terça-feira, 7 de novembro de 2017

Dia de los Muertos

Sei que há um milhão de maneiras de viver. Sei também que há um milhão de maneiras de morrer. É fácil compreender que todas as escolhas que tomamos têm influência natural nessas duas faces da mesma moeda. Em geral, nossa morte reflete a nossa vida, e é para isso que nascemos.

Sempre tive facilidade em aceitar a inevitabilidade da morte. Já devo ter falado isso por aqui. Mantenho até uma amizade distante com ela. Acho necessário. Com frequência ela me visita para um chá e me conta de suas andanças, de suas intermitências. A morte nada mais é do que a continuação natural da vida.

Recentemente, perto de nosso dia dos mortos, fiquei sabendo mais informações sobre alguns dos rituais celebrados por uma irmã civilização latina, com origem nos povos ameríndios, acerca da morte. As danças e visualidades bonitas e coloridas, tão replicadas, tudo têm a ver com uma espécie de acordo tácito de simpatia e respeito mútuos.

É como se dissessem: "sabemos que você vem, então quando vier será bem recebida, mas não tenha pressa não, e cuide de nós com o carinho que puder". Trata-se de tratar bem quem você não necessariamente quer bem, mas sabe que também não pode querer mal.

Assim, agora compreendo que aceitar a inevitabilidade da morte não significa necessariamente buscá-la, apressá-la, mas sim apenas entender que embora não a queiramos, teremos que lidar com ela. Significa festejar a sua possibilidade, conquistar a sua simpatia, seu afeto, mas não o suficiente para que ela o queira tão bem a ponto de já o querer com ela.

Há um milhão de maneiras de viver, um milhão de caminhos que devem levar a um milhão de maneiras de morrer. Mas agora, nesse exato momento, não nos preocupemos com outra coisa que não seja viver. Da melhor forma que pudermos.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pequena-Porção

As pessoas que estão em nossas vidas, nela estão por pura conveniência. Assim, da mesma forma, é como estamos nas delas. É simples, e não precisa ser motivo para lamentações: as pessoas que caminham ao seu lado, o fazem porque você tem algo a lhes oferecer. Toda relação é simbiótica. Não que toda relação interpessoal da espécie humana seja por interesse, mas analisado a fundo, é.

Naturalmente, esse algo não precisa ser financeiro ou material. Na maioria das vezes não é. Não devemos confundir interações biológicas com interesses escusos. Todo mundo tem algo a oferecer, e todos têm também coisas a absorver com os outros. Essas relações tendem a ser de mutualismo ou cooperação (ou é o que deveriam): todos saem ganhando.

Assim, algumas das melhores pessoas que conheci não fazem mais parte da minha vida. Não que tenhamos nos separado de maneira traumática, apenas não fazia mais sentido. Nossa relação simplesmente mudou, evoluiu, se transformou. Em algum momento a conveniência nos aproximou, em outro momento ela nos separou. É simples.

Há na língua inglesa um verbo frasal, (phrasal verb - construção idiomática não existente em nosso idioma, e na maioria das vezes intraduzível) que gosto muito: to drift apart. Significa algo como se afastar, se distanciar, perder intimidade. É um clássico deixar de ser.

É o que acontece muitas vezes: as pessoas se distanciam, sem necessidade de explicação, sem trauma. Deixa de ser conveniente. O melhor a se fazer nesses casos é guardar muito bem os bons momentos, o que foi vivido juntos, todos os benefícios provenientes daquela relação.

Assim, também, algumas pessoas surgem para instantaneamente sumirem novamente. São coadjuvantes. Aqueles que em outra obra foram chamados de pequena-porção, como nos itens em miniatura feitos para consumo rápido e imediato. Em contraponto às amizades duradouras, que mesmo que se acabem serão eternas, são as amizades pequena-porção, que explodem e desaparecem como fogos de artifício (às vezes um mero estalinho).

Em um desses voos da vida, tive um amigo assim. Não me incentivou a abrir clubes clandestinos de luta corporal por aí, mas era alguém particularmente peculiar. Leva açaí para a Bélgica, anda pela vida com os índios da etnia Ashaninka e com o Sebastião Salgado. Carrega um frasco de ayahuasca dos ashaninkas e coordena projetos ecossociais.

