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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Tempo

O universo tem uma maneira curiosíssima de lidar com as coisas, pelo menos até o ponto em que podemos interpretá-lo. Somos criaturas de quatro dimensões, sendo uma delas impalpável, nossa capacidade de entender o que cerca nosso planetinha é limitada demais.

Sabe-se que não é possível calcular com exatidão tanto a velocidade quanto a posição de uma partícula ao mesmo tempo, só podemos ter um desses dados, a leitura de um compromete a própria existência do outro. Se algum dia o ser humano for capaz de saber com precisão velocidade e posição de uma partícula ao mesmo tempo, e eventualmente estender essa capacidade a aglomerados de partículas, seremos capazes de prever o futuro, pois com esses dois simples dados é possível prever exatamente onde essa partícula, ou aglomerado de partículas, estará em qualquer momento vindouro.

Se o aglomerado de partículas for todo o universo, e o ser humano conseguir algum dia calcular isso, poderemos saber com precisão todo o futuro de todo o universo. Assim, essa é uma teoria física que, de certa forma, prevê a existência do destino. Ao sermos capazes de saber onde as partículas estarão, poderemos ser capazes de alterar seus cursos, mas essas alterações são praticadas por partículas, pois que afinal somos amontoados de partículas também. E dessa forma, mesmo essas alterações poderiam ser previstas.

Nossas decisões mais independentes, praticadas no interior de nossas sinapses cerebrais, não são mais do que trocas de informações entre partículas, que, segundo essa teoria, podem ser previstas também. O livre-arbítrio é nada mais que conexão de partículas, e pode ser predito.

O tempo passa. E ainda não podemos prevê-lo, não podemos brincar com ele, alterá-lo. Nada disso é real, amontoados de partículas também. O destino pode nos fazer receber visitas, e escrever poemas épicos que ele já sabia que escreveríamos. Todos nossos amores, ódios, amigos e inimigos, todas as vezes que você já pisou no cocô do cachorro na calçada da frente de casa até hoje, tudo isso, passa como o tempo. E fica para trás. Como uma caixa escondida no fundo do sótão, que você não consegue alcançar, por mais que tente.

E podemos dizer que nossos sentimentos são as únicas coisas que nos conectam aos tempos em que não estamos. A lembrança de algo é a existência daquilo que está no passado e não existe mais. Mas ali naquelas partículas transitando no cérebro, aquilo ainda existe. E viaja no tempo.

Me sinto como a velha árvore que se curva sob a força do vento. Me sinto como aquela caixa do fundo do sótão, nunca alcançada. Ando pelas ruas desertas de madrugada, e me sinto como a lâmpada do poste, que há anos observa a noite consciente de que existe para iluminar o caminho de ninguém. O tempo continua passando, e o cansaço vem chegando. Já não sou mais o mesmo, e ainda não é possível prever aonde está indo o amontoado de partículas que sou.

Se for algum dia possível prever o futuro de todas as partículas, seremos capazes de prever também os desígnios do coração. Não das sístoles e das diástoles, isso é fácil. Mas sim das intenções obscuras do coração, das explosões de oxitocina e dopamina. Será possível prever o amor, a forma de agir do coração apaixonado.

E nem A nem B nem C têm culpa. Aparentemente, a culpa é das partículas. A culpa é do tempo, que corre e movimenta cada partícula. Que gera transmissões cerebrais, e explosões hormonais, e nossas ações e inações, e os amores e desamores.

Mas essa teoria pode estar completamente errada. Podemos nunca ser capazes de prever nada, porque talvez não haja o que prever. Talvez, e só talvez, as sinapses sejam mesmo livres. E nossos amores também surjam sem estarem pré-programados para acontecer. Talvez o tempo e o destino não façam com que as coisas sejam da forma como eles querem, mas apenas deem as cartas, e jogamos com essas cartas como queremos e podemos.

Talvez o universo tenha mesmo essa maneira curiosa de lidar com as coisas. E talvez isso aconteça porque ele também se surpreende com o inusitado, com o que ele não imaginava que aconteceria, e ache isso engraçado. Todas essas memórias. Todos esses amores. Todos esses amontoados livres de partículas. Eu prefiro que seja assim.

domingo, 1 de março de 2015

Vibração

Todo corpo emite ondas. Toda existência física, senciente ou não, demarca sua presença no universo através da emanação de ondas vibracionais para todos os lados. Ondas variam em comprimento, velocidade, magnitude, variam na direção de suas cristas, e variam também em sua frequência. É uma equação complexa a variabilidade de um corpo físico. Todo corpo vibra e todo corpo emite ondas. Somos criaturas vibracionais. E também o somos em direções diferentes.

