sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os Amanheceres da Gralha Triste

Costumo adorar os amanheceres da Gralha Triste. Há um leve cheiro de interior no ar, naquela vila cercada de mato por todos os lados, uma ilha de concreto, que faz divisa com os territórios da notória Petrobrás, e suporta ainda os gases da pouco visualizada Termelétrica. Mas há um quê de cheiro de vaca, talvez proveniente daquela granja que sempre dizem que vai fechar. Oras, mas pois se na granja há frangos, e não vacas, não me perguntem então quais cheiros são esses.

Respiração, aliás, é sempre exceção e nunca regra nessa vida. Com frequência a noite traz gostos estranhos para essas bocas. Mas as vezes é bom simplesmente não respirar, por quanto tempo se possa suportar a asfixia. O que tivemos um dia era nada, hoje é quase tudo, mas tudo o que não é tudo, não é nada mais que nada. Ou se é tudo, ou se é nada.

Por isso as coisas mudam, muitos tudos viram nadas, e vice versa. E há que sempre estar mudando, pois a continuidade é sempre entediante, mesmo quando desejada. Sempre que possível, contribui-se para as mudanças, mas quando faz-se a própria se a própria é sempre adiada. As coisas continuam... Como as reticências continuam infinitamente até que parem. Pois que tudo para, mesmo as mudanças. Dizem que toda mudança é boa. Mas algumas mudanças não são desejadas, e nem tudo o que é bom faz bem.

E se as histórias são contadas do ponto de vista do vencedor, o que dizer das histórias que ainda estão sendo construídas? Não há vencedor, todos foram vencidos. Todos derrotados. Mas a história continua sendo construída, e fazer parte disso é fazer a própria história, mesmo que não ativamente. E mexe-se em vespeiros a todo momento. As mudanças seguem norte acima, com o fluxo daqueles mesmos Telles-Pires de outrora.

Meu escrever é obsoleto, meu respirar é obsoleto, minhas mudanças são obsoletas, e até a Gralha vai ficando velha. Tudo continua nada e vice versa, por mais esforço que se faça. É certo que ainda temos nada, mas não vejo problemas em chamar nosso nada de tudo. Ainda vou te tirar para dançar. E mesmo agora, com tanto mato, um mais grosso, continuo adorando os amanheceres da Gralha Triste.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A Pessoa é para o que Nasce

Todo mundo deve nascer para alguma coisa. Nem que seja pra respirar e morrer de novo. De novo não, pela única vez, porque afinal só se morre uma vez na vida. Viver, isso se faz o tempo todo. Todo mundo nasce para ver as madrugadas. Dormir é a maior das perdas de tempo. Pra viver entre o crepúsculo e a aurora é que não durmo, dias cheios de compromissos, noites cheias de madrugada.

Adoro as madrugadas. Melhor horário do dia. E o início da manhã também, com o sol preguiçoso tentando tomar coragem pra sair. Com os sons das aves urbanas, sobreviventes, maiores guerreiras de suas famílias, que conseguiram se adaptar à vida não-tão-selvagem. Com essa vertigem que uma neblina fúnebre causa de vez em quando. Sinto falta das neblinas do inverno.

Deixe a loucura te guiar. Pra quê razão? Já existe realidade demais na vida real. Vamos viver o nosso surrealismo. Cortar um pedaço da noite com uma foice de plástico, e fazer dela um refúgio. Não acordar nunca mais, porque o amanhecer não merece tanta glória. Stay back sun! Deixe-se vencer pela preguiça, não nasça nunca mais, pois que você sim faz isso com muita frequência! Se nasces e morres todos os dias, então pra quê viver?

Até mesmo o sol, a neblina, e as madrugadas devem ter nascido para alguma coisa. E mesmo que sejam monotemáticos, o fazem muito bem. Imaginemos a responsabilidade de aquecer e proteger um mundo inteiro! Alguns mundos nem são tão grandes assim, e a responsabilidade de aquecê-los pode muito bem ser a mesma. São grandezas relativas, aquecer e proteger deve ser sempre uma responsabilidade.

Todas as pessoas nascem para ver o sol, apesar das madrugadas. O yin-yang universal, o dia e a noite. E alguns podem até preferir isso. Mas todo mundo também não nasce para algumas coisas. Ninguém nasce para tudo, porque tudo é muita coisa. Todo mundo é muita coisa. É preciso não ser algumas coisas, e é por isso que algumas pessoas não dormem.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Mundo dá Voltas

O mundo dá voltas. É lugar-comum dizê-lo, porém é a mais pura verdade científica. Já pararam pra pensar que se a Terra fosse quadrada, e seu eixo de rotação não fosse inclinado naqueles 23° e qualquer coisa; não haveria ventos, nem diferença de estações, nem marés e tantas outras coisas? Nem mesmo vida haveria. A vida existe porque o mundo dá voltas.

