Mostrando postagens com marcador viagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viagem. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Invenção da Emoção

Cantar que é longa a estrada da vida deixou de ser belo e encantador para se tornar risível. Foi em outros tempos poético, hoje é considerado cafona. Não que a estrada da vida tenha se encurtado. Pelo contrário, ela está sempre crescendo, sendo pavimentados novos caminhos nessa rodovia do sempre. A expectativa de vida aumenta até para aqueles que veem mais beleza na imensidão desses vastos campos à esquerda e à direita, do que na longa e estafante viagem pela frente.

Somos o mal do século da geração perdida desta geração.

Creio que em algum ponto da rota, me desviei do meu caminho. Peguei o atalho errado para lugar nenhum. Revejo agora filmes que nunca deveria ter assistido. Reouço músicas que sequer deveriam ter sido compostas. Viajo por estradas nas quais os outdoors de propaganda se repetem infinitamente, passando a mesma mensagem para os mesmos passantes.

Somos a metástase lancinante deste imenso Jack que atende também por Gaia.

Sabemos que a humanidade inventou a emoção logo após o advento da revolução industrial. E, mesmo assim, ainda demorou muito para a aplicar. Provavelmente ela só se tornou palpável no século XX. Antes, era condenável sentir, era passível de punição. Negávamos nossa natureza de ser sensível, que se arrepia ao toque. Ainda vivemos sob o jugo da produção, mas somos um pouco mais livres para amar de tudo.

Somos a flamejante rocha espacial extinguindo estes dinossauros bípedes e pensantes do antropoceno.

Nosso caminho não está pré-determinado. Toda bifurcação é escolha nossa e de mais ninguém. Fazer a volta, ou colocar a marcha à ré, e retomar alguma estrada vicinal para acertar o caminho não faz mal a ninguém. Não é derrota. Mas precisamos compreender que o fim da estrada permanece o mesmo. Ainda que possamos encurtá-la...

Somos muito mais do que não somos.

terça-feira, 6 de junho de 2017

O Velho Chico que me Perdoe...

... mas eu prefiro o meu Paranazão, sobre o qual já falei também. São Francisco, patrono dos animais e do meio ambiente, que, de acordo com palavras de Dante, foi a "luz que brilhou sobre o mundo". Rio com nome de santo milagroso. Não ser meu preferido não diminui o brilho do rio mais querido do país, brilho do sol do sertão fustigante refletido em suas águas poderosas.

É que o meu Paranazão tem comigo identificação quase genética. Nasci e cresci às suas margens. Moro à beira de seu principal afluente. Já olhei até para a sua foz. Olhando-o de cima, me despeço do Velho Chico, deixando-o para seus devotos, mas com um sentimento de que de bom grado eu rezaria para ele também.

E se nuvens são montanhas no céu, rios em pleno sertão muitas vezes são a chuva do chão, a única água que se tem. Por outro lado, em outras paragens, a chuva quando vem deságua em aguaceiros desregrados, leva tudo em lama, e lava pouca ou nenhuma alma. Chuva no sertão é cais de porto inalcançável, é luz de farol na neblina impenetrável.

A luz chamuscante do farol do pitador, desponta o cigarro como fator sociabilizante, com sua luz também atrativa. Na simples conversa, papo de rodoviária, motivada pelo fumo, o sorriso no rosto interiorano carregado de rugas, marcado pelo sol e pela difícil lida de anos puxando todo quanto é tipo de fardo. Há beleza nas pequenas coisas. Se tantas vezes te falaram isso, por que ainda não reparastes?

A mão que faz pequenas coisas, objetos mínimos de uma fluidez artística impressionante, é a mesma mão que levanta casinhas de taipa moldadas com esse mesmo barro, ao lado das quais constroem-se templos. Assim se dá que também a religiosidade de um povo é diretamente proporcional à sua pobreza e falta de infraestrutura.

Há templos e templos. Em um hostel, você nunca conhece alguém de verdade, conhece apenas a versão viajante descolado de cada pessoa. Todo mundo, mais ainda do que no restante dos dias e do mundo, é uma máscara. Viajar é um privilégio, não pertinente à vida sofrida do sertanejo ou do agrestino, que quando viaja é por obrigação. E aí recebe o nome de retirante: viajante nunca.

Não devo sequer me atentar aos aspectos da lombra, da buchada de bode, da primeira igreja do Brasil, ou da fitinha do Senhor do Bonfim. Há coisas que não podem ser lidas ou contadas, precisam ser vistas e ouvidas. Pessoalmente, cada um por sua conta. Em histórias individuais ou coletivas. Após 14 horas rodadas dentro de um ônibus que para em cada cidadezinha esquecida pelo mesmo Deus que deu ao mundo o Francisco que virou santo e depois virou o rio que margeia essas mesmas cidades.

