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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Apneia

Acontecem coisas boas e acontecem coisas más. É simples e devemos nos acostumar. Devemos aproveitar o melhor de todas elas: viver bem as boas, de modo que as valorizemos; e aprender com as más, de modo que lhes tiremos um mínimo proveito.

*sound effect de disco arranhado*

Bobagem! Não precisamos falar sobre isso. É lugar comum, conhecimento genérico. Por todos apregoado, por poucos praticado. Aprender com os erros é uma das utopias da vida moderna; os erros é que aprendem conosco, e nos ensinam novas formas de errar. Nos basta saber que acontecem coisas boas e acontecem coisas más.

Vide esta angústia que não passa nunca, bate estaca cada vez mais evidente, retumbante, apregoante. Grita a plenos pulmões, e então fecha os mesmos, retirando toda a possibilidade de respirar. A vida, que não é anaeróbica, clama pela respiração perdida. Expira em apneia. Sem ritmo, rima ou métrica, se afoga em tudo, pois que o ar está aqui por todos nós. Se afogar com tanto ar é ironia cósmica, quase quântica, quânti quasica.

Viste esta angústia, por que com ela não aprendeste?; porque não precisamos, aprendemos novas formas de se afogar.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Busca


A escória está nas ruas, ocupando todos os espaços vazios. Basta ver. A podridão está por toda parte. Todos nós vomitamos nas ruas, compactuando com a ralé. Nós todos somos a escória.

A miséria está nas ruas, a miséria está nos hospitais. Basta olhar. A miséria humana, a ralé humana, não está escondida nos buracos, nos becos sombrios. Ela está nas filas dos hospitais, nas ruas onde vomitamos pus.

Basta prestar atenção. O desastre, a desordem da sua vez. Todos são a miséria, a podridão, a ralé, a escória, a fila dos hospitais. Todos estão no desastre. Ninguém escapa.

Somos a angústia. Aquele objetivo inalcançável e a procura por algo que nunca poderá ser encontrado. Buscamos pelos espaços vazios das ruas, das filas dos hospitais.

Buscamos em todos os lugares. Objetivos são distração. Basta tentar entender. Cada um deles, cada pequena vitória pessoal, é um minúsculo degrau em uma escadaria infinita, a qual nunca poderemos galgar.

Nunca atingiremos essa busca. Somos a angústia. Somos aquilo que nunca será encontrado. No desastre, na desordem. Podemos passar a eternidade tentando, e basta prestar atenção, continuaremos sendo a angústia.

Miséria. Podridão. Ralé. Escória. Continuaremos sendo a distração. A angústia de nunca encontrar, de nunca ser o suficiente. Ninguém escapa. Basta olhar. Basta ver.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Infinitas Atmosferas

Everybody is sad in the city of dreams
Everybody is happy in the city of sins

Tenho visto as coisas como que do fundo do oceano, com toneladas de água barrando tudo, a luz tem dificuldade em atingir minhas retinas. Tornam-se as coisas turvas e embaciadas, são meros movimentos involuntários, silhuetas ao longe. Então preciso nadar, buscar a superfície. Mas nada mudará o fato de que eu sou um peixe que não entra na água, pois que quando entro, enfrento resistência, obstinação, não devia estar fazendo aquilo. O oceano foi, é, e sempre será contemplação.

O mundo está repleto de erros, de coisas erradas e arrependimentos. Todos esses erros esperam por aí, andam a esmo, esperando para serem cometidos. É simples, é fácil, e é também como os movimentos involuntários, você chega lá, encontra um erro te observando, e o comete simplesmente. E com tantos vistosos e variados erros por aí, apenas esperando para serem cometidos, me pergunto o porquê de cometer sempre os mesmos.

Por vezes, ouve-se também um chamado. Um bater de asas na madrugada, quando o silêncio mesmo do infindável oceano impera. E, oras, é um chamado do não-erro, conclamando a não entrar na água. Lembre-se sempre de que tipo de peixe você é. Voltemos, então. Caminhares na areia, e quem é você? Quem é e o que faz, quando faz esforços desmedidos e auto-flagelantes em prol de qual quem mesmo? Olhe só para esses erros voando à nossa volta. Não, não são as asas de antes, eles estão indo embora.

