quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre Mudar

A evolução é parte natural do processo existencial de toda criatura. É importante que estejamos sempre aprendendo. Adquirindo novas técnicas e habilidades para lidar com o mundo, que, assim como as coisas vivas que nele habitam, está em constante processo mutacional.

Sempre me perguntei se as pessoas mudavam ou não mudavam. Essa é uma questão que há anos permeia meus questionamentos sobre o universo. Afinal, partia dessa mesma premissa: se o mundo muda, porque havemos de ser seres estáticos, ininfluenciáveis, constantes e parcimoniosos. Não somos assim, somos maleáveis, inconstantes, vulcânicos.

Na verdade, fazemos as duas coisas: mudamos e não mudamos. Nos tornamos coisas novas e somos a mesma coisa. Atacamos a existência em duas frentes. E não poderia ser diferente, criaturas tridimensionais devem naturalmente ver o mundo em diferentes âmbitos espaciais, bilateralmente, frente e verso, claro e escuro.

Isso acontece porque trocamos de pele, como alguns répteis, mas mantemos a mesma consistência física. Mudamos o tempo todo nas pequenas coisas, nos ideais, nas opiniões, nos questionamentos que fazemos, nos aprendizados, quando deveríamos nos tornar pessoas melhores. Mudamos no dia a dia, no atravessar de rua mais cauteloso após um atropelamento, no preconceito abandonado após um conhecimento do assunto, na postura emocional mais madura após uma situação complicada vivida.

Mas em essência, no fundo no fundo, em quem somos e nunca deixamos de ser, nisso somos os mesmos. É isso que nos faz. Somos como uma pedra, um bonito mármore, que depois de moldado se torna uma elegante escultura. Ele continua sendo pedra, em sua essência ele ainda é pedra, mas ficou ainda mais bela e agora é escultura. Mudou e não mudou. Se tornou uma coisa nova e ainda é a mesma coisa.

Mudar não é ruim, não mudar também não é. Somos mesmo essa ambiguidade existencial. Não somos definitivos, afinal, nada o é. Somos répteis e somos pedras, aprendendo com o mundo conforme ele vai se modificando. E isso tudo é essencial, é a nossa essência.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A Vida num Túnel

Tenho percebido a vida passando por mim como se eu estivesse dentro de um túnel. Um daqueles profundos, largos e escuros túneis do metrô, onde ficamos presos no vagão, estáticos pela lei da inércia, enquanto as paredes deslizam sorrateiramente, sem privilegiar nenhum detalhe de si próprias, como se fossem apenas uma infinita massa disforme.

Vez por outra uma estação de parada surge no horizonte. Não as vemos com muita antecedência, o próprio formato da vida não o permite, é um túnel longo e a divisória dos vagões não permite ver longe. Mas percebemos seus sinais, antes da estação sempre há uma grande incidência de colunas surgindo nas paredes do túnel. Manchas cinza de concreto que aparecem ritmadamente, com cada vez mais frequência conforme a velocidade da vida diminui para parar na estação.

Na estação, podemos ver centenas de cartazes com propagandas, manifestos, anúncios, campanhas. Algumas pichações, um ou outro mendigo dormindo, uma multidão de pessoas sem alma. E então a viagem começa novamente, a velocidade aumenta, o tempo continua vindo na minha direção, distorcendo as paredes do túnel.

Engraçado como o primeiro fato de nossas vidas não fica marcado em nossas memórias. O nascimento certamente é uma experiência traumática. Imagino que deixar o conforto do útero quentinho, da segurança do líquido amniótico e da alimentação conduzida ate nós não deve ser nada fácil. Sair para enfrentar um mundo vil que se desloca a uma velocidade inacompanhável, deixando à vista apenas os rasgos aparentes de avisos de 'não ultrapasse a faixa amarela'. Não surpreende que não lembremos dessa experiência.

A partir daí a vida acelera. Nosso objetivo primordial e único assim que nascemos é morrer. Na primeira respiração começamos a nos atribuir objetivos novos, e vamos levando-os adiante, sem parar muito para olhar as paredes do túnel. Estamos estáticos dentro desse vagão que nos foi dado. A vida vem vindo até nós, profunda, larga e escura.