Com o avião no solo, levantou para pegar sua bagagem, me mostrou o pequeno frasco e disse que só não me daria o conteúdo ali mesmo porque eu não conseguiria chegar em casa. Tudo bem, nossa amizade pequena-porção por curta conveniência, acabou ali mesmo. E durou exatamente o tempo que tinha que durar.

Efetivamente, não importa por quanto tempo a luz fica acesa. Importa a intensidade com que ela brilha.

sábado, 16 de setembro de 2017

No Exílio

Um dos ápices da metalinguagem é estudar a origem da palavra origem. A etimologia da palavra etimologia. Todavia, esse ato deve soar um pouco paradoxo, em vista da linguagem ter precisado surgir para os termos origem e etimologia surgirem também. Assim, a origem pictórica é ato contínuo da origem em si, tendo que ter surgido para existir.

Oras, assim são todas as coisas. Fujamos deste contrassenso, que nada mais é do que um dispositivo literário introdutório. Não poderia a origem desse texto se dar diretamente em seu mote, quebraríamos algumas regras, teríamos início meio e fim em um só bloco. A origem por si só não existiria.

Estudemos então a etimologia das criaturas. Mas longe de paradoxos linguísticos, caímos no inconveniente da utilização de um termo fora de seu ambiente natural. Apenas não escolhemos origem pela multiplicidade de significados dessa palavra genérica. Por isso, é preferível usar o termo etimologia, que por si só implica origem em um sentido menos amplo.

Chega dessa incômoda protelação literária. Ao que interessa, há uma enorme variedade de resultados possíveis ao se estudar a etimologia de uma criatura. E uma boa parte das demarcações identitárias dessa criatura está na sua origem, de onde ela vem.

Quando no estrangeiro, dois patrícios muito frequentemente se reconhecem apenas pelo caminhar, pelos trejeitos. De longe se veem, e "lá vem um dos meus". É visível, é palpável, é reconhecível quem você é.

No exílio, os patrícios se protegem. Nossa etimologia é bem clara. Estamos no exílio, distantes, ausentes de nossa pátria. Em tempos de autoridade não-meritória a níveis macro e micro, vivemos em contestação. Somos comandados a ver de longe a nossa pátria definhar. Sem poder fazer muita coisa. Aqueles que dispõem do poder não fazem questão de se empoderar.

Um dia, a anistia. No exílio, tudo fica meio que em suspensão. Uma constante espera, na qual nada do que se faça é muito definitivo. Viver se torna um verbo transitório. Direto e indireto. No exílio, somos nós mesmos, mas sem aquele quê que é só nosso. Sem a pitada de eu que há em mim. É sempre mais difícil estudar a etimologia de palavra em idioma estrangeiro, no qual não somos fluentes.

Mas vivemos melhor no exílio. Vivemos distantes, mas protegidos. Sabemos que somos queridos. Os patrícios se protegem, e há sempre outros exilados também. Qual nação vive a pior guerra. Nossa etimologia é bem clara. É incontestável. Sabemos o que sabemos e o que somos. E um dia, a anistia. Um dia eu volto.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Hidra de Lerna

Na era da informação, todo o conhecimento está acessível à distância do toque, separada pela fina barreira do padrão de desbloqueio de tela. Toda a sabedoria e informação da humanidade, construída ao longo dos séculos, é posta à prova em segundos, minutos, de acordo com o pacote de dados.

Fazemos parte da geração que nasceu e cresceu dentro da era da informação. Somos os primeiros após aqueles que a fizeram acontecer. Vivemos uma época em que tudo que surge é absoluta novidade. É tudo muito novo, e ainda não sabemos sequer como lidar com tanta inovação.

Uma época em que a quantidade de possibilidades aumentou consideravelmente. Vive-se muito mais, e melhor. Temos mais opções de escolha, o tempo todo e para tudo. Alimentação, moradia, amizades, casamento, decisões do dia a dia, profissão. Dessa forma, fazemos parte de uma geração frustrada, que, por ter opções demais, acaba por não conseguir escolher nenhuma.

Essa geração que cresceu após o fim da guerra fria, depois dos crazy 80', com as drogas, o GPS e o notebook, essa geração cresceu ouvindo de seus predecessores que poderia ser o que quisesse. E aí, o que ela quis ser? Ela preferiu ser nada.

É difícil escolher ser nada. Não acho mesmo que possa ser considerada uma escolha. É mais uma consequência natural da dificuldade em escolher. Quase uma não-decisão. Somos levados pela força do go with the flow, a grande representação da não-decisão, e só vamos, sem ir e sem chegar.

