então parei de relacionar esses abscessos à partida dela, parecia mais que era tudo natural e esperado, e que teria acontecido de qualquer forma.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Uma Teoria sobre o Amor e a Física

Escrever essa teoria é uma empreitada arrogante e egoísta de objetivo pouco claro. Porém, a própria vida não tem objetivo tão claro e definido, e tendo em vista que os dois temas a serem aqui explorados são de natureza ainda mais incerta e abstrata, acho então que a própria falta de necessidade da formulação dessa teoria caracteriza a sua necessidade. Dessa forma, aqui veremos como pode, ou deve, ser relacionada a Física com o Amor.

O filósofo austríaco Karl Popper define uma teoria científica como um modelo matemático que descreve e codifica a observação que fizemos. Dessa forma, observamos os dois temas propostos de modo matemático, tirando a característica subjetiva do amor, que o torna tão imprevisível, e aplicando ela à física, que é mais objetiva. Portanto, ambos estarão balanceados de forma a fazer com que o equilíbrio torne a comparação justa.

Assim, começamos pela Teoria do Éter. Acreditava-se que o éter seria uma substância que permeava todo o espaço vazio do universo, serviria como o material condutor da luz. Essa teoria começou a cair em descrédito em fins do século XIX, sendo abandonada de vez após a Relatividade Geral. A comparação a ser feita coloca o amor como uma ‘entidade’ também presente em tudo, completando o universo, existindo em todas as criaturas vivas e não-vivas, conduzindo a luz entre os corpos. Da mesma forma que o éter foi abolido da mentalidade físico-científica mundial, hoje também a maioria das pessoas já não vê o amor como algo onipresente, sendo muito mais freqüente a busca eterna por tal estado de espírito. 

Outra teoria a ser estudada é o Princípio da Incerteza, o qual diz que é impossível saber com precisão a velocidade e a posição de qualquer partícula em um determinado momento, só é possível conhecer um desses dados por vez. Isso porque se conseguíssemos medir as duas grandezas ao mesmo tempo, acabaríamos alterando elas devido à interação necessária para que tal medição seja precisa. No amor é impossível saber com precisão e ao mesmo tempo, os dados relativos aos sentimentos de ambas as pessoas envolvidas em determinado relacionamento, ao ser capaz de mensurar um dos envolvidos, o observador corre o risco de interferir no sentimento do outro em relação ao primeiro. 

Já o Princípio Antrópico funciona no sentido de que não haveria amor se não houvesse uma humanidade para amar. Afinal, sentiriam amor os objetos e as outras coisas? O princípio antrópico diz que tudo o que existe foi desenhado para a existência da humanidade, ou que pelo menos se as coisas fossem minimamente diferentes não seria possível a existência da vida como a conhecemos. Talvez mesmo as menores situações dentro de um relacionamento funcionem no sentido de possibilitar o seu sucesso ou fracasso, no que poderia ser chamado de destino, ou de uma força superior agindo no amor. Ao olhar para trás em um relacionamento poderíamos apontar todas as características que se fossem levemente diferentes impossibilitariam a sua existência. 

A Gravitação Universal diz que todos os corpos possuem uma força de atração, que atua sobre todos os outros corpos existentes, e que é proporcional à sua massa e distâncias entre eles. Assim, todos os corpos do universo manteriam-se em sua órbita constante em virtude dessa força invisível que une todas as coisas, visto que ela agiria como uma espécie de amarra entre os corpos, cada um deles mantendo os outros em suas posições fixas. O amor seria a própria força de gravidade, cada um dos corpos de um relacionamento teria sua própria força de ação, medida pela distância e magnitude dos sentimentos mútuos, e que seria o agente responsável pela união e manutenção da rota entre os corpos físicos a as almas transcendentais de um casal. 

Quanto mais alta a Entropia, menos desordem num determinado sistema, essa teoria explica que a tendência de todas as coisas é evoluir gradativamente até um estado em que tudo esteja estático, em harmonia e perfeição. Essa evolução deve acontecer primordialmente através da troca de calor entre corpos, explicada na termodinâmica, que tende a equilibrar as temperaturas, a partir do momento em que tivéssemos tudo na mesma temperatura, todas as coisas estariam estáticas. Num relacionamento longevo, isso significaria a representação das coisas caminhando rumo à harmonia e calmaria, ultrapassadas as épocas ruins de desordem, acabaria tudo caindo na monotonia da perfeição. Definimos assim que com o passar do tempo a tendência de qualquer sistema, incluindo o amor, é atingir a entropia máxima. 

