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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Uma Crônica Lírica de Escárnio e Dor

En los abismos de los años transcurridos
Me quedé a vivir peligrosamente
La sangre no me basta
La muerte no me vence

Qual dor dói mais: a das navalhas lacerando a alma, das lâminas afiadas, o aço pontiagudo, giletes incisivas adentrando profundamente essa alma? Ou a porrada na cara, o sangue que verte, a marca arroxeada que não vai passar, o tiro de bala de borracha? A corrente elétrica passando pelas células nervosas para avisar o cérebro de que algo está muito errado, ou o aperto no peito e a vontade retumbante de gritar loucamente?

Já me acostumei há muito tempo a sentir os objetos cortantes invadindo esse lugar abstrato que se encontra dentro de todos nós, mas ninguém sabe exatamente onde fica. Já me acostumei também a ver o meu sangue fluindo, e com isso o conheço muito bem.

Nossa essência não é formada de uma coisa só, somos corpo e alma, e somos ainda mais. Não há como saber qual das dores é mais poderosa, qual incomoda mais e afeta mais a outra parte. E em alguns casos, pode até haver uma conexão entre as dores, mas no geral uma delas sempre dói mais.

A dor que sinto é estimulante. Uma vida é paródia da outra, vivemos em círculo. Somos paródias de nós mesmos. Uma dor é consequência da outra. Elas vêm em círculo também. Ah se meu corpo pudesse gritar! Ah se a minha alma pudesse sangrar!

terça-feira, 17 de março de 2015

Almas Pulsantes

Se a vida fosse mesmo uma grande festa (e já disse que quero morrer em uma delas, mesmo sabendo que ninguém morre de vodka, morre-se de amores e de terrores, nunca de vodka), e de festa se vive; se assim a vida fosse, a maior festa de todos os tempos, seríamos criaturas mais dançantes. Bailaríamos com a vida, a tiraríamos para dançar.

Senhora vida, conceda-me o prazer desta dança, ou dançarei com a morte.

Somos criaturas pouco práticas, caminhamos em direção ao Sol, mas não vivemos de extremismos, de extremismos é que se morre. Ficamos parados esperando que a vida nos tire para dançar. Aí então dançamos com a morte.

Mas nem todos. Não, nem todos mesmo! Há aquelas almas pulsantes. Há uma gente maluca de toda sorte, que dança com a vida, e baila além da morte.

Como as dançarinas da alma, que bailam ao som do palpitar dos corações ao seu redor. Como os bailarinos que giram. Como as dançarinas que pairam. Como as rainhas e as musas e as deusas. Como gente que nem mesmo sabe dançar, mas quem foi que disse que saber é preciso?, ninguém também nasce sabendo como se vive, e, no entanto, vivemos. Vivemos muito mais do que morremos.

Gosto mesmo é dessas almas pulsantes. Das que me tiram para dançar, e das que nunca recusam a minha dança, quaisquer que sejam os caminhares desses nossos pés malucos. Quaisquer que sejam as vielas da vida, com palco, sem palco, tablado, na rua ou na praça. Quero que a vida seja de mais festas, de mais gente maluca, que aceita o dançar e as suas consequências. Quero mais almas pulsantes.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Aparando Arestas

Ou Tirando Rebarbas, também seria um título condizente. Sou péssimo com títulos, nunca sei o que colocar nas letras que pairam acima do resto dos textos. Mas sei que neles odeio artigos, procuro evitá-los sempre. Me utilizo de substantivos, adjetivos, verbos, palavras unas enfim. Artigos são limitantes, denunciantes, rotulantes, o, a, os, as, e todos os mais.

É sempre muito difícil dizer precisamente o que se sente, com todas as palavras corretas. Você tenta uma aliteração, e ela sai parecendo uma metonímia. E todos os teus eufemismos parecem hipérboles. É difícil definir o que são as coisas, o que são os sentimentos, quando eles nada mais são do que aquilo que simplesmente não pode ser definido.

E se tudo o que deixamos de dizer por não poder fazê-lo, ou por ser difícil demais (no fim das contas, eu odeio a palavra 'difícil', ela é nada sonora e ainda difícil de escrever, e sendo difícil de escrever ela é uma das poucas palavras que é o seu próprio significado). Mas se, enfim, todas as coisas que nunca dizemos, acabassem se acumulando em pitorescas caixinhas imaginárias, como relicários intocados, e não intocados por estarem muito bem escondidos, mas apenas por não existirem. Se lá se acumulassem para que um dia fossem ditas, assim, de supetão?

