quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vazio

“Eu não te amo mais”, foi o que ela disse, com todas as letras e sem titubear. Não teve coragem de repetir, mas nem precisava, uma única vez era suficiente.

Naquele momento tive a sensação, quase certeza, de que o que ela sentia era desamor, e não falta de amor. Algo como o oposto do sol não ser a lua, pois o oposto do sol é o lado de trás do sol, ou de dentro, depende do ponto de vista. Não vejo como pode se deixar de amar, acredito que ou se ama pra sempre, ou nunca se amou de verdade.

Hoje eu sei que o pior sentimento existente é a falta de sentimentos. Houve épocas em que eu acordava sentindo um leve, porém marcante, gosto de sangue na boca, mas dizem que matar só é difícil da primeira vez. Morrer também deveria ser difícil só da primeira vez, a cada vez que eu morro fica mais difícil.

Quando ela disse aquilo e virou as costas para se afastar num elegante movimento de adeus, algo morreu dentro de mim, e não foi o que eu sentia por ela, porque como disse, talvez eu nunca tenha sentido nada... ao menos não por ela.

No exato primeiro momento de ausência dela, passei a perceber que sua presença talvez não fosse tão importante, e aquilo me surpreendeu no começo. Porém, logo assimilei que outras coisas faltavam também, e eu não sentia mais o cheiro da comida.

A partir desse prelúdio de uma catástrofe anunciada, esses abismos sensoriais se tornaram cada vez mais recorrentes, frequentes, insidiosos e destruidores. Na verdade, formava-se um paradoxo complexo com as minhas emoções, pois quanto menos eu sentia, mais eu sentia o não sentir.

Era uma agonia acachapante, aquela sensação de vazio. Precisamente um vazio intenso e único, que afligia todo o meu viver, a palavra precisa era vazio e vazia, pois seu próprio nome se tornava ausente de significado, e era cada vez mais intrusivo.

Havia dias em que eu acordava me sentindo extremamente bem, havia dias em que acordava simplesmente não me sentindo. Então parei de relacionar esses abscessos à partida dela, parecia mais que era tudo natural e esperado, e que teria acontecido de qualquer forma.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Férias

Então chegou a hora de relativizar as férias, e eu odeio férias. Aclamada como a época de descanso, para que se desestressem as pessoas de suas obrigações diárias. O problema é que preciso das minhas obrigações diárias pra continuar me sentindo vivo. Não sair de casa é quase como respirar por aparelhos.

No sábado trabalhei por 16 horas seguidas. Claro que teve o intervalo pra uma viagem de ônibus e uma ou outra cerveja, mas isso não diminuiu a impressão do pique. Assim, sou workaholic, não porque viva em função do trabalho, mas sim porque prefiro o fazer ao não fazer. Como disse em outra oportunidade, sempre preferi o sim ao não.

Depois de tantos experimentos sociais a gente começa a antecipar o comportamento da coletividade e de algumas individualidades, e há que se informar que a calma e tranquilidade são em função do fato de que nada do que houve surpreende, como se ninguém soubesse. Mas as vezes ainda precisamos fazer alguns testes, e já que palavra proferida não volta atrás, há que se magoar alguns corações quando se sabe demais.

Revisitam-se os assuntos tratados, e cada olhar distante é uma chama ainda viva, ou apenas uma ironia guardada. E foram tantos encontros e desencontros e uma figura de linguagem já usada. Tantos e todos tontos. Mas o encontro protelado não surtiu efeito. Nenhum deles, encontro ou efeito.

Tenho escrito pouco, duas publicações esse mês, época de pré-ferias é também época de procrastinação, e quando o tempo é pouco faz-se, se o tempo é muito adia-se, pois que tempo sempre há, a diferença é o que cada um faz com ele. Por isso, hoje começo, já que tenho um perfil a concluir, um conto a postar, um livro a publicar, e as reticências para colocar nesse texto, pois que ele não tem fim, até que acabem as férias...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Uma Teoria sobre o Amor e a Física

Escrever essa teoria é uma empreitada arrogante e egoísta de objetivo pouco claro. Porém, a própria vida não tem objetivo tão claro e definido, e tendo em vista que os dois temas a serem aqui explorados são de natureza ainda mais incerta e abstrata, acho então que a própria falta de necessidade da formulação dessa teoria caracteriza a sua necessidade. Dessa forma, aqui veremos como pode, ou deve, ser relacionada a Física com o Amor.