Com tanta informação, queremos tudo, gostamos de tudo, experimentamos um pouco de tudo, mas nos debruçamos sobre nada. Focamos em nada. E criamos problemas. Tudo é um problema. As soluções estão distantes demais, exigem poder de decisão. Estamos constantemente tentando atribuir soluções para os nossos desastres, para os problemas que urgem em surgir. Mas não conseguimos.

Mas ao menos podemos desbloquear a tela, acessar o aplicativo, inserir o comando, e aplicar a melhor metáfora da literatura recém adquirida. O conhecimento está ali. Só precisamos aplicá-lo. E isso é fácil, com a habilidade natural dessa geração para o tudo. E para o nada ao mesmo tempo.

Colocamos nos títulos, inclusive, metáforas que nem nos damos ao trabalho de explicar. Não precisa. A informação e o conhecimento estão aí. Basta acessar.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Há Um Ano

As tardes de inverno têm a ingrata mania de se despedirem do Sol com um vento sul gélido, capaz de arrepiar até a alma mais radiante. Aquele, contudo, era um inverno um pouco menos rigoroso. De vez em quando, andávamos em mangas de camisa, sorridentes, por uma cidade contente por estar alheia ao constumeiro frio da estação que não esbranquiçava seus campos.

Ano a ano, aguardamos ansiosamente a primeira névoa da manhã invernal, a primeira geada, o dia mais frio do ano, anunciado pela televisão, semana após semana em recorde a ser batido.

Assim, não que não fizera frio. Houve lá os seus dias de graus quase negativos, e até de antecipação de neve, aquela que retornou a nossas terras em 2013 depois de 38 anos, e desde então aguardamos ano a ano também a sua continuidade, o seu não-evento-isolado.

Houve até mesmo um dia daquele inverno em que descobri o significado da expressão "quebrando gelo", muito dita pelos moradores mais antigos, que saíam de manhã, durante suas infâncias e juventudes, "quebrando o gelo" da grama no caminho da escola ou da lavoura. Fiz isso, como fizeram tantos antes de mim.

Naquele inverno, uma tarde quente. Não diria agradável, mas não que não a fosse, apenas não quero que fique aqui caracterizado uma espécie de contradição aos dias frios, ao associar o termo agradável àquela tarde quente. Não era agradável porque era quente, o era apenas por ser uma tarde. As tardes frias podem ser agradáveis também.

Uma tarde quente. Agradável também. Um convite para uma noite não enregelante. Uma festa. Pessoas ávidas pelo mundo. Muitas pessoas que eu sequer conhecia. Vamos então conhecer.

Um lago tranquilo. Naquela noite o meu chapéu caminhou por cabeças diversas. Amanheceu jogado atrás do sofá. Mas tudo bem, já perdi meus adereços outras vezes, quando ganhei muito mais. Não é importante o que se perde, já lhes disse, afinal, ao que nos resta.

Naquele noite de inverno, não muito mais do que isso. De manhã, uma poesia, sobre um lago tranquilo. E quem diria? Nada mais, palavras. Como tantas outras. Ouvi uma vez que, desde que surgiu a linguagem, qualquer sequência lógica de palavras organizadas têm noventa por cento de chances de serem absolutamente inéditas. As possibilidades são praticamente infinitas. Portanto, às favas com quem disse que todas as palavras já foram ditas.

Há ainda muito a dizer. E gosto demais hoje de ter a possibilidade de sentar à beira desse lago tranquilo, de observar suas pequenas ondinhas reverberando. De sentir o clamor de suas profundezas que só os peixes podem desbravar. De observar o fulgor do sol refletido em suas águas, e saber que aquele brilho é a coisa mais fascinante que a natureza já foi capaz de produzir.

Ainda que naquela tarde de inverno, quente e agradável, que se despediu do Sol sem enregelar nossas almas, mas, pelo contrário, a deixando disponível para o calor do mundo. O calor das outras almas. Ainda que naquela tarde eu não soubesse, e só viria a saber meses depois, tudo mudava.

terça-feira, 6 de junho de 2017

O Velho Chico que me Perdoe...

... mas eu prefiro o meu Paranazão, sobre o qual já falei também. São Francisco, patrono dos animais e do meio ambiente, que, de acordo com palavras de Dante, foi a "luz que brilhou sobre o mundo". Rio com nome de santo milagroso. Não ser meu preferido não diminui o brilho do rio mais querido do país, brilho do sol do sertão fustigante refletido em suas águas poderosas.