Quando dois corpos que vibram na mesma frequência se encontram, mas as direções são opostas, nada dá certo uma vez mais. E dividir a vida é mais fácil do que dividir o átomo, ou vice-versa. Mas buscamos, ou precisamos, aumentar a entropia, nunca diminuir. Por isso história nenhuma começa ou termina, nunca.

Houve uma época boa, vivida e revivida em devaneios, de forma vívida. Lembrada, relembrada. Mas qual época não é boa? Tenho visto a vida passar diante de meus olhos. Seria hora de parar? Dividir o átomo, dividir a vida. Vibrar em direções diferentes. Continuar com essas histórias cíclicas, em seus momentos em que aqui devem passar. Quem sabe em qual frequência está?

Começamos tudo de novo. Dividimos o átomo nessas histórias cíclicas. Alguém já escreveu de trás para frente? De costas, andando para trás. O tempo não volta, a entropia não diminui. Todo corpo vibra e emite ondas, e todas as épocas são boas, tudo depende da frequência na qual você está vibrando. Dividir a vida ou dividir o átomo? Continuar, devaneios, felizmente o mundo gira. Nada começa e nada termina. Nunca.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sobre Fazer Novamente Tudo Aquilo que já Fizemos Uma Vez

A Teoria do Universo Inflacionário seria uma ótima pedida se estivéssemos levemente preocupados com a física quântica no momento em que os nossos universos descem às suas próprias ruínas. E enquanto cavalgamos em direção à essa auto-proclamada ruína, percebemos que estamos fazendo novamente tudo aquilo que já fizemos um dia.

O tempo teria um fim, mas não que ele acabasse, seria talvez o limite dele, o momento em que ele grita para os seus próprios labirintos: "Chega! Já deu, já basta!". E então ele voltaria atrás, por todo o trajeto recém concluído, da mesma forma como veio, rastejando, lurking por todos os caminhos, despretensiosos ou não, já feitos algum dia. Até aquilo que outrora havia sido o seu começo, para então iniciar novamente o mesmo ciclo.

Sem diferença nenhuma seriam trilhadas essas estradas. Os mesmos paralelepípedos, o mesmo calçamento de petit-pavé empoeirado, as mesmas faixadas de prédios antigos que brilham sem ter luz, os mesmos bêbados mal-agasalhados. E então seriam repetidos os mesmo erros, do mesmo formato e tamanho, na  mesma proporção. Pois que quem erra uma vez, erra sempre.

Trilhamos a rua e a noite, cavalgamos em direção à ruína num mundo sem aurora. E atingimos ela antes daquele coalho de berinjela. Fumaça, névoa, gases e neblina compunham o ambiente. Hora de retomar antigas antíteses, falar do que nos convém. A rua continua aqui, tanto tempo depois, da mesma forma. Oras, pois se essas personagens continuam elas também as mesmas. O tempo não muda nada no fim das contas.

Aqueles rostos conhecidos fustigavam a fumaça com suas almas, exalando temores contidos. Aqueles rostos que já planejaram ser personagens de fato, e, oras, pois serão, sim, serão personagens de suas próprias histórias, e daquelas que devemos, que temos a obrigação de contar. Não porque alguém disse que temos, mas algumas missões nunca precisaram ser passadas. Se bem que estamos mesmo acostumados a aceitar apenas aquilo que acreditamos que merecemos, seja assim tanto quanto se fala de amor.

Pois então que escrevamos pela metade. Oras, não se erra por inteiro mesmo. E nenhuma ruína é completa. A fumaça então como personagem, lurking entre as pessoas: lá estava ela açoitando a noite com sua alma, no meio da fumaça que pairava no ar rejeitando as ordens de "deixem o recinto", e vejam bem, logo vem a aurora. Mas esse deve ser o começo da próxima história.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sobre Números e o Depois que Nunca Chega

Sempre gostei de números, é uma habilidade natural de certa forma incongruente com a lógica jornalística. Porém, prefiro os números maiores, acima de 7, sete é um número legal, e todos os terminados com eles. Odeio os números redondos, são coisa de gente acomodada. Talvez por isso a Física seja minha ciência favorita: anti-acomodação e pró-números.

Se a mim fosse dada a incumbência de escrever as enciclopédias, assim eu definiria o verbete 'ser humano': "s.m.: única criatura dotada da capacidade, da habilidade suprema, de procrastinar todas as coisas". Assim, pagamos em 12 vezes. Doze também é um número legal, mas não para atitudes financeiras procrastinadoras.