O filósofo austríaco Karl Popper define uma teoria científica como um modelo matemático que descreve e codifica a observação que fizemos. Dessa forma, observamos os dois temas propostos de modo matemático, tirando a característica subjetiva do amor, que o torna tão imprevisível, e aplicando ela à física, que é mais objetiva. Portanto, ambos estarão balanceados de forma a fazer com que o equilíbrio torne a comparação justa.

Assim, começamos pela Teoria do Éter. Acreditava-se que o éter seria uma substância que permeava todo o espaço vazio do universo, serviria como o material condutor da luz. Essa teoria começou a cair em descrédito em fins do século XIX, sendo abandonada de vez após a Relatividade Geral. A comparação a ser feita coloca o amor como uma ‘entidade’ também presente em tudo, completando o universo, existindo em todas as criaturas vivas e não-vivas, conduzindo a luz entre os corpos. Da mesma forma que o éter foi abolido da mentalidade físico-científica mundial, hoje também a maioria das pessoas já não vê o amor como algo onipresente, sendo muito mais freqüente a busca eterna por tal estado de espírito. 

Outra teoria a ser estudada é o Princípio da Incerteza, o qual diz que é impossível saber com precisão a velocidade e a posição de qualquer partícula em um determinado momento, só é possível conhecer um desses dados por vez. Isso porque se conseguíssemos medir as duas grandezas ao mesmo tempo, acabaríamos alterando elas devido à interação necessária para que tal medição seja precisa. No amor é impossível saber com precisão e ao mesmo tempo, os dados relativos aos sentimentos de ambas as pessoas envolvidas em determinado relacionamento, ao ser capaz de mensurar um dos envolvidos, o observador corre o risco de interferir no sentimento do outro em relação ao primeiro. 

Já o Princípio Antrópico funciona no sentido de que não haveria amor se não houvesse uma humanidade para amar. Afinal, sentiriam amor os objetos e as outras coisas? O princípio antrópico diz que tudo o que existe foi desenhado para a existência da humanidade, ou que pelo menos se as coisas fossem minimamente diferentes não seria possível a existência da vida como a conhecemos. Talvez mesmo as menores situações dentro de um relacionamento funcionem no sentido de possibilitar o seu sucesso ou fracasso, no que poderia ser chamado de destino, ou de uma força superior agindo no amor. Ao olhar para trás em um relacionamento poderíamos apontar todas as características que se fossem levemente diferentes impossibilitariam a sua existência. 

A Gravitação Universal diz que todos os corpos possuem uma força de atração, que atua sobre todos os outros corpos existentes, e que é proporcional à sua massa e distâncias entre eles. Assim, todos os corpos do universo manteriam-se em sua órbita constante em virtude dessa força invisível que une todas as coisas, visto que ela agiria como uma espécie de amarra entre os corpos, cada um deles mantendo os outros em suas posições fixas. O amor seria a própria força de gravidade, cada um dos corpos de um relacionamento teria sua própria força de ação, medida pela distância e magnitude dos sentimentos mútuos, e que seria o agente responsável pela união e manutenção da rota entre os corpos físicos a as almas transcendentais de um casal. 

Quanto mais alta a Entropia, menos desordem num determinado sistema, essa teoria explica que a tendência de todas as coisas é evoluir gradativamente até um estado em que tudo esteja estático, em harmonia e perfeição. Essa evolução deve acontecer primordialmente através da troca de calor entre corpos, explicada na termodinâmica, que tende a equilibrar as temperaturas, a partir do momento em que tivéssemos tudo na mesma temperatura, todas as coisas estariam estáticas. Num relacionamento longevo, isso significaria a representação das coisas caminhando rumo à harmonia e calmaria, ultrapassadas as épocas ruins de desordem, acabaria tudo caindo na monotonia da perfeição. Definimos assim que com o passar do tempo a tendência de qualquer sistema, incluindo o amor, é atingir a entropia máxima. 

