terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Glória

Vez por outra na vida de um sujeito, ele deve passar por um momento de enfrentar a glória. Deve olhar nos olhos da conquista, apertar as mãos da vitória. São momentos singulares, e singular é uma ótima palavra. Plural é singular, e singular não deveria ter plural.

O medo é apenas uma imposição. Nada mais que uma forma de coerção da pessoa para consigo mesma, pois que você não é capaz de fazer o que tem medo de fazer simplesmente por ter medo de fazer o que você não é capaz de fazer. O que não é o que não pode ser.

Frente a frente com a glória, o sujeito pode muito bem sentir medo. A glória é realmente aterrorizante, cara a cara com ela você sente que o que pode acontecer é tão bom, tão épico, tão glorioso, que não vale a pena arriscar que aconteça. Vale mais a pena limitar a glória. Pois que a glória gera responsabilidades, e ainda mais expectativas.

Todo mundo busca objetivos inalcançáveis, porém saber que algo é inatingível e continuar buscando é um realismo inconsequente. E é muito engraçado querer algo que você tem certeza que nunca terá. É melhor não saber. A vida é mais platônica que muitos amores.

Mas não é errado ter esse medo da glória, errado é deixar ele tripudiar sobre a própria vitória. Ainda há tantas glórias quantas possíveis sejam ganhar. E existe ainda muito medo, tantos quantos possíveis sejam sentir.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Retrospectiva

Nenhum ano que começa com sidra com gosto de vômito dentro do ônibus dirigido por um motorista que buzinava para todas as pessoas na rua, nenhum ano que começa assim pode ser ruim.

E agora é aquela época de todas as retrospectivas, acho essa a maior prova de que o homem ainda deveria estar fazendo fogo batendo pedras. Não dá pra acreditar no potencial de uma criatura que precisa de datas estigmatizadas pra fazer acontecer alguma mudança em suas rôtas vidas. Somos a espécie do “ano que vem eu faço” “ano novo, vida nova”. E as coisas são todas as mesmas tanto em 31 de dezembro quanto em 01 de janeiro, apenas mais um nascer do sol.

Ano de dias épicos, dias de ano épico. Uma época épica. Seriam poucas as linhas para descrever o que de tão intenso existiu, e que ainda existe. Pois que tudo o que vivemos continua lívido enquanto existir lembranças. E a memória é a própria forma de fazer as coisas perdurarem. Além de sua principal função, que é evitar que levemos mais pedradas.

Então, podemos até dizer que retrospectivas são necessárias, para não deixar com que as coisas que existiram deixem de existir. É como escrever uma frase num caderno e guardá-lo em algum canto remoto. Ele um dia será localizado, e aquela frase esquecida deve voltar à vida que um dia teve. E as pessoas precisam realmente botar vírgulas em suas orações para fazer as frases terminarem. Virada de ano é o mais universal dos checkpoints.

É bom observar as fotos, a memória virtual, pois que hoje em dia nem físicas mais as fotos são. Apenas meras representações pictográficas de um momento, digitalizadas em uma espécie de santuário das coisas que não existem de verdade. É bi-virtual. Memória da memória. O que é mais real? A foto, ou momento que ela representa? Ou seria ainda a memória viva daquele momento, e daquela foto? Talvez todos juntos não cheguem a formar uma realidade.

Foram quatro canecos de chopp ganhos; um comboio pra Araucária; piscina de madrugada; danças germânicas de madrugada; um livro; pré-carnavais; amigo punk; a morte e seus amigos; um prêmio estadual; os dois melhores shows com dois dias de diferença; umas maratonas; um videoclipe finalizado porém não concluído; um reset; cama elástica na chuva; sonhos e surrealismo; muito reconhecimento; uma ilha inteira; o Mato Grosso inteiro; madrugadas inteiras; vidas inteiras; e tanto quanto mais eu possa ter esquecido, pois que nem toda memória é assim tão estimulável.

