Mostrando postagens com marcador vazio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vazio. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de agosto de 2014

Não Sei Mais Escrever

Meros signos para descrever o mundo ao nosso redor. Erigir uma... uma... uma? Qual é a palavra mesmo? Cultura... Sociedade... Humanidade... O que não definir. Erigir essa coisa toda que acordamos para ver todos os dias, para ajudar a erigir todos os dias; apenas porque sentimos um dia a necessidade de dizer uns aos outros qual era a merda que estava ocorrendo dentro de si mesmo. E então o teu coração deixa de ser um músculo com quatro cavidades destinado unicamente a bombear sangue. Sim, porque isso é vulgar demais.

Falemos de como ocupar esse músculo. Pois que deveria ser com fibras, e carboidratos, e proteínas, e essas coisas todas que acordamos todos os dias para viver. Oras, mas não... escolhemos preencher esse músculo com sentimentos. E por essa escolha, pagamos continuamente, erigindo culturas, sociedades e humanidades. Com a vaga intenção de preencher músculos por aí, transformo 15 linhas de conto em página e meia de roteiro.

Comunicar é preciso. Não poderia haver maior inverdade, não que seja mentira, apenas não é verdade. Por vezes, me escondo em um buraco cuja profundidade está exatamente ao nível de meus olhos. Dessa forma vejo o mundo, e as coisas nele sendo erigidas, do nível do chão. Me abaixo, me escondo na escuridão no buraco, e quando volto a me levantar, para ver o mundo do chão novamente, ele muda completa e drasticamente. E isso não resolve.

Essa angústia existencial que não passa, e o seu sorriso sem graça. A vida demora demais para acontecer. No entanto, ela acontece muito rápido. É um complexo e indistinto paradoxo, desses muitos que acordamos todos os dias para ser. A verdade é que não sabemos o que está acontecendo por aí a maior parte do tempo. O que acontece é que estamos alimentando e preenchendo esse músculo, com culturas, com sociedades, e com humanidades. O fato é que eu nunca soube.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Tamanho da Alma

Tenho a impressão de estar sobrando cada vez mais espaço no interior dessa alma. Talvez ela esteja mesmo aumentando de tamanho, sem se preocupar em elevar o conteúdo. Ou talvez ela esteja simplesmente esvaziando, como uma piscina de quintal - naqueles tons azuis falhos imitadores de oceanos, mas com rosto, cheiro e até mesmo gosto de infância, - contendo um furo imperceptível, o qual nunca conseguimos remendar.

Acredito sermos do tamanho daquilo que carregamos conosco. Do tamanho de nossas bagagens. De nossas angústias, medos, anseios, vontades, culpas, resoluções, e tantos quantos mais substantivos masculinos e femininos, próprios e impróprios, sejam possíveis enumerar. Somos do tamanho de tudo isso.

Pelo peso, tentamos uma vez medir, tentamos uma vez delimitar em convenções humanas. Vinte e um gramas foi o resultado, deveras uma brisa, apenas categoria peso pena nas contendas universais pela vida ou pela morte. Em morte, vinte e um gramas a menos. E uma alma mais à deriva, sem nenhum recipiente a ocupar.

Mas em que tamanho estão espalhados esses vinte e um gramas? Assim, é necessário avaliar qual seria a densidade demográfica da alma. E cogitar também se podemos alimentá-la, melhorando assim sua performance perante os pesados fardos da vida. Forrando o espaço vazio, como forramos nossos sistemas digestórios; como forramos nossas horas com tarefas; como forramos nossas vidas de momentos sequenciais, que buscam todos meramente forrar o vazio de nossas almas.

Para medir o tamanho de nossas almas, não devemos medir por tudo o que tem dentro dela. Mas sim, devemos medir pelo tanto de coisas que ainda cabem. Por tudo o que ainda falta, e pelos substantivos ainda não utilizados. Não se pesa em corpo morto, porque mesmo que se acerte o peso, ela não está mais ali. Se pesa em corpo vivo, em tudo o que fazemos e vivemos. Pois que a alma.. a alma pode ser infinita se assim ela quiser. O desafio é preenchê-la.

domingo, 23 de março de 2014

A Tristeza é a Coisa Mais Linda

Acho muito lindo quando um amor vira ódio. Pois que a vida é feita desses opostos, de peixes que sobem rios, enfrentam correntezas, sabendo que é ela que vai ajudar na futura existência de sua prole. De acasos que se tornam recorrentes. De saltos para precipícios imaginários. Mas sou um peixe que não gosta de água, e isso ninguém me tira.

Devemos acreditar a todo o tempo nessa angústia que floresce, que permeia nossa existência. A tristeza é uma coisa tão linda. Mas não alimentem os animais, e deveria haver uma placa dessas pendurada em cada coração. Não devemos desejar nada que não seja de verdade, não devemos alimentar falcatruas e inexistências, não devemos nos precipitar. Nos precipitar é nos tornar em precipício.