A teoria da Relatividade Geral revolucionou a física como a conhecemos, ela prevê que a velocidade da luz, apesar de constante, é variável de acordo com o ponto de vista do observador em questão, tornando-se relativa. Da mesma forma acontece quando se trata do amor, pois num relacionamento as coisas boas e ruins que acontecem têm sua velocidade determinada dependendo do ponto de vista das partes envolvidas. Uma das contrapartes pode sentir a relação se deteriorando mais lentamente que a outra parte. Além disso, quanto maior a velocidade, mais energia será usada, tornando a aceleração mais lenta, diminuindo por consequência a velocidade, por isso um relacionamento pode começar e evoluir muito rapidamente, e depois conforme necessita mais energia para mantê-lo, a aceleração diminui e a velocidade também por conseqüência. 

A teoria do Tempo Imaginário Idealizador considera esse um tempo diferente do real que utilizamos e conhecemos, ele cresce com números imaginários e em um ângulo de 90 graus em relação ao tempo real, sendo uma forma de idealizar a realidade. É como dizer que além da forma real com que o amor ou romance se desenvolve, existe também a imaginária, que funciona num vetor diferente e é idealizada de forma a proporcionar uma melhor compreensão quântica da relação. 

Buracos Negros são anamorfias surgidas a partir do colapso de estrelas, possuem massa tão extrema que nem mesmo a luz pode resistir à sua força de atração. Relacionamentos que são belos e intensos como estrelas, possuem massa extrema e tendem a tornar-se buracos negros quando findam, formando uma anamorfia condensadora de massa, e que pode crescer indefinidamente englobando a massa das regiões próximas. Nem mesmo a luz pode escapar à sua força, porém ele emite uma certa radiação por possuir temperatura, como qualquer outro corpo, que seria correspondente ao caso dos relacionamentos ainda acesos, e seus ‘remembers’ recorrentes. Portanto, amores intensos geram anamorfias intensas. 

Chegamos aqui, justamente no fim, à luz das mais importantes correntes teóricas da física contemporânea, e vislumbramos o que pode ser considerada a união comparativa de dois dos mais aclamados e explorados assuntos da humanidade. De um lado, o amor, lírico e poético, das grandes histórias. De outro, a física, com sua busca eterna por explicar a vida e as coisas que a envolvem. Dois assuntos tão distintos, e, como verificamos, tão próximos. 

Há que se desenvolver ainda a tão aguardada TOE, theory of everything, ou teoria de tudo, que busca integrar todas as outras teorias em física. Há ainda muito que se amar e descobrir no amor, tão abstrato e variável que é. Porém, feita a comparação justa, ambos os assuntos deverão sempre ser paralelos, daqui até o fim, quando não houver mais amor nem razão para amar, e quando teoria alguma fizer sentido.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sobre o sim e o não

Pessoas afirmam uma sentença começando a frase com não. Pessoas negam uma sentença começando a frase com sim. Esse tipo de contradição surge quando uma frase não nasce pronta, ela precisa ser moldada e integrada ao contexto. Na verdade qualquer coisa fora de contexto soa falso.

Tenho deixado meus sonhos em casa. Saio pra rua carregando a realidade, seja ela qual for. Sonhos são muito belos e aconchegantes, mas a frieza da realidade é mais pura, é de verdade afinal. Em tempos de amores tão estranhos, de vivência de tamanho retrocesso, me sinto repetitivo. Prefiro chocolate branco, que muito dizem não ser chocolate. Oras, muitos dizem que os sonhos não são reais.

Por outros lados, sinto falta de coisas que nunca tive. Mas as palavras repetidas que já tive tornam essa frase reutilizada, de novo e de novo repetida e incessantemente. Como pular de paraquedas, sinto falta de pular de paraquedas, e isso nada mais é do que analogia à vida decadente que se leva.