Enfim um dia disseram você pode ser o que quiser oras decidi não ser nada. Mas decidi também que todas as vírgulas são aspas que caíram. Como anjos caídos vírgulas são criaturas decadentes impeditórias pensei em não mais usá-las como erros recorrentes. Vírgulas são erros. Também já desejei não enxergar. A visão é um erro. E aí é bom estar preso no fundo do oceano sou criatura abissal com esmerado gosto. Fiquem aí embaciados turvos entre-vírgulas. Fiquem erros. Fiquem com essas asas que batem e que mesmo quando não batem eu sei onde está o oceano. Volto ao meu chamado não quero enxergar não quero mais vírgulas.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Stardust

É como eu estava te dizendo agora mesmo: nossa história começou há uns mil anos, quem sabe antes. Talvez tenhamos desbravado as planícies da Bretanha juntos, ou construído pirâmides, derrubado impérios, quem sabe você tenha sido a Cleópatra desse César aqui. Os detalhes das histórias não importam muito, o que importa é que elas aconteceram, e a nossa história começou há muito tempo.

Todas as histórias começaram há incontáveis anos. Você certamente já ouviu dizer que somos feitos de materiais que se originaram no núcleo das primeiras estrelas, alguns segundos depois do big bang. Pois bem, isso é verdade, cada partícula do seu corpo perene já esteve rodando pelas galáxias, já foi matéria, já foi componente químico de minerais flamejantes, já foi composto orgânico de outras vidas. Tudo já foi outras coisas, e certamente será ainda muitas outras.

As histórias são todas iguais, as pessoas são feitas dos mesmos materiais. Sorriem e choram aqui e acolá em expressões semelhantes. Existe sempre a parte boa e a parte ruim. Mas é absolutamente incompreensível o porquê de alguém abandonar a possibilidade das coisas boas, apenas em virtude da existência das ruins. É como se esconder dentro de casa em um lindo dia de tempo aberto, céu limpo e ares refrescantes, apenas porque um dia pode ser que venha uma tempestade. Medo de sentir medo é medo também.

E as histórias vão se repetindo. Quero saber quanto de mim já foi dinossauro. Será que os megalodons sorriam e choravam? Será que os brachiosaurus derrubavam impérios? Será que os compsognathus construíam pirâmides? Alguém aí já originou uma estrela? Será que as estrelas sentem medo de ser supernova? Geramos estrelas todos os dias, certamente estrelas são grandezas relativas. Espero que algum dia toda essa matéria que hoje é eu, é nós, volte a rodar as galáxias por aí, e que, quem sabe, desbravemos juntos uma vez mais as planícies da Bretanha.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Comodismo

Atiro pedras em galinheiros por aí, mas nunca saio correndo. Gosto de ver o circo pegar fogo, mas gosto de estar dentro do circo. Onde conseguiste essa pedra tão bonita? Ela é perfeitamente oval, lisa, como aquelas pedras de fundo de rio, moldadas pela correnteza dos anos, por essa afluência vívida que passa por nós dia após dia, nos tornando ovais e perfeitamente lisos.

Qual a razão de sair um dia de onde estivemos? Qual a razão de lutar batalhas perdidas, enfrentando inimigos imaginários? A derrota está dentro de cada um. E quando não há batalha, não há derrota. Podemos apenas sentar à beira do precipício, e parar observando o abismo que se estende verticalmente aos nossos pés. A vontade de pular será imensa, maior que o abismo. E, ah!, que batalhas maravilhosas, nem perdidas nem imaginárias, enfrentaríamos nessa queda. Mas oras, certos saltos de fé não devem nunca ser dados.

Os piores abismos são os horizontais. Aqueles que nos fazem querer mudar tudo, abandonar tudo, nossos relicários acumulados ao longo de vidas inteiras. O mais importante dos relicários é a memória. Para cair nesses abismos é necessário muito mais do que saltos de fé, é necessário abandonar até mesmo os nossos relicários.

Toda atenção é dividida, tudo depende do foco que se dá. É difícil ser bom em tudo, pior é ser excelente em nada. Prioridades e vertentes nunca exploradas, ou exploradas superficialmente, rios caudalosos nunca nadados. E mais importante é o interesse que se dá, mas você tem coisas mais importantes para lidar. Queremos abraçar o mundo todo, com os mesmos braços, e talvez faltem abraços.