A teoria da Relatividade Geral revolucionou a física como a conhecemos, ela prevê que a velocidade da luz, apesar de constante, é variável de acordo com o ponto de vista do observador em questão, tornando-se relativa. Da mesma forma acontece quando se trata do amor, pois num relacionamento as coisas boas e ruins que acontecem têm sua velocidade determinada dependendo do ponto de vista das partes envolvidas. Uma das contrapartes pode sentir a relação se deteriorando mais lentamente que a outra parte. Além disso, quanto maior a velocidade, mais energia será usada, tornando a aceleração mais lenta, diminuindo por consequência a velocidade, por isso um relacionamento pode começar e evoluir muito rapidamente, e depois conforme necessita mais energia para mantê-lo, a aceleração diminui e a velocidade também por conseqüência. 

A teoria do Tempo Imaginário Idealizador considera esse um tempo diferente do real que utilizamos e conhecemos, ele cresce com números imaginários e em um ângulo de 90 graus em relação ao tempo real, sendo uma forma de idealizar a realidade. É como dizer que além da forma real com que o amor ou romance se desenvolve, existe também a imaginária, que funciona num vetor diferente e é idealizada de forma a proporcionar uma melhor compreensão quântica da relação. 

Buracos Negros são anamorfias surgidas a partir do colapso de estrelas, possuem massa tão extrema que nem mesmo a luz pode resistir à sua força de atração. Relacionamentos que são belos e intensos como estrelas, possuem massa extrema e tendem a tornar-se buracos negros quando findam, formando uma anamorfia condensadora de massa, e que pode crescer indefinidamente englobando a massa das regiões próximas. Nem mesmo a luz pode escapar à sua força, porém ele emite uma certa radiação por possuir temperatura, como qualquer outro corpo, que seria correspondente ao caso dos relacionamentos ainda acesos, e seus ‘remembers’ recorrentes. Portanto, amores intensos geram anamorfias intensas. 

Chegamos aqui, justamente no fim, à luz das mais importantes correntes teóricas da física contemporânea, e vislumbramos o que pode ser considerada a união comparativa de dois dos mais aclamados e explorados assuntos da humanidade. De um lado, o amor, lírico e poético, das grandes histórias. De outro, a física, com sua busca eterna por explicar a vida e as coisas que a envolvem. Dois assuntos tão distintos, e, como verificamos, tão próximos. 

Há que se desenvolver ainda a tão aguardada TOE, theory of everything, ou teoria de tudo, que busca integrar todas as outras teorias em física. Há ainda muito que se amar e descobrir no amor, tão abstrato e variável que é. Porém, feita a comparação justa, ambos os assuntos deverão sempre ser paralelos, daqui até o fim, quando não houver mais amor nem razão para amar, e quando teoria alguma fizer sentido.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O amor deixa as pessoas mais bonitas

Já há um tempo que eu não a via. Sentado à distância parei para reparar nos detalhes: da pele, do sorriso, do olhar. Que olhar? Nem sequer se cruzaram os olhos. Então os detalhes deixaram de importar, talvez nunca tenham importado e por isso o mundo girou naquele sentido.

O brilho é maior que antes, dizem uns, aquela auto proclamada 'magia' que supostamente todas as coisas deveriam sentir. Emana uma luz mais própria, deixa de refletir o brilho alheio. E isso embeleza.

Outros poderiam dizer que é o próprio autocontrole que promove tal mudança, e para esse bem agem cosméticos e tantos mais. Pois há que se fazer mais belo o que tem para quem ser mostrado.

Ainda a terceira corrente diz que é a simples ação da felicidade, que num ímpeto de glória absoluta cria uma barreira sensível que serve para embelezar a própria aura, melhorando o visível por efeito colateral.

Fato é que o amor deixa as pessoas mais bonitas.