Então percebemos que a nossa vida está passando num túnel. Que precisamos de bifurcações, que precisamos mudar o rumo do metrô, parar o maquinista, descer do vagão e subir as escadas rolantes, respirar o ar puro! Não precisamos de trens-bala chegando a seus destinos a 600 quilômetros por hora. Precisamos parar e observar a paisagem. Precisamos diminuir o ritmo e ler os avisos, olhar para as paredes prestando atenção aos detalhes geralmente imperceptíveis. Ou o trem nunca parará, até onde não houver mais trilhos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Crônicas da Rua

1 - São todos uns idiotas. Alguns são mais idiotas do que os outros, e alguns são idiotas por razões diferentes. Mas são todos uns idiotas.

2 - Naquele tempo, andávamos em um auge de insanidade. As noites eram frenéticas e, não raro, duravam um final de semana inteiro. Víamos o sol nascer de um lugar diferente a cada dia. Sem nem saber direito para onde ir, íamos aonde desse vontade. Em uma noite específica, havíamos deitado a cidade aos nossos pés, éramos os reis da rua, todos se ajoelhavam e nos louvavam à nossa passagem. A caminho da madrugada, fomos parar em um apartamento onde todo mundo estava nu. Dormimos exultantes com nosso reinado.

3 - Não tenho paciência para quem me dá sono. À minha volta, preciso das pessoas insanas, de quem não teme a morte e muito menos a vida. Quem está disposto a aceitar tudo o que o mundo tem a oferecer. Caminho lado a lado com esses bandidos corruptores incorruptíveis, ladrões de coisas mais nobres, vencedores do tempo. Esses que tiram a vida para dançar e bailam brilhando por onde os outros caminham.

4 - Eu não me apaixonava havia dois anos. Desejava constantemente que ela ainda estivesse participando das minhas aventuras, em lugar de apenas povoar meus sonhos. É disso que a matéria-prima da vida é constituída: ansiar por algo que não temos, que está distante. É o que nos faz sair por aí entregando jornais ou fechando grandes acordos. Ao menos, o mundo estava cheio de paixão voando por todo lado, mesmo que não acertassem muita coisa. Os amores são aves cegas.

5 - Às vezes, tenho a sensata impressão de que já ouvi todos os papos. Todas as conversas já foram tidas, são assuntos cíclicos. Por isso, abandonei as discussões e os debates, nunca se chegava a lugar algum. E eu já sabia há algum tempo que a melhor forma de tirar da cabeça algo que estava incomodando, era fazendo um furo nela.

6 - Parei para observar o oceano. Observar é um termo pequeno para o que eu fazia com os mares e as marés. Era como se eu conseguisse sentir ele de uma maneira superior. Eu chamava aquilo de contemplação. Fiquei parado na areia, a espuma branca dançava graciosamente ao forte vento e tive vontade de filmar aquilo. O mar revolto quebrava, ia e voltava. Fazia frio. Os litorais são como vírgulas, já disse certa vez, continente nenhum tem ponto final. Acabaram me chamando e fui embora. Eu realmente gostaria de ser um rio.

7 - As pessoas que caminham pela rua me interessam, naturalmente. Gosto de observá-las, ler seus pensamentos óbvios. Sento em um banco e fico esperando algo acontecer. Na rua, todos estão carregando consigo seus objetivos em uma sacola. Posso ver a marca das grandes lojas: sonho; anseio; emprego; amor; amizade; problema; dívida; decisão; viagem; novidade; morte. Cada um desses grandes conglomerados comerciais que estampam as sacolas que carregamos por aí.

Epílogo - Aguente firme querida, é um mundo muito louco.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

No Inferno - Parte 2

Então os dois britânicos (ainda estava encucado com a questão da nacionalidade) começaram a me explicar como funcionava o sistema político do inferno. Logo fiquei sabendo, para minha extrema surpresa, que Lúcifer já não era o diabo há muito tempo. Alguém se cansara de seu nepotismo facilitando as coisas para os primeiros anjos caídos e tentara um golpe de estado. Lúcifer não deixou por menos e contra-atacou, a guerra civil durou um tempo, mas logo se formou um governo de coalizão com representantes das duas frentes para fazer uma transição pacífica para a democracia, a qual todos acabaram concordando que funcionaria melhor ali.