Queremos mudar, queremos tudo o que os abismos horizontais e verticais nos têm a oferecer. E estendemos braços em abraços pequena-porção, até que sinta-se o mundo inteiro abraçado. Queremos mudar, mas não percebemos que de fato mudamos, mudamos em pequena-porção, em pequenos saltos de fé, que um dia se tornam abismos, que um dia abraçam e mudam o mundo todo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Epifanias Hereditárias

Não se atinge uma compreensão superior da existência sem passar antes por tantos quantos estágios inferiores. A cabeça gira, vai e volta, sobe e desce, e descobre-se a diferença entre tontura e vertigem. Parece falta de ar, ou psicotrópico, epilepsia, quem sabe nirvana. E no fim, é só pensamento, é troca de correntes elétricas nos circuitos do cérebro. Circuitos que podem também sofrer dispneia, alucinação, curto-circuito, e realização.

Nosso sangue está borbulhando, repleto de moléculas de oxigênio indo, de gás carbônico vindo. Mas não somos respiração celular, somos imensos pulmões sintéticos expirando muito mais do que inspirando. Exalando ares moribundos, buscando compreensões inalcançáveis, nirvanas intangíveis. Não acredito em redenção, é sempre bom frisar.

Somos partículas em suspensão, como aqueles pedacinhos minúsculos de poeira flutuando em uma réstia de luz que invade a sala em uma tarde de outono qualquer. Então, em um entendimento repentino, saímos do próprio corpo, e o vemos em movimento, em terceira pessoa. É a mente em suspensão, buscando por si só as respostas que conscientemente nunca podemos nos dar. O problema é estar consciente.

Doenças nunca diagnosticadas são apenas sintomas, são batalhas nunca travadas. Pois que anticorpo nenhum lutaria sem saber o que está enfrentando. Pelo menos não conscientemente. E por isso nossa mente viaja, procura doenças nas quais se apoiar. Epilepsias, dispneias, alucinações e nirvanas.

Estamos aqui para inspirar. Saímos de nós mesmos para inspirar. É o que mantém a vida, afinal. A cabeça continua girando, e buscando suas respostas. Flutua nas réstias de luz que cruzam as fronteiras acima de nossas cabeças, que nossas mentes insistem em cruzar. A cabeça gira, vai e volta, sobe e desce, é tontura e é vertigem. Parece falta de ar. Parece psicotrópico. Parece epilepsia. Parece nirvana.

domingo, 3 de agosto de 2014

Não Sei Mais Escrever

Meros signos para descrever o mundo ao nosso redor. Erigir uma... uma... uma? Qual é a palavra mesmo? Cultura... Sociedade... Humanidade... O que não definir. Erigir essa coisa toda que acordamos para ver todos os dias, para ajudar a erigir todos os dias; apenas porque sentimos um dia a necessidade de dizer uns aos outros qual era a merda que estava ocorrendo dentro de si mesmo. E então o teu coração deixa de ser um músculo com quatro cavidades destinado unicamente a bombear sangue. Sim, porque isso é vulgar demais.

Falemos de como ocupar esse músculo. Pois que deveria ser com fibras, e carboidratos, e proteínas, e essas coisas todas que acordamos todos os dias para viver. Oras, mas não... escolhemos preencher esse músculo com sentimentos. E por essa escolha, pagamos continuamente, erigindo culturas, sociedades e humanidades. Com a vaga intenção de preencher músculos por aí, transformo 15 linhas de conto em página e meia de roteiro.

Comunicar é preciso. Não poderia haver maior inverdade, não que seja mentira, apenas não é verdade. Por vezes, me escondo em um buraco cuja profundidade está exatamente ao nível de meus olhos. Dessa forma vejo o mundo, e as coisas nele sendo erigidas, do nível do chão. Me abaixo, me escondo na escuridão no buraco, e quando volto a me levantar, para ver o mundo do chão novamente, ele muda completa e drasticamente. E isso não resolve.

Essa angústia existencial que não passa, e o seu sorriso sem graça. A vida demora demais para acontecer. No entanto, ela acontece muito rápido. É um complexo e indistinto paradoxo, desses muitos que acordamos todos os dias para ser. A verdade é que não sabemos o que está acontecendo por aí a maior parte do tempo. O que acontece é que estamos alimentando e preenchendo esse músculo, com culturas, com sociedades, e com humanidades. O fato é que eu nunca soube.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

All Shall Fade

Somos poeira ao vento. Cópias de outros momentos. Como versos desgastados. Papéis amassados. Castelos desmoronados. Somos verbos reutilizados, na terceira pessoa, e em flexões no passado. Somos essas rimas pobres que insistimos em aplicar mesmo sabendo que nossas poesias ficarão uma porcaria com elas. Somos essa poesias de banheiro de boteco de beira de estrada, nunca lidas e para sempre lembradas.

