segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

En El Uruguay, La Gente Está Muy Loca

Choveu miseravelmente durante os dois dias em que estive em Ponta do Diabo. A Ponta do Diabo é o que os uruguaios chamam de Punta del Diablo. Gosto dessa tradução porque parece que estamos falando da pica cabeçuda e veiúda do próprio Diabo. Outro dia, fiquei sabendo que todo pinto é diferente. Cada qual tem as suas especificidades muito características. Como uma impressão digital, não existem duas picas iguais. E também não há duas bucetas iguais.

Parei para imaginar se Deus limpava a bunda direitinho. Acho que quando você é Deus não deve ter muito tempo para ficar limpando o rabo minunciosamente, esfregando o papel higiênico em cada ranhura do cu à procura de algum resquício de bosta. Provavelmente ele apenas dê uma limpada geral e deixe para resolver o resto da situação mais tarde, no banho. Mas isso é apenas uma conjectura. Afinal, ninguém deseja sofrer as consequências a longo prazo por não ter limpado o rabo durante a vida.

Ficou chovendo durante os dois dias em que estivemos lá. Era um tempo fechado, sem a menor intenção de melhorar. Na verdade, não ficamos dois dias, foi uma noite cercada por um final de tarde e um início de manhã.

Mesmo com esse problema climático, o lugar estava ótimo, a bebida era barata e consegui, na nossa última noite no estrangeiro, deixar meu suco gástrico naquele país. Passei a madrugada vomitando a tequila que bebemos. Ali, estabeleci a meta de não vomitar mais do que uma vez por mês ao longo dos próximos anos. Chega uma hora em que um sujeito cansa de ver os seus restos alimentares interiores se estrebuchando e saindo por onde deveriam entrar.

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Alguns dias antes, acabávamos de cruzar a fronteira. Acho um absurdo que as pessoas construam aduanas e proíbam as outras pessoas de atravessá-las simplesmente por terem estado a vida toda delas do outro lado. Como se as pessoas dali não cagassem também.

Carimbam papéis, atestam documentos, olham para a tua cara suja e cansada a verificar se aquela foto ali é você mesmo. Se eu fosse um ladrão de identidades, um falsificador ideológico, a última pessoa com quem eu me pareceria seria eu mesmo.

Em último caso, até aceitam uma propina. Pedem, muitas vezes. É possível comprar qualquer sujeito, todos têm seu preço, não importa a moeda corrente: dólar, peso ou real. “Só não aceitamos o euro, o que eu faria com essa porcaria?”.

Compraria uma pessoa, eis o que eu faria. Pronto!, agora você é meu, atravesse a fronteira e grite que são todos uns pendejos. Cumpram minhas ordens e todos serão poupados. Talvez Deus tenha até bicho carpinteiro, só assim para que ele tenha essas ideias.

No final das contas eram todos uns pendejos e umas pendejas mesmo. Atravessamos diversas fronteiras, a maioria delas municipais ou estaduais. Mas quando foi preciso confrontar nação contra nação, duas vezes correu tudo bem, apesar de que na primeira nem sabíamos o que viria a ocorrer em qualquer das possibilidades; ninguém nos parou. Na terceira vez deu tudo errado. Pouco importa: en el Uruguay, la gente continuaba muy loca.

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É preciso prestar mais atenção quando não se está em território conhecido. Todos acabam sendo vítimas; ao menos acreditam que são. Todos são bandidos também. Há um pequeno assassino preso em cada mente, matando o nosso tempo. Quando se está no estrangeiro, não há também que se perder tempo.

Mas há que se tirar um tempo para dormir. Os carros do outro lado da rodovia nunca sabem quem sofre mais, todos são a maior vítima do mundo e os outros motoristas, esses sim, são uns pendejos. Mas se ninguém errasse, ninguém morreria. Oras, todo mundo precisa de um saco de pancadas, só evitem as colisões frontais. Evitamos todas elas, e cá estamos: vivos.

Nas rodovias, revoltosos. Nas ruas, os malucos. “Esto habla dos idiomas: español y mierda!”. Pelos vistos, por quase comprovação empírica de estudo social de massas, essa é uma situação recorrente.