Enfim, no fim, apenas do dia, do ano, ou o que quer que seja. Para que comece de novo, tudo igual, mas tudo novo, com essas representações tão necessárias quanto dispensáveis. Para que ano que vem seja tudo igual, mas tudo diferente. Pra melhor.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Alma Forte

Estou em Lua
Vivendo de morte
Minha alma nua
Não tem tal sorte

Continente ativo
Conteúdo inerte
Vivendo passivo
Insensível infértil

Se o corpo conquista
O que essa alma tange
Todo esforço avista
A vida que passa longe

O coração padece
Essa alma expira
O corpo estremece
Mas ainda respira

Tudo o que eu tenho
Faz essa batalha
Caixa e o que está dentro
Ou algo que o valha

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Personagens

Creio que Bukowski adorava gatos. E frequentar essas rodas de poker é como ir aos páreos de cavalo. Dizem que dá pra ganhar muito dinheiro por lá mesmo sem jogar, com determinada habilidade. Mas é determinante uma relativa preguiça dessa obrigação monetária.

Ninguém nunca morreu de opinião, essa doença tão frequentemente transmissível. Certa vez falaram que essas personagens não têm vida. Oras, isso se dá pelo fato delas não serem reais, não podem mesmo ter vida, isto está reservado para as criaturas que usam oxigênio de alguma forma. Não vejo motivos para passar dos 40 anos de idade. Passar tanto tempo gastando oxigênio. Essas parcas personagens sem vida viverão muito mais do que nós.

Há ainda aqueles que levantam bandeiras, por Bukowski ou pela causa dos gatos. Oras, os gatos podem se virar sozinhos, só precisam mesmo de alguma coisa pra matar de vez em quando. Para levantar uma bandeira, a pessoa deve também aprender o hino, defender o brasão, cumprir com todos os deveres cívicos enfim. Mas as vezes algumas bandeiras são necessárias, ou podemos simplesmente nos esconder atrás delas, o que é suficientemente cômodo.

Poderíamos debater o dia todo sobre árvores que crescem no concreto, os oásis dos tempos modernos, urbanidades tão vívidas. E como fazem elas com essa escassez de oxigênio? Oras, elas mesmas o fazem. Todo mundo já desejou fazer fotossíntese. Elas levantam as próprias bandeiras, sem se preocupar com quanto tempo viverão.

Poderíamos jogar poker valendo cavalos. Poderíamos ter gatos e bandeiras, bandeiras com gatos. Poderíamos consumir todo o oxigênio que nos for permitido e convencionado. Pois a própria respiração é mera convenção. Criando nossas próprias personagens e levantando as bandeiras delas. Pois que essas coisas sem vida não podem nem mesmo respirar sozinhas.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Amadeus

Bin Laden morreu!
Saddam morreu!
W. Bush morreu!
Arafat morreu!
Gandhi, Madre Teresa,
Einstein, Diana Princesa

Todo mundo morreu
Todo mundo sou eu
O mundo é meu
Eu sou meu deus

Amadeus, Amadeus, Amadeus
- quem é você?
Amadeus, Amadeus, Amadeus
- eu sou eu
Amadeus, Amadeus, Amadeus
- mas eu sou deus
Amadeus, Amadeus, Amadeus
- eu sou mais deus

MORREU! MORREU! MORREU! MORREU!

Agora todo mundo sou eu
Agora todo mundo sou eu

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Voyage au centre de si mesmo

A mais fabulosa viagem que alguém pode fazer é a viagem para dentro de si mesmo. Sem precisar comprar passagens antecipadas em três meses para que se aproveite uma promoção falaciosa. Sem precisar juntar trapos em uma bolsa desfigurada. Sem precisar sequer planejar com qual vizinho indesejado ficará as honras de alimentar o cachorro.

Há ainda diversos outros benefícios: dentro de sim mesmo, as paisagens são as mais exóticas que uma pessoa pode ver algum dia; os animais são dos mais estranhos, chegam a lembrar aqueles peixes abissais que vez por outra são encontrados mortos nas praias desertas. Dentro de si mesmo, cada mísero centímetro quadrado tem o poder de surpreender e assustar.

Um corpo cheio de coisas pode estar cheio de nada. Vísceras são alguma coisa, porém depois de mortas são nada. Um buraco está cheio de vazio. É possível preencher o espaço vazio de um buraco, ou de um corpo, com qualquer substância. Mas ao preencher esse espaço, ele não deixa de estar vazio, pois que o vazio apenas muda de lugar. O vazio é cíclico e, cedo ou tarde, volta para preencher. É impossível estar sempre cheio.