Sempre disse que luz demais pode acabar cegando. Aos poucos, o brilho da estrela que nos dá a vida é capaz de ir corroendo as retinas, acabando com a magia que ela mesmo cria, derretendo o milagre da construção imagética. Borrando as cores, diluindo matizes, transformando tudo em um único e envelhecido tom de coisa velha e deteriorada. E então podemos dizer que está se apagando.

Está tudo se diluindo dessa forma. Todas as luzes, afinal, foram feitas para cegar. Estamos todos aos poucos sendo verbos, e sendo reutilizados. A longo prazo, a tendência de todas as coisas é se apagar. A longo prazo, a tendência é sempre desbotar. E é o que fazemos, desvanecemos. Somos aquela cor viva que existia antes em determinado objeto que passou tempo demais ao sol. Mas estamos sempre desvanecendo.

Dado o prazo suficiente, todas as criaturas estão assim, desvanecendo; e procurando sinônimos para seu próprio desbotar. Procurando dicionários, e tentando entender o que acontece. Acontece o que acontece a todas as criaturas, e a todas as coisas, e a tudo o que se passa nesse mundo e nos outros: all shall fade. Tudo desvanecerá. Apenas três palavras suficientes para determinar a verdade mais imutável de todas: tudo desvanecerá.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Eu Sou Um Desastre Natural

Algumas pessoas têm em seu interior um lindo sol de primavera, brilhando por sobre as verdes pradarias onde alegres coelhos correm, com montanhas de cumes gélidos ao fundo, e tendo imponentes carvalhos e outras árvores frondosas como moldura. Então esse sol se põe em uma paleta de cores única e magnífica, deixando os rastros de seu brilho no céu azul durante horas. Outras pessoas apenas chovem.

Ventamos a 160 quilômetros por hora, destelhamos residências, derrubamos as árvores. Somos o vento contra o vento. Explodimos em lava, conservando a particularidade de um momento infinito em rochas ígneas. Somos o fogo contra o fogo. Somos a tempestade, a calmaria, a verdade e a utopia. Somos a terra furiosa, que chacoalha convulsivamente, derrubando tudo o que for fraco o suficiente para não suportá-la. Somos a terra contra a terra. Derretemos com o calor implacável, e nos derramamos em água nos oceanos, subindo com suas marés. Somos a água contra a água.

Somos a natureza contra a natureza. Somos cada microcosmo de caos. Cada pequena partícula se deteriorando e arrastando para baixo todas as partículas ao seu redor. Somos a entropia ao contrário, perdemos calor, nos agitamos e bagunçamos o sistema. Somos cada um dos pequenos e magníficos desastres que assolam a existência de todos os dias.

Enchemos de magma as verdes pradarias, trememos e rachamos as montanhas dos cumes gélidos, derrubamos os imponentes carvalhos com a força de nossos ventos, afogamos os alegres coelhos com o excesso de nossas águas. E sobra o sol. O sol continua se pondo através de um cenário de desastre. Com suas cores únicas, com suas formas magníficas. Com seu brilho se arrastando pelo céu azul durante horas. Então para de chover.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sobre Voltar

(ou There and Back Again)

Decisão nenhuma é pequena. Uma pequena pedra, atirada nas águas tranquilas de um lago, forma círculos concêntricos que se dispersam continuamente, e podem, dadas as devidas condições, eventualmente tornarem-se tsunamis. Dessa forma, como dito outrora, cada pequena decisão que tomamos em vida ecoa na eternidade.

Acho que, na real, as pessoas nunca voltam completamente quando se vão uma vez. Se voltam, não são mais as mesmas, pois a cada minuto, não são as pessoas mais as mesmas que eram e foram nos minutos anteriores. As coisas mudam, de fato mudam, deveras mudam. Assim são também as pessoas. Dispersar, desaparecer, reaparecer, voltar. Voltar e não ser igual. Voltar e por onde anda.

O que eu sei sobre o passado me diz mais sobre o futuro do que o que o futuro sabe do futuro. Lhes permito que joguem as cartas. O passado sabe do sagrado e do profano porque os viu acontecer. Nem o futuro sabe do futuro. Como você está se sentindo? As pessoas perdem a todo momento as oportunidades de ter e de ser muita coisa grande, perdem a glória por simples medo de arriscar perder o que é medíocre.

Então é assim que as coisas voltam. As pessoas voltam, e elas decidem voltar, não é o futuro que decide por elas. Acredita-se em destino. Dizem por aí que ele de fato existe, que há comprovação científica. Aquela história de prever os movimentos das partículas e saber onde elas estarão. Somos todos partículas gigantes. Totalículas.