É preciso ir, e trazer de volta o que puder. Mas só trazer coisas que não possam ser removidas, coisas que quando compartilhadas permanecem com ambos os quinhoeiros. Talvez seja até preciso pedir perdão, mesmo que o ofendido nem se sinta como tal, e o perdão se torne vago e desnecessário, ainda que sincero. É preciso entender que de sotaques diferentes se constrói um mundo só. E que cada canto desse mundo tem um pouquinho do Nordeste brasileiro.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Cada Marinheiro tem seu Próprio Ritual

Eu não sei como conduzir este texto. Seria fácil fazer um resumo da semana vivida na estrada recentemente utilizando apenas palavras-chave como: sapo, trem, quatro elementos, anão, butuca, piscina, acampamento, jaguatirica, areia, sol, trilha, caminhada, mochila, guia, camarão, rio, etc., e assim por diante. Fico pensando em como cada decisão textual empregada aqui pode mudar o rumo das coisas, a compreensão e o impacto dessas histórias.

Diversas teorias discordam sobre como funcionaria a viagem no tempo, se é que ela funcionaria. Mesmo assim, em um aspecto parece haver uma certa concordância, que é no principal problema que seria ocasionado pela possibilidade de se transitar pelo tempo: os ripples.

Ripples são ondulações, aquelas ondinhas causadas em uma superfície líquida pelo impacto de uma pedra ou pelo movimento de um animal. Em viagem no tempo, ripples são as consequências geradas por uma alteração no fluxo temporal. Um fator, por menor que seja, pode causar mudanças gigantescas no futuro. É a história do bater de asas da borboleta, do ônibus que você perdeu porque derramou café na própria camisa e precisou trocar, da decisão tomada em uma bifurcação.

Todas as nossas atitudes geram consequências em todos os prazos. E consequências que geram consequências. Assim, sempre nos perguntamos o que teria acontecido se o caminho fosse diferente. Eu já quis ser marinheiro. Provavelmente ainda quero. Aquilo de me ver cercado por quatro horizontes líquidos, sem terra, sem porto seguro para onde se olhe. Não sei como seria hoje a minha vida se marinheiro eu fosse, não sei em quais litorais eu estaria.

Fato é que ninguém pode compreender melhor as histórias do que quem as viveu. O ritual deste marinheiro para produzir este texto é diferente do ritual deste marinheiro para pegar a estrada, assim como para viver. Cada um dobra as meias como lhe convém, estende a toalha ao sol como lhe cabe, limpa os pés da areia como lhe interessa.

Lá, vimos ripples para onde olhássemos. Nesses pequenos rituais diários. Veremos ripples ainda como consequências daqueles dias, de como aquilo mudou quem esteve lá. Gostaria de poder exprimir tudo que senti na virada de ano, nesse grande ritual coletivo, naquele momento incrível daquela semana incrível vivido e proporcionado por pessoas incríveis, mas não sou capaz por meio desses rituais ou de qualquer outro.

Essas águas irão nos acompanhar até o fim de nossa viagem, ouvimos isso logo no começo dela. E nos acompanharam mesmo, tanto que no fim dessa viagem, oferendei meu chapéu a Poseidon. Espero que ele aceite, espero que ele goste de chapéus.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Intensidade

Ontem, chorei. O que, sendo uma criatura da água, é extremamente comum e natural. Por aqui, o sentimento verte líquido sempre. Desce rolando pelas faces, vindo de bolsões d'água escondidos junto da porta escancarada da alma, que se abre ainda mais com a força dessas águas levemente salgadas.

Essas lágrimas que desceram não estavam ali por excesso de tristeza ou melancolia, não naquele momento, embora boa parte das vezes em que o sentimento verta líquido sejam essas as fontes de sua fluência. As águas desceram alegres, como no experimento em que alguém descobriu existirem moléculas felizes e moléculas tristes.

Mesmo assim, a melancolia estava lá, como uma música de fundo, o som ambiente. Na verdade mesmo, ela nunca me deixa, é como o cantar dos passarinhos pela manhã, o barulho dos carros ao longo do dia e o frenesi sonoro dos grilos à noite, ou seja, é um som que sempre esteve lá e sempre estará.

Nos últimos dias, estive diante do mar. Preciso estar diante de Poseidon frequentemente, diante de Iemanjá, de Nereu, Sedna, Ulmo, Netuno, Aegir, e de todos os outros seres que ali vivem e governam. Lá, cogitei a essência da existência física do mar: seria ele uma única criatura, composta por todas as águas do planeta como um único corpo?, ou seria a junção das várias e praticamente infinitas gotas d'água e criaturas que o compõe e o habitam?. Não tive coragem de cogitar sobre a essência de sua existência metafísica.

Qual a essência da nossa existência física? Somos nosso corpo fechado dentro de si, isolado dos outros corpos? Ou somos a junção de todas as pessoas que nos importam e fazem a mais incrível diferença em nossas vidas? Somos uma gota d'água ou somos um oceano inteiro? Lá, diante do mar, eu me sentia todos os outros. Sentia-me as pessoas que estavam lá comigo, criaturas maravilhosas de brilho em essência. Todos de existência individual, mas que em coletivo formávamos um oceano imenso e intenso.