Acabou que o primeiro diabo eleito no inferno foi o próprio Lúcifer. Até que o inferno parecia mesmo com o Brasil! Ele afirmava em sua campanha que já planejava mesmo acabar com a sua monarquia eterna, afinal, foi na luta por representatividade que ele fora expulso do céu lá no início dos tempos.

Fiquei sabendo ainda que qualquer um poderia se candidatar para cargos menores, como o candidato a demônio distrital ali no palanque, e ir subindo dentro do sistema. Surpreendentemente, soube ainda que a corrupção no inferno era praticamente inexistente, graças à política de tolerância zero: quem fosse pego em qualquer crime contra a ordem pública tinha sua pena eterna dobrada.

Na escada que dava para o palanque, vi que o Steinbeck precisava ser contido por alguns seguranças, pois ameaçava invadir o palco. O homem estava embriagado, e pedi ao Tolkien e ao Wells que me ajudassem a resgatá-lo. Wells ainda comentou que aquilo andava cada vez mais frequente desde que o Steinbeck perdera uma votação para demônio regional II, um cargo importante.

Como já havíamos nos entediado da discussão política, e o Tolkien atentou para o fato de que estava quase na hora do poker, saímos dali. Eu tinha uma infinidade de perguntas para fazer para aqueles três, e milhares de assuntos que gostaria de conversar, mas decidi agir normalmente, mesmo sem entender muito bem o que estava acontecendo.

Chegamos ao local do poker e o Bukowski já estava bêbado. Abraçou o Steinbeck e o xingou de filho da puta, o Wells se juntou a eles e voltaram a falar de política. O Saramago pacientemente contava e separava as cartas, sentei ao lado dele e começamos a conversar sobre as particularidades e as origens dos naipes do baralho. Já estavam ali também o Asimov e o Clarke reclamando sobre o atraso que levava para as novidades tecnológicas chegarem ao inferno, e ainda o Hemingway, quieto em um canto bebendo whisky.

Então chegaram juntos o Kundera e o Kerouac, discutindo alto, quase brigando, sobre algum assunto que eu não cheguei a ouvir do que se tratava. Nessa hora o Saramago já discorria sobre as diferenças de textura na gramatura de diversos tipos de papel, e o Veríssimo saiu do banheiro ajeitando o zíper.

Com vários assuntos correndo em paralelo, eu andava de roda em roda em êxtase por estar ali com os meus autores favoritos antes de um importante torneio de poker. O Kerouac me ofereceu uma bebida e aceitei prontamente. O Hemingway andava impaciente e interrompeu a todos dizendo que só faltava o filho da puta do King para o jogo começar e que deveriam ao menos decidir os lugares. O Bukowski mandou o Hemingway tomar no cu e disse que não teria mais paciência com os seus rompantes, Wells e Asimov deram uma de turma do deixa disso e controlaram os ânimos.

Enfim o King chegou fumando um charuto enorme e mandou que todos se sentassem que ele pagaria a primeira rodada. O Saramago se antecipou e já foi tirando as cartas que definiriam as posições onde cada um deveria sentar. Fiquei entre o Clarke e o Kerouac, o botão era o próprio Saramago, o que deixou o Hemingway desconfiado do carteado honesto, small blind era o Asimov e big o Bukowski, em seguida o Hemingway, Kerouac, eu, Clarke, Kundera, Wells, King, Veríssimo, Steinbeck e Tolkien. A mesa estava superlotada, mas não nos importamos.

