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sábado, 11 de outubro de 2014

Ensaio Sobre a Tristeza

Ainda quero conversar com quem fez a vida assim tão triste. Não que isso seja ruim, definitivamente não é. Mas eu gostaria de saber o que pensa, onde vive, como gosta da gema do ovo. Acontece que a tristeza anda à nossa volta, em tudo o que não temos ou perdemos. Apesar de não ser só isso, definitivamente não é. É muito mais, é um modo de viver, é andar sozinho pelas ruas, é olhar o céu procurando estrelas, é sentir-se mal mesmo quando tudo vai bem. É viver na medida do impossível.

Everybody is sad in the city of dreams. Aquelas almas andavam à esmo, sem rumo qualquer, almas perdidas há várias gerações, sendo as mesmas almas que um dia foram seus pais. Paravam em cada esquina, observando os passantes. É noite, as criaturas notívagas saem de suas tocas, tudo por aqui é pretexto, é tudo uma tentativa falha de motivação. Há tanta companhia e tanta ausência ao mesmo tempo. Tudo, absolutamente tudo, parece o que não é.

Quem sabe um dia, depois de tanto tentar nos enganar, consigamos provar a nós mesmos que não somos assim tão tristes. Por isso andamos tanto por essas ruas, procurando esbarrar em um passante qualquer. Por isso nos utilizamos de todas as substâncias alteradoras de consciência possíveis. Por isso respiramos a noite, e deglutimos o tempo através de um esôfago ofídico. Mas não é assim tão simples, tentamos a todo momento nos convencer de verdades que nunca foram verdades, e nunca serão. Continuaremos com nossas tristezas.

Na verdade mesmo, a tristeza está em todos os lugares. Anda impregnando o próprio ar. Quase consigo tocá-la com as mãos, acariciá-la, pedir pra que ela me deixe um pouco sozinho. Cada átomo de oxigênio navegando as minhas veias carrega consigo uma partícula de tristeza. A coisa mais estranha desse mundo é saber exatamente qual vai ser a causa da sua morte. Idi Amin sabia, mas não contou pra ninguém.

E o ar me foge, fica difícil respirar. Até as tristezas fogem, são aquela música que fica tocando como som ambiente, bem baixinho lá no fundo, até o ponto em que praticamente só se ouve uns estalos do grave. Com a tristeza impregnando o próprio ar, é isso que respiramos quando conseguimos respirar. Tudo à nossa volta devaneia, nas ruas as almas ainda vagam em busca de seu lugar. Prefiro meu ovo com a gema mole. O fato é que não se morre de tristeza, se morre da falta de ar. De tristeza só se vive.

domingo, 23 de março de 2014

A Tristeza é a Coisa Mais Linda

Acho muito lindo quando um amor vira ódio. Pois que a vida é feita desses opostos, de peixes que sobem rios, enfrentam correntezas, sabendo que é ela que vai ajudar na futura existência de sua prole. De acasos que se tornam recorrentes. De saltos para precipícios imaginários. Mas sou um peixe que não gosta de água, e isso ninguém me tira.

Devemos acreditar a todo o tempo nessa angústia que floresce, que permeia nossa existência. A tristeza é uma coisa tão linda. Mas não alimentem os animais, e deveria haver uma placa dessas pendurada em cada coração. Não devemos desejar nada que não seja de verdade, não devemos alimentar falcatruas e inexistências, não devemos nos precipitar. Nos precipitar é nos tornar em precipício.

Mas nunca mais amei, e isso é terrível, nem falcatruas nem inexistências, nem nada parecido. Ainda frequento sonhos alheios, devo frequentar, ainda acordo sorrindo, sabendo que por 15 minutos foi recíproco, e foi exatamente isso que destruiu. Sentimento algum precisa ser recíproco, se ele existe por si só. Reciprocidade sim é falcatrua e inexistência.

Ainda acho que genialidade é mero acaso social, fruto de companhias recorrentes, e sendo assim nada do que se faz, sentido faz. Fazia de tudo, menos sentido. Não acredito em redenção, se nos perdemos uma vez, tudo está perdido para sempre, mesmo que recuperemos alguns pedaços. Ainda quero conversar com o cara que fez a vida assim tão triste.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Crônicas de uma Gata Solitária

As coisas tinham muito mais cor quando Dorothy estava no mundo mágico de Oz. Lá, os tornados levavam as pessoas para viagens mágicas por mundos de criaturas que se preocupam com o que os outros sentem ou deixam de sentir. Por mundos onde as escolhas que fazemos geralmente nos levam a caminhos gloriosos, de estradas também coloridas, de destinos fantásticos.

Mas Dorothy voltou de Oz, acordou para um mundo cruel e sem tantas cores, em tons de cinza, onde a poeira se acumula e não faz questão nunca de dispersar. As coisas mantém seus lugares como previamente determinados, em instâncias das quais nem mesmo elas lembram.

Agora, Dorothy está sentada diante da porta. Observa o mundo lá fora, analisa as luzes e sombras que bailam sob o vento, farfalhando folhas que ela não vê, pois que vê apenas os movimentos das sombras projetadas no chão de concreto duro e frio. Ela avalia os perigos desse mundo cinza, e as lembranças do mundo colorido, e decide permanecer. A inércia age sobre Dorothy, e ela apenas observa...