Distribuímos cigarros e visitamos um cassino. Não daqueles suntuosos templos de adoração jogatinesca, onde o Diabo certamente ficaria de pau duro. Apenas um casarão com tapete empoeirado e máquinas programadas para tirar as moedas de velhos e velhas claramente desacorçoados com a vida que levaram. Suas caras sujas e cansadas dariam a entender que foram expulsos de todas as fronteiras que já tentaram atravessar nessa vida.

Ao contrário do que todos pensam, é preciso muita coragem para se tornar um velho que desistiu de tudo. Há poesia também na derrota.

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As pessoas falavam diversos idiomas, e, quase sem exceção, todos se entendiam. Há algumas línguas que são universais. O querer se comunicar é uma delas. Conheci muita gente que estudou comunicação durante anos e ainda não aprendeu a falar. Balbuciam monossílabos manhosamente, na esperança de conseguir aquilo pelo que ainda não têm capacidade de lutar.

Na Província Cisplatina, conheci muita gente que nunca esteve em uma aula sequer relacionada à comunicação, mas é capaz de humilhar comunicacionalmente qualquer um. O meio e a mensagem que ardam nas chamas do inferno, a comunicação se dá entre seres humanos, e disso não há teoria que dê conta. Na verdade, essa parte do texto devo certamente suprimir na versão final. Não se fala de comunicação a comunicadores, são todos uns traumatizados.

Entre filhos da puta, pendejos, cabrónes, assholes, schwanzlutschers e ainda outros mais, acabamos globalizando um pouco mais o nosso léxico de pessoas.

É como se as pessoas pudessem ser colocadas também em um dicionário. Claro que não seria simples defini-las, mas elas viriam com o nome de batismo civil, classe gramatical a que pertence (diferente da definição de gênero, vejam bem, verbo nenhum é feminino ou masculino), e uma ou mais breves definições, resumidamente. Haveria também um exemplo de aplicação na frase. É sempre possível aprender uma pessoa nova.

Aprendemos um dicionário inteiro de pessoas nas estradas. Praticamente um desses idiomas modernos, as pontas dos galhos nas árvores pictóricas que começam lá na Torre de Babel, e são formados por um pouco de cada outro idioma. A globalização está aí para isso.

Conta uma antiga lenda que um dia Deus e o Diabo se encontraram para jogar uma partida de Batalha Naval. O Diabo resolveu tirar um sarro de Deus e inventou um novo idioma para confundir seu adversário durante o jogo. Cada vez que o Coisa-Ruim ia escolher uma coordenada para lançar sua bomba, falava uma coisa ainda mais sem sentido do que a anterior. O Todo-Poderoso começou a ficar muito puto e jogou a brincadeira para o alto, mandando tudo à merda. Talvez o Cão até estivesse tentando provar alguma coisa sobre a Ira e aquela baboseira toda, mas o fato é que ficaram sem se falar por mais alguns séculos.

Na verdade, acabo de inventar essa lenda. Quem não gostou, que pare a leitura agora e vá para o Diabo que o carregue. Ou para Deus.

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Quando arranjamos confusão lá, ninguém entendeu. Provavelmente porque brigávamos em português. A garçonete queria derramar café em todo mundo; é o sonho de toda garçonete antes deslumbrada e hoje frustrada. A vida não vai para frente pra ninguém. E nem adiantava pedir a ajuda divina, Deus estava cagando. Espero que ele tenha limpado a bunda dessa vez.

Saímos de lá sem pagar, não que isso nos orgulhe, mas precisava ser feito. Um cognato que em português é substantivo, em espanhol vira verbo fica muito difícil de traduzir, e de calcular também. Cambiar é uma coisa difícil. Não que isso nos orgulhe, mas há festas e festas.

Em outra, subimos em cima das mesas. A calçada estava tomada. A rua também. A particularidade acústica da região histórica nos fez acreditar que acontecia uma balada no teatro, o que seria a festa mais louca desde quando os monarcas celebravam sua falta do que fazer com prodigiosas orgias nos palácios reais.