O jogo transcorreu quase normalmente, as rodadas de bebida eram pagas em turnos pelo King, Kerouac, Wells e pelo Veríssimo, o Bukowski serrava um charuto do Tolkien por mão. Comecei a reparar nos estilos de jogo, o Kundera tinha um estilo mais contido, jogava poucas mãos, parecido com o do Steinbeck, com a diferença que esse sempre fazia apostas altas quando estava em posição, saindo nas outras situações. O Hemingway e o Tolkien já eram mais agressivos, entravam sempre e gostavam de apostar para deixar o adversário sob pressão. O Kerouac era o mais desbocado, jogando o psicológico dos adversários. O Wells sustentava um estilo neutro de jogo, quase sistemático, escolhendo muito bem as mãos que participaria, mas sem fugir muito. Dessa forma também jogavam o King e o Asimov.

Após algumas horas todo mundo já estava meio bêbado, e depois de várias discussões, alguns impropérios e ameaças, o campeão acabou sendo o Clarke. Eu terminei em quinto, atrás ainda do Kundera que foi vice, Asimov em terceiro, e Wells em quarto.

Alguns dos caras queriam iniciar um cash game para correr a madrugada, mas eu senti que precisava ir. Saí meio sem rumo pelo inferno, cambaleando pelas bebidas que haviam me pagado, e com a promessa de que certamente voltaria na semana seguinte para mais um jogo.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

No Inferno - Parte 1

Quando eu morri, a primeira coisa que fiz no inferno foi procurar os meus escritores favoritos.

O primeiro problema a me preocupar assim que tomei a decisão de fazer isso foi se cada nação teria o seu próprio inferno. Nesse caso, eu encontraria no máximo o Veríssimo, mas então preferiria que ele houvesse mesmo ressuscitado e ficasse apodrecendo em alguma praça.

O inferno brasileiro provavelmente seria repleto de cariocas falando sem parar, e certamente seria governado pelo Getúlio. Haveria uns portugueses sodomizando a população e toda sorte de europeus fodendo as pobres almas brasileiras de alguma forma. Faria um extremo calor sem nunca chover, mas não haveria praias ou sombra, apenas mosquitos por toda a parte, zumbindo e picando todo mundo.

A segunda coisa que me preocupou foi a dificuldade que eu teria em encontrá-los. Eu nunca acreditei nem desacreditei em reencarnação, afinal eu nunca havia morrido (que eu me lembre) para saber sobre isso. Acontece que no caso dela não existir, haveria no mundo muito mais gente morta do que viva, imaginem a superpopulação do inferno em uma perspectiva dessas. Procurar meus autores favoritos seria como procurar o Hemingway em Cuba.

Logo percebi que o inferno estava relativamente vazio. Deveria haver algum tipo de vazão às almas, seja por reencarnação, seja elevando-as ao limbo, paraíso ou qualquer lugar superior. Na verdade, sempre acreditei no conceito de inferno dos antigos gregos: todos vão para lá, independente de índole, não há paraíso com cordeirinhos e leõezinhos andando juntos, nem sujeitos vestidos de branco tocando harpa. Para o diabo com essas concepções. Oras, precisei admitir a possibilidade de eu estar errado.

O problema é que eu não tinha certeza sobre nada. Não teve um filho da puta para me receber e dizer para onde eu deveria rumar, me mostrar as instalações, ou ao menos dizer “olha cara, você vai ficar naquele lago de fogo ali do tormento eterno”. Tudo era muito subjetivo, uns caras queimando aqui, outros carregando pedras enquanto levavam chibatadas ali, alguns outros sofrimentos variados, uma galera sendo enrabada, e, basicamente, era isso.

Até, por um breve momento, achei que eu devesse mesmo era ficar ali parado esperando meu sofrimento supremo. Mas que se fodessem todos os demônios, saí caminhando.

Comecei a perguntar se o local era dividido por nações, castas, raças, origem social, épocas ou qual outro tipo de organização. Ninguém parecia querer me dar muito ouvidos, apesar de todo mundo se entender. Percebi que não se falava português, inglês ou latim, não se falava idioma nenhum, nós simplesmente nos entendíamos.

Depois de alguns minutos, um sujeito decrépito, com a pele totalmente queimada e deteriorada resolveu conversar comigo. O cara parecia estar ali há milênios e andar completamente entediado, mas me disse que não havia nenhuma unidade temporal no inferno. Sofrimento eterno era eterno mesmo, e incontável.