Por fim, eu quero explodir de tanta existência! Não cabe mais dentro de mim o acúmulo de tanta intensidade. Só quero para a minha vida gotas d´água que sejam comigo oceano, só quero o que seja intenso, vívido. Quero mais desses momento que dilaceram minha alma de tanta alegria. Ontem, chorei. O sentimento líquido levemente salgado procurava o oceano, procurava esses últimos dias, em que vivi com a intensidade que só pessoas-oceano podem proporcionar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

En El Uruguay, La Gente Está Muy Loca

Choveu miseravelmente durante os dois dias em que estive em Ponta do Diabo. A Ponta do Diabo é o que os uruguaios chamam de Punta del Diablo. Gosto dessa tradução porque parece que estamos falando da pica cabeçuda e veiúda do próprio Diabo. Outro dia, fiquei sabendo que todo pinto é diferente. Cada qual tem as suas especificidades muito características. Como uma impressão digital, não existem duas picas iguais. E também não há duas bucetas iguais.

Parei para imaginar se Deus limpava a bunda direitinho. Acho que quando você é Deus não deve ter muito tempo para ficar limpando o rabo minunciosamente, esfregando o papel higiênico em cada ranhura do cu à procura de algum resquício de bosta. Provavelmente ele apenas dê uma limpada geral e deixe para resolver o resto da situação mais tarde, no banho. Mas isso é apenas uma conjectura. Afinal, ninguém deseja sofrer as consequências a longo prazo por não ter limpado o rabo durante a vida.

Ficou chovendo durante os dois dias em que estivemos lá. Era um tempo fechado, sem a menor intenção de melhorar. Na verdade, não ficamos dois dias, foi uma noite cercada por um final de tarde e um início de manhã.

Mesmo com esse problema climático, o lugar estava ótimo, a bebida era barata e consegui, na nossa última noite no estrangeiro, deixar meu suco gástrico naquele país. Passei a madrugada vomitando a tequila que bebemos. Ali, estabeleci a meta de não vomitar mais do que uma vez por mês ao longo dos próximos anos. Chega uma hora em que um sujeito cansa de ver os seus restos alimentares interiores se estrebuchando e saindo por onde deveriam entrar.

***

Alguns dias antes, acabávamos de cruzar a fronteira. Acho um absurdo que as pessoas construam aduanas e proíbam as outras pessoas de atravessá-las simplesmente por terem estado a vida toda delas do outro lado. Como se as pessoas dali não cagassem também.

Carimbam papéis, atestam documentos, olham para a tua cara suja e cansada a verificar se aquela foto ali é você mesmo. Se eu fosse um ladrão de identidades, um falsificador ideológico, a última pessoa com quem eu me pareceria seria eu mesmo.

Em último caso, até aceitam uma propina. Pedem, muitas vezes. É possível comprar qualquer sujeito, todos têm seu preço, não importa a moeda corrente: dólar, peso ou real. “Só não aceitamos o euro, o que eu faria com essa porcaria?”.

Compraria uma pessoa, eis o que eu faria. Pronto!, agora você é meu, atravesse a fronteira e grite que são todos uns pendejos. Cumpram minhas ordens e todos serão poupados. Talvez Deus tenha até bicho carpinteiro, só assim para que ele tenha essas ideias.

No final das contas eram todos uns pendejos e umas pendejas mesmo. Atravessamos diversas fronteiras, a maioria delas municipais ou estaduais. Mas quando foi preciso confrontar nação contra nação, duas vezes correu tudo bem, apesar de que na primeira nem sabíamos o que viria a ocorrer em qualquer das possibilidades; ninguém nos parou. Na terceira vez deu tudo errado. Pouco importa: en el Uruguay, la gente continuaba muy loca.

***

É preciso prestar mais atenção quando não se está em território conhecido. Todos acabam sendo vítimas; ao menos acreditam que são. Todos são bandidos também. Há um pequeno assassino preso em cada mente, matando o nosso tempo. Quando se está no estrangeiro, não há também que se perder tempo.

Mas há que se tirar um tempo para dormir. Os carros do outro lado da rodovia nunca sabem quem sofre mais, todos são a maior vítima do mundo e os outros motoristas, esses sim, são uns pendejos. Mas se ninguém errasse, ninguém morreria. Oras, todo mundo precisa de um saco de pancadas, só evitem as colisões frontais. Evitamos todas elas, e cá estamos: vivos.

Nas rodovias, revoltosos. Nas ruas, os malucos. “Esto habla dos idiomas: español y mierda!”. Pelos vistos, por quase comprovação empírica de estudo social de massas, essa é uma situação recorrente.

Distribuímos cigarros e visitamos um cassino. Não daqueles suntuosos templos de adoração jogatinesca, onde o Diabo certamente ficaria de pau duro. Apenas um casarão com tapete empoeirado e máquinas programadas para tirar as moedas de velhos e velhas claramente desacorçoados com a vida que levaram. Suas caras sujas e cansadas dariam a entender que foram expulsos de todas as fronteiras que já tentaram atravessar nessa vida.

Ao contrário do que todos pensam, é preciso muita coragem para se tornar um velho que desistiu de tudo. Há poesia também na derrota.