Mas nunca mais amei, e isso é terrível, nem falcatruas nem inexistências, nem nada parecido. Ainda frequento sonhos alheios, devo frequentar, ainda acordo sorrindo, sabendo que por 15 minutos foi recíproco, e foi exatamente isso que destruiu. Sentimento algum precisa ser recíproco, se ele existe por si só. Reciprocidade sim é falcatrua e inexistência.

Ainda acho que genialidade é mero acaso social, fruto de companhias recorrentes, e sendo assim nada do que se faz, sentido faz. Fazia de tudo, menos sentido. Não acredito em redenção, se nos perdemos uma vez, tudo está perdido para sempre, mesmo que recuperemos alguns pedaços. Ainda quero conversar com o cara que fez a vida assim tão triste.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Ponto de Vista de um Evento Epopeico por um Pacote de Bolachas

E toda essa pose de rockstar? Tudo fuleirice... Nada além de uma imagem que se queira passar, um personagem, algo que nem existe. Carregando sacola, a roupa do corpo e a necessidade apenas. Por que essa gente precisa de tanta coisa? Eles precisam de tudo o que possa preencher o vazio de suas almas. E é assim que as coisas andam.

Ouvi dizer que haveria companhias. Assento vazio ao lado, frigobar vazio ao fundo. Oras, não exatamente vazio, mas tenho a impressão de que está vazio tudo o que não está cheio. Não existe meio termo, todo e qualquer espaço que se cria é um vazio. Talvez a alma daquelas pessoas esteja apenas com um pequeno espaço vago, mas assim e por isso mesmo, estão vazias.

Uma parada em local desconhecido, em terreno obscuro. Mas se bem que pra quem nunca foi muito além de linhas de montagem de embalagens, caixas acomodados em locais húmidos, prateleiras inconstantes e armários complexos, qualquer lugar se torna um terreno obscuro.

Capa para chapinha e progressiva. Chuva anunciada e programada, pois que não é chuva aquela que não vem para dificultar alguma coisa. Oras, mal sabem os seres de alma vazia que quanto mais ela te molha, mais bem ela te faz. Não precisamos, apenas um pedaço de plástico semi-verde para mim, e uma capa transparente que deixaria os pés de fora para quem me acompanha.

Fila, infinita, desconexa, inconstante ela também. Sabe-se lá em que a criatura humana se baseou para criar a necessidade da fila, de organizar as possíveis balbúrdias causadas por excesso de pessoas buscando o mesmo objetivo. Imaginemos uma ampulheta cujos grãos de areia se organizassem em fila, esperando sua legítima vez de passar pelo mínimo espaço contador do tempo. Havia pessoas jogando baralho, passando desodorante, passando por nós e jogando com a própria liberdade.

Enfim, o som, a magia das notas, aquilo que por tantas vezes foi dito não poder viver-se sem. Durante duas horas o chão nunca pareceu tão longe, perto, longe, perto. Ainda luzes para todos os lados, infinitas estrelas nas proporções de um estádio. Brilhando e iluminando nossas almas por vezes vazias. Sessenta mil almas. Pacotes de bolacha também têm almas?

No fim, uma procissão de almas molhadas, revigoradas, precisas em suas precisões. Caminhando a esmo, para onde quer que estejam indo. Não faz mais diferença alguma. Tudo o que passamos foi vívido por si só, e essas dezenas de carrinhos de cachorro quente nunca poderiam entender. Destinos é tudo o que temos, a todo o tempo, estamos apenas chegando a um lugar que vai nos dizer onde temos que chegar. E assim fomos, e assim estamos, de volta. Aonde quer que seja a volta, mesmo que no armário, pelo menos por enquanto.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sinestesia

A menina dos meus olhos não tem olhos para mim. Tem sido muito difícil enxergar, fisicamente e abstratamente, abstrai-se a mente e mesmo assim não se vê, não se enxerga o que está diante dos olhos. Pois que o que está diante dos olhos insiste em fugir e dizer, para si mesma e para os outros, que não está. Já desejei cegueira total, seria o cineasta sinetesta, criaria correntes e faria história. Oras, pois se o senhor Ludwig foi surdo ao fim de sua vida...

A repetição do nada não é repetição, é apenas continuidade. Repetição só acontece se a coisa existe uma vez para depois novamente, e assim infinitas tanto quanto infinitas forem. O nada só atrai mais nada, a menos que algum dia ele comece a ser alguma coisa, então não será mais continuidade, pois da segunda vez que for, será repetição. Até agora, tenho tido muito nada. E também muita repetição.

Há que se sincronizar a vida, e algumas sincronias são maravilhosas, e, quem diria, surpreendentes. Oras, pois que tudo deve fazer parte de coincidências com alguma coisa, no entanto algumas coisas são coincidências planejadas, nada mais, e ainda assim sincronia. Cada escala da partitura da minha vida foi composta num tom diferente, assim é tudo tão dissonante. Não há de haver corações pulsando na cena do homem de lata.