De qualquer forma, insanidade não faltou. Minha imaginação esteve em Ibiza, ou naquelas outras praias mediterrâneas ao sul da França e da Espanha, onde as pessoas dançam. Era uma calle pequena, cheia de gente, com uma música frenética ricocheteando nos prédios antigos, com as pessoas atirando a mais variada quantidade de líquidos distintos e indistinguíveis nas outras. É possível que tenha sido incluído nos ares até uma boa porção de dejetos humanos.

Saindo dali, algumas horas mais tarde, controversamente precisamos da ajuda da Virgem Maria. Certamente naquela festa não havia nada de Virgem, nem mesmo a ascendência astrológica, e a mãe do filho de Deus devia estar assustada e bem longe de lá. Mas quando clamamos por ela, a santa não nos abandonou à nossa destemperança alucinógena. Oras, o que nos é oferecido, é aceito. Mas acho que quando ela nos indicou o caminho, até mesmo o Diabo ficou feliz. “Ufa! Desses aí eu gosto”.

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Todo mundo quer foder. Essa é outra língua universal. Todas as pessoas querem acabar a noite acabadas. Mas não há muito que ficar falando da foda alheia. Exceto, talvez, que torcemos para que algumas pessoas tenham um tempo a mais do que Deus tem para despender limpando o cu. Sei lá, como nem todo mundo criou o universo, é natural que haja alguns cus bem limpinhos por aí.

Foda é quando a foda fica alheia a você. As oportunidades são especialistas em nos perder. A verdade é que todo mundo quer jogar café em todo mundo, mas todo mundo quer transar com todo mundo também. É a lógica do louva-a-deus, aquele animalzinho verde e frágil: eu te como enquanto você me come a cabeça. E de foda em foda o mundo gira.

Tanto gira que lá anoitece mais tarde. Isso quase dá mais tempo de sol, se você parar para pensar que somos criaturas noturnas (vespertinas, talvez) que não acordam tão cedo, e, quando acordam, é porque nem foram dormir. Vagamos as estradas sonolentas, com caras de madrugada.

Há tanto crepúsculo quanto há aurora em um mesmo dia; exceto quando o sol é apenas um amontoado de nuvens. E em um deserto asfáltico, entremeado por vacas e pasto e merda de vaca, que, por efeito, é quase tudo o que os interiores daquele país possuem, vemos a luz fugidia descer a encosta da colina por trás de alguns imensos moinhos de vento, não mais impulsionando simples moedores de milho, mas sim bastiões da moderna usina eólica de energia.

As noites não acabavam nunca. Pareciam Sodoma e Gomorra, porém sem o fogo e o enxofre. Bobagem, só parecia que estávamos nos divertindo imensamente mesmo. As noites traziam tudo o que são acostumadas a trazer: prazer e confusão mental. Bobagem também: não se define o que se encontra nas noites de outro país.

Não acreditem em nada do que eu digo: toda história que não está acontecendo exatamente agora, e que não está sendo vivida, não é real. Falamos isso para os gatos daquele cemitério, que insistiam estar vivos, mas agiam como guardiões dos mortos. “Hey, faça mais um carinho em meu pelo sedoso ou a tua alma vagará eternamente pelo limbo uruguaio!”.

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Gostaria de ficar naquele limbo para sempre, em meio àqueles malucos da Dieciocho de Julio. Se aquela rua, entre a colossal estátua do Artigas em seu cavalo simbiótico, compostos pela mesma massa de bronze, e a feira livre da Tristán Narvaja, não for o próprio limbo, então, por eliminação, só poderíamos estar nos portões do inferno, onde Dante foi aconselhado a deixar detrás de si a esperança. Aposto como o próprio Diabo, e certamente também Deus, devem dar umas voltas por ali de vez em quando, no fim da noite, em busca da melhor maconha ou de algum bom rabo.

Montevideo também não nos queria ausentes. Toda vez que deixávamos aquela cidade o céu desabava em aguaceiro. Ou então algum outro desastre não-natural nos acometia. Por isso choveu miseravelmente por dois dias em Ponta do Diabo. Depois, de volta a terras autóctones, o clima se resolveu, eram apenas pancadas isoladas de maus humores passageiros.