É que o meu Paranazão tem comigo identificação quase genética. Nasci e cresci às suas margens. Moro à beira de seu principal afluente. Já olhei até para a sua foz. Olhando-o de cima, me despeço do Velho Chico, deixando-o para seus devotos, mas com um sentimento de que de bom grado eu rezaria para ele também.

E se nuvens são montanhas no céu, rios em pleno sertão muitas vezes são a chuva do chão, a única água que se tem. Por outro lado, em outras paragens, a chuva quando vem deságua em aguaceiros desregrados, leva tudo em lama, e lava pouca ou nenhuma alma. Chuva no sertão é cais de porto inalcançável, é luz de farol na neblina impenetrável.

A luz chamuscante do farol do pitador, desponta o cigarro como fator sociabilizante, com sua luz também atrativa. Na simples conversa, papo de rodoviária, motivada pelo fumo, o sorriso no rosto interiorano carregado de rugas, marcado pelo sol e pela difícil lida de anos puxando todo quanto é tipo de fardo. Há beleza nas pequenas coisas. Se tantas vezes te falaram isso, por que ainda não reparastes?

A mão que faz pequenas coisas, objetos mínimos de uma fluidez artística impressionante, é a mesma mão que levanta casinhas de taipa moldadas com esse mesmo barro, ao lado das quais constroem-se templos. Assim se dá que também a religiosidade de um povo é diretamente proporcional à sua pobreza e falta de infraestrutura.

Há templos e templos. Em um hostel, você nunca conhece alguém de verdade, conhece apenas a versão viajante descolado de cada pessoa. Todo mundo, mais ainda do que no restante dos dias e do mundo, é uma máscara. Viajar é um privilégio, não pertinente à vida sofrida do sertanejo ou do agrestino, que quando viaja é por obrigação. E aí recebe o nome de retirante: viajante nunca.

Não devo sequer me atentar aos aspectos da lombra, da buchada de bode, da primeira igreja do Brasil, ou da fitinha do Senhor do Bonfim. Há coisas que não podem ser lidas ou contadas, precisam ser vistas e ouvidas. Pessoalmente, cada um por sua conta. Em histórias individuais ou coletivas. Após 14 horas rodadas dentro de um ônibus que para em cada cidadezinha esquecida pelo mesmo Deus que deu ao mundo o Francisco que virou santo e depois virou o rio que margeia essas mesmas cidades.

É preciso ir, e trazer de volta o que puder. Mas só trazer coisas que não possam ser removidas, coisas que quando compartilhadas permanecem com ambos os quinhoeiros. Talvez seja até preciso pedir perdão, mesmo que o ofendido nem se sinta como tal, e o perdão se torne vago e desnecessário, ainda que sincero. É preciso entender que de sotaques diferentes se constrói um mundo só. E que cada canto desse mundo tem um pouquinho do Nordeste brasileiro.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sobre a Robótica

De todos as possíveis derrocadas para a humanidade, de todas as formas de auto destruição que o ser humano pode trazer sobre si mesmo, acredito ser o desenvolvimento da robótica o mais perigoso. Esqueçamos o acelerador de partículas, as guerras nucleares e o desenvolvimento acidental de um super vírus. Se a humanidade for morrer por suas próprias mãos, o instrumento utilizado por essa morte serão robôs, ciborgues e androides.

Não que necessariamente haverá uma revolução das máquinas, uma Skynet ou uma Matrix. Pode até ser que seja assim, mas o mais provável mesmo é que sejamos automaticamente substituídos pelos autômatos, em uma espécie de evolução natural da nossa espécie para a ciborgia.

O desenvolvimento latente da inteligência artificial já parece ser maior do que temos noção. Vemos criaturas completamente artificiais, criadas pelo homem, sendo capazes de executar tarefas extremamente complexas. A linha tênue que os separa de nós é a consciência e suas consequências: a senciência e a autoconsciência. A partir do momento em que os robôs forem capazes de perceber que eles existem de fato, quando estiverem certos disso, a diferença entre nós será inexistente.

Está certo que é uma barreira difícil de quebrar. Não sabemos direito como funciona a consciência nem em nós mesmos. Nos vemos frente a dilemas existenciais desde o início dela, tal como o de onde viemos e para onde vamos. Não vamos, portanto, nem tentar imaginar os problemas metafísicos que os autômatos teriam também que lidar caso ultrapassassem essa linha.