Esse contínuo processo biológico ao qual resolveram dar um nome. Respiração e transpiração. E quem teria sido a primeira criatura a tentar explicar o porquê disso? Maldita descoberta acidental do fogo. Maldita pedra lascada. Maldito ribombar dos ossos preteridos como armas. A humanidade é amaldiçoada desde os seus primeiros dias.

Um dia se tem tudo, no outro nada. Um dia se tem as árvores, e a caçada imperiosa do instinto. No outro dia se cria a caça em currais, e as árvores são essas folhas brancas ao teu lado. O rascunho, outrora árvore, é agora usado pra falar mal da sua própria existência, num inception de rancor. Um dia se tem trenzinhos, no outro braços que são abraços. Um dia alienígenas, no outro não-filmes.

E alguns dias podem ser reservados para chorar. Essa maldita evolução nos tornou ainda a única criatura capaz de chorar com lágrimas. Pois que o mundo dá voltas, e elas por vezes param novamente no Mato Grosso. E respirar é o ato mais egoísta que existe. Típico dessa espécie mesquinha que desce de árvores.

A humanidade exagera a sua própria utilidade. Haviam macacos naquelas árvores, hoje eles as derrubam. Chorar não deve ser a mais nobre das capacidades, nem mesmo o fogo o é. Mas suponhamos que você tenha infinitos macacos, coloque-os sentados à frente de infinitas máquinas de escrever durante um período de tempo infinito. Cedo ou tarde um deles digitará uma obra de Shakespeare.

E se os macacos podem fazer, nós, sob responsabilidade menor da aleatoriedade, também o podemos. E talvez por isso o fogo, a pedra lascada, e os ossos sejam um pouco menos amaldiçoados. Por isso temos alienígenas, e essas ex-árvores, e trenzinhos, e lágrimas, e o Mato Grosso, e tudo e nada ao mesmo tempo. Porque o mundo dá voltas...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Vermelho

Vermelho é a cor da discórdia. A maçã que Éris atirou às deusas era vermelha. "À mais bela das deusas". E quem poderia dizer qual delas é a mais bela? Por isso Heitor morreu. E quando os deuses resolvem se intrometer nas contendas dos homens, o que está para acontecer não pode ser menos do que épico.

Ainda vai levar um bom tempo para que se apaguem as manchas vermelhas daquele banheiro, não importa quanto tempo durem essas vidas. Pois que algumas vidas podem durar apenas um respirada. Ou um suspiro. É também a cor da paixão, e se se apaixonar é assim tão difícil, por que definir e escolher uma cor para esse sentimento? Alguns amores podem durar também apenas um suspiro.

E quão terrível pode ser quando os deuses resolvem se intrometer nos amores dos homens? Não acho que eles façam isso, apesar de por vezes eles próprios fazerem parte desses amores. As definições dos níveis de gostar e se apaixonar são como os tons de vermelho. Cinquenta tons de vermelho numa paleta cromática que, na verdade, tende ao infinito. Não que paixão seja infinita, apenas as cores a são.

Não gosto de artigos, por isso meus títulos são sempre um substantivo, ou adjetivo, ainda as transformando em nomes próprios. Acho que todas as palavras têm o direito de, ao menos uma vez na vida, serem um nome próprio. Não é um vermelho, é o vermelho. Todos os amores têm também esse direito. Não é um amor, é o amor.

As linhas são tênues e sinuosas, divisões metafísicas, apenas outra forma de catalogação. Os diferentes tons de vermelho são só subdivisões, e alguém poderia chamar qualquer um deles de laranja. Gostar é só gostar. Paixão e amor são apenas títulos de nobreza, disputados pelos pequeno-burgueses da vida conjugal. Gostar é grande por si só.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Glória

Vez por outra na vida de um sujeito, ele deve passar por um momento de enfrentar a glória. Deve olhar nos olhos da conquista, apertar as mãos da vitória. São momentos singulares, e singular é uma ótima palavra. Plural é singular, e singular não deveria ter plural.

O medo é apenas uma imposição. Nada mais que uma forma de coerção da pessoa para consigo mesma, pois que você não é capaz de fazer o que tem medo de fazer simplesmente por ter medo de fazer o que você não é capaz de fazer. O que não é o que não pode ser.

