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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Crônicas de Uma Criatura de Vidro

Minha visão está embaciada. Por que essas almas dançam tanto? Água, é apenas água sobre os meus olhos vítreos. Formando gotículas de suor, que se juntam em gotas maiores, pesadas demais para resistirem à atração que segura todas as coisas. Elas escorrem formando rios em miniatura, umidificando levemente o solo que me rodeia. Esse solo que me rodeia e que nos permeia, é um solo elevado, é de madeira.

Estou tentando entender o motivo de estarem me alçando e me devolvendo ao solo continuamente, repetidamente. Um som ao fundo se distingue entre tantos murmúrios, entre tantas lamentações dessas distintas almas. Um som que é produzido por cordas.

Passam a mão continuamente sobre os meus olhos vítreos. Passo de mão em mão, sou alçado e devolvido. A água escorre um pouco mais, já quase consigo enxergar. O som continua e as almas dançam. O torpor alcoólico toma conta do ambiente, está impregnado ao próprio ar, o teto sua, as almas dançam.

É tudo tão belo. Quando me alçam, consigo enxergar mais longe, parece que o mundo acaba naquela sacada. Mas não, tem uma rua, não sei o que existe lá, só sei que quase não há mais água. Minha visão já não é mais embaciada, e vejo que as almas que dançam possuem corpos. Me pergunto se não seria o contrário: as almas que têm os corpos, ou os corpos que têm as almas?

As lamúrias são sons um pouco mais distintos, com menos água posso também ouvir melhor, o som se propaga mais facilmente através de meu corpo vítreo. As cordas ressoam no ar, nesse mesmo ar impregnado. Os corpos dançam e eu já não tenho mais água alguma escorrendo pelo meu corpo vítreo. Me sinto deveras mais leve.

Alçam-me uma última vez, e me devolvem vazio ao balcão do bar.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Por não Sabermos por Onde Começar, Terminamos

(ou Crônicas de uma Madrugada Descabida)

Nós somos aqueles que bebemos a própria noite em tragos largos. Ela, por vezes, não cabe nela mesma, e se torna proibida, irresponsável, indesejada. E o amanhecer é a maior das mortes.

Houveram tempos em que não se sabia para onde ia. Acho que na verdade, nunca sabemos, continuamos seguindo essa história de "go with the flow", mesmo querendo ser os mestres do nosso próprio destino. Não há muito o que se fazer quando as coisas preferem se fazer sozinhas. Elas simplesmente acontecem, bem ou mal, e a nossa parte nessas histórias simplesmente é acontecer.

Já vivi com o sol alto, já morri com a lua escura. Andamos a esmo, sem rumo ou razão. À noite, ninguém tem razão, estão todos errados, a própria noite está errada. Ela acha que sabe de tantas coisas, não sabe nem mesmo quantas almas agrega, onde começa ou onde termina. Seria a noite aquela cobra deglutindo o próprio rabo?

Ninguém escolhe as próprias horas, podemos no máximo prever, tencionar, querer, mas o que as horas trarão só elas mesmo decidem. E elas te levam, aos caminhos mais insanos e errados. As horas que fazem parte da madrugada te fazem entrar em bares, em bodegas, em purgueiros, nos mais profundos poços da insuficiência humana. Elas te fazem vomitar em banheiros sujos e mal frequentados.

E dançamos. Sim, como dançamos! Nunca paramos de dançar, com a vida principalmente, essa hábil bailarina. E com todas as outras coisas também. Por vezes, somos tirados a bailar; por vezes, precisamos ser aqueles que tiram, numa constante inversão de papéis. Dançamos até mesmo parados, pois dançar é uma excelente metáfora quando se trata de tudo aquilo que não temos.

E pela manhã, bebemos a vida em largos tragos, comemos a vida em fundos pratos, mestres de nossas próprias horas. Pois que pelo menos de vez em quando, as horas se esquecem de mandar, e todos os saguões ainda serão nossos.

Ainda há muito o que resolver, pois que para tudo o que não está morto a vida exige soluções. Decisões. Reimpressões do regular. Tentar reencontrar algo que se perdeu em meio aos passantes, aos bailantes, aos abraços tortos. Certezas incertas. E seguir com a corrente, pretensos mestres de nossos próprios destinos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pedro Lauro

Pedro Lauro Domaradzki é uma figura mitológica da noite curitibana. Proprietário do pequeno bar Estação São Pedro, no Alto da XV, o Seu Pedro Lauro é um homem irreverente e cheio de causos pra contar. Viúvo, mantém o bar com a ajuda de seus filhos.

O bar é mais conhecido como “Bar do Pedro Lauro”. Há pouca divulgação, que geralmente é feita no boca-a-boca. Assim, o bar que abre já quando a noite envelhece, passa a madrugada toda lotado, e só fecha com o sol já no céu.

Pedro Lauro está presente todas as noites, sempre com uma disposição de dar inveja na juventude. Dança a noite inteira, convida as mulheres para o bolero e ensina os passos àquelas que ainda não sabem. Para descontrair e assustar os clientes, solta bombinhas dentro e fora do bar, rindo e reforçando que não é um terrorista. O bolo cenográfico tem sua vela acesa todas as vezes que há um aniversariante.

Essas e outras brincadeiras são atrações no bar do irreverente Pedro Lauro. As paredes estão repletas de quadros de bandas, filmes, ossos, teias de aranha e muitas outras bugigangas. Logo na entrada há a “Fonte dos Desejos”, onde as pessoas jogam a tampa da primeira garrafa da noite.

Em todo o bar são encontradas relíquias, como telefones antigo, uma vitrola em pleno funcionamento (o xodó do Seu Pedro Lauro) que toca a noite toda, entre outros.

Pedro Lauro foi deputado federal entre 1972 e 1980 pelo MDB, numa campanha surpreendente, que começou com uma crítica viral realizada nas ruas curitibanas ao então prefeito Jaime Lerner.

Outra figura que está presente todos os dias no bar é o “Seu Madruga”, um senhor de bigode negro que senta sempre na mesma mesa, próxima ao banheiro, cochila em grande parte do tempo e fica responsável por acender a luz todas as vezes que Pedro Lauro deseja trocar o disco. Simpático, permanece ali, como um amigo fiel, até o fechamento do bar.

Além deles, o próprio frequentador do bar do Pedro Lauro pode ser considerado um personagem importante. Em geral, o bar não é o primeiro ponto de parada da noite. Quando muitas baladas estão fechando, o Seu Pedro Lauro está a pleno vapor no bolero, com a clientela ainda chegando. O cliente do Pedro Lauro não tem “frescura”, está disposto a uma boa dose de irreverência e quer virar a noite se divertindo. Ele não viu a propaganda na tv e nem nas revistas especializadas na noite curitibana, mas provavelmente recebeu a indicação de um amigo que esteve lá.

Localizado na Rua Padre Germano Mayer, no Alto da XV, a primeira vista e durante o dia, o bar é um lugar modesto, que não chama a atenção. Talvez seja por isso que muita gente não sabe de sua existência, no entanto, quando aberto, o bar se torna uma grande atração, recebendo as mais diversas pessoas que não querem que a noite acabe. Quem vai uma vez, sempre volta.


com Etiene Mandello