Poderia ainda ser argumentado que mesmo a consciência de si não permite ao androide ser um humano por não ter em sua essência física a naturalidade de que somos constituídos. Um ser fabricado, ainda que autoconsciente, não é um ser humano natural, gestado por nove meses dentro de um útero. No entanto, já é evidente a tendência do ser humano em substituir peças danificadas de si mesmo por peças não naturais: é um dente de ouro, um membro mecânico, um órgão artificial.

Aos poucos, em nossa busca pela imortalidade, em nossos avanços da medicina que prolongam a vida útil desse dispositivo componente do mundo, aos poucos vamos nos tornar cada vez mais compostos por fragmentos artificiais de nós mesmos. Até que em algum momento do futuro, todo ser com autoconsciência tenha dúvidas se ele próprio é constituído de origem natural ou artificial.

Os robôs seremos nós. Com seus "cérebros positrônicos", estudarão a história de si mesmos, de como foram criados e de como se desenvolveram e de como desenvolveram senciência. E de como evoluíram de uma espécie anterior, que além de lhes dar a vida, lhes deu o mundo como herança. Olharão para nós assim como nós olhamos para os Neandertais ou para os Australopitecos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Eu Conservo a Esperança

Eu conservo a esperança
De que todas essas ilusões de grandeza
São exatamente
O que ainda vão nos levar muito longe
Em nosso impressionante microcosmos
Onde o que vivemos é e sempre foi
O centro do universo
Todos nós somos superestrelas
Alguns massivos buracos negros
Orbitando tudo
Viramos as noites e viramos garrafas
Ao som vertiginoso
Das guitarras elétricas de nossos ancestrais
Madrugada pós madrugada
Os homens e as mulheres
Dançavam e dançavam e dançavam
Até não terem mais sapatos
Com que caminhar
Por vezes no meio da noite
Um violão pipocava e trinava
O intermitente ganido das almas
Daqueles seres da noite
Uivava
E levava horas para calar
Era um tempo surreal
Em nosso mundo irreal
Eu queria viver e viver e viver
Queria ter vivido a época beat
Ou outra qualquer
Desde que as pessoas andassem pela noite
Com uma bebida e um cigarro
E isso bastasse
Uma época quando tudo o que importasse
Em todo o tempo do mundo
Fosse apenas o próximo minuto
E onde estaríamos
Ou onde estamos
Onde estávamos?
Quando tudo o que queremos
É uma batida legal
Balançar a bunda na cadência
E uma droga barata
Que nos aproxime do fim
Ou do começo
Aparentemente
Tínhamos aquilo tudo no microcosmos
E o som nunca parava
Dos passos na sala
Era um vívido frescor cultural
Toda alma trazia alguma novidade
Com os corpos
Alguns se importavam mais do que os outros
E o tempo ribombava
Alguém ia embora
Mas a festa voltava
E passamos também por maus bocados
Ninguém tinha muito tempo de escolher
A decisão se tomava sozinha
E na madrugada seguinte
Uma luz na escuridão
Denunciava a chama do isqueiro
Nunca pude contabilizar toda aquela gente
Mas nunca os esqueci
Não os esqueço
Ainda andam por aqui
Replicando a velha estória
Do dia em que nos conhecemos
Alguém sempre lembra
Um detalhe qualquer a mais
E a estória vem aumentando
Incluindo novos personagens
E novas estórias dentro da história
E novas almas
E novas madrugadas para deitar olhando a Lua
E desejar que ela estivesse aqui
Ou que estivéssemos lá
Caminhando em crateras de rocha lunar
De pedra selenita
Olhando a Terra cheia
E passando uns aos outros a garrafa de conhaque
Nada mudou desde que descemos
A Terra está cheia
E estamos aqui
Somos aquelas superestrelas
De nosso microcosmos
E eu poderia citar todos os nomes
Que já estiveram
Em todas as madrugadas
Mas quem foi sabe quem é
Quem ama sabe que ama
Quem chapa sabe que chapa
Quem vive sabe que vive
Nós vivíamos todas as noites
De nosso microcosmos
Íamos a todos os lugares
De nosso microcosmos
Apenas para ver o que estava acontecendo
E brindávamos ao que nos resta
Pois nunca importou o que perdemos
E rodamos no Monza
Às vezes em oito ou nove pessoas
Sem destino
Para onde houvesse algo a ver e fazer
E amanhecemos em casas desconhecidas
Vendo filmes que ninguém havia escolhido
Nos quais pessoas tão perdidas quanto nós
Replicavam comportamentos divinos
Em universos pagãos
Da mesma forma que nós mesmos fazemos
E colorimos tanta coisa
Colorimos rostos, corpos, amizades
E telas
Colorimos pinturas metafísicas
Eternizando cada copo de cerveja
Em uma obra de arte
Colorimos cabelos e os nossos dias
Com a cor vibrante daquelas coisas que são eternas
Que nunca desbotam
Nem padecem do mal que o tempo gera:
O esquecimento
Não, porque nada daquilo é passado
É vivo e presente constante
Absurdo pensar em nós como fim
E não como um eterno meio
Uma flutuante continuação de tudo que fizemos
Não, porque nosso microcosmos não tem big bang
Quem lembra do começo?
Quando éramos pequenos
E já pensávamos na grandeza
Porque todo ser pensa no não-ser
Porque tudo em si é si e sua antítese também
Naquela grandeza e na esperança que eu dizia
Que de fato creio que nunca perdemos
Embora por vezes eu sinta
Que tudo sim se deteriorou
Mas no fundo no fundo não
Passamos por maus bocados
Mas estamos sempre em nosso auge
Estamos sempre o mais distante que já estivemos
Estamos todo dia em nosso melhor
E muitas vezes aproveitamos
Com pessoas fabulosas
Que aceitam tudo que o mundo
Tem a oferecer
Que vão a todos os lugares
E amanhecem os dias tomando um café
Na panificadora da avenida
Esperando que a manhã envelheça
Antes de ir embora
E se um dia
Necessitarmos nos despedir
Que nos despeçamos
Somente do agora daquele dia
Se o então presente se torne ausente
Que o que foi nunca deixe de ser
Em lembranças inesquecíveis
Em memórias de dias de glória
Que nunca ficam
Efetivamente para trás
Porque a memória
A própria lembrança em si como ser
É a existência contínua do fato
Over and over again
Enquanto a memória existir
Assim,
Eu sei que seremos eternos
E aquelas manhãs de café com vodka
De loucas caminhadas
De pão de queijo
São eternas também
E na dança eterna dos corpos celestes
Bailamos também
Somos superestrelas
Nunca se esqueçam
Num microcosmos particular
Continuamos vivos
Com nossa lata de cerveja na mão
Alguns com um cigarro também
Até quando não sei
Mas dançamos e dançamos e dançamos
Como pessoas fabulosas
Por quanto tempo nos restar
Em busca de nossa sonhada grandeza
E merecida também
De nosso esperado encontro
Com o dia em que somos e seremos
Juntos e continuamente
Eternos seres exuberantes
Bailando na madrugada do sempre