Um saudosismo pertinente, umas leituras ultrapassadas, e uma vontade incontida de ressuscitar tudo aquilo que já houve e ouve. Ao menos concursos não envelhecem, apesar da literatura evoluir. Continuo criando e inventando, e que gama de responsabilidades são essas, nada acaba e a cada dia assume-se mais. No entanto, tudo sob controle, fico esperando o dia em que as coisas desandariam. Gosto de ver o circo pegar fogo, e prefiro quando estou dentro do circo.

Assim, de sim e de não, literaturas vêm e vão, saudosismo vem e vai, compromissos vêm e vão, chocolate vem e vai. Também mudam os sonhos e a rua, a realidade e os concursos. Mudam, mas não envelhecem.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Shitberg - parte 02

No início, a merda estava principalmente presente entre os trópicos, o Canadá, por exemplo, era um país quase a salvo do problema, exceto por uma ou outra corrente merdítima que chegava vez por outra.

Em meados do sexto ano da emerdiação mundial, o problema passou a ser mais global. A população sofria como nunca antes, e imigrava para os países árticos. Porém, agora a bosta estava começando a chegar lá também, havia merda condensada na atmosfera em forma de nuvens, e as correntes de ar as carregavam de um lado pro outro, massas de bosta fria e de bosta quente faziam parte das previsões do tempo nos canais de televisão. 

Nas águas as correntes oceânicas também carregavam a merda como se fossem gigantescas estradas de bosta. Então a corrente do gorfo levou fezes até a Groelândia, e lá imensos icebergs constituídos totalmente de merda começaram a se formar. Coprólogos estudaram o ponto de fusão da merda e verificaram que os icebergs de bosta ficariam cada vez maiores e mais fedorentos.

E foi assim que a nova ameaça surgiu, mais um problema num mundo já afundado em merda: o shitberg. Os shitbergs eram massas colossais de bosta, que se aglutinavam e congelavam, a maior parte de sua constituição física ficava abaixo do nível do mar, sendo assim invisível. 

Shitbergs vagavam pelos oceanos, atingindo latitudes cada vez mais próximas ao equador, pois derretiam com mais dificuldade em relação aos icebergs tradicionais. A temperatura da Terra diminuía, devido à presença de merda na atmosfera condensada em forma de nuvens, que por ser mais densa e de cor mais escura, geralmente marrom, refletia a maior parte dos raios solares de volta ao espaço. 

Assim os shitbergs aumentavam, em tamanho e quantidade, e também em periculosidade, e dominavam uma porção cada vez maior dos mares do planeta. As águas já não eram navegáveis, e barco nenhum viajava, nem mesmo os mais fortes suportavam a terrível ameaça dos shitbergs. 

Até mesmo a aviação ficou comprometida devido à grande presença de merda na atmosfera que dificultava a visibilidade, no nono ano já não se locomovia a grandes distâncias pela Terra. 

No próximo inverno do hemisfério norte, as neves vieram com mais força do que em todo o século anterior, e escurecidas pela bosta, pesteava tudo. Algumas pessoas voltaram a migrar para os trópicos, voltando de onde fugiram outrora, quando a merda começou a dominar as cidades costeiras. 

Depois de dez anos do início de emerdiação mundial, a população humana começava a minguar pela primeira vez na história, eram muitas as doenças e pestes; a produção de alimentos diminuíra assustadoramente; não havia mais transporte, e várias regiões do globo estavam completamente inabitáveis. Grandes desertos de merda cobriam os mapas. 

No décimo terceiro ano, a população mundial já era a mesma que na época da revolução industrial, e perecia. Tudo era merda, e o planeta não se recuperava, pois as pessoas continuavam cagando. Bosta na atmosfera, cocô nos oceanos, fezes nas terras emersas. 

E o planeta esfriava cada vez mais, numa era glacial de proporções bostiais, shitbergs cada vez maiores flutuavam pelos oceanos, que eram cada vez mais parecidos com fossas gigantescas. Os shitbergs invadiam os rios, numa piracema escatológica, congelando as nascentes, e contaminando os lençóis freáticos, não havia mais água livre da bosta no planeta. 