Perguntei se ele havia visto o Bukowski recentemente. Caso eu estivesse errado quanto ao conceito de céu e inferno, aliás, caso todos os gregos estivessem errados, um cara que eu sabia estar naquele lugar era o Bukowski, não havia como ele ter ido para o paraíso. O cara não sabia de quem eu estava falando (mais tarde descobri que ele havia morrido na epidemia da peste negra), mas me informou que havia um lugar onde os literatos se reuniam para jogar poker todas as terças-feiras.

Achei meio contraditório os caras se reunirem às terças-feiras, visto que ninguém dividia o tempo em unidades temporais por ali. Qualquer dia poderia ser terça-feira ou qualquer outra coisa.

Continuei andando e perguntei para alguém que dia era hoje. Uma vez soube da história de um homem que morreu e passou sete anos no cemitério acreditando ainda estar vivo, mas sem entender porque não conseguia sair de lá. Minhas memórias de vida ainda estavam bem intensas, mas não havia como eu ter certeza de que morrera naquele mesmo dia ou há vários séculos.

De qualquer forma, acabei encontrando o Steinbeck na mais pura coincidência: parei para mijar atrás de uma árvore e ele estava lá mijando também. Gritou que a porra da árvore era dele, pedi desculpas e tentei iniciar um diálogo. Saí-me tão bem que acabamos indo ao boteco tomar uma cerveja.

No boteco, o Steinbeck começou falando alto e expondo seu ponto de vista sobre algumas injustiças que ele acreditava estarem acontecendo ali no inferno. Não entendi bem o problema, mas reparei que ele foi ficando mais soturno conforme alguns sujeitos entravam na conversa, concordando e discordando pelo bar.

Subitamente, ele se levantou e saiu. Tentei em vão segui-lo já sabendo que ele iria ao torneio de poker, mas acabei o perdendo de vista no meio da turba. Lá fora, a confusão era maior ainda. Alguém havia montado um palanque em uma praça que ficava bem em frente ao bar e discursava fazendo sua campanha política, concorria ao cargo de demônio distrital.

Reparei com grande alegria no Tolkien e no Wells conversando ali no meio da plateia, junto com a galera. Fui me aproximando devagar para não parecer um fã desesperado, mas os dois me viram e me chamaram pelo nome para que eu me juntasse a eles. Eu estava mesmo com sorte.

Continua...

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Beligerante

Soy como un pajarito
Que perdió las sus alas
Un pajarito sin alas
Ya no puede volare

Será que ainda há quem acredite que o Sol não passa de um disco no céu? Um círculo amarelo no arco do azul infinito, cavalgando como cavalgou sob as rédeas de Apolo, como viajou nas asas de Rá, girando em torno da Terra, planeta estático por excelência. Será que ainda há quem veja o amarelo sem saber que ele é, na verdade, branco? Nessa mistificação tão verdadeira quanto as anteriores, de séculos borrados em documentos antigos, antes das fotografias. O conhecimento é um inseto raro. Ver. Vislumbrar. Surpreender-se com o que aparece como novidade, como verdade absoluta. Toda verdade absoluta é uma mentira que deu errado. Que deu muito errado.

Observo aos meus pés um passarinho ferido. A pequena avezinha anda cambaleante de um lado para o outro, corre assustado e bica um farelo no chão, pula desconcertadamente. Suas asas não servem mais para nada.

Quem nos deu a liberdade de decidir pelo futuro dos outros seres viventes não fazia a menor ideia do que estava fazendo. Poderia pisá-lo, esmagá-lo com meu peso imensamente superior. Isso certamente acabaria com sua angústia. Imagino que ser uma ave e não poder alçar vôo, frequentar as correntes de ar, subverter a gravidade, seja a coisa mais angustiante dentre todas as perniciosas decisões da existência.