Se pudéssemos escolher o momento apropriado para tocar a alma das pessoas? Ou para destruí-las, oras, pois que é sempre uma opção... E esse momento não precisa ser apropriado, ele apenas deve acontecer. Em tempos hipermodernos, em que falamos do tamanho das almas, e de seus conteúdos ou falta dele, e logo depois falamos de cartões que por aí já estão voando; temos métodos para isso. E nossos métodos são a protelação, o deixar para depois. Mesmo o falar sendo tão importante.

Dessa forma, acredito que deve haver um momento na vida de cada sujeito, no qual ele deve parar e aparar algumas arestas. Acredito também que há sempre um momento na vida de cada sujeito, no qual ele sabe que a morte de fato chegou e não tem mais volta. Ele pode saber isso com uma grande antecedência, ou apenas milésimos de segundo antes. Se a antecedência assim permitir, essa então deve ser a hora de tirar algumas rebarbas.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Tamanho da Alma

Tenho a impressão de estar sobrando cada vez mais espaço no interior dessa alma. Talvez ela esteja mesmo aumentando de tamanho, sem se preocupar em elevar o conteúdo. Ou talvez ela esteja simplesmente esvaziando, como uma piscina de quintal - naqueles tons azuis falhos imitadores de oceanos, mas com rosto, cheiro e até mesmo gosto de infância, - contendo um furo imperceptível, o qual nunca conseguimos remendar.

Acredito sermos do tamanho daquilo que carregamos conosco. Do tamanho de nossas bagagens. De nossas angústias, medos, anseios, vontades, culpas, resoluções, e tantos quantos mais substantivos masculinos e femininos, próprios e impróprios, sejam possíveis enumerar. Somos do tamanho de tudo isso.

Pelo peso, tentamos uma vez medir, tentamos uma vez delimitar em convenções humanas. Vinte e um gramas foi o resultado, deveras uma brisa, apenas categoria peso pena nas contendas universais pela vida ou pela morte. Em morte, vinte e um gramas a menos. E uma alma mais à deriva, sem nenhum recipiente a ocupar.

Mas em que tamanho estão espalhados esses vinte e um gramas? Assim, é necessário avaliar qual seria a densidade demográfica da alma. E cogitar também se podemos alimentá-la, melhorando assim sua performance perante os pesados fardos da vida. Forrando o espaço vazio, como forramos nossos sistemas digestórios; como forramos nossas horas com tarefas; como forramos nossas vidas de momentos sequenciais, que buscam todos meramente forrar o vazio de nossas almas.

Para medir o tamanho de nossas almas, não devemos medir por tudo o que tem dentro dela. Mas sim, devemos medir pelo tanto de coisas que ainda cabem. Por tudo o que ainda falta, e pelos substantivos ainda não utilizados. Não se pesa em corpo morto, porque mesmo que se acerte o peso, ela não está mais ali. Se pesa em corpo vivo, em tudo o que fazemos e vivemos. Pois que a alma.. a alma pode ser infinita se assim ela quiser. O desafio é preenchê-la.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Ponto de Vista de um Evento Epopeico por um Pacote de Bolachas

E toda essa pose de rockstar? Tudo fuleirice... Nada além de uma imagem que se queira passar, um personagem, algo que nem existe. Carregando sacola, a roupa do corpo e a necessidade apenas. Por que essa gente precisa de tanta coisa? Eles precisam de tudo o que possa preencher o vazio de suas almas. E é assim que as coisas andam.

Ouvi dizer que haveria companhias. Assento vazio ao lado, frigobar vazio ao fundo. Oras, não exatamente vazio, mas tenho a impressão de que está vazio tudo o que não está cheio. Não existe meio termo, todo e qualquer espaço que se cria é um vazio. Talvez a alma daquelas pessoas esteja apenas com um pequeno espaço vago, mas assim e por isso mesmo, estão vazias.

Uma parada em local desconhecido, em terreno obscuro. Mas se bem que pra quem nunca foi muito além de linhas de montagem de embalagens, caixas acomodados em locais húmidos, prateleiras inconstantes e armários complexos, qualquer lugar se torna um terreno obscuro.

Capa para chapinha e progressiva. Chuva anunciada e programada, pois que não é chuva aquela que não vem para dificultar alguma coisa. Oras, mal sabem os seres de alma vazia que quanto mais ela te molha, mais bem ela te faz. Não precisamos, apenas um pedaço de plástico semi-verde para mim, e uma capa transparente que deixaria os pés de fora para quem me acompanha.

Fila, infinita, desconexa, inconstante ela também. Sabe-se lá em que a criatura humana se baseou para criar a necessidade da fila, de organizar as possíveis balbúrdias causadas por excesso de pessoas buscando o mesmo objetivo. Imaginemos uma ampulheta cujos grãos de areia se organizassem em fila, esperando sua legítima vez de passar pelo mínimo espaço contador do tempo. Havia pessoas jogando baralho, passando desodorante, passando por nós e jogando com a própria liberdade.

Enfim, o som, a magia das notas, aquilo que por tantas vezes foi dito não poder viver-se sem. Durante duas horas o chão nunca pareceu tão longe, perto, longe, perto. Ainda luzes para todos os lados, infinitas estrelas nas proporções de um estádio. Brilhando e iluminando nossas almas por vezes vazias. Sessenta mil almas. Pacotes de bolacha também têm almas?

No fim, uma procissão de almas molhadas, revigoradas, precisas em suas precisões. Caminhando a esmo, para onde quer que estejam indo. Não faz mais diferença alguma. Tudo o que passamos foi vívido por si só, e essas dezenas de carrinhos de cachorro quente nunca poderiam entender. Destinos é tudo o que temos, a todo o tempo, estamos apenas chegando a um lugar que vai nos dizer onde temos que chegar. E assim fomos, e assim estamos, de volta. Aonde quer que seja a volta, mesmo que no armário, pelo menos por enquanto.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Feliz da Barata

Éramos três homens de terno desfilando pelas cidades em um veículo amarelo. Temos o costume de conjugar o início de nossas histórias no passado, sempre "éramos" ou "era" ou "foi", não sei o porquê de fazermos isso sendo que as histórias continuam sempre. O certo seria Somos três homens de terno desfilando pelas cidades em um veículo amarelo.

E é isso mesmo o que somos, fomos e éramos, e ainda seremos enquanto o mundo for mundo, apenas por termos sido uma vez. Até porque existem fotografias nas quais estamos eternizados, de terno preto diante de um veículo amarelo. Imagina se usássemos óculos escuros, pareceríamos a máfia. Entra uma garota no carro, namorada de um de nós. Vestido preto com rendas e bordados, um sapato delicado de donzela. E ela desfila com os três homens de terno preto em um veículo amarelo.

Nessa tarde, celebramos a vida e as vidas, as idas e vindas e a união das vidas e das vindas. Agora há um casal que ruma para o Rio Grande do Sul, ou já deve até estar lá enquanto alguém (quicá você) lê esse determinado relato. O casal não usava terno, usavam amor, vestiam-se de amor da cabeça aos pés, e também desfilaram no veículo amarelo. Um casal que é amor desde sempre, e continuará sendo enquanto o mundo for mundo.

Após uma tarde de amores, ternos e veículos amarelos, algumas vezes usamos plural/plurais demais, a palavra plural também tem plural. Assim, no singular e acompanhado de plurais, cada homem de terno seguiu seu rumo em direção à noite. Desembarquei no local onde a maioria das almas desgarradas se unem, se juntam, acoplam. E lá estivemos, agora apenas eu de terno, às margens do caos, vivendo a própria ordem.

Acendo um cigarro. Não, acendem por mim, a fumaça se une a todas as outras fumaças. Juro pra você que é apenas neblina, termina o teu lanche, temos só até as dez, garota. Idas e vindas, muitas pessoas conhecidas, outras tantas desconhecidas. Mas essas almas desgarradas já sabem que esse lugar é propício para isso.

Encontro a quase-atriz, que não o foi por doença. O ex-amigo que ainda é amigo porque, oras, amizades não podem ser deixadas assim. Amigo uma vez é amigo sempre, mesmo que não o seja em tempo verbal presente. Somos três homens de terno, assim como, sim, ainda são amigos. Encontro também o trio maravilhoso, dançarinas da alma, as garotas mulheres que bailam ao som do palpitar dos corações ao seu redor. Encontro a musa das alternatividades, que em breve se destina ao litoral, talvez cansada da austeridade demagoga do universo inteiro.

Todas essas pessoas se conhecem e se desconhecem. Por fim, ainda de terno, sem veículo amarelo, e sem tantas outras coisas que me fazem alguma ausência no meio de tanta sobra, já no limiar da noite. Nessa hora, encontro a atriz que sim, ela sim é atriz, e é tanto quanto mais lhe possa caber em estatura diminuta, porém de um coração imenso, de mãe também.

Observamos quando um carro se aproxima. E pensávamos, ainda pensamos, que a noite não tinha ideias de piorar. A noite sempre arranja uma forma de piorar. Mas observamos a barata, eu pensava em um filme que vi outrora onde um escorpião iniciava a película e terminava a vida sob um pneu de um carro na estrada. A atriz, revelou-me depois, pensava em situação semelhante. Então, ainda agora, passa um pneu de um carro esmagando a barata, ceifando-lhe a vida, espalhando seus líquidos corpóreos pelo asfalto gelado.

Rimos. Era o que nos restava, é o que nos resta. Fim de noite, no lugar onde as almas desgarradas se encontram, onde os amores se acoplam, onde todos se conhecem e se desconhecem, onde tudo é plural e singular. Início de manhã, o ônibus chega. Feliz da barata.