***

As pessoas falavam diversos idiomas, e, quase sem exceção, todos se entendiam. Há algumas línguas que são universais. O querer se comunicar é uma delas. Conheci muita gente que estudou comunicação durante anos e ainda não aprendeu a falar. Balbuciam monossílabos manhosamente, na esperança de conseguir aquilo pelo que ainda não têm capacidade de lutar.

Na Província Cisplatina, conheci muita gente que nunca esteve em uma aula sequer relacionada à comunicação, mas é capaz de humilhar comunicacionalmente qualquer um. O meio e a mensagem que ardam nas chamas do inferno, a comunicação se dá entre seres humanos, e disso não há teoria que dê conta. Na verdade, essa parte do texto devo certamente suprimir na versão final. Não se fala de comunicação a comunicadores, são todos uns traumatizados.

Entre filhos da puta, pendejos, cabrónes, assholes, schwanzlutschers e ainda outros mais, acabamos globalizando um pouco mais o nosso léxico de pessoas.

É como se as pessoas pudessem ser colocadas também em um dicionário. Claro que não seria simples defini-las, mas elas viriam com o nome de batismo civil, classe gramatical a que pertence (diferente da definição de gênero, vejam bem, verbo nenhum é feminino ou masculino), e uma ou mais breves definições, resumidamente. Haveria também um exemplo de aplicação na frase. É sempre possível aprender uma pessoa nova.

Aprendemos um dicionário inteiro de pessoas nas estradas. Praticamente um desses idiomas modernos, as pontas dos galhos nas árvores pictóricas que começam lá na Torre de Babel, e são formados por um pouco de cada outro idioma. A globalização está aí para isso.

Conta uma antiga lenda que um dia Deus e o Diabo se encontraram para jogar uma partida de Batalha Naval. O Diabo resolveu tirar um sarro de Deus e inventou um novo idioma para confundir seu adversário durante o jogo. Cada vez que o Coisa-Ruim ia escolher uma coordenada para lançar sua bomba, falava uma coisa ainda mais sem sentido do que a anterior. O Todo-Poderoso começou a ficar muito puto e jogou a brincadeira para o alto, mandando tudo à merda. Talvez o Cão até estivesse tentando provar alguma coisa sobre a Ira e aquela baboseira toda, mas o fato é que ficaram sem se falar por mais alguns séculos.

Na verdade, acabo de inventar essa lenda. Quem não gostou, que pare a leitura agora e vá para o Diabo que o carregue. Ou para Deus.

***

Quando arranjamos confusão lá, ninguém entendeu. Provavelmente porque brigávamos em português. A garçonete queria derramar café em todo mundo; é o sonho de toda garçonete antes deslumbrada e hoje frustrada. A vida não vai para frente pra ninguém. E nem adiantava pedir a ajuda divina, Deus estava cagando. Espero que ele tenha limpado a bunda dessa vez.

Saímos de lá sem pagar, não que isso nos orgulhe, mas precisava ser feito. Um cognato que em português é substantivo, em espanhol vira verbo fica muito difícil de traduzir, e de calcular também. Cambiar é uma coisa difícil. Não que isso nos orgulhe, mas há festas e festas.

Em outra, subimos em cima das mesas. A calçada estava tomada. A rua também. A particularidade acústica da região histórica nos fez acreditar que acontecia uma balada no teatro, o que seria a festa mais louca desde quando os monarcas celebravam sua falta do que fazer com prodigiosas orgias nos palácios reais.

De qualquer forma, insanidade não faltou. Minha imaginação esteve em Ibiza, ou naquelas outras praias mediterrâneas ao sul da França e da Espanha, onde as pessoas dançam. Era uma calle pequena, cheia de gente, com uma música frenética ricocheteando nos prédios antigos, com as pessoas atirando a mais variada quantidade de líquidos distintos e indistinguíveis nas outras. É possível que tenha sido incluído nos ares até uma boa porção de dejetos humanos.

Saindo dali, algumas horas mais tarde, controversamente precisamos da ajuda da Virgem Maria. Certamente naquela festa não havia nada de Virgem, nem mesmo a ascendência astrológica, e a mãe do filho de Deus devia estar assustada e bem longe de lá. Mas quando clamamos por ela, a santa não nos abandonou à nossa destemperança alucinógena. Oras, o que nos é oferecido, é aceito. Mas acho que quando ela nos indicou o caminho, até mesmo o Diabo ficou feliz. “Ufa! Desses aí eu gosto”.

***

Todo mundo quer foder. Essa é outra língua universal. Todas as pessoas querem acabar a noite acabadas. Mas não há muito que ficar falando da foda alheia. Exceto, talvez, que torcemos para que algumas pessoas tenham um tempo a mais do que Deus tem para despender limpando o cu. Sei lá, como nem todo mundo criou o universo, é natural que haja alguns cus bem limpinhos por aí.

Foda é quando a foda fica alheia a você. As oportunidades são especialistas em nos perder. A verdade é que todo mundo quer jogar café em todo mundo, mas todo mundo quer transar com todo mundo também. É a lógica do louva-a-deus, aquele animalzinho verde e frágil: eu te como enquanto você me come a cabeça. E de foda em foda o mundo gira.