Shitbergs colidiam com as cidades costeiras, que desde a última imigração voltavam a ser habitadas, sendo alguns dos lugares menos frios da Terra, causando destruição e ceifando mais vidas. Aqueles colossos de merda eram visto com muita freqüência até mesmo na costa do Brasil e da África. 

No inverno seguinte foi avistado no Oceano Pacífico o maior shitberg já catalogado pela humanidade, com 1.607 quilômetros de comprimento, e nenhum coprólogo conseguiu calcular o tamanho que ele atingia embaixo da água. Um dia ele não estava mais à deriva, e se tornou fixo, como um novo continente de cocô, e passou a crescer cada vez mais, com mais merda congelando a sua volta, como em ilhas vulcânicas. 

Em pouco tempo, novos continentes de merda surgiram, e alguns se aglutinavam, ficando cada vez maiores, as águas de todo o planeta estavam se congelando em bosta, e havia cada vez menos pessoas para presenciar essa glaciação escatológica. No décimo sétimo ano o Oceano Atlântico inteiro virou uma grande massa fecal, as correntes marítimas deixaram de existir. O mundo se tornava uma merda gelada. No inverno seguinte o último ser humano morreu. 

E depois de tanta coprofilia, tanta escatologia, tanta emerdiação, o planeta Terra se tornou um grande e coeso Shitberg à deriva no espaço.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Shitberg - parte 01


Aquela maldita privada entupida mais uma vez, um problema muito freqüente nos últimos meses, e lá vai a conta bancária do encanador engordar um pouco mais.

Era um problema freqüente e cada vez mais presente nas sociedades, não era mais exclusividade desse ou daquele edifício, dessa ou daquela rua, nem mesmo de uma localidade ou país. Era um problema generalizado.

As privadas entupiam simplesmente porque a capacidade de destinação dos detritos provenientes de esgoto estava se esgotando. Era tanta merda que já não tinha mais onde jogar, os aterros sanitários já estavam cheios. Florestas eram derrubadas diariamente com o intuito de criar novos aterros, no entanto com o acordo de Kiev, ficou proibido todo e qualquer desmatamento, não importava o objetivo, pois as matas estavam acabando.

O lixo era reciclado facilmente com as novas tecnologias, comprimia-se e jogava ao espaço, combustível solar, assim, os aterros sanitários já nem precisavam ser usados como depósito de lixo. Mas não havia o que fazer com tanta merda, de todos os apocalipses ecológicos previstos para a humanidade, o escatológico era o menos esperado, e talvez por isso mesmo especialista nenhum se preocupou com ele. Até a água bater na bunda.

Nessa época jogavam cada vez mais bosta nos oceanos, eram as grandes privadas do planeta. Todas as redes de tratamento de esgoto do mundo acabavam nas águas salgadas. E a capacidade de renovação dos mares é limitada, apesar de ser grande, então chegou uma hora em que as águas começaram a virar um merdesteio só.

No início daquele ano algumas praias ao sul da França e da Itália foram interditadas, e em menos de dois meses todo o litoral sul europeu estava inapropriado para receber banhistas. A justificativa era a alta quantidade de coliformes fecais na água, as pessoas já chegavam à areia com furúnculos causados por bactérias da merda.

Não demorou muito para o resto do mundo também bloquear o acesso aos oceanos. Uma epidemia se espalhou na Ásia, causada por frutos do mar contaminados, os peixes estavam se transformando em cocô. Depois disso todas as populações do mundo pararam de pescar, em duas primaveras houve um superpovoamento dos oceanos, o que agravou ainda mais o problema, pois as criaturas marinhas consumiam mais oxigênio da água, diminuindo a capacidade de renovação e de decomposição dos dejetos.

No fim do terceiro ano as cidades costeiras começaram a ser evacuadas, as pessoas não suportavam o cheiro e as pestes, moscas se multiplicavam e chegavam a ter o tamanho de um ovo de galinha.