Frente a frente com a glória, o sujeito pode muito bem sentir medo. A glória é realmente aterrorizante, cara a cara com ela você sente que o que pode acontecer é tão bom, tão épico, tão glorioso, que não vale a pena arriscar que aconteça. Vale mais a pena limitar a glória. Pois que a glória gera responsabilidades, e ainda mais expectativas.

Todo mundo busca objetivos inalcançáveis, porém saber que algo é inatingível e continuar buscando é um realismo inconsequente. E é muito engraçado querer algo que você tem certeza que nunca terá. É melhor não saber. A vida é mais platônica que muitos amores.

Mas não é errado ter esse medo da glória, errado é deixar ele tripudiar sobre a própria vitória. Ainda há tantas glórias quantas possíveis sejam ganhar. E existe ainda muito medo, tantos quantos possíveis sejam sentir.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Retrospectiva

Nenhum ano que começa com sidra com gosto de vômito dentro do ônibus dirigido por um motorista que buzinava para todas as pessoas na rua, nenhum ano que começa assim pode ser ruim.

E agora é aquela época de todas as retrospectivas, acho essa a maior prova de que o homem ainda deveria estar fazendo fogo batendo pedras. Não dá pra acreditar no potencial de uma criatura que precisa de datas estigmatizadas pra fazer acontecer alguma mudança em suas rôtas vidas. Somos a espécie do “ano que vem eu faço” “ano novo, vida nova”. E as coisas são todas as mesmas tanto em 31 de dezembro quanto em 01 de janeiro, apenas mais um nascer do sol.

Ano de dias épicos, dias de ano épico. Uma época épica. Seriam poucas as linhas para descrever o que de tão intenso existiu, e que ainda existe. Pois que tudo o que vivemos continua lívido enquanto existir lembranças. E a memória é a própria forma de fazer as coisas perdurarem. Além de sua principal função, que é evitar que levemos mais pedradas.

Então, podemos até dizer que retrospectivas são necessárias, para não deixar com que as coisas que existiram deixem de existir. É como escrever uma frase num caderno e guardá-lo em algum canto remoto. Ele um dia será localizado, e aquela frase esquecida deve voltar à vida que um dia teve. E as pessoas precisam realmente botar vírgulas em suas orações para fazer as frases terminarem. Virada de ano é o mais universal dos checkpoints.

É bom observar as fotos, a memória virtual, pois que hoje em dia nem físicas mais as fotos são. Apenas meras representações pictográficas de um momento, digitalizadas em uma espécie de santuário das coisas que não existem de verdade. É bi-virtual. Memória da memória. O que é mais real? A foto, ou momento que ela representa? Ou seria ainda a memória viva daquele momento, e daquela foto? Talvez todos juntos não cheguem a formar uma realidade.

Foram quatro canecos de chopp ganhos; um comboio pra Araucária; piscina de madrugada; danças germânicas de madrugada; um livro; pré-carnavais; amigo punk; a morte e seus amigos; um prêmio estadual; os dois melhores shows com dois dias de diferença; umas maratonas; um videoclipe finalizado porém não concluído; um reset; cama elástica na chuva; sonhos e surrealismo; muito reconhecimento; uma ilha inteira; o Mato Grosso inteiro; madrugadas inteiras; vidas inteiras; e tanto quanto mais eu possa ter esquecido, pois que nem toda memória é assim tão estimulável.

Enfim, no fim, apenas do dia, do ano, ou o que quer que seja. Para que comece de novo, tudo igual, mas tudo novo, com essas representações tão necessárias quanto dispensáveis. Para que ano que vem seja tudo igual, mas tudo diferente. Pra melhor.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Alma Forte

Estou em Lua
Vivendo de morte
Minha alma nua
Não tem tal sorte

Continente ativo
Conteúdo inerte
Vivendo passivo
Insensível infértil

Se o corpo conquista
O que essa alma tange
Todo esforço avista
A vida que passa longe

O coração padece
Essa alma expira
O corpo estremece
Mas ainda respira

Tudo o que eu tenho
Faz essa batalha
Caixa e o que está dentro
Ou algo que o valha

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Personagens

Creio que Bukowski adorava gatos. E frequentar essas rodas de poker é como ir aos páreos de cavalo. Dizem que dá pra ganhar muito dinheiro por lá mesmo sem jogar, com determinada habilidade. Mas é determinante uma relativa preguiça dessa obrigação monetária.

Ninguém nunca morreu de opinião, essa doença tão frequentemente transmissível. Certa vez falaram que essas personagens não têm vida. Oras, isso se dá pelo fato delas não serem reais, não podem mesmo ter vida, isto está reservado para as criaturas que usam oxigênio de alguma forma. Não vejo motivos para passar dos 40 anos de idade. Passar tanto tempo gastando oxigênio. Essas parcas personagens sem vida viverão muito mais do que nós.

Há ainda aqueles que levantam bandeiras, por Bukowski ou pela causa dos gatos. Oras, os gatos podem se virar sozinhos, só precisam mesmo de alguma coisa pra matar de vez em quando. Para levantar uma bandeira, a pessoa deve também aprender o hino, defender o brasão, cumprir com todos os deveres cívicos enfim. Mas as vezes algumas bandeiras são necessárias, ou podemos simplesmente nos esconder atrás delas, o que é suficientemente cômodo.

Poderíamos debater o dia todo sobre árvores que crescem no concreto, os oásis dos tempos modernos, urbanidades tão vívidas. E como fazem elas com essa escassez de oxigênio? Oras, elas mesmas o fazem. Todo mundo já desejou fazer fotossíntese. Elas levantam as próprias bandeiras, sem se preocupar com quanto tempo viverão.

Poderíamos jogar poker valendo cavalos. Poderíamos ter gatos e bandeiras, bandeiras com gatos. Poderíamos consumir todo o oxigênio que nos for permitido e convencionado. Pois a própria respiração é mera convenção. Criando nossas próprias personagens e levantando as bandeiras delas. Pois que essas coisas sem vida não podem nem mesmo respirar sozinhas.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Amadeus

Bin Laden morreu!
Saddam morreu!
W. Bush morreu!
Arafat morreu!
Gandhi, Madre Teresa,
Einstein, Diana Princesa

Todo mundo morreu
Todo mundo sou eu
O mundo é meu
Eu sou meu deus

Amadeus, Amadeus, Amadeus
- quem é você?
Amadeus, Amadeus, Amadeus
- eu sou eu
Amadeus, Amadeus, Amadeus
- mas eu sou deus
Amadeus, Amadeus, Amadeus
- eu sou mais deus

MORREU! MORREU! MORREU! MORREU!

Agora todo mundo sou eu
Agora todo mundo sou eu

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Voyage au centre de si mesmo

A mais fabulosa viagem que alguém pode fazer é a viagem para dentro de si mesmo. Sem precisar comprar passagens antecipadas em três meses para que se aproveite uma promoção falaciosa. Sem precisar juntar trapos em uma bolsa desfigurada. Sem precisar sequer planejar com qual vizinho indesejado ficará as honras de alimentar o cachorro.

Há ainda diversos outros benefícios: dentro de sim mesmo, as paisagens são as mais exóticas que uma pessoa pode ver algum dia; os animais são dos mais estranhos, chegam a lembrar aqueles peixes abissais que vez por outra são encontrados mortos nas praias desertas. Dentro de si mesmo, cada mísero centímetro quadrado tem o poder de surpreender e assustar.

Um corpo cheio de coisas pode estar cheio de nada. Vísceras são alguma coisa, porém depois de mortas são nada. Um buraco está cheio de vazio. É possível preencher o espaço vazio de um buraco, ou de um corpo, com qualquer substância. Mas ao preencher esse espaço, ele não deixa de estar vazio, pois que o vazio apenas muda de lugar. O vazio é cíclico e, cedo ou tarde, volta para preencher. É impossível estar sempre cheio.

Todo castelo foi construído para desmoronar. Cada pedra colocada em sua estrutura tem em sua própria natureza a intenção de ruir. Areia nada mais é do que uma rocha que envelheceu. Pois que o tempo passa para todas as coisas, vazias ou não. E uma rocha está sempre cheia; cheia de areia dentro de si, e mesmo assim vazia; vazia de castelo. Pois que uma rocha sozinha nunca será castelo.

As ideias desmoronam, as pessoas desmoronam. Muito mais, inclusive, do que os castelos. Dentro de si mesmo, cada pessoa desmorona, e essa viagem deve servir não para evitar esses desmoronamentos, mas para reconhecer a areia da rocha velha.

Dentro de si mesmo, há que se preencher cada vazio com essa areia, como uma ampulheta antropomórfica que não está contando o tempo, mas sim a vida e a não-vida. Dentro de si mesmo, há que se responder se vale mais a pena ser problema ou solução, teorema ou resolução. Dentro de si mesmo, há que se entender que o vazio nada mais é do que a falta do nada, pois que por vezes até o nada preenche o vazio.