Tanto gira que lá anoitece mais tarde. Isso quase dá mais tempo de sol, se você parar para pensar que somos criaturas noturnas (vespertinas, talvez) que não acordam tão cedo, e, quando acordam, é porque nem foram dormir. Vagamos as estradas sonolentas, com caras de madrugada.

Há tanto crepúsculo quanto há aurora em um mesmo dia; exceto quando o sol é apenas um amontoado de nuvens. E em um deserto asfáltico, entremeado por vacas e pasto e merda de vaca, que, por efeito, é quase tudo o que os interiores daquele país possuem, vemos a luz fugidia descer a encosta da colina por trás de alguns imensos moinhos de vento, não mais impulsionando simples moedores de milho, mas sim bastiões da moderna usina eólica de energia.

As noites não acabavam nunca. Pareciam Sodoma e Gomorra, porém sem o fogo e o enxofre. Bobagem, só parecia que estávamos nos divertindo imensamente mesmo. As noites traziam tudo o que são acostumadas a trazer: prazer e confusão mental. Bobagem também: não se define o que se encontra nas noites de outro país.

Não acreditem em nada do que eu digo: toda história que não está acontecendo exatamente agora, e que não está sendo vivida, não é real. Falamos isso para os gatos daquele cemitério, que insistiam estar vivos, mas agiam como guardiões dos mortos. “Hey, faça mais um carinho em meu pelo sedoso ou a tua alma vagará eternamente pelo limbo uruguaio!”.

***

Gostaria de ficar naquele limbo para sempre, em meio àqueles malucos da Dieciocho de Julio. Se aquela rua, entre a colossal estátua do Artigas em seu cavalo simbiótico, compostos pela mesma massa de bronze, e a feira livre da Tristán Narvaja, não for o próprio limbo, então, por eliminação, só poderíamos estar nos portões do inferno, onde Dante foi aconselhado a deixar detrás de si a esperança. Aposto como o próprio Diabo, e certamente também Deus, devem dar umas voltas por ali de vez em quando, no fim da noite, em busca da melhor maconha ou de algum bom rabo.

Montevideo também não nos queria ausentes. Toda vez que deixávamos aquela cidade o céu desabava em aguaceiro. Ou então algum outro desastre não-natural nos acometia. Por isso choveu miseravelmente por dois dias em Ponta do Diabo. Depois, de volta a terras autóctones, o clima se resolveu, eram apenas pancadas isoladas de maus humores passageiros.

De toda feita, a viagem e as viagens dentro da viagem não custaram muito. O grande custo está em se manter vivo, em não arriscar acabar com a própria existência. Por exemplo, quem nunca comeu intestino de boi não sabe se a recepção pelo intestino humano será proveitosa ou não. E se deixei lá meus dejetos, trouxe de lá um pouco de tinta. O eterno ciclo do nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, poderia ser atualizado para algo como de um lugar nada se tira sem deixar algo em troca. É como dizem: “nenhuma foda sai barata”.

Por fim, como tudo que começa de fato acaba, o Deus castellano, o Deus do portuñol, latino, de sangre caliente, nos deu adeus. O Diabo nos acompanhou e nos soltou dizendo “voltem sempre”. O Uruguai desditoso nos quis e nos quer. E deixou-nos com a certeza de que lá, muito mais do que aqui, la gente está muy loca.

sábado, 6 de setembro de 2014

Sobre Fozes e Nascentes

Sou um rio caudaloso. Nasci há muito tempo, quando as montanhas eram ainda jovens. Sou uma criatura muito vívida e intensa, e carrego comigo milhões de outras vidas. Sou um rio que cruza vários estados da nação, e apenas um da matéria. Venho de vales e montanhas, de planícies e florestas, banho fazendas e cidades. Cruzo também mais de um país.

Estivemos em milhões de lugares, em todos os lugares do mundo, e lá fomos sempre bem recebidos. Nossas águas banharam três fronteiras, e se precipitaram em quedas e em iluminações maravilhosas. Atravessaram pontes, e, sob a forma de gotículas em suspensão, molharam as faces deslumbradas de incontáveis criaturas também em suspensão. Precipitaram-se também sob a forma de lágrimas, como uma pedra que canta uma triste canção, e prenuncia um choro em cascata que é uma das sete maravilhas da natureza.

Nacimos de muchas madres, viemos de muitos afluentes, de tudo aquilo que se esforçou para ser nós. E, sobre a ponte, foi posta à prova nuestra amistad. Passamos em testes todos. Estivemos sim em três lugares ao mesmo tempo, e todos os outros lugares por aqui estiveram. Estivemos em Libra, em Órion, na Pedra que Canta; estivemos com Naipi e Tarobá nos primórdios de nossas águas com seu amor nunca consumado. Todos os lugares são o mesmo, todas as cidades são iguais. E esse lugar é deveras maluco!