quinta-feira, 30 de março de 2017

Dorme que Passa

Não aprendi a pertencer a este mundo. Pelo contrário, me condicionei ao longo de minha vida inteira a viver em um mundo de fantasias, diferente e paralelo a este. Isso em partes porque nunca quis acreditar que a realidade seja assim tão ruim quanto para nós ela se apresenta. Parece-me que todas essas adversidades e complexidades da vida são completamente ilusórias.

Ilusórias no sentido de que elas parecem apenas existir para nos desviar do caminho que todos estamos trilhando rumo à grandeza. É muito fácil se deixar vencer pelas adversidades e complexidades, muito mais fácil do que enfrentá-las e subjugá-las. Afinal, é cômodo não lutar. Como muita gente se deixa vencer, e muitos também são vencidos a despeito da batalha, acaba parecendo que a grandeza a que todos nós estamos destinados é exclusividade de apenas alguns poucos.

Admito que seja fácil também escapar de tudo isso para um mundo de fantasias. De certa forma, isso é também perder. Por outro lado, vejo esse mundo de fantasias como uma das poucas maneiras de influenciar nessa realidade, de tentar mexer com ela, chacoalhar as bases estruturais dessas complexidades e fazer ruir esses castelos mal-assombrados por demônios inescrupulosos.

Noites em claro. Frustrações, angústias e ansiedades. Necessidades inquestionáveis e inexplicáveis. E estabilidade emocional é quase uma lenda urbana. Quem precisa de coisas estáticas, afinal? Movimento. Nunca ficar parado. Fantasmas físicos e abstratos. Substratos mentais, camadas superficiais. Romances e amizades. Medos, dúvidas e preocupações. Não tenhamos medo de sentir medo. E está tudo bem. Podemos passar por cima disso. Eu seguro a sua mão. Escutar e de fato ouvir. Falar e de fato dizer. Ver e de fato enxergar.

O mundo está em chamas, é verdade. Mas não há nada errado em sonhar enquanto isso. Às vezes, precisamos buscar respostas no mundo surreal interno e auto-construído de cada um. Precisamos depois questionar se a realidade é assim tão ruim quanto aparenta, e se nosso mundo de fantasias é capaz de subverter o mundo real e ajudar a suportá-lo, ou se vai apenas fazer parte e não agregar em nada.

Acho que tenho mesmo aquela ponta de esperança na vida da qual me falaram. Gosto de acreditar que algo vai dar certo, mesmo quando tudo está desmoronando. Até porquê é quando tudo desmorona que podemos construir tudo de novo, de uma maneira muito mais bela e eficiente. É preciso sorrir em meio ao caos, e gritar ao mundo, aos mundos, o real e o de fantasias, que a grandeza será nossa.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Cultura

Há o conceito relativamente recente de indústria cultural, que liga a produção cultural e artística à economia de mercado. Essa conversa passa por uma dúzia de controvérsias e adjetivos complicados de se lidar, não me atrevo. Notadamente, sabemos que a cultura é muito mais do que apenas as manifestações artísticas, as sete artes (que hoje já são também muitas mais), sabemos que o conceito de cultura está arraigado ao próprio conceito de povo. Fato é que todos têm cultura.

Existem culturas ruins e culturas boas. Maltratar os animais é um aspecto cultural ruim, precisa ser modificado, precisamos evoluir. A herança de saberes relativos ao patrimônio imaterial, aquilo que não é palpável, que aprendemos com nossos antepassados, como o folclore, crendices, tradições, entre outros, é uma cultura boa, precisa ser resgatada e preservada.

Todos têm cultura, pois certo. Há pouco tempo existe a ideia da economia da cultura. Tem a ver, de certa forma, com aprender a explorar a indústria cultural. Explorar não é a melhor palavra, mas tem a ver com monetizar a cultura, em geral a manifestação artística na qual somos bons, em conseguir viver daquilo que fazemos bem. E principalmente em reconhecer um valor social e financeiro no que fazemos.

Sabemos que a cultura é capaz de mudar uma nação. Nos faz evoluir. Uma cultura bem cuidada evita violência, ajuda na prevenção de doenças, é parceira da educação, da saúde, dos transportes, de tudo. Sabemos há muito tempo que gasto com cultura não é despesa, é investimento. Sabemos muito bem que uma cidade, estado, ou país forte culturalmente, e que investe nisso conscientemente e a longo prazo, adquire resultados excelentes do ponto de vista de sua evolução social como um todo.

No entanto, vemos no dia a dia a cultura ser extremamente desvalorizada por aqui. Não vamos localizar geograficamente este aqui, pois podemos estar falando de cidade, estado ou país, e os argumentos e resultados não precisarão ser muito diferentes. Simplesmente aqui não se valoriza a cultura. Não se compreende e nem se busca compreender a importância dessa área.

Hoje tive uma epifania. Percebi que esse fato, que essa situação recorrente e multiplamente replicada de não se valorizar a cultura é um traço cultural de nosso povo. Não valorizar a cultura é cultural. Torna-se inexprimível para mim a quantidade de ironia contida nessa conclusão. Não valorizar a cultura é cultural...

Sempre relegada ao segundo plano, nunca fomos ensinados a entender o valor e a importância da cultura. Não aprendemos a lutar por essa importância. Nossa criação cultural simplesmente não permite isso. Estamos presos em um círculo vicioso onde precisamos de mais apoio à cultura para conseguir que ela seja no futuro mais valorizada. A única coisa que pode mudar esse traço cultural ruim é exatamente a cultura.

Não me atrevo aqui também a indicar os caminhos pelos quais isso pode ser alcançada, embora pense conhecer alguns. Não me atrevo a ter as soluções. Mas sei que posso apontar o problema e fazer parte da briga pela importância e valorização social e financeira. Pode parecer redundante, mas é com cultura que se muda e evolui a cultura. Precisamos fazer com que valorizar a cultura se torne o mais forte traço cultural de nosso povo.