Mas não tenho razão alguma para acreditar que ele sofre. Apenas projeto meu suposto tormento em não poder utilizar minhas asas nessa frágil criaturinha. O que a avezinha é capaz de fazer ou não com suas asas, membro que eu não possuo, é uma situação com a qual ela está preparada para lidar, muito mais do que eu.

Quem dera eu desenvolvesse asas. Gostaria que elas nascessem durante uma noite mal dormida, na qual uma dor na lombar incomodaria e prejudicaria o sono. Pela manhã, eu acordaria e me examinaria no espelho, contorcendo meu corpo para tentar entender a estranha sensação que parece se arraigar desde meus pulmões, atravessando a minha pele.

Oras, são asas! Mas de que elas me serviriam? Meu corpo é pesado e, tal qual as avestruzes e emas, tal qual o miserável passarinho pulando assustado no solo, eu nunca poderia voar.

De vez em quando, tento olhar diretamente para o Sol. Desafio a mim mesmo nessa batalha que não permite vitória. Desejo queimar as minhas retinas, nunca mais enxergar, desenvolver meus outros sentidos e passar as próximas décadas contando para todos sobre a maior batalha que já travei. E perdi.

O lusco-fusco é o resultado do melhor horário do dia. Já não é mais dia, mas ainda não é noite, a melhor luz que existe. O Sol, por um efeito de distorção óptica, já está abaixo da linha do horizonte, mas ainda o vemos. Em alguns dias, ele fica tingido de um vermelho muito mais forte, como as estrelas gigantes que estão morrendo. Nesses dias é possível olhar diretamente para o Sol sem perder a visão. O disco vermelho desce lentamente. O que ele faz também é uma espécie de voar.

Abaixo do Trópico de Capricórnio não existe zênite. Nunca pude cumprir mais um dos meus desejos: o de não ter sombra. Nossos antepassados deram os nomes às constelações. Fico pensando se eu houvesse pisado aquele passarinho que não podia voar, será que eu seria capaz de transformá-lo em constelação?

Quero vislumbrar todo o resplendor da tua beleza. Mesmo que ceguem meus olhos e eu nunca mais nada veja. Não acho que seja como olhar para o Sol, ou como na história de Sêmele, que exigiu que Zeus aparecesse para ela em toda sua resplandecência. Sêmele nunca mais nada viu.

Não me importo em nunca mais enxergar se a minha última visão, a última memória de impulsos luminosos atravessando a minha retina seja você. Quero ver a curvatura das tuas costas, pontilhada de pequenas e retilíneas elevações vertebrais quando relaxada; uma depressão margeada por um primeiro planalto das omoplatas e por dois sensíveis morros glúteos quando contraída. Quero ver você de frente, seus seios intumescidos caracterizando em forma e tamanho o complemento perfeito para minhas mãos côncavas. Quero ver os teus ralos pelos se eriçarem ao toque da minha pele, se agitarem com a emanação de calor de um corpo em contato com outro corpo. Quero ver todos os detalhes da tua pele, escrutinar cada centímetro quadrado do invólucro da tua bela alma.

Eu nunca soube para onde ir. Nunca soube como te levar. Andei te arrastando por diversos caminhos obscuros, te levando para um lado e para o outro sem destino.

Não quero aprender. Não quero regras de conduta e de condução. Não quero passos ensaiados para a nossa dança. Quero te levar sem rumo. E, se perdermos a visão, ou que eu a perca, vamos tateando, arrastando os pés no chão para evitar os buracos da calçada. Vamos procurando os rumos com o esforço e a dedicação de quem nunca precisou ser guiado.

Como também não precisei guiar o passarinho, não precisei pisoteá-lo. Não tenho esse direito. Posso levá-la, isso eu posso, se você quiser ir.

Posso me sentir só mesmo tendo-a comigo. A solidão está muito mais associada a um estado de espírito do que a companhias. Depois de nascidas as minhas asas eu tentaria voar, não há como dizer que não. Mas fui feito para caminhar sobre a terra, para evitar os buracos da calçada. Acredito que o passarinho pisaria em mim se tivesse a oportunidade e sentisse a necessidade.