De toda feita, a viagem e as viagens dentro da viagem não custaram muito. O grande custo está em se manter vivo, em não arriscar acabar com a própria existência. Por exemplo, quem nunca comeu intestino de boi não sabe se a recepção pelo intestino humano será proveitosa ou não. E se deixei lá meus dejetos, trouxe de lá um pouco de tinta. O eterno ciclo do nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, poderia ser atualizado para algo como de um lugar nada se tira sem deixar algo em troca. É como dizem: “nenhuma foda sai barata”.

Por fim, como tudo que começa de fato acaba, o Deus castellano, o Deus do portuñol, latino, de sangre caliente, nos deu adeus. O Diabo nos acompanhou e nos soltou dizendo “voltem sempre”. O Uruguai desditoso nos quis e nos quer. E deixou-nos com a certeza de que lá, muito mais do que aqui, la gente está muy loca.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A Perspectiva da Existência da Vida como uma Evolução Natural do Universo

Respostas para suposições existencialistas são, desde sempre, a busca suprema, o Santo Graal, o Shangri-La de grande parte daqueles que já caminharam sobre essa Terra, que andaram por esse planeta comparativamente minúsculo em um gigantesco universo. Suponhamos que o de onde viemos e o para onde vamos tenham sua resposta na simples complexidade e na complexa simplicidade do próprio universo! Suponhamos...

O universo teria surgido de uma explosão. É no que, hoje, se acredita; é o que, hoje, se aceita. A partir da explosão, nos momentos seguintes, nos bilhões de anos que se seguiram, tudo surgiu. A princípio apenas as moléculas de hidrogênio se reagrupando e gerando novas ligações químicas. Logo, com a explosão das estrelas primordiais, elementos mais pesados e complexos, gerando planetas e tudo o mais. Dizer que somos poeira estelar não é poesia, não é romantismo exagerado. É o que somos, talvez seja o de onde viemos.

Houve uma ordem lógica nos acontecimentos: o surgimento da vida (como a conhecemos) não seria possível sem a explosão das primeiras estrelas, sem as primeiras supernovas. As estrelas surgiram, elas explodiram; novas estrelas surgiram, e essas também explodiram. Na terceira geração, surgiu o Sol. Girando em torno dele alguns planetas tímidos. Em um desses planetas, eventualmente a vida.

Essa nasce, até onde se sabe, de uma maneira aparentemente aleatória. Uma proteína entra em ligação química com uma molécula de RNA, o ácido ribonucleico. A molécula que se origina, ainda extremamente rara, acaba encontrando moléculas semelhantes a ela, originadas da junção de outras proteínas com outros RNA's. Elas se juntam e formam aglomerados, que começam a se fechar em uma espécie de célula primitiva. A célula se rompe e as duas metades conseguem se replicar e formar duas novas células a partir da informação armazenada em seus RNA's. Pronto, está surgida a primeira célula auto-replicante, e, por consequência lógica, a primeira forma de vida. Daí por diante é só evolução.

Não há porque não acreditar na possibilidade desse ser um padrão de comportamento do universo repetido à exaustão em outros sistemas estelares. Ignoremos o fato de ser a vida como conhecemos a única vida que conhecemos, talvez sejam assim todas as vidas no cosmo. Assim, toda vida surgiria da sequência estrela > planetas > vida. Tudo o que é preciso é um planeta a uma determinada distância de sua estrela-mãe, não longe e nem perto o suficiente para que a sua água não seja líquida.

Não há, então, porque não acreditar que seja essa a única forma pela qual a vida pode surgir, que seja essa a sequência óbvia da origem da existência, que seja essa a evolução natural do universo. O universo surge e gera estrelas, elas geram planetas e eles geram a vida. O universo gera a vida. Ele quer a vida. Ele sabe que a vida surgirá através dessa lógica sequência de acontecimentos. O universo é auto consciente. E as coisas vivas é que são a consciência do universo. Nós somos a forma dele olhar para si mesmo e se perguntar de onde veio e para onde vai.

Nessa evolução natural do universo de modo a gerar a vida, qual seria o próximo passo da vida como conhecemos? As estrelas. Em um círculo de criação e destruição, de ordem e caos. Nós nos tornaremos as estrelas, e as estrelas são criaturas vivas. Para acreditar nessa perspectiva talvez seja necessário aceitar nosso corpo como um simples invólucro que resguarda uma coisa interior imortal, uma essência que evoluiria em suas experimentações da vida como conhecemos, até o ponto de se tornar uma criatura senciente tão evoluída e superior que é capaz até mesmo de emanar luz.

E talvez essa seja a simples e complexa evolução natural do universo, essa criatura senciente da qual nós acabaremos nos tornando parte cada vez maior. Essa criatura que nos quer e nos deseja, e nos criou para olharmos para si próprio e conjecturarmos de onde viemos e para onde vamos. Oras, viemos dele e para ele iremos. Somos ele e ele seremos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Carta de Adeus - Tomo II

...porque foi um tipo de sonho que perdeu-se para sempre, mas de uma maneira diferente do tradicional perder-se para sempre. Não foi apagado pelo fraquejamento da memória recém-desperta e ainda não acostumada ao mundo real, afetada pela transição entre o onírico do sono e o onírico à nossa volta. Mas sim um sonho irrecuperável, daqueles que é possível lembrar nos mínimos detalhes, mas que não mais voltarão.

Nossa percepção é capaz de obedecer somente a padrões demasiadamente limitados. Não compreendemos o mundo em toda a sua imensidão, não compreendemos sequer a nós mesmos e nossas peculiaridades. Sabemos que o que regula as decisões atribuídas a corações loucos e insensatos é, na verdade, uma pequena porção de enzimas e hormônios. Mas até que ponto podemos determinar as parcelas de culpas delas, e a parcela de culpa dos corações loucos e insensatos, isso ainda é uma incógnita.

Prefere-se o romantismo da dúvida. Se não entendemos plenamente, podemos incutir um bom bocado de magia na coisa. É assim que funciona com todos os nossos não-saberes. Não sabemos do futuro, embora possamos conjecturar; e não sabemos nem mesmo do passado. Tenho a impressão de que uma parte de nossas memórias nunca chegou realmente a acontecer. O que chamamos de memória é um ajuntado do que vivemos e do que acreditamos ter vivido.

Não me lembro mais o que aconteceu no mundo real e o que se passou apenas no mundo dos sonhos. Não me lembro mais quanto de você é uma fantasia onírica e quanto existiu comigo de verdade. Tenho vivido realidades paralelas e não sei mais se alguma delas é real. Tudo o que sei é que a presença já é ausência, e, quanto a isso, tudo bem.

De qualquer forma, sem mais empecilhos pseudo-literários, te digo adeus, como se desfaz de um sonho pela manhã, quando o relógio despertador apita incansavelmente e o dia insiste em começar. Te digo adeus como te disse olá, com a mesma naturalidade de uma estrela em explosão de supernova. Te digo adeus com uma carta como tantas que já escrevi. Enfim, te digo adeus pela última vez, e volto a dormir, no aguardo do próximo sonho.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Carta de Adeus - Tomo I

O onirismo excedente de minha alma com frequência se manifesta durante a vida desperta. Nunca precisei dormir para sonhar. Não acho que o sono seja o caminho do sonho, acredito que eles apenas se manifestam correlatamente para a maioria das pessoas em virtude da conveniência da ausência de atividades mais pragmáticas durante a noite. Mas eu sonho o tempo todo.

Lhe escrevi cartas. Diversas cartas sem endereçamento postal. Não confundamos: destinatária havia, remetente havia. Só não havia porquê entregar. Ou como. Há que se fazer justiça ao bem da verdade: as cartas foram sim entregues. De uma maneira ou de outra, mesmo que não fisicamente, mas tudo que houve para dizer e escrever em linhas azuis, dito foi, escrito foi, entregue até mesmo pelo abstrato canal de um simples olhar.

Nunca cheguei a me desacostumar com o brilho fosco da tua presença. Parece que ainda vou encontrar você na próxima esquina, entre os transeuntes anônimos e sem face, entre essas pessoas que carregam suas vidas em uma sacola barata de mercado. Você se destacando imensamente, com um brilho fosco que só agora consigo definir, uma luminescência errante e com um quê de errada. Extremamente marcante, e, ainda assim fosco, turvo, opaco. Um brilho sem brilho.

Há um momento em nossas vidas, nas vidas de todos nós, em que, sem delimitação, divisória ou fronteira, passamos a nos acostumar e aceitar o fato de sermos efêmeros. Somos criaturas tão transitórias e extinguíveis quanto os nossos sonhos. Os do sono ou os acordados, todos os que nunca mesmo chegam a acontecer na realidade. Somos finitos, e tudo bem. O triste mesmo é que sejamos tão breves.

E como pode, dada tanta brevidade, a singularidade de um único momento, de algumas poucas horas, ficar marcada com tanta intensidade ao longo dos anos? Acredito que somente tendo sido um sonho, um dos meus sonhos acordados que se fazem sempre presentes. Um sonho contínuo talvez, diferente daqueles que, quando se acorda repentinamente, ao tentar voltar a dormir para continuá-lo, perde-se para sempre...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Manifesto pela Perenidade da Autoria

Desde o primeiro momento em que o ser humano foi capaz de contornar o tempo e registrar nas paredes das cavernas a sua perene existência, começou a ser produzida literatura. Ao longo dos milênios, já foi produzida tanta quanto o volume de seres viventes a experienciar a existência.

O princípio dessa capacidade de vencer a exatidão da morte se deu nas rochas, tanto das primordiais moradas cavernosas, quanto nas pedras que permaneceram soltas na natureza. A tinta provinha de pigmentos naturais, de origem animal, vegetal ou mineral, localizados por mãos pioneiras. A autoria da obra, essa se perdeu.

Quem exatamente eram aqueles homens e mulheres?, o que eles faziam?, por que faziam?, e o que se passava por suas cabeças?, tudo isso nenhum presente ou futuro poderá dizer. A autoria se perdeu e a obra ficou. Venceu os milênios, subjugou a morte. Não se sabe quem fez, mas sabe-se que foi feito. É o que fica; é o que importa.

Assim sendo, para o interesse da literatura, da obra em si, como essência, como criatura que inexoravelmente vive além do criador, o criador não importa. O autor não importa e nunca importou. O autor não deve nunca ser eterno, e, por conseguinte, o autor precisa ser perene. O autor não deve nunca viver tanto quanto a obra, ele deve ser esquecido. Deixemos a obra perdurar sozinha! A autoria deve ser perene!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Todo Coração é em Natureza Selvagem

Every fire is desire
Every light is delight
Every heart is wild in nature

Todo coração é em natureza selvagem. Nasce-se livre, os grilhões vêm depois. Todo fogo é desejo. Toda luz é prazer. Essencialmente selvagem é a natureza do fogo, da luz, do desejo e do prazer.

Todas as dissonâncias são recônditos errôneos da natureza. Reafirmações passageiras. É o barulho das almas em vibração. O som é o balouçar ritmado do ar produzindo ondas simétricas, um mar perfeito. Todo som é selvagem por si só. Todo som é frenético.

É o fogo de duas pequenas rochas em contato. Fricção, agitação, faíscas. Todo fogo é fricção. Combustão e comburente. Desejo ardente. Duas almas em vibração. Fricção em contato. Todo fogo é também em natureza selvagem. Subversivo e perversor. Controlador incontrolável.

Todo rio é sim mar. Águas são profusão. Aguaceiro, catarata, queda d’água e corredeira. Açude, alagamento, igarapé. Toda água é em natureza selvagem. É luz e é prazer. No brilho prismático de cristalina superfície reflexiva. As chuvas são deturpações, inconstâncias. Água também é quente, é agitação.

O coração é por si só natureza. Do desejo e do prazer às almas em profusão. Um mundo em corredeira, na mais frenética fricção. Todo fogo da Terra é desejo. Toda luz que aqui jaz é prazer. Todo coração que aqui nasce, cresce, desenvolve-se e morre, é selvagem em natureza e pela natureza assim feito selvagem será.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Retrospectiva 2015


Sem mais delongas, vamos direto ao que interessa, a lista dos escolhidos na Retrospectiva 2015 de Melhores Tweets:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre Mudar

A evolução é parte natural do processo existencial de toda criatura. É importante que estejamos sempre aprendendo. Adquirindo novas técnicas e habilidades para lidar com o mundo, que, assim como as coisas vivas que nele habitam, está em constante processo mutacional.

Sempre me perguntei se as pessoas mudavam ou não mudavam. Essa é uma questão que há anos permeia meus questionamentos sobre o universo. Afinal, partia dessa mesma premissa: se o mundo muda, porque havemos de ser seres estáticos, ininfluenciáveis, constantes e parcimoniosos. Não somos assim, somos maleáveis, inconstantes, vulcânicos.

Na verdade, fazemos as duas coisas: mudamos e não mudamos. Nos tornamos coisas novas e somos a mesma coisa. Atacamos a existência em duas frentes. E não poderia ser diferente, criaturas tridimensionais devem naturalmente ver o mundo em diferentes âmbitos espaciais, bilateralmente, frente e verso, claro e escuro.

Isso acontece porque trocamos de pele, como alguns répteis, mas mantemos a mesma consistência física. Mudamos o tempo todo nas pequenas coisas, nos ideais, nas opiniões, nos questionamentos que fazemos, nos aprendizados, quando deveríamos nos tornar pessoas melhores. Mudamos no dia a dia, no atravessar de rua mais cauteloso após um atropelamento, no preconceito abandonado após um conhecimento do assunto, na postura emocional mais madura após uma situação complicada vivida.

Mas em essência, no fundo no fundo, em quem somos e nunca deixamos de ser, nisso somos os mesmos. É isso que nos faz. Somos como uma pedra, um bonito mármore, que depois de moldado se torna uma elegante escultura. Ele continua sendo pedra, em sua essência ele ainda é pedra, mas ficou ainda mais bela e agora é escultura. Mudou e não mudou. Se tornou uma coisa nova e ainda é a mesma coisa.

Mudar não é ruim, não mudar também não é. Somos mesmo essa ambiguidade existencial. Não somos definitivos, afinal, nada o é. Somos répteis e somos pedras, aprendendo com o mundo conforme ele vai se modificando. E isso tudo é essencial, é a nossa essência.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A Vida num Túnel

Tenho percebido a vida passando por mim como se eu estivesse dentro de um túnel. Um daqueles profundos, largos e escuros túneis do metrô, onde ficamos presos no vagão, estáticos pela lei da inércia, enquanto as paredes deslizam sorrateiramente, sem privilegiar nenhum detalhe de si próprias, como se fossem apenas uma infinita massa disforme.

Vez por outra uma estação de parada surge no horizonte. Não as vemos com muita antecedência, o próprio formato da vida não o permite, é um túnel longo e a divisória dos vagões não permite ver longe. Mas percebemos seus sinais, antes da estação sempre há uma grande incidência de colunas surgindo nas paredes do túnel. Manchas cinza de concreto que aparecem ritmadamente, com cada vez mais frequência conforme a velocidade da vida diminui para parar na estação.

Na estação, podemos ver centenas de cartazes com propagandas, manifestos, anúncios, campanhas. Algumas pichações, um ou outro mendigo dormindo, uma multidão de pessoas sem alma. E então a viagem começa novamente, a velocidade aumenta, o tempo continua vindo na minha direção, distorcendo as paredes do túnel.

Engraçado como o primeiro fato de nossas vidas não fica marcado em nossas memórias. O nascimento certamente é uma experiência traumática. Imagino que deixar o conforto do útero quentinho, da segurança do líquido amniótico e da alimentação conduzida ate nós não deve ser nada fácil. Sair para enfrentar um mundo vil que se desloca a uma velocidade inacompanhável, deixando à vista apenas os rasgos aparentes de avisos de 'não ultrapasse a faixa amarela'. Não surpreende que não lembremos dessa experiência.