Todo castelo foi construído para desmoronar. Cada pedra colocada em sua estrutura tem em sua própria natureza a intenção de ruir. Areia nada mais é do que uma rocha que envelheceu. Pois que o tempo passa para todas as coisas, vazias ou não. E uma rocha está sempre cheia; cheia de areia dentro de si, e mesmo assim vazia; vazia de castelo. Pois que uma rocha sozinha nunca será castelo.

As ideias desmoronam, as pessoas desmoronam. Muito mais, inclusive, do que os castelos. Dentro de si mesmo, cada pessoa desmorona, e essa viagem deve servir não para evitar esses desmoronamentos, mas para reconhecer a areia da rocha velha.

Dentro de si mesmo, há que se preencher cada vazio com essa areia, como uma ampulheta antropomórfica que não está contando o tempo, mas sim a vida e a não-vida. Dentro de si mesmo, há que se responder se vale mais a pena ser problema ou solução, teorema ou resolução. Dentro de si mesmo, há que se entender que o vazio nada mais é do que a falta do nada, pois que por vezes até o nada preenche o vazio.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A opinião do ponto de vista do indivíduo

A criação e a genética são os principais fatores a moldar um indivíduo e sua personalidade. De acordo com as teorias dos estudos culturais, a sociedade e as experiências influenciam diretamente nos gostos e atitudes do sujeito, sendo que cada coisa e situação que acontece à nossa volta moldam um pouco a forma como percebemos e vivenciamos o mundo. 

Quando o indivíduo se torna parte de grupos humanos amplos, sejam eles pequenos como uma família, ou cada vez maiores, como as multidões, ele vai, proporcionalmente ao tamanho do grupo, perdendo a sua individualidade para fazer parte da massa. 

As opiniões do sujeito fazem parte desse contexto de molde social, cada grupo do qual ele faz parte o influencia de uma forma e projeta o funcionamento de seu caráter, suas vontades e por consequência, suas opiniões nos mais diversos assuntos. 

Desse ponto de formação cultural de um sujeito, sendo moldados seus valores, também faz parte o espaço público, é lá que se trocam experiências, que há a interação entre as pessoas, e que as ideias circulam livremente, sendo elas também moldadas pelo contexto e pela opinião individual dos que frequentam esse espaço público. 

Nesse contexto, há o choque de ideias e, por consequência, de opiniões. No espaço público os assuntos de interesse dos mais variados grupos são expostos e colocados em pauta, sendo os próprios assuntos inclusive moldados pelo pensamento coletivo, como se tivessem vida própria. 

Cada indivíduo contribui intensamente para a formação da chamada opinião pública, mas a partir do momento em que ela se torna coletiva, ele perde também o poder sobre sua própria contribuição. A opinião pública é uma substância muito volátil, mas que cada sujeito sozinho não consegue desestabilizar seu poder e fazer sua opinião prevalecer. 

É certo que em determinados contextos, surgem líderes de capacidade persuasiva muito grande, e que conseguem fazer suas opiniões individuais prevalecerem sem muito esforço, agitando a opinião pública de forma revolucionária, e por vezes perigosa. Mas esses casos ocorrem mediante certas condições pré-estabelecidas que acontecem em casos muito isolados. 

Dessa forma, cada indivíduo tem a sua importância relativa, porém o que realmente vale em grandes contextos é a opinião da massa como um todo, a opinião pública. Dessa forma, a opinião de cada pessoa contribui para a formação do conjunto, no entanto isso faz com que as opiniões divergentes tendam a ser suprimidas. 

Do ponto de vista de um governo, por exemplo, essas supressões se fazem necessárias para que o bem comum seja atingido. Assim, a opinião da grande massa vai sempre se sobrepor à opinião de cada um, pois essa deve contribuir para a formação e depois fazer parte da massa da opinião pública, perdendo seu valor individual. 

Porém, do ponto de vista do indivíduo que não tem sua opinião condizente com a da opinião pública, essa supressão da sua individualidade tem um caráter bem mais trágico, pois a sua opinião não está sendo levada em conta, mas sim está perdida no meio da grande massa que é a opinião pública, sendo inclusive sobrepujada por ela. 

Assim, num contexto geral, na grande maioria das vezes, a opinião pública é de fato uma representação fiel das opiniões individuais de cada sujeito componente da massa. Mas sempre haverão os antagonistas, que ajudaram na construção essa opinião pública, mas não fazem parte dela, tendo suas opiniões individuais muito particulares e diferentes.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Água

Água deve ser a substância mais adaptável que existe. E também a mais intrigante, bizarra, estranha, e estimulante que o universo já nos proporcionou. Uma simples ligação molecular como qualquer outra coisa existente, porém com tantas diferenças práticas.