Cientistas estudavam com afinco possíveis soluções. Mergulhadores eram enviados, e dezenas de pessoas morreram em aventuras a alto mar, cair na água sem uma roupa especial de proteção era suicídio.

A merda começava a evaporar e condensar em nuvens, quando um vento impróprio a levava para o continente, chovia merda, e haviam furacões de merda na primavera. As águas da chuva, antes tão aguardados em determinadas partes do mundo, pra que viessem lavar as almas das pessoas, agora eram odiadas, e preferia-se a seca.

Um dos especialistas no novo problema da bosta dominante passou a estudar a densidade da merda. Ele queria saber porque uma parte boiava, enquanto outra boa quantidade afundava. Os fundos dos oceanos eram massas lodosas de fezes, e por outro lado, havia bosta cobrindo quase toda a superfície. Sua conclusão foi de que a densidade era variável.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Obra Secreta


Foi descoberta hoje pelo CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), a realização secreta nos últimos meses de uma construção nos subterrâneos de Araucária. A obra consistia num metrô que seria entregue à população como surpresa no aniversário do município no ano de 2013.

Obras do metrô de Araucária
Apesar da construção não ter autorização do órgão regulador, os engenheiros responsáveis eram credenciados e não há nenhuma irregularidade aparente que comprometa a estrutura da obra. “O simples fato de não ser autorizada é suficiente para haver multa, obras dessa magnitude devem ser de conhecimento de todos”, afirma Bob the Builder, presidente do CREA-PR.

Nos últimos meses várias obras vinham se proliferando pela cidade, cada uma com uma justificativa diferente, recapeamentos de asfalto, reforma no Terminal Central, até mesmo a vinda de uma grande loja de departamentos foi simulada para desviar a atenção.

A população se mostra indignada com a falcatrua: “Estamos sendo enganados, eles dizem que vão asfaltar a rua e constroem um metrô, isso não pode ficar assim”, esbraveja o comerciante Marcio Revoltz.

O projeto, que veio a público depois de desmascarado, ligaria Guajuvira ao Barigui, dois bairros extremamente importantes do município, e teria 134 estações, sendo uma a cada 200 metros do trajeto, com 17 vagões de passageiros movimentando-se ininterruptamente para dar conta da demanda.

As autoridades competentes ainda não se pronunciaram oficialmente, mas nossa reportagem apurou que as obras continuarão mesmo com a descoberta prematura e toda a polêmica gerada.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Boy named Sue

Versão da música Boy Named Sue do Johnny Cash:


Cara chamado Ana

eu tinha só três anos e o meu pai vazou
pra mãe e eu ele quase nada deixou
só esse violão velho e umas casca de banana
mas eu não o culpo por fugir assim
mas o mais paia que ele fez pra mim
antes de ir ele veio e me pôs o nome de Ana

ele deve ter achado que era um tipo de piada
e ela tirou muitas risadas das piazada
eu venho brigando toda essa vida insana
se uma guria risse eu ficava impaciente
um mane dava risada eu lhe partia os dente
e a vida não é fácil pra um cara chamado Ana

aí eu cresci bem rápido e por crescer eu digo
meu punho se firmou e as ideia um perigo
passei vergonha de distrito em distrito 
mas fiz uma promessa e tive que carregar
que eu ia vasculhar os boteco e os bar
e matar o corno que me deu esse nome maldito

e foi em Araucária no meio do verão
cheguei na cidade e queria um copo na mão
pensei em parar e tomar uma bera bacana
num velho saloon numa rua parva
numa mesa no canto de boa estava
sentado o cachorro sarnento que me nomeou de Ana

bem eu sabia que o porco era meu papai querido
por uma foto amarelada que eu levava comigo
eu vi aquela cicatriz na cara e o olhar de mau
ele era cinza e velho e corcunda e grande
eu olhei pra ele e ferveu meu sangue
e eu gritei meu nome é Ana qual é a tua
agora você vai pro pau