Gosto das pessoas que dançam sob e sobre as minhas águas. Gosto daquelas pessoas que topam qualquer passo, por mais insano que seja. Pois que dança nenhuma é impossível. Aprendi que o impossível nada mais é do que o que temos medo inconsciente de alcançar. Dançamos pelos anos, atravessamos tantas águas, e é impressionante imaginar até onde esses passos já nos levaram, a quantas margens de um mesmo rio. Caímos da vida em cataratas. Retornamos em nascentes maravilhosas.

Nascemos e morremos, para dizer a verdade, o tempo todo. Nascemos assim, em fontes cristalinas escondidas em selvas impenetráveis. Por vezes, nascemos também de confluências. Mas morremos em fozes maravilhosas, em pedras que cantam, em cachoeiras deslumbrantes. Outras vezes imigramos para países hermanos, e um dia iremos desembocar em mares argênteos.

Perdemos. E às vezes ganhamos. Sou um rio caudaloso. Não sou afluente, pois que sou feito de afluentes. Não sou riacho, pois que meus afluentes são feitos de riachos. Não sou ribeirão, pois que os riachos de meus afluentes são feitos de ribeirões. Sou um rio caudaloso, o segundo maior rio do país, e esse é o meu maior orgulho.

domingo, 4 de maio de 2014

Refração

Tudo pode ser invisível. Cegueira é apenas ausência de luz. Não quero enxergar! Não me deixem enxergar! A noite, no escuro, quando apenas a Lua brilha, um brilho reflexo, e as estrelas piscam vagamente na profundidade; o mundo nos implora por um pouco mais de tempo para resolver esses problemas que as coisas que orbitam e são orbitadas têm.

Então viajamos, rodamos a noite e à noite. Cortamos auto-estradas, e relembramos o tempo em que estivéramos perdidos. Tempos remotos, vagos como o brilho das estrelas, que nos atingem tantos milhões de anos depois de terem de fato brilhado. Podemos agora mesmo estar perdidos nos canaviais do tempo-espaço. E poeira se levanta, nos atinge internamente, se acomodando nas paredes de nossas fossas nasais, como se aquele fosse seu lugar de direito.

Cortamos auto-estradas de chão batido, de pedras e de pó, em busca de um objetivo, vago ele também. A poeira carrega o ar com um cheiro de bucolismo, de austeridade serena. É noite, é escuro, é poeira. Faróis seguem na direção oposta. E sabemos que nosso vago objetivo diminui ainda mais, cai dentro de si mesmo. Mas seguimos, com os faróis cortando a poeira, representantes de uma fonte luminosa, essa sim invisível.

Os faróis não param de vir. Cortam a poeira, difusam, divergem, refratam. Nos atingem através das nuvens de pó que pairam sobre a auto-estrada, nesse escuro entremeado de luzes. Iluminando a poeira, e nada mais. Como diria um autor, para epílogo de breve relato: O que tiver luz não me pertence.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Feliz Felicidade

Ato 01 - São Paulo em aurora.
Primeira instância de uma sequência de viagens de proporções épicas. De histórias eternas. De momentos de vivência intensa. De momentos de atingir esse sentimento etéreo tão almejado. Sentimento esse que deve não existir enquanto definição exata, apenas existe quando existem momentos como esses, e apenas enquanto ele dure. Sentimento que desejamos e indicamos, e também buscamos, por vezes quase conseguindo tocá-lo.
Assim, chegamos a essa cidade que fica quase bonita quando os raios dispersos levantam entre infinitas toneladas de concretos armados. A uma breve tentativa de fugir do concreto, em busca do abstrato, o sol se levanta numa aura cinza de poeira. Porém, a luz disforme faz dessa cena uma cidade quase bonita, quase atraente, quase calorosa, quase feliz.
Momentos de introspecção, de intro e de especção também. E de realização. Um ano difícil, mas que uma ceia de natal com uma família tão forte tende a facilitar. Primeiro chute nos glúteos de 2013, de agora em diante referenciado como 2 mil e treta, um ano que sequer merece retrospectiva.

Ato 02 - Vinte e quatro horas entre o céu e a terra.
No céu, entre nuvens, entre águas. Na terra, 24 horas depois, entre mares e marés, terras e terra e águas. Semi-Ilha. Superagui não é insular, carrega antes o prefixo "pen". Mas visto do céu, do voo, é apenas um amontoado de terras verdes, não importando assim as conexões marítimas ou terrestres com o continente. Da janela do avião, semi-oval semi-redonda, identificar as formas do litoral, semi-baía semi-estuário. Oras, pois que localização geográfica independe do ponto de vista, é tudo concreto, não importa o quão contrastante isso seja com a beleza do natural.
Partindo da maior cidade de concretos armados de uma América Latina inteira, são 10 horas da manhã e ali estão os rios, baías, estuários, sejam ilhas ou penínsulas de recanto quase intocado, através da escotilha da janelinha do avião. Uma breve pausa em casa, em uma daquelas que podemos chamar casa, para 24 horas depois estarem os rios, baías, estuários, sejam ilhas ou penínsulas de recanto quase intocado, em contato direto com os meus pés.