E há ainda mais que se sincronizar a vida com essa eterna repetição. Esse eterno amontoado de nadas. Não enxergar é um nada, porém é um nada que primeiro necessita de um tudo. Não existe cegueira sem antes ter existido olhos. Ver é mais difícil do que enxergar. E quem sabe se o surdo, ou um sinetesta, poderia sincronizar as escalas de tons, e produzir harmonia nessa vida. De qualquer forma, o nada já é alguma coisa, pois que, como já disse, todo buraco está cheio de vazio.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Voyage au centre de si mesmo

A mais fabulosa viagem que alguém pode fazer é a viagem para dentro de si mesmo. Sem precisar comprar passagens antecipadas em três meses para que se aproveite uma promoção falaciosa. Sem precisar juntar trapos em uma bolsa desfigurada. Sem precisar sequer planejar com qual vizinho indesejado ficará as honras de alimentar o cachorro.

Há ainda diversos outros benefícios: dentro de sim mesmo, as paisagens são as mais exóticas que uma pessoa pode ver algum dia; os animais são dos mais estranhos, chegam a lembrar aqueles peixes abissais que vez por outra são encontrados mortos nas praias desertas. Dentro de si mesmo, cada mísero centímetro quadrado tem o poder de surpreender e assustar.

Um corpo cheio de coisas pode estar cheio de nada. Vísceras são alguma coisa, porém depois de mortas são nada. Um buraco está cheio de vazio. É possível preencher o espaço vazio de um buraco, ou de um corpo, com qualquer substância. Mas ao preencher esse espaço, ele não deixa de estar vazio, pois que o vazio apenas muda de lugar. O vazio é cíclico e, cedo ou tarde, volta para preencher. É impossível estar sempre cheio.

Todo castelo foi construído para desmoronar. Cada pedra colocada em sua estrutura tem em sua própria natureza a intenção de ruir. Areia nada mais é do que uma rocha que envelheceu. Pois que o tempo passa para todas as coisas, vazias ou não. E uma rocha está sempre cheia; cheia de areia dentro de si, e mesmo assim vazia; vazia de castelo. Pois que uma rocha sozinha nunca será castelo.

As ideias desmoronam, as pessoas desmoronam. Muito mais, inclusive, do que os castelos. Dentro de si mesmo, cada pessoa desmorona, e essa viagem deve servir não para evitar esses desmoronamentos, mas para reconhecer a areia da rocha velha.

Dentro de si mesmo, há que se preencher cada vazio com essa areia, como uma ampulheta antropomórfica que não está contando o tempo, mas sim a vida e a não-vida. Dentro de si mesmo, há que se responder se vale mais a pena ser problema ou solução, teorema ou resolução. Dentro de si mesmo, há que se entender que o vazio nada mais é do que a falta do nada, pois que por vezes até o nada preenche o vazio.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vazio

“Eu não te amo mais”, foi o que ela disse, com todas as letras e sem titubear. Não teve coragem de repetir, mas nem precisava, uma única vez era suficiente.

Naquele momento tive a sensação, quase certeza, de que o que ela sentia era desamor, e não falta de amor. Algo como o oposto do sol não ser a lua, pois o oposto do sol é o lado de trás do sol, ou de dentro, depende do ponto de vista. Não vejo como pode se deixar de amar, acredito que ou se ama pra sempre, ou nunca se amou de verdade.

Hoje eu sei que o pior sentimento existente é a falta de sentimentos. Houve épocas em que eu acordava sentindo um leve, porém marcante, gosto de sangue na boca, mas dizem que matar só é difícil da primeira vez. Morrer também deveria ser difícil só da primeira vez, a cada vez que eu morro fica mais difícil.

Quando ela disse aquilo e virou as costas para se afastar num elegante movimento de adeus, algo morreu dentro de mim, e não foi o que eu sentia por ela, porque como disse, talvez eu nunca tenha sentido nada... ao menos não por ela.

No exato primeiro momento de ausência dela, passei a perceber que sua presença talvez não fosse tão importante, e aquilo me surpreendeu no começo. Porém, logo assimilei que outras coisas faltavam também, e eu não sentia mais o cheiro da comida.

A partir desse prelúdio de uma catástrofe anunciada, esses abismos sensoriais se tornaram cada vez mais recorrentes, frequentes, insidiosos e destruidores. Na verdade, formava-se um paradoxo complexo com as minhas emoções, pois quanto menos eu sentia, mais eu sentia o não sentir.

Era uma agonia acachapante, aquela sensação de vazio. Precisamente um vazio intenso e único, que afligia todo o meu viver, a palavra precisa era vazio e vazia, pois seu próprio nome se tornava ausente de significado, e era cada vez mais intrusivo.

Havia dias em que eu acordava me sentindo extremamente bem, havia dias em que acordava simplesmente não me sentindo. Então parei de relacionar esses abscessos à partida dela, parecia mais que era tudo natural e esperado, e que teria acontecido de qualquer forma.