Mas voltando, é aqui que elas estão. Sendo as mesmas ou não. Cada pequena decisão que tomamos em vida ecoa na eternidade. Como você está se sentindo? Dizem-me as cartas que está tudo bem. Oras, basta olhar em volta para ver que está tudo bem, porque afinal as pessoas voltam.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ciclicando

Estou aqui todos os dias, de peito aberto esperando a minha bala perdida que nunca vem. O câncer maligno que nunca me acomete. A doença rara que tantas pessoas lamentam ter. Todos os dias, esperando uma resposta desse mundo, que nunca perdeu um segundo ao meu lado, e apenas continua a girar...

Todas as pessoas que ficam em dúvida entre tomar uma ou outra decisão, acabam não tomando nenhuma. É essa lei imutável na vida. Houvesse o peixe que respirava por pulmões decidido não avançar à terra, e nada do que vemos estaria aqui. Não haveria sequer olhos para enxergar o que não estaria aqui. Dentro de si mesmo, cada um escolhe até mesmo quantos glóbulos vermelhos despender em cada esforço de troca de oxigênio.

A prorrogação do óbvio é desconfortante. Todo esse nada que continua acontecendo incessantemente, e sendo muito, sendo tão parco flerte. Algumas coisas voltam sempre, temos mais uma virada pela frente. Oras, como foram as últimas? A memória me diz algo sobre elas. Mas o que é a memória, senão uma artimanha de nossas cabeças para que não levemos mais pedradas?

Algumas coisas se reconstituem, e dizem que isso é culpa do verão. Verão, mal sabem que esse termo técnico se encontra mal empregado em nossas vidas subtropicais. Pois que assim são também as nossas vidas em temporadas, acabando um pouco mais a cada minuto, e se renovando da mesma forma. Ciclicando.

Muitas coisas chegam ao fim, mas é exatamente para isso que as coisas servem, elas começam a morrer no momento em que nascem. E é para isso que as pessoas servem. Tudo que existe tem começo e meio, cabe a cada imensa parcela desse pequeno tudo descobrir onde está seu fim. E não pensemos que isso é o mal do mundo. Essa é a parte boa.

Não pensemos também que o que se faz, se faz por gosto. Algumas coisas são feitas, e mesmo existem, apenas porque assim precisam ser, queiramos ou não. E assim as coisas seguem, todas e cada uma, com suas benesses e malefícios. Com suas doenças raras, e vidas mais raras ainda.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Feliz da Barata

Éramos três homens de terno desfilando pelas cidades em um veículo amarelo. Temos o costume de conjugar o início de nossas histórias no passado, sempre "éramos" ou "era" ou "foi", não sei o porquê de fazermos isso sendo que as histórias continuam sempre. O certo seria Somos três homens de terno desfilando pelas cidades em um veículo amarelo.

E é isso mesmo o que somos, fomos e éramos, e ainda seremos enquanto o mundo for mundo, apenas por termos sido uma vez. Até porque existem fotografias nas quais estamos eternizados, de terno preto diante de um veículo amarelo. Imagina se usássemos óculos escuros, pareceríamos a máfia. Entra uma garota no carro, namorada de um de nós. Vestido preto com rendas e bordados, um sapato delicado de donzela. E ela desfila com os três homens de terno preto em um veículo amarelo.

Nessa tarde, celebramos a vida e as vidas, as idas e vindas e a união das vidas e das vindas. Agora há um casal que ruma para o Rio Grande do Sul, ou já deve até estar lá enquanto alguém (quicá você) lê esse determinado relato. O casal não usava terno, usavam amor, vestiam-se de amor da cabeça aos pés, e também desfilaram no veículo amarelo. Um casal que é amor desde sempre, e continuará sendo enquanto o mundo for mundo.

Após uma tarde de amores, ternos e veículos amarelos, algumas vezes usamos plural/plurais demais, a palavra plural também tem plural. Assim, no singular e acompanhado de plurais, cada homem de terno seguiu seu rumo em direção à noite. Desembarquei no local onde a maioria das almas desgarradas se unem, se juntam, acoplam. E lá estivemos, agora apenas eu de terno, às margens do caos, vivendo a própria ordem.

Acendo um cigarro. Não, acendem por mim, a fumaça se une a todas as outras fumaças. Juro pra você que é apenas neblina, termina o teu lanche, temos só até as dez, garota. Idas e vindas, muitas pessoas conhecidas, outras tantas desconhecidas. Mas essas almas desgarradas já sabem que esse lugar é propício para isso.

Encontro a quase-atriz, que não o foi por doença. O ex-amigo que ainda é amigo porque, oras, amizades não podem ser deixadas assim. Amigo uma vez é amigo sempre, mesmo que não o seja em tempo verbal presente. Somos três homens de terno, assim como, sim, ainda são amigos. Encontro também o trio maravilhoso, dançarinas da alma, as garotas mulheres que bailam ao som do palpitar dos corações ao seu redor. Encontro a musa das alternatividades, que em breve se destina ao litoral, talvez cansada da austeridade demagoga do universo inteiro.

Todas essas pessoas se conhecem e se desconhecem. Por fim, ainda de terno, sem veículo amarelo, e sem tantas outras coisas que me fazem alguma ausência no meio de tanta sobra, já no limiar da noite. Nessa hora, encontro a atriz que sim, ela sim é atriz, e é tanto quanto mais lhe possa caber em estatura diminuta, porém de um coração imenso, de mãe também.

Observamos quando um carro se aproxima. E pensávamos, ainda pensamos, que a noite não tinha ideias de piorar. A noite sempre arranja uma forma de piorar. Mas observamos a barata, eu pensava em um filme que vi outrora onde um escorpião iniciava a película e terminava a vida sob um pneu de um carro na estrada. A atriz, revelou-me depois, pensava em situação semelhante. Então, ainda agora, passa um pneu de um carro esmagando a barata, ceifando-lhe a vida, espalhando seus líquidos corpóreos pelo asfalto gelado.

Rimos. Era o que nos restava, é o que nos resta. Fim de noite, no lugar onde as almas desgarradas se encontram, onde os amores se acoplam, onde todos se conhecem e se desconhecem, onde tudo é plural e singular. Início de manhã, o ônibus chega. Feliz da barata.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Ela é uma Praia Quieta no Inverno

Todo continente é também uma ilha, pois que praia nenhuma tem ponto final. Mesmo que hajam rochedos, montanhas, fozes e arrecifes, pois que tudo o que é litoral, costa e beira-mar, é também praia, sendo essa apenas uma, ou muitas, denominação relativa.

Ela é uma praia quieta no inverno, não daquelas que passam uma temporada gerando recursos para nativos que passarão o resto do ano apertados com os ganhos dessa pequena faixa de tempo determinada do ano. Mas sim daquelas dos lugares frios por si só, mais frios do que as pessoas. Aquelas praias de lugares onde as areias têm o costume de não ver a luz do sol. Na paisagem dos olhos dessa praia vejo a busca por paisagens a não se ver. Lúgubre e melancholica.

Em viajar não há ponto final. Também não o há em escrever, pois que afinal de contas, ao final das contas, conta-se que coisa nenhuma tem final. Oras, então porque utilizar-se de métodos de pontuação que não deveriam existir; Se bem que utiliza-se do inexistente a todo o tempo, vejamos bem que por si só o próprio tempo é inexistente;

No entanto, taciturna e angustiosa, a praia, sem ponto final, continua viajante; O primeiro passo é igual ao último; Sem pontos finais, nunca mais; Começos e fins cíclicos, viagens sem volta; Por que utilizar-se de viagens sem volta? Oras, não seria a interrogação uma espécie de ponto final? Digo não, isso pois que ela deixa aberta a porta para uma possível resposta; Respostas são contínuas..

Assim, soturna e aflitivamente, olho os olhos da  praia, esperando resposta; Uma resposta sem ponto final; Dessa praia fria e chuvosa, desse clima amistoso; Pois que praia nenhuma tem ponto final, e assim também o são os escritos;

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre Voar e a Destruição de Nossos Tempos

Dizer que "voar é vencer o ar" é um paradigma muito contraditório, visto que só se voa porque o ar existe. Caracteriza-se então, uma relação de parasitismo, em que se tira ligeiro proveito do ar, de forma prejudicial, pois que com a fabricação de aeronaves, e a queima dos afamados combustíveis fósseis por parte dessas, polui-se-o, esse que é essencial para o exercício de sua mesma existência.

Não tem o que esquecer, quando não há nada para lembrar. A memória é exatamente o principal problema, e é ela que serve pra nos ajudar a não levar mais pedrada. Conquanto por vezes ela falhe, engane, deturpe a existência do real ou do surreal. Ou ainda aquele real imposto.

Eu diria que medo de sentir medo é medo também, mas dizer isso pra quem? Eu diria que se esconder da visão é cegueira também, mas dizer isso pra quem? Estou falando com as minhas vozes. Todas essas colegas de tempos imemoriais, e que, quem sabe?, teria a memória as inventado, como dizendo que "olha, você existiu antes". Mas não, não existiu antes, quiçá nem agora, menos ainda depois.

Voar é abstração, é metáfora também, explicação deveras desnecessária àqueles que têm visão poética. Mas oras, algumas pessoas possuem almas apaixonantes. Filmes reprisados, histórias recontadas. Assuntos demais.

Tudo bem destruir o ar de vez em quando. Tudo bem rasgar o chão e definhar de vez em quando. Mas oras, cuidado com ideologias distorcidas! Cuidado com o estouro da manada! Cuidado com a falta de inimigos, ou mesmo de armas! Não há o que vencer, se não há a quem enfrentar. Como não há o que voar, quando há falta de ar. Como não há o que amar, quando, oras, quando não há.

Voar é uma ideologia também, quando não é natureza. Jimmy diria que "mama, I've gotta try". Não sabe você que todos os heróis já morreram? Em tempos tão opiniáticos, deve-se lembrar que é sempre mais fácil falar do que realizar. Também é fácil falar que é mais fácil falar do que realizar. Difícil é voar. Difícil é aprender a voar sem destruir o ar.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Sísifo Acorrentado

Um corpo em depressão tende a permanecer em depressão até que Sísifo venha lhe tirar da inércia morro acima, para então, logo depois, cair novamente, numa espécie de montanha-russa estática e eterna. Sísifo, porém, está também a cumprir com sua própria inércia, resultado de sua própria rebeldia. Rebeldias somadas geram inércias e depressões. Assim se criam físicas e geografias.

Escrevo poesias em guardanapos de bordel. Buscando desesperadamente por adicção, invento palavras como quem inventa sentimentos. Invento escreveres como quem inventa contextos e contextualizações. Tudo não são mais do que letras no papel, na tela, ou na cabeça, signos do pensamento abstrato, representações do irrepresentável, abstração do subjetivo.

O amor da minha morte, uma droga que chamem morte, adictiva e intransigente. Em tempos desperdiçados, determinados pela angústia do não-viver, viver é a maior das drogas, morrer é a maior das adicções. Pois que, como já disse, as coisas com muito mais frequência são não do que são sim.

O que devemos e podemos já não importa, toda as lutas estão perdidas, as batalhas são derrocadas e hecatombes desnecessárias. Desesperadamente determinados. Necessário mesmo é fazer vencer a inércia. Oras, essa contradição fisicista! Não se vence, aprende-se a viver com ela, tratam-se acordos, e quem sabe se Sísifo não tenha ele mesmo escolhido seu castigo num acordo tétrico.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Quero Morrer numa Festa

Odeio essa inquietude e essa angústia, porém não consigo viver sem elas. Acho que é assim que as pessoas são, odiando o que são e o que fazem, mas nunca se livrando disso, porque se livrar disso seria se livrar delas mesmas, e tenho a impressão que isso ninguém quer, ao menos não conscientemente.

O câncer talvez seja a melhor das doenças, pois ele faz com que as pessoas se livrem delas mesmas. O amor é como um câncer, uma deformação nas células, uma mutação, que faz com que elas se multipliquem descontroladamente. O amor talvez seja a melhor das doenças. Ele faz com que as pessoas se livrem delas mesmas, criando universos paralelos de mundos fantásticos, onde a tendência de tudo é dar certo. Repito, tendência.

Mas a paixão platônica talvez seja uma doença ainda pior, ou melhor dependendo do ponto de vista, pois para ela não há remédio. Pensamento polifásico é placebo, projeção do sentimento adquirido na musa é placebo, a própria imaginação é placebo. Mas lindas mesmo são as paixões platônicas que duram algumas horas apenas. Dentro do ônibus as vezes, uma vez por dia. Ou numa festa.

Cachorros de rua estão sempre em festas. Conglomerados de selvageria em meio à selva urbana de civilidade. Agora, quem saberá dizer qual animal é o mais selvagem? Se você levar um cachorro de rua para casa, tratar, dar banho e alimento, cuidar com carinho; não importa, ele vai pular o portão e fugir, cheirar cus por aí e rolar na terra, e por fim pegar sarna. É o que eles fazem, e é o que nós fazemos. Uma vez cachorro de rua, para sempre cachorro de rua.

Na rua também há câncer, e talvez também haja amor... Talvez o próprio câncer ame. Oras, por que não? Talvez ele sinta uma espécie de amor autodestrutivo pelas células que ele mesmo cria, talvez ele até faça isso porque ama demais. Porque, afinal, o amor é de fato uma das melhores doenças. E é também autodestrutivo.

Meu colchão melhorou, o emprego melhorou. Mas melhorar nada mais é do que apenas ficar menos pior. Quem sabe se assim o amor também melhore, ou despiore. E também essa paixão platônica de festa, com uma pitada de câncer. Por isso tudo quero morrer cachorro de rua. Quero morrer numa festa.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Voyage au centre de si mesmo

A mais fabulosa viagem que alguém pode fazer é a viagem para dentro de si mesmo. Sem precisar comprar passagens antecipadas em três meses para que se aproveite uma promoção falaciosa. Sem precisar juntar trapos em uma bolsa desfigurada. Sem precisar sequer planejar com qual vizinho indesejado ficará as honras de alimentar o cachorro.

Há ainda diversos outros benefícios: dentro de sim mesmo, as paisagens são as mais exóticas que uma pessoa pode ver algum dia; os animais são dos mais estranhos, chegam a lembrar aqueles peixes abissais que vez por outra são encontrados mortos nas praias desertas. Dentro de si mesmo, cada mísero centímetro quadrado tem o poder de surpreender e assustar.

Um corpo cheio de coisas pode estar cheio de nada. Vísceras são alguma coisa, porém depois de mortas são nada. Um buraco está cheio de vazio. É possível preencher o espaço vazio de um buraco, ou de um corpo, com qualquer substância. Mas ao preencher esse espaço, ele não deixa de estar vazio, pois que o vazio apenas muda de lugar. O vazio é cíclico e, cedo ou tarde, volta para preencher. É impossível estar sempre cheio.

Todo castelo foi construído para desmoronar. Cada pedra colocada em sua estrutura tem em sua própria natureza a intenção de ruir. Areia nada mais é do que uma rocha que envelheceu. Pois que o tempo passa para todas as coisas, vazias ou não. E uma rocha está sempre cheia; cheia de areia dentro de si, e mesmo assim vazia; vazia de castelo. Pois que uma rocha sozinha nunca será castelo.

As ideias desmoronam, as pessoas desmoronam. Muito mais, inclusive, do que os castelos. Dentro de si mesmo, cada pessoa desmorona, e essa viagem deve servir não para evitar esses desmoronamentos, mas para reconhecer a areia da rocha velha.

Dentro de si mesmo, há que se preencher cada vazio com essa areia, como uma ampulheta antropomórfica que não está contando o tempo, mas sim a vida e a não-vida. Dentro de si mesmo, há que se responder se vale mais a pena ser problema ou solução, teorema ou resolução. Dentro de si mesmo, há que se entender que o vazio nada mais é do que a falta do nada, pois que por vezes até o nada preenche o vazio.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Angústia

Ando de bicicleta por aí pra não precisar respirar. Sinto falta de ar a todo momento e não gosto de carros, por isso chego à conclusão que estou dirigindo as máquinas erradas. Se é que a gente nasce pra alguma coisa, nasci pra ser diretor e não motorista.

Eu com a galera.
Hoje sei que a angústia deve ser a pior das doenças, pois mesmo os piores demônios têm medo de morrer. Eu não tenho. Somos cachorro de rua, fedendo na chuva, cheio de pulgas, revirando latas de lixo, se contentando com aquele osso semi-roído, e procurando aqui e acolá um pouco de sarna pra se coçar.

Penso demais, e por pensar demais acabo perdendo demais, acho que a maioria das pessoas é assim, deixam de realizar por ficar cogitando as formas de realizar, deixam de ser por ficarem esperando que sejam; mas tenho a impressão que já disse isso antes. Por pensar demais acabo dizendo coisas vezes demais.

Ainda há que saber o que é o amor. Esse Leviathan assustador, que angustia, faz pensar e tira o ar; que todas as pessoas buscam, e depois fogem dele; ao qual escrevem-se poemas fadados a serem rasgados. Gosto de escrever poemas, desde que alguém goste de lê-los.

Acho que venho fazendo bem em não querer definir o que é o amor. Apenas o pensamento, a angústia e a falta de ar devem ser suficientes. Pois que não é preciso respirar.