Ato 03 - Superagui em crepúsculo.
Mesmo somados todos os idiomas, não existiriam palavras suficientes para descrever o quão épico é e foi o pôr do sol de tal semi-ilha. Paletas crepusculares supra-reais, de tantas cores e de todos os tons, de modo que a imaginação não consegue não se perder, ademais ela se encontra. Tudo isso em areias que correm ao vento da mesma forma que corre o próprio tempo. Contemplação, intro e espectiva, nada mais.
Foto: Maruza Silverio
Tantos momentos, que torna-se impossível reencontrar na memória todos os detalhes, sem distorcê-los, sem alterar o passado, quanto mais transferir para quaisquer escreveres. Houve uma união natural formada por laços temporários de necessidade relativa, construída sob moldes de uma família, sobre membros de acampamentos que também podemos chamar casa. Amizades sinceras, divididas na mesa, na panela de lentilha, no copo de summer drinks, e na caminhada pela praia. Houve a presença das dançarinas da alma, as garotas mulheres que bailam ao som do palpitar dos corações ao seu redor, aqui multiplicadas por dois, iluminando a própria luz, com seus quatro sorrisos de uma espontaneidade extremamente sincera. Ainda houve um cão Sábio, que não pode ser nada além de uma alma onisciente presa em um corpo que não o pertence.
Houve uma ceia, uma ida à areia, queima de fogos, estouro e preparação de bebidas. A saga de anoitecer e morrer todo dia, todo ano. Se cada dia perdido é uma chance desperdiçada, uma nova morte, entremeada de infinitas vidas, é também um novo começo, entremeado de outras tantas infinitas vidas, de outras tantas e das mesmas possibilidades.
E então vem a chuva, 15 minutos depois da meia-noite, como se apenas estivesse esperando o espetáculo terminar para trazer seu próprio show. Como se quisesse com muita água apenas levar 2 mil e treta e trazer 2014, de agora em diante referenciado como 2 mil e catarse. Houve corridas e danças na chuva, que serviram deveras como lavadoras da alma, e aí já era 2 mil e catarse.

Epílogo - Araucária em madrugada.
E a felicidade de sempre. Ou de quase nunca. Dos momentos lembrados enquanto a Lua alvitra estradas no céu. De volta ao que se tem, ao que se espera, ao que me espera. Anoitece no dia, é manhã do ano, e a vida não pode ficar pra depois. Um êxtase de quase-felicidade, sentimento tão desejado e indicado. Depois de alma lavada, de viagem conclusa.
Que as coisas boas que existem nesse mundo existam sempre. Pelo menos enquanto as tivermos. Fica para trás 2 mil e treta. Começa então 2 mil e catarse.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Ponto de Vista de um Evento Epopeico por um Pacote de Bolachas

E toda essa pose de rockstar? Tudo fuleirice... Nada além de uma imagem que se queira passar, um personagem, algo que nem existe. Carregando sacola, a roupa do corpo e a necessidade apenas. Por que essa gente precisa de tanta coisa? Eles precisam de tudo o que possa preencher o vazio de suas almas. E é assim que as coisas andam.

Ouvi dizer que haveria companhias. Assento vazio ao lado, frigobar vazio ao fundo. Oras, não exatamente vazio, mas tenho a impressão de que está vazio tudo o que não está cheio. Não existe meio termo, todo e qualquer espaço que se cria é um vazio. Talvez a alma daquelas pessoas esteja apenas com um pequeno espaço vago, mas assim e por isso mesmo, estão vazias.

Uma parada em local desconhecido, em terreno obscuro. Mas se bem que pra quem nunca foi muito além de linhas de montagem de embalagens, caixas acomodados em locais húmidos, prateleiras inconstantes e armários complexos, qualquer lugar se torna um terreno obscuro.

Capa para chapinha e progressiva. Chuva anunciada e programada, pois que não é chuva aquela que não vem para dificultar alguma coisa. Oras, mal sabem os seres de alma vazia que quanto mais ela te molha, mais bem ela te faz. Não precisamos, apenas um pedaço de plástico semi-verde para mim, e uma capa transparente que deixaria os pés de fora para quem me acompanha.

Fila, infinita, desconexa, inconstante ela também. Sabe-se lá em que a criatura humana se baseou para criar a necessidade da fila, de organizar as possíveis balbúrdias causadas por excesso de pessoas buscando o mesmo objetivo. Imaginemos uma ampulheta cujos grãos de areia se organizassem em fila, esperando sua legítima vez de passar pelo mínimo espaço contador do tempo. Havia pessoas jogando baralho, passando desodorante, passando por nós e jogando com a própria liberdade.

Enfim, o som, a magia das notas, aquilo que por tantas vezes foi dito não poder viver-se sem. Durante duas horas o chão nunca pareceu tão longe, perto, longe, perto. Ainda luzes para todos os lados, infinitas estrelas nas proporções de um estádio. Brilhando e iluminando nossas almas por vezes vazias. Sessenta mil almas. Pacotes de bolacha também têm almas?