Pois Dorothy espera o retorno do Homem de Lata, do Espantalho e do Leão Covarde. Ela grita por todos os cantos, clama pela presença deles. Procura, sente suas presenças, e sente ainda mais suas ausências. Dorothy dorme, e durante o sono a memória não martiriza. As lembranças de mundos coloridos não aparecem para ela, a não ser em sonhos conturbados, os quais ela felizmente se esquece quando de olhos abertos.

Então Dorothy fica lá, por vezes sozinha, por vezes na dela, por vezes gritando sua dor para o mundo. Observando e esperando, quem sabe, pelo tornado que virá tirá-la novamente desse mundo sem sal, sem cores, e trazer de volta as saudades de um mundo mágico de cores e criaturas fantásticas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Absolutamente Glorioso

Lágrimas são apenas lágrimas. Não importa qual seja o motivo pelo qual sejam derramadas. Apenas uma glândula cujo intuito de ajudar no bom funcionamento dos olhos acabou sendo deixado um pouco de lado ao longo dos anos em que a humanidade, darwinisticamente, evoluiu. Adaptou-se à necessidade de ser a única criatura que chora para demonstrar os sentimentos. Sejam eles bons ou ruins. Ou bons e ruins ao mesmo tempo.

Dona Euthália em uma de suas últimas fotos
A glória e a não-glória caminham lado a lado, com apenas dois dias de diferença. Com muito menos que isso de diferença, com uma tênue linha, que acaba se dispersando e se juntado uma à outra, transformando-se ambas em uma coisa só.

Uma nota 10 declarada com fervor. A justa comemoração por um trabalho realizado ao longo de quatro longos, porém curtos, anos. Uma vida nota 10 declarada encerrada. A justa, porém nunca suficiente, homenagem a uma história construída ao longo de 86 belos, e gloriosos, anos. Dos quais, 64 vividos em um matrimônio progenitor de todo um clã que já contabiliza cerca de 50 descendentes, sem perder as contas. De mãe venerável, de esposa dedicada, de avó adorável.

Equipe Gemada na Estrada e a aprovação na banca
Assim mesmo, podemos declarar duas vitórias, pois que uma vida absolutamente gloriosa como essa nunca pode ser interrompida por qualquer morte, ela continua. E ela continua no seio de todos aqueles que ainda continuam, que lembrarão dessa vida e de tudo que ela trouxe. De todas as glórias, de todas as notas 10. É preferível celebrar a vida vivida do que lamentar a morte sofrida.

O curso de Jornalismo se encerra de maneira gloriosa, com todas as lágrimas de celebração a que se tem direito por uma conquista como essa. Dona Euthália Trindade de Ornellas nos deixa, matriarca gloriosa. Com todas as lágrimas de lamentação a que se tem direito, mas sabendo que por uma vida tão gloriosa, merece-se também uma celebração.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Caveiras

No final das contas todo mundo é caveira mesmo. Não faz assim tanta diferença quando a pele já está decomposta e apodrecendo. Para os vermes, somos todos a mesma coisa, apenas matéria sobre matéria que por algum motivo banal, de uma fagulha acesa lá na sopa primordial, resolveu sintetizar RNA, e hoje respira.

Então aparecem os dentes, compostos calcificados e duros que demoram bem mais a se deteriorar. E lá está a caveira rindo para você, de todas as suas desgraças, mas mais ainda das desgraças dela própria, que por si só é uma graça. Pois que ela é a própria representante da benção dos homens, aquilo que foi renegado aos firstborn, o final absoluto e supremo a que todos chegam.

É engraçado como a maioria das pessoas pensa que é feliz. Feliz de quem sabe que é infeliz. A grande maioria das pessoas não chega nem minimamente perto de ser minimamente feliz. Mas elas pensam que são. E agem como se fossem, e fazem os outros à sua volta agirem como se todos fossem felizes. Mas você pode ver isso nos olhos delas. Não a tristeza, pois que essa é uma magia de poucos e belos, e uma das coisas mais lindas que existe. Mas sim a pura e serena infelicidade, ou, deveras óbvio decompor o substantivo: a ausência de felicidade.

E então coloque as pessoas sob pressão. Elas demonstrarão ainda mais essa ilusão, sentirão todo o pesar da grande mentira que vivem sem perceberem. E por vezes elas até percebem, mas é muito mais bonito continuar se enganando. Mas é tudo passageiro, e elas sempre darão um nome relativista à situação, e claro, a culpa será de agentes externos, nunca de suas próprias caveiras. Mas isso não muda o fato de que elas definitivamente não são felizes.

E assim, todas as caveiras infelizes se passam por felizes a todo o tempo. Todos aqueles dentes à mostra escondiam muita coisa. E elas não conseguem entender, ou não querem entender, o fato. No dia seguinte, continuam com os assuntos interrompidos, com o curso de suas vidas, com as caveiras sorridentes, até que no fim sejam só caveiras e dentes.