Ainda quero ver todo o resplendor da tua beleza. Ainda quero te levar para voar com essas asas recém desenvolvidas. Sem rumo mesmo, por aí, pela noite, ou rumo ao Sol. Olhando para onde quisermos olhar, para o brilho que nos apetecer, para o tipo de luz que pouco importa cegar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Relatividade do Espaço

O isolamento e a aproximação que cada um necessita são variáveis. A distância. O toque. O beijo. O olhar.

São também variáveis no tempo. Constância é uma palavra inconstante. O tempo é relativo, mas disso todo mundo já falou. O tempo-espaço como conceito absoluto é uma coisa alternativa. Falemos de altura, largura e comprimento, o espaço como sempre foi, antes da física quântica.

O espaço entre dois corpos só pode ser alterado pela quebra da lei da inércia. É o que chamamos de atitude. Atitude é uma violação às leis da física. Assim, o universo parece cada vez mais contraditório.

Um dia desses, quase amanheci em queda livre. Parei para ouvir as aves que cantavam em meu peito. Pássaros de pedra em nosso mundo de luz e concreto armado. Se o chão é artificial, acho que deveríamos permanecer no céu. E voar e voar e voar.

Quantos metros? Quilômetros? O espaço é relativo. Um salto de fé é também um mergulho no abismo. Olho de cima do palco, e os poucos centímetros que me afastam do chão são também anos-luz.

Ninguém entende porque esse homem grita. Talvez haja espaço demais dentro dele. Mas é assim mesmo que as coisas são, a distância entre nós é variável. O tudo de alguns é um tanto de nada. Nada para outros já é muito. Longe... Perto... Não faz diferença.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Sobre a Estética da Vida e da Morte que nos Aguarda

É natural que queiramos planejar o futuro. Somos a primeira espécie que possui capacidade de pensar o tempo de maneira analítica a povoar esse planeta. Aliás, inventamos o tempo, portanto somos capazes de pensá-lo como quisermos. Pensamos no passado e no futuro. Conjugamos malditos verbos. Quem liga para o subjuntivo do pretérito? Pensamos demais. É natural, mas isso não significa que é certo.

As pessoas da minha idade deveriam todas estar morrendo. Não se preocupando em acumular matéria física à sua volta, objetos que orbitem à sua massa irrelevante, para que quando finalmente morram, daqui a quatro ou cinco décadas, deixem tudo para que seus herdeiros deixem tudo para seus herdeiros. O que todos esquecem é que o ser humano não nasceu para viver. Nasceu para morrer. Rápido. Antes dos 30.

Gosto de passar minhas horas com quem me faz boa companhia. Um café da manhã antes do trabalho. Uma maluquice extrema pelas ruas na madrugada. Uma tarde de sábado na grama. Um almoço com cara de jantar em um domingo do contrário natimorto. Conversas que são apenas por serem, sem mais explicações. Coisas que passamos a apreciar melhor com a maturidade dos anos.

De uns anos para cá, tenho visto mais beleza nas coisas. Meu senso e padrão estético se tornaram menos rigorosos. Acho que é assim mesmo, a gente vai vivendo mais e as coisas vão ficando mais bonitas. A vida e as pessoas vão ficando mais bonitas. Outro dia, descobri que em uma das luas de Júpiter há mais água do que em toda a Terra. Quem poderia subestimar a superioridade daquele mundo ínfimo e infinito? Infinito porque nunca chegaremos a conhecê-lo. Nem em dez gerações.

É coisa de um ser humano que se aproxima de sua morte. Aproximar é um de nossos verbos que possui conjugação para as quatro dimensões hoje conhecidas. Podemos nos aproximar tanto no espaço quanto no tempo. Tornamo-nos próximos de nossas mortes, mesmo que ela já não chegue mais tão cedo. As pessoas da minha idade deveriam estar morrendo. Não se preocupando com a conta não paga; com o cachorro do vizinho; a chuva do final de semana; ou o senso estético dessa porcaria toda.