A partir daí a vida acelera. Nosso objetivo primordial e único assim que nascemos é morrer. Na primeira respiração começamos a nos atribuir objetivos novos, e vamos levando-os adiante, sem parar muito para olhar as paredes do túnel. Estamos estáticos dentro desse vagão que nos foi dado. A vida vem vindo até nós, profunda, larga e escura.

Então percebemos que a nossa vida está passando num túnel. Que precisamos de bifurcações, que precisamos mudar o rumo do metrô, parar o maquinista, descer do vagão e subir as escadas rolantes, respirar o ar puro! Não precisamos de trens-bala chegando a seus destinos a 600 quilômetros por hora. Precisamos parar e observar a paisagem. Precisamos diminuir o ritmo e ler os avisos, olhar para as paredes prestando atenção aos detalhes geralmente imperceptíveis. Ou o trem nunca parará, até onde não houver mais trilhos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Crônicas da Rua

1 - São todos uns idiotas. Alguns são mais idiotas do que os outros, e alguns são idiotas por razões diferentes. Mas são todos uns idiotas.

2 - Naquele tempo, andávamos em um auge de insanidade. As noites eram frenéticas e, não raro, duravam um final de semana inteiro. Víamos o sol nascer de um lugar diferente a cada dia. Sem nem saber direito para onde ir, íamos aonde desse vontade. Em uma noite específica, havíamos deitado a cidade aos nossos pés, éramos os reis da rua, todos se ajoelhavam e nos louvavam à nossa passagem. A caminho da madrugada, fomos parar em um apartamento onde todo mundo estava nu. Dormimos exultantes com nosso reinado.

3 - Não tenho paciência para quem me dá sono. À minha volta, preciso das pessoas insanas, de quem não teme a morte e muito menos a vida. Quem está disposto a aceitar tudo o que o mundo tem a oferecer. Caminho lado a lado com esses bandidos corruptores incorruptíveis, ladrões de coisas mais nobres, vencedores do tempo. Esses que tiram a vida para dançar e bailam brilhando por onde os outros caminham.

4 - Eu não me apaixonava havia dois anos. Desejava constantemente que ela ainda estivesse participando das minhas aventuras, em lugar de apenas povoar meus sonhos. É disso que a matéria-prima da vida é constituída: ansiar por algo que não temos, que está distante. É o que nos faz sair por aí entregando jornais ou fechando grandes acordos. Ao menos, o mundo estava cheio de paixão voando por todo lado, mesmo que não acertassem muita coisa. Os amores são aves cegas.

5 - Às vezes, tenho a sensata impressão de que já ouvi todos os papos. Todas as conversas já foram tidas, são assuntos cíclicos. Por isso, abandonei as discussões e os debates, nunca se chegava a lugar algum. E eu já sabia há algum tempo que a melhor forma de tirar da cabeça algo que estava incomodando, era fazendo um furo nela.

6 - Parei para observar o oceano. Observar é um termo pequeno para o que eu fazia com os mares e as marés. Era como se eu conseguisse sentir ele de uma maneira superior. Eu chamava aquilo de contemplação. Fiquei parado na areia, a espuma branca dançava graciosamente ao forte vento e tive vontade de filmar aquilo. O mar revolto quebrava, ia e voltava. Fazia frio. Os litorais são como vírgulas, já disse certa vez, continente nenhum tem ponto final. Acabaram me chamando e fui embora. Eu realmente gostaria de ser um rio.

7 - As pessoas que caminham pela rua me interessam, naturalmente. Gosto de observá-las, ler seus pensamentos óbvios. Sento em um banco e fico esperando algo acontecer. Na rua, todos estão carregando consigo seus objetivos em uma sacola. Posso ver a marca das grandes lojas: sonho; anseio; emprego; amor; amizade; problema; dívida; decisão; viagem; novidade; morte. Cada um desses grandes conglomerados comerciais que estampam as sacolas que carregamos por aí.

Epílogo - Aguente firme querida, é um mundo muito louco.