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domingo, 4 de maio de 2014

Refração

Tudo pode ser invisível. Cegueira é apenas ausência de luz. Não quero enxergar! Não me deixem enxergar! A noite, no escuro, quando apenas a Lua brilha, um brilho reflexo, e as estrelas piscam vagamente na profundidade; o mundo nos implora por um pouco mais de tempo para resolver esses problemas que as coisas que orbitam e são orbitadas têm.

Então viajamos, rodamos a noite e à noite. Cortamos auto-estradas, e relembramos o tempo em que estivéramos perdidos. Tempos remotos, vagos como o brilho das estrelas, que nos atingem tantos milhões de anos depois de terem de fato brilhado. Podemos agora mesmo estar perdidos nos canaviais do tempo-espaço. E poeira se levanta, nos atinge internamente, se acomodando nas paredes de nossas fossas nasais, como se aquele fosse seu lugar de direito.

Cortamos auto-estradas de chão batido, de pedras e de pó, em busca de um objetivo, vago ele também. A poeira carrega o ar com um cheiro de bucolismo, de austeridade serena. É noite, é escuro, é poeira. Faróis seguem na direção oposta. E sabemos que nosso vago objetivo diminui ainda mais, cai dentro de si mesmo. Mas seguimos, com os faróis cortando a poeira, representantes de uma fonte luminosa, essa sim invisível.

Os faróis não param de vir. Cortam a poeira, difusam, divergem, refratam. Nos atingem através das nuvens de pó que pairam sobre a auto-estrada, nesse escuro entremeado de luzes. Iluminando a poeira, e nada mais. Como diria um autor, para epílogo de breve relato: O que tiver luz não me pertence.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Prólogo

A Lua. Essa criatura onisciente. Espectadora pacífica de tudo o que acontece nesse pequeno planeta azul. Com seu distanciamento que a permite visualizar vastas extensões de terras e mares, repletas de coisas vivas e não-vivas.

A Lua. Criatura de face exposta. Apenas uma sempre, é verdade, a outra eternamente escondida de nossos olhos curiosos e imaginativos. Um lado escuro, o outro iluminado.

A Lua. Iluminada e iluminando. Com seu brilho dividido. Parcelado. Em fases. Algumas mais iluminadas, outras menos. Nova, crescente, cheia, minguante. E então novamente o mesmo ciclo, as mesmas fases, o mesmo percurso no céu. O mesmo brilho.

O brilho. Qual brilho é natural? Qual brilho é original? A luz só existe porque existem os olhos para enxergar. Uma superfície que não produz luz reflete luz. A superfície absorve luz e reflete uma parte. A superfície da Lua reflete luz.

A luz. Quem produz sua própria luz brilha mais. Fontes de luz que ofuscam brilhos menores. Que cegam, que maltratam os olhos. São grandezas relativas. A Lua reflete mais luz do que produz.

A Lua. Mero reflexo de fontes de luz mais intensas. Daquelas que cegam. Um brilho parcial, reduzido. Refletido. Ainda assim, luz. Brilho. Ainda assim, ilumina e é iluminada. Ainda assim, Lua.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Vaga-lúmens

‎- Será que dá pra fotografar os vaga-lúmens?
- Com uma boa câmera, e abertura de lente e tudo mais, talvez dê.
- Vou tentar com essa mesmo.
- Mas desliga o flash, ele tá perturbando os bichinhos.
- Sem flash não vejo eles, só aparecem dois pontinhos luminosos no fundo preto.
- Então tira foto das estrelas e diz que é vaga-lúmen, que no fim é a mesma coisa.
- São diferentes.
*flash*
- Mas dá pra enganar as pessoas, dizendo que na foto dos vaga-lúmens são estrelas, e que a das estrelas são vaga-lúmens.
- Mas quem me garante que aqueles não são mesmo os vaga-lúmens, e essas aqui embaixo as estrelas? As coisas só tem os nomes que damos a elas.
- Você sabia que boa parte das estrelas que nós vemos já nem existem mais?
- Se você apagar a luz vai dar pra ver melhor os vaga-lúmens no quintal lá atrás.
- Eu prefiro olhar os vaga-lúmens lá de cima.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Light


Esse é pra ser um trecho de um projeto que tenho com o Ever e o Dom Quixote de uma ópera rock que pretendemos compor e produzir algum dia ainda:

Isso não é uma carta
É uma história de uma luz que se apagou
De uma sombra muito forte
De uma história sem final
Nada mais justo
Que escrever nunca fez mal
Isso é apenas um relato
Do que foi e ainda será
Sem luz tudo é escuridão
Sombra é parte da luz
E essa história aqui acaba
Ao fim da folha da carta
Que nunca chegou a ser carta
Como essa sombra nunca foi luz