Tenho sentido falta de escrever. Tenho sentido falta de amar. O que posso fazer? São meus vícios. Não é possível viver sem eles. Continuamos nos movendo. É o óbvio. É o que precisamos fazer para não morrer qualquer dia com a cara na calçada enlameada pela chuva de início de uma noite de primavera. De toda maneira, parece que passamos mais tempo nos preocupando em não morrer do que em viver. Reitero: as pessoas da minha idade já deveriam estar todas mortas.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Importância da Mensagem

Não sou o cara mais tecnológico. Costumo dizer que ainda me comunico batendo osso de javali em tambor de couro de mamute na caverna. Meu aparelho celular é um ultrapassado Nokia C2-00 todo riscado e repleto de marcas de quedas. Não tenho smartphone, não tenho iPhone, não tenho whatsapp.

Gosto da comunicação rústica, tradicional, na qual é necessário olhar nos olhos do interlocutor, não em uma bolinha verde que anuncia a sua presença virtual. Sou um emissor e receptor à moda antiga. Isso se dá, parcialmente, porque sempre acreditei que a comunicação assim é mais sincera e menos imediatista.

A internet e as novas mídias digitais geraram uma comunicação feita para acabar no instante seguinte, uma comunicação que se apaga e é esquecida no exato momento em que é captada. A mensagem não é mais feita para durar. Vemos exemplos disso no formato da timeline do facebook e do twitter, e em aplicativos como o snapchat.

Por isso, decidi desenvolver um novo projeto. A Importância da Mensagem consistirá em cartões postais contendo antigas sms’s que se encontram na pasta de arquivadas de meu Nokia, que já utilizo há quatro anos, e foram de destacada importância para mim em algum momento especifico da minha vida.

Simples mensagens, que são também óbvios frutos da tecnologia, mas as quais escolhi não perdê-las, não deixar que rolem com a timeline da vida para baixo e sejam esquecidas. Encontram-se arquivadas, e antes que meu telefone pare de funcionar, antes que passemos a esquecer o que de belo foi dito, elas passarão para o papel, e voltarão para seus emissores e receptores sob um novo formato.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Sobre Ser Todo Mundo

Acho um absurdo gigantesco a gente ser apenas uma pessoa. Nessa perspectiva, a experiência na existência se torna extremamente egoísta. Existir habitando um único corpo e uma única mente não só nos priva das experiências que a multiplicidade de corpos e mentes é capaz de proporcionar, como também faz de nós criaturas que não vivenciam a individualidade do próximo como ela deveria ser vivenciada.

Nos parece impossível compreender o que o outro está sentindo ou pensando. Todo mundo parece distante de todo mundo. O que cada um de nós tem em comum com qualquer um dos outros? As experiências que nos aproximam são as mesmas que nos afastam, pois que cada um tem a infame mania de ser dono de sua opinião e seu ponto de vista como se fossem as verdades absolutas.

Há tanto para sentir, tanto para ver, tanto para existir, que se torna simplesmente inconcebível que a gente seja uma pessoa só. Uma única consciência completamente separada das outras infinitas consciências faria do mundo um lugar de universos isolados, de planetas em órbitas particulares, de eternos não-encontros. E não é o que somos.

Somos criaturas que se esbarram toda hora, que lamentam a dor alheia, que se abraçam, que compartilham alegrias e tristezas, que caminham sob um mesmo Sol e uma mesma Lua. É impossível, então, que não possamos, em um avançado estágio de evolução, ser, mesmo que momentaneamente, outras pessoas. Ser todas as pessoas. Ser quem quisermos ser quando assim desejarmos.

Em alguns momentos raros de outrora, tive a oportunidade de experimentar coisas parecidas com fugas da minha personalidade para habitar a personalidade alheia. Foi quando estive em contato com um eu que definitivamente não está isolado, que não é um só. Foi quando eu vivi dentro de outras personalidades que eu sei que existem de maneira física por aí.

Um dos meus maiores sonhos é algum dia ter a capacidade de ser essas outras pessoas. De quebrar a barreira desse absurdo intangível da individualidade, da consciência limitadamente egoísta. Sentir, ver e existir tudo o que há para existir, em todos os lugares. Ser algum dia todo mundo.