Sou um peixe, apesar da astrologia não me ser das "ciências" mais queridas. No entanto, um peixe que não sabe nadar. O oceano exige respeito, Poseidon e Ülmo não são dos deuses mais generosos. Em pequenas quantidades a água é a própria vida, em copos, jarras, e até baldes e cisternas. Em grandes quantidades pode ser extremamente destruidora, em inundações, tempestades e tsunamis.

Rios, mares, oceanos, lagos, lagoas, córregos, lençóis, poças, e tantos outros, o líquido tomando a forma do sólido, entrando em cada vão e fresta inimaginável, se adaptando ao ambiente. Sólida, líquida ou gasosa, exercendo influência sobre o mundo em seus estados da matéria. Derretendo ou congelando, criando e matando.

A maior parte das águas têm em mim o mesmo efeito dos abismos, é tão atraente e ao mesmo tempo tão amedrontador. Não no sentido de causar pânico, mas o sincero respeito mesmo, não consigo olhar para o oceano sem pensar em Poseidon ou em Ülmo.

E acho mesmo que estar no mar é estar entre dois abismos, abaixo as profundezas com suas vidas em constante respiração branquial. Acima, o abismo dos céus, com seu azul enganador e suas vidas em constante pairar. Qual dos dois é o mais profundo, o mais atraente?

Me vi no futuro olhando o passado, foi o dejà vú mais sinistro desde sempre, tenho certeza que era água embaciando minha visão. Antes agora e depois, com água sempre, pela vida e pela morte, atraente e amedrontadora, com água sempre.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Bolhas

É preferível provar o caos uma vez
Vivenciar o terror da destruição
Do que uma vida inteira de marasmo
São detalhes que nem meus mortos perguntam
Façam esses buracos pra aliviar a pressão
Aqui é a carne que rasga as navalhas
Falta espaço para mim dentro de mim
Todas as voltas desse mundo a girar
Quem é você que fala tanto em solidão?
Há tanta gente andando a esmo nesse mundo
E a queimadura vai formando nova bolha
São tantas infinitas essas bolhas
Essa carne é forte demais para ser fraca
É uma luz que muito cega e mais maltrata
O exorcismo de um fantasma bonachão
Nada mais é do que uma história sem final
O que é vício e o que é virtude é tudo um só
Um pouco mais um pouco menos tanto faz
Mas afinal é o que temos pro jantar
Somente angústia e umas lágrimas contidas

sábado, 3 de novembro de 2012

A magnífica história de Araújo Lokão

Hoje vou contar pra vocês a magnífica história de Araújo Lokão, um surpreendente conto de fadas real tipicamente araucariense:


Era noite do dia dos mortos em Araucária, um fogo crepitante invadia aquelas vidas suburbanas. Como aproveitar o fim de noite, quais as opções? Ninguém imaginaria o que estava por acontecer na Praça do Seminário, cenário de tantas tragédias pregressas.

Eis que surge rodando rua acima um veículo capaz de demonstrar todo o poder aquisitivo de seu proprietário, que o estaciona inesperadamente próximo a dois jovens sedentos por glória. Dentro do carro, um sujeito bem vestido, corroborando ainda mais a impressão que o seu veículo passa.

Araújo Lokão apresenta fala extremamente etílica, e com seus 52 anos acabou de "comer uma gostosinha", de acordo com suas próprias palavras, e sua esposa não pode ficar sabendo. Para tanto, ele pede a ajuda dos jovens num plano mirabolante que envolve um telefone, vômito, ambulâncias, vinho e pizza.

Figura imponente da cidade, o Oscar Niemeyer da favela, só não desenhou o hotel do Hissam porque "aquela porra é muito feia". Ante tudo isso, sua situação no momento eleva questionamentos quanto à elite burguesa araucariense, estariam todos fadados ao mesmo destino? Cada um curte a vida como lhe convém.

Após conturbadas negociações o plano é finalmente levado a cabo, a esposa já não mais interferirá em sua farra, e o homem pode voltar à sua noite de bandalheiras, porque todo mundo merece uma cachacinha e umas putas as vezes. Obviamente, o brinde da noite será em homenagem ao magnífico Araújo Lokão.