O agora é o momento em que as coisas acontecem. O futuro é abstrato, nada mais do que uma projeção do que planejamos e queremos que seja, e sonhamos que assim será. Dá-se características numéricas para datas e valores que ainda não aconteceram, e que, grandes chances de, nunca acontecerão. Procrastinar é criar pré-requisitos para um futuro hipotético. Vive-se de amanhãs.

A memória, em geral, está no passado. No entanto, essa vontade humana de deixar para depois faz com que tenhamos saudades do futuro, daquele futuro maravilhoso que desejamos, mas deixamos para depois as atitudes que poderiam fazer ele acontecer. Por isso, é possível ter memória do futuro.

A física, e seus números, nos diz que não podemos lembrar do que ainda não aconteceu. E que, por isso, não podemos nos prender ao futuro, ao eterno depois, devemos viver de agora, e aumentar as probabilidade do futuro que queremos que aconteça. Há que se viver de fatos, de fazer os fatos acontecerem, de não pagar em 12 vezes o que pode ser realizado em apenas uma. Pois que, fatalmente e (por que não?) felizmente, algumas vezes o depois nunca chega.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Uma Teoria sobre o Amor e a Física

Escrever essa teoria é uma empreitada arrogante e egoísta de objetivo pouco claro. Porém, a própria vida não tem objetivo tão claro e definido, e tendo em vista que os dois temas a serem aqui explorados são de natureza ainda mais incerta e abstrata, acho então que a própria falta de necessidade da formulação dessa teoria caracteriza a sua necessidade. Dessa forma, aqui veremos como pode, ou deve, ser relacionada a Física com o Amor.

O filósofo austríaco Karl Popper define uma teoria científica como um modelo matemático que descreve e codifica a observação que fizemos. Dessa forma, observamos os dois temas propostos de modo matemático, tirando a característica subjetiva do amor, que o torna tão imprevisível, e aplicando ela à física, que é mais objetiva. Portanto, ambos estarão balanceados de forma a fazer com que o equilíbrio torne a comparação justa.

Assim, começamos pela Teoria do Éter. Acreditava-se que o éter seria uma substância que permeava todo o espaço vazio do universo, serviria como o material condutor da luz. Essa teoria começou a cair em descrédito em fins do século XIX, sendo abandonada de vez após a Relatividade Geral. A comparação a ser feita coloca o amor como uma ‘entidade’ também presente em tudo, completando o universo, existindo em todas as criaturas vivas e não-vivas, conduzindo a luz entre os corpos. Da mesma forma que o éter foi abolido da mentalidade físico-científica mundial, hoje também a maioria das pessoas já não vê o amor como algo onipresente, sendo muito mais freqüente a busca eterna por tal estado de espírito. 

Outra teoria a ser estudada é o Princípio da Incerteza, o qual diz que é impossível saber com precisão a velocidade e a posição de qualquer partícula em um determinado momento, só é possível conhecer um desses dados por vez. Isso porque se conseguíssemos medir as duas grandezas ao mesmo tempo, acabaríamos alterando elas devido à interação necessária para que tal medição seja precisa. No amor é impossível saber com precisão e ao mesmo tempo, os dados relativos aos sentimentos de ambas as pessoas envolvidas em determinado relacionamento, ao ser capaz de mensurar um dos envolvidos, o observador corre o risco de interferir no sentimento do outro em relação ao primeiro. 

Já o Princípio Antrópico funciona no sentido de que não haveria amor se não houvesse uma humanidade para amar. Afinal, sentiriam amor os objetos e as outras coisas? O princípio antrópico diz que tudo o que existe foi desenhado para a existência da humanidade, ou que pelo menos se as coisas fossem minimamente diferentes não seria possível a existência da vida como a conhecemos. Talvez mesmo as menores situações dentro de um relacionamento funcionem no sentido de possibilitar o seu sucesso ou fracasso, no que poderia ser chamado de destino, ou de uma força superior agindo no amor. Ao olhar para trás em um relacionamento poderíamos apontar todas as características que se fossem levemente diferentes impossibilitariam a sua existência. 

A Gravitação Universal diz que todos os corpos possuem uma força de atração, que atua sobre todos os outros corpos existentes, e que é proporcional à sua massa e distâncias entre eles. Assim, todos os corpos do universo manteriam-se em sua órbita constante em virtude dessa força invisível que une todas as coisas, visto que ela agiria como uma espécie de amarra entre os corpos, cada um deles mantendo os outros em suas posições fixas. O amor seria a própria força de gravidade, cada um dos corpos de um relacionamento teria sua própria força de ação, medida pela distância e magnitude dos sentimentos mútuos, e que seria o agente responsável pela união e manutenção da rota entre os corpos físicos a as almas transcendentais de um casal. 

Quanto mais alta a Entropia, menos desordem num determinado sistema, essa teoria explica que a tendência de todas as coisas é evoluir gradativamente até um estado em que tudo esteja estático, em harmonia e perfeição. Essa evolução deve acontecer primordialmente através da troca de calor entre corpos, explicada na termodinâmica, que tende a equilibrar as temperaturas, a partir do momento em que tivéssemos tudo na mesma temperatura, todas as coisas estariam estáticas. Num relacionamento longevo, isso significaria a representação das coisas caminhando rumo à harmonia e calmaria, ultrapassadas as épocas ruins de desordem, acabaria tudo caindo na monotonia da perfeição. Definimos assim que com o passar do tempo a tendência de qualquer sistema, incluindo o amor, é atingir a entropia máxima. 

A teoria da Relatividade Geral revolucionou a física como a conhecemos, ela prevê que a velocidade da luz, apesar de constante, é variável de acordo com o ponto de vista do observador em questão, tornando-se relativa. Da mesma forma acontece quando se trata do amor, pois num relacionamento as coisas boas e ruins que acontecem têm sua velocidade determinada dependendo do ponto de vista das partes envolvidas. Uma das contrapartes pode sentir a relação se deteriorando mais lentamente que a outra parte. Além disso, quanto maior a velocidade, mais energia será usada, tornando a aceleração mais lenta, diminuindo por consequência a velocidade, por isso um relacionamento pode começar e evoluir muito rapidamente, e depois conforme necessita mais energia para mantê-lo, a aceleração diminui e a velocidade também por conseqüência. 

A teoria do Tempo Imaginário Idealizador considera esse um tempo diferente do real que utilizamos e conhecemos, ele cresce com números imaginários e em um ângulo de 90 graus em relação ao tempo real, sendo uma forma de idealizar a realidade. É como dizer que além da forma real com que o amor ou romance se desenvolve, existe também a imaginária, que funciona num vetor diferente e é idealizada de forma a proporcionar uma melhor compreensão quântica da relação. 

Buracos Negros são anamorfias surgidas a partir do colapso de estrelas, possuem massa tão extrema que nem mesmo a luz pode resistir à sua força de atração. Relacionamentos que são belos e intensos como estrelas, possuem massa extrema e tendem a tornar-se buracos negros quando findam, formando uma anamorfia condensadora de massa, e que pode crescer indefinidamente englobando a massa das regiões próximas. Nem mesmo a luz pode escapar à sua força, porém ele emite uma certa radiação por possuir temperatura, como qualquer outro corpo, que seria correspondente ao caso dos relacionamentos ainda acesos, e seus ‘remembers’ recorrentes. Portanto, amores intensos geram anamorfias intensas. 

Chegamos aqui, justamente no fim, à luz das mais importantes correntes teóricas da física contemporânea, e vislumbramos o que pode ser considerada a união comparativa de dois dos mais aclamados e explorados assuntos da humanidade. De um lado, o amor, lírico e poético, das grandes histórias. De outro, a física, com sua busca eterna por explicar a vida e as coisas que a envolvem. Dois assuntos tão distintos, e, como verificamos, tão próximos. 

Há que se desenvolver ainda a tão aguardada TOE, theory of everything, ou teoria de tudo, que busca integrar todas as outras teorias em física. Há ainda muito que se amar e descobrir no amor, tão abstrato e variável que é. Porém, feita a comparação justa, ambos os assuntos deverão sempre ser paralelos, daqui até o fim, quando não houver mais amor nem razão para amar, e quando teoria alguma fizer sentido.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Relativo à relatividade

Professores passam diversos textos acadêmicos que até devem ser muito úteis. Eu não os leio, nos intervalos entre uma aula de telejornalismo e uma de teorias da comunicação, estudo sobre física quântica, astronomia, sociologia, geopolítica, etc.

No retrovisor vejo o reflexo do reflexo, e as coisas que ficam pra trás parecem estar indo pra frente, sinto as coisas se repetirem, e o movimento também é relativo. As idas e vindas do movimento são relativas, e tudo o que é relativo às idas e vindas é relativo. Carinho e afeto são relativos, e o tempo que se tem a dedicar assim o é. E dedica-se o tempo que se tem, ao que for, e o tempo que restar, com ele se faz o que quiser. Mas nunca o tempo é pouco, é apenas relativo.

Tudo depende do ponto de vista, tudo depende da perspectiva. Depende de quem olha e de onde olha. Existe a ideia de que acima da velocidade da luz é possível viajar no tempo, e bem, todos têm teorias sobre como fazer isso. Mas a bem da verdade viaja-se no tempo a todo o tempo, tendo em vista que o próprio tempo é relativo. A relatividade é relativa.