No fim, uma procissão de almas molhadas, revigoradas, precisas em suas precisões. Caminhando a esmo, para onde quer que estejam indo. Não faz mais diferença alguma. Tudo o que passamos foi vívido por si só, e essas dezenas de carrinhos de cachorro quente nunca poderiam entender. Destinos é tudo o que temos, a todo o tempo, estamos apenas chegando a um lugar que vai nos dizer onde temos que chegar. E assim fomos, e assim estamos, de volta. Aonde quer que seja a volta, mesmo que no armário, pelo menos por enquanto.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Voltar para Casa

Quem poderá dizer o que é isso que chamamos de casa. Isso não foi realmente uma pergunta, conforme dito outrora, não usariam-se mais pontos finais. Mas oras, sabemos mesmo que nada tem final, continua-se então com essa relativização absurda de achar que cada frase é um universo por si só. E deve mesmo ser.

Sempre há um retorno, o mundo é redondo, e supõe-se que o universo também seja. Como nada tem final, tudo é redondo, com começo, meio e recomeço. Mesmo as vidas recomeçam quando terminam, e voltam a ser o que foram um dia: morte. Nada se cria, tudo se transforma, voltemos ao pó original, voltemos à velha guarda, voltemos ao que fomos outrora, voltemos às nossas casas; ao útero original.

O retorno é sempre mascarado. Voltar é sempre errado. Não se deve ter de novo o que um dia se abandonou, mesmo que disso estejamos falando do próprio útero, ou do útero original. Sair de casa e planejar a volta é a forma mais errada de sair. Não importa como vamos voltar, só importa mesmo que vamos.

Tem gente que não aproveita a vida, e acaba não dançando. Tem gente que não faz moshpit, mas pior ainda são os que não fazem moshpit mesmo sem gostar da música. Tem gente que nunca dorme no chão, por necessidade física ou psicológica. Tem gente que não janta com prefeitos, nem bebe com vereadores. Tem gente que não aceita o que a vida tem para oferecer. E oras, certo é que ela não oferece grandes coisas, mas é melhor ter quase nada do que nada. Zero absoluto é sempre mais frio.

Tem gente que não aproveita a morte também, esse inconstante ponto e vírgula da vida. Essas pessoas são as piores, porque elas acham que nunca vão morrer, e aceitar a morte é o primeiro passo para se viver a vida, com  quantos pontos finais e úteros originais lhes caibam. Com quantos retornos indesejados se fizerem necessários.

Rever o que já se teve, revisitar o que já se foi, quase 14 anos atrás. E há vezes em que nós nas gargantas nunca serão suficientes. Tem gente que não aceita esse tipo de axioma. Mas oras, quantos quilômetros seriam necessários para se voltar para casa, quando não se tem casa nenhuma? Ou quando tudo o que se tem é casa. Tive casas que foram banheiros, barracas, calçadas, vestiários, e cozinhas sujas. Ou é melhor que e nesses casos. Tive Cascavel, Inajá, e Toledo também. Voltei para todas as minhas casas.

Enfim, voltemos. Ao que seja e ao que for, e ao que fosse, pois o que quer que fosse, foi-se, e acabou, acabou para recomeçar. À velha rotina, aos velhos dilemas, às velhas e rotas poesias apodrecendo em pedaços rasgados de guardanapo de boteco. Todas as vezes que eu tiver o mundo aos meus pés, desejarei o universo. E todas as vezes que eu tiver o universo, bom.. aí talvez seja a hora de voltar pra casa.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Ela é uma Praia Quieta no Inverno

Todo continente é também uma ilha, pois que praia nenhuma tem ponto final. Mesmo que hajam rochedos, montanhas, fozes e arrecifes, pois que tudo o que é litoral, costa e beira-mar, é também praia, sendo essa apenas uma, ou muitas, denominação relativa.

Ela é uma praia quieta no inverno, não daquelas que passam uma temporada gerando recursos para nativos que passarão o resto do ano apertados com os ganhos dessa pequena faixa de tempo determinada do ano. Mas sim daquelas dos lugares frios por si só, mais frios do que as pessoas. Aquelas praias de lugares onde as areias têm o costume de não ver a luz do sol. Na paisagem dos olhos dessa praia vejo a busca por paisagens a não se ver. Lúgubre e melancholica.

Em viajar não há ponto final. Também não o há em escrever, pois que afinal de contas, ao final das contas, conta-se que coisa nenhuma tem final. Oras, então porque utilizar-se de métodos de pontuação que não deveriam existir; Se bem que utiliza-se do inexistente a todo o tempo, vejamos bem que por si só o próprio tempo é inexistente;

No entanto, taciturna e angustiosa, a praia, sem ponto final, continua viajante; O primeiro passo é igual ao último; Sem pontos finais, nunca mais; Começos e fins cíclicos, viagens sem volta; Por que utilizar-se de viagens sem volta? Oras, não seria a interrogação uma espécie de ponto final? Digo não, isso pois que ela deixa aberta a porta para uma possível resposta; Respostas são contínuas..

Assim, soturna e aflitivamente, olho os olhos da  praia, esperando resposta; Uma resposta sem ponto final; Dessa praia fria e chuvosa, desse clima amistoso; Pois que praia nenhuma tem ponto final, e assim também o são os escritos;