e no meio da cara lhe eu acertei uma porrada 
ele foi pro chão mas levantou do nada
então sacou uma faca e aí minha orelha já era
mas eu destruí os seus dente com uma cadeira
a gente foi parar na rua levantando poeira
chutando e rolando com lama e sangue e bera

olha eu já lutei com uns cara mais oi
mas eu nem lembro de quando isso foi
chutava feito um burro e atacava feito um gavião
eu ouvi ele rindo e empostou aquela voz
puxou uma arma mas eu fui mais veloz
ficou parado olhando pra mim e ele sorriu então

e ele disse filho esse mundo é uma aposta
e se um cara quer ser foda não pode ser um bosta
eu sabia que eu não estaria lá pra te dar uma força
então coloquei esse nome e falei adeus
ou tu ficava forte ou ia trocar ideia com deus
e foi o nome que te ajudou a não ser um borsa

ele disse então você brigou pra caralho
eu sei que me odeia e isso faz parte do páreo
me mate agora e eu nem vou te achar um sacana
mas tem que me agradecer antes que eu morra
pela macheza em você e essa briga da porra
porque eu sou o filho da puta que te chamou de Ana

eu senti um calafrio e joguei for a o meu cano
e como pai e filho a gente era tipo mano e mano
e eu vazei com um ponto de vista diferente
e as vezes a lembrança dele volta e some
e aí eu penso e eu já posso até ver
que se um dia desses eu tiver um filho o nome vai ser
Pedro ou Marcos qualquer porra de nome menos Ana
eu ainda odeio esse nome

terça-feira, 24 de abril de 2012

No Room


There’s no place in heaven for us
Our life seems growing old
And she thinks time is short
And she knows that love is cold
Goes ravaging through those hearts
Building towers o’ loneliness
And her own heart seems so empty
And what does she says to you?

She says she got no room in her heart for you
And you could look for other
She knows there’s no place in her pics for your face
And you should find another

Shinning lips making all the sense
Flaming eyes that try to bend me
But they can really never touch me
Them lips keep staring me from far
They send a just and simple message
She is stubborn in what she is for
She is always in what she is not
And I know it’s hard to go through because

She says she got no free in her heart for me
And I should stay behind
She knows there’s no part in her smiles for my art
And I could be no kind

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sobre confiança e a necessidade de produzir

Domingo foi o dia em que terminamos as filmagens do videoclipe, a parte bruta da produção, a que demanda mais tempo, dinheiro, e pessoas envolvidas. Agora falta a montagem, mas montagem é algo abstrato, antes do lançamento o que merecia mesmo uma comemoração, com tin-tins e tudo, era aquela última cena filmada.

Por isso, à noite e entre bichos mortos, divagávamos sobre confiança e a falta dela. Como e com que intensidade deve-se confiar? É absurdo perceber subitamente que aqueles em que confiamos não nos confiam da mesma forma, mas isso é fato sabido, que nem tudo é recíproco. Assim como apaixona-se platonicamente, pode haver confiança platônica.

Se o videoclipe ainda carece de montagem, outros dois projetos foram entregues, um no prazo, outro no atraso. Mas atrasos recorrentes acabam se tornando o padrão, assim quando atrasar é o esperado, ele não se configura atraso. E ficaram lindos.

Quanto maior o círculo social, maior a possibilidade de achar pessoas adjetiváveis, confiança é só um adjetivo e nada mais. Quando fecha em núcleos menores, implica uma maior aproximação desses poucos que são próximos. Porém, a intensidade relativiza-se no sentido de que confia-se muito, mas confia-se em poucos. Nada nesse mundo arrogante e individualista é uma via de mão dupla.

Me pergunto que tipo de demonstração de confiança é essa que parte de semi-estranhos antes de partir de onde era esperado. A necessidade de produzir volta à voga, ainda na sexta-feira recebi um convite para auxiliar em determinado projeto, já penso na próxima da Agência e no Doc Maldito, entre outros diversos. Produzir é um vício. Confiar é uma virtude.

Enquanto isso e muitos issos, confiram: