Eu já te disse, baby, que o amor não paga bem
Mas que compensa, não há erro, isso é certo meu bem
Você vai ter que mendigar, vai chorar rastejar
Vai perder o teu tempo tentando o recuperar
Eu já te disse, meu bem, o nosso amor não foi normal
Mas que valia, isso é certo, nos fazia um bem total
Você vai ter que esquecer, vai correr arrepender
Vai perder o teu tempo tentando o entender
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
No Bar do Pedro
O primeiro Pedro que conheci na minha vida foi meu avô, há quase três décadas. Foi por essa mesma época que conheci também o interior, com suas estradas de chão, com seus cheiros de animais em cidades minúsculas, com as árvores e arbustos de folhas marrom, assim deixadas pela poeira acumulada nos dias quentes... Com sua música caipira.
Naquele ano em que conheci o interior, meu avô já passava dos 60. Hoje, Seu Pedro ainda trabalha todos os dias, com seu criativo ofício na marcenaria, desenvolvendo sempre uma nova engenhoca de madeira. Hoje, moro às margens da cidade grande, da agitação frenética e das árvores com troncos pintados de branco para evitar pragas, o marrom da poeira substituído pelo cinza sem vida do asfalto.
No interior, o som da viola caipira é regra, nunca exceção. O cantos dos passarinhos é frequente, não raridade. O Tuiuiú e o Cardeal são mais ouvidos. Aqui, ouvimos o barulho dos carros na rua. Ouvimos a sirene da polícia e a reclamação exagerada do vizinho insatisfeito.
Mas aqui, o mais novo Pedro que conheci na minha vida, e já perdi a conta de quantos são, não se abala. Pede para a dupla caipira baixar um pouco o som e continua dançando. Continua celebrando seu aniversário, distribuindo garrafas de cerveja. Tuiuiú e Cardeal puxam os parabéns, cantam e recantam a ode ao aniversariante, também dono do boteco.
Uma dezena de senhores com cara de interior congratula o Pedro. Andam para lá e para cá dentro dos menos de 30 metros quadrados do bar, com a cerveja que, pelo menos até acabar a grade, é na conta do Seu Pedro.
Tuiuiú e Cardeal continuam cantando músicas que já ressoam há muito mais tempo do que as quase três décadas que se passaram desde que conheci o interior. Músicas que evocam o interior em seus acordes. Formamos uma ilha na cidade em plena quarta-feira. A música é as estradas de chão, é os cheiros dos animais, é as árvores marrons e os passarinhos. É o Tuiuiú e o Cardeal, e é o Seu Pedro.
domingo, 12 de julho de 2015
Chuva
Me apaixonei pelos céus plúmbeos há muito tempo, nem me lembro quanto. Mensurar o tempo é como mensurar a chuva, só podemos estabelecer um parâmetro de comparação em vista de uma pequeníssima coleta que fazemos. A chuva é muito mais do que apenas milímetros cúbicos. Isso seria como dizer que o tempo é apenas alguns segundos. Por isso, me apaixonei pelos céus plúmbeos há imensuráveis milímetros cúbicos.
Não posso confiar em quem nunca dançou na chuva, em quem nunca parou tudo o que estava fazendo para observar a queda das gotas no chão já encharcado, em quem nunca admirou o alegre farfalhar das árvores ao receber a água em suas cabeças, em quem compra um guarda-chuva a cada chuva. A chuva é uma das coisas mais vivas que existe.
Me admiram os vendedores de guarda-chuvas, saídos de lugar nenhum, na noite fria de sexta-feira na entrada do shopping. Anunciam seus produtos como quem anuncia a salvação para as mazelas do mundo, a panaceia que curará peste, guerra, fome e morte, deixando até mesmo os quatro cavaleiros sem emprego.
Não conseguem perceber como estão errados com suas frágeis armações de aramado e plástico, vendendo o mesmo produto para pessoas que confirmam, sem constrangimento, já terem dois ou três semelhantes aquele em casa. Como estão errados em oferecer uma proteção subjetiva, totalmente imaginária, para pessoas que têm medo de andar alguns passos sob as águas.
Torço para os raios e os trovões. Comemoro a chegada das nuvens escuras. Desejo o aguaceiro, a tempestade. Felicito a enxurrada, a garoa, o vidro da janela molhado. Não há nada de errado em se molhar. Pelo contrário: o erro está em fugir da chuva. O erro está em não gostar da chuva, em não gostar de caminhar tranquilamente sob ela.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Tanto Faz
Um dia desses, percebi que uma das maiores homenagens que uma pessoa pode render a alguém é lhe oferecer o seu ódio. Afinal, é necessário muito tempo e muito pensamento direcionado para odiar uma pessoa. É necessário muita entrega. Ódio não é fácil de sustentar. Se alguém te odeia, essa pessoa precisa estar constantemente pensando em você, e você precisa fazer uma enorme diferença na vida dela.
O ódio não é o oposto do amor. Uma das maiores afrontas que você pode fazer a alguém que te odeia, é gostar do que ela faz. Dançar à sua música. Lamentar à sua ausência. Expor comentários positivos sobre a performance dela no que quer que ela seja especialista. Inimizade despende uma grande quantidade de esforço. Amizade é muito mais fácil.
Outro dia percebi também que o pior de tudo é o tanto faz. Tanto faço e mesmo assim tanto faço. Tanto faz é neutro, vago, irrelevante. Prefiro o ódio. É um sentimento mais sincero. Gosto de ser objeto de ódios alheios. Tanto fazer é quase nem existir. Sinto que todos os meus tanto faz direcionados acabam sendo esquecidos, apenas deixados de lado. Deve ser assim com todo mundo.
Mas eu amo amar. Um fato é que não há equivalência entre todos esses sentimentos. E apesar deles não serem iguais, não é possível determinar qual é mais importante, ou mais intenso, ou mais venerável e desejável. O importante é sentir, é deixar o coração pulsar, o estômago titubear. Nenhum sentimento é ruim por essência. O importante é não ser tanto faz.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
Os Filhos da Noite
Nyx nefasta, deusa primordial, filha do Caos, mãe de uma dezena de seres controversos. Nós próprios somos os filhos da Noite. Somos o Destino e os Sonhos; o Sono e o Sarcasmo; as Moiras e a Velhice; a Ternura e a Morte; a Discórdia e a Vingança também. E mais, muitos mais.
A linhagem da noite, ascendente do Caos, descendente direta do início de tudo o que há. Como personificar os irmãos em alma e corpo visíveis aos olhos mortais? Seres impensáveis, da Noite vem Thanatos, na teia de Morus da fatal Ceres, trazida por Hypnos, com Geras também, vítima de Éris ou Nêmesis.
Todos somos filhos de Nyx. Dançamos a dança das Horas, envolvidos no Caos profundo, pai de todas as lúgubres coisas das vias funestas. À Noite, envolvidos pelo manto obscuro, andamos acompanhados, queiramos ou não, por essas criaturas agoures. A Morte e o Sono são irmãos gêmeos, andam lado a lado. A diferença entre os dois é imperceptível. A Ternura e o Sarcasmo irmão são também. Tênue linha os separa.
A prole de Nyx, linhagem nefasta, decididamente personificada se encontra em nós. Gerada no Caos. Tudo o que há de doloroso é assim belo também. Nem tudo é só dor, nem tudo é tão grave, vem tudo da Noite. Cada um desses seres tem filhos também, os quais somos nós, descendentes de Nyx, e também do Caos.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Intensidade
Devemos intensidade a nós mesmos
Vamos amanhecer loucamente
Vamos enlouquecer todas as manhãs
Quero que meu coração bata tanto e tão rápido
A ponto de parar
Só acredito em corações malucos
Só acredito em intensidade
Não recebemos essa vida
Para desperdiçá-la
Devemos queimar
Arder em fagulhas que explodem
Nos céus iluminados por nós
Precisamos viver cada curva
Dar tchau para cada dia
Celebrar cada erro
E comemorar ainda mais cada vitória
Quero que meus olhos ardam
Sob a fumaça de seus cigarros
Sobre o calor de seu corpo quente
Quero a loucura
O poder mágico de andar desequilibrado
As festas que nunca acabam
E que quando acabarem faremos as nossas
Devemos retribuir a vida ao mundo
Não acredito em redenção
Mas acredito na glória de fazer aquilo que se quer
De verter lágrimas intensas e sinceras
De voltar aos lugares que um dia conhecemos
Subir nas mesas e dançar
Afastar o solo
Que sucumbirá em respeito a nós
Devemos isso a nós mesmos
À vida que nos agraciou com todas as suas possibilidades
Ao tempo que
Se nos priva das oportunidades passadas
Não nos deixa esquecer
Vamos enlouquecer
Vamos viver
Só acredito em intensidade
Só penso intensamente
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Busca
A escória está nas ruas, ocupando todos os espaços vazios. Basta ver. A podridão está por toda parte. Todos nós vomitamos nas ruas, compactuando com a ralé. Nós todos somos a escória.
A miséria está nas ruas, a miséria está nos hospitais. Basta olhar. A miséria humana, a ralé humana, não está escondida nos buracos, nos becos sombrios. Ela está nas filas dos hospitais, nas ruas onde vomitamos pus.
Basta prestar atenção. O desastre, a desordem da sua vez. Todos são a miséria, a podridão, a ralé, a escória, a fila dos hospitais. Todos estão no desastre. Ninguém escapa.
Somos a angústia. Aquele objetivo inalcançável e a procura por algo que nunca poderá ser encontrado. Buscamos pelos espaços vazios das ruas, das filas dos hospitais.
Buscamos em todos os lugares. Objetivos são distração. Basta tentar entender. Cada um deles, cada pequena vitória pessoal, é um minúsculo degrau em uma escadaria infinita, a qual nunca poderemos galgar.
Nunca atingiremos essa busca. Somos a angústia. Somos aquilo que nunca será encontrado. No desastre, na desordem. Podemos passar a eternidade tentando, e basta prestar atenção, continuaremos sendo a angústia.
Miséria. Podridão. Ralé. Escória. Continuaremos sendo a distração. A angústia de nunca encontrar, de nunca ser o suficiente. Ninguém escapa. Basta olhar. Basta ver.
A miséria está nas ruas, a miséria está nos hospitais. Basta olhar. A miséria humana, a ralé humana, não está escondida nos buracos, nos becos sombrios. Ela está nas filas dos hospitais, nas ruas onde vomitamos pus.
Basta prestar atenção. O desastre, a desordem da sua vez. Todos são a miséria, a podridão, a ralé, a escória, a fila dos hospitais. Todos estão no desastre. Ninguém escapa.
Somos a angústia. Aquele objetivo inalcançável e a procura por algo que nunca poderá ser encontrado. Buscamos pelos espaços vazios das ruas, das filas dos hospitais.
Buscamos em todos os lugares. Objetivos são distração. Basta tentar entender. Cada um deles, cada pequena vitória pessoal, é um minúsculo degrau em uma escadaria infinita, a qual nunca poderemos galgar.
Nunca atingiremos essa busca. Somos a angústia. Somos aquilo que nunca será encontrado. No desastre, na desordem. Podemos passar a eternidade tentando, e basta prestar atenção, continuaremos sendo a angústia.
Miséria. Podridão. Ralé. Escória. Continuaremos sendo a distração. A angústia de nunca encontrar, de nunca ser o suficiente. Ninguém escapa. Basta olhar. Basta ver.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Mistérios
“Repassem a informação: a realidade está se dissolvendo!”. Isso gritava o maluco na rua, chamando a atenção de alguns dos transeuntes que passavam, mas logo voltavam às suas atividades rotineiras de não prestar muita atenção em qualquer doido dessa cidade. Sentei no banco da praça e fiquei esperando, queria ver até onde o maluco iria, em seus devaneios.
Você é um livro que está escrito em outro idioma. Houve uma época em que eu queria ser poliglota, fazer trocadilhos estúpidos em todas as línguas. Saber traduzir saudades. Hoje, eu abro as suas páginas e não entendo nada. Você é uma coleção de hieróglifos. É um alfabeto cirílico de cabeça para baixo.
Mas tenho mesmo sentido a minha cabeça meio flutuante, como uma folha à deriva no rio, procurando o oceano mais próximo, sendo que cada pequeno córrego é uma artéria irrigadora. Os glóbulos brancos são as folhas caídas.
Tenho ficado fraco em metáforas. Acho que meus devaneios são culpa da anemia. Corpo fraco, metáfora fraca. A folha continua flutuando, viaja sobre águas que nunca voltarão. O que mantém um rio em seu curso é a potência das águas que vêm atrás.
Tento decifrar as tuas páginas, mas não compreendo. O estranho é que sei que ali está escrita uma história maravilhosa. Tenho certeza absoluta da qualidade de cada palavra empregada, da habilidade com que cada sentença foi constituída.
O maluco na rua continua gritando. Vai ver a realidade dele está mesmo se dissolvendo. Ainda não chegou a lugar algum.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Taxidermia
O nosso amor morreu naturalmente
Ele nunca sofreu as indizíveis violências
Da extremada paixão
Ele nunca respirou ofegante
Após o baque do choro vertido
Ele nunca se escondeu de si mesmo
Em buracos sombrios infrangíveis
Nosso amor foi vivaz
Foi luzeiro saliente
Externado e nunca extenuado
Morreu tranquilamente
Morreu naturalmente
Tal qual antes nasceu
O nosso amor não será esquecido
Será embalsamado
Lhe tirarei as entranhas inertes
Preencherei de palha o interior
Taxidermizarei nosso amor
Vou expô-lo na sala de estar
Deixar com que ali permaneça
Baluarte do amor de outrora
E que ainda ali existe
Lembrança bem vinda
De um amor que morreu naturalmente
Que foi taxidermizado
E que nunca será esquecido
terça-feira, 12 de maio de 2015
Sobre a Certeza
Há alguns dias a Lua me pediu um poema. Encomendou a poesia para usar em alguma serenata para seu amante em céus que não ouso caminhar. Me deu os temas, algumas palavras chaves, uma possibilidade de rima e métrica em que ela já estava pensando, e disse “agora te vira”.
Comecei a escrever, e o relógio me parou. Ou me parou o relógio. Meu relógio parou e eu parei, se assim ficar mais bem compreendido. As horas tornaram-se um vulto espesso e gigantesco, praticamente infinito, como uma fabulosa neblina que cobria absolutamente tudo. É certo que a neblina acontece quando o mundo está triste, mas esse não era um poema de tristeza, era apenas um truque do tempo.
Assim eu vi o tempo tomando forma, e ele só fazia isso com o objetivo de parar, de não mais correr. Em meio àquela névoa, percebi que o tempo parou, na verdade, por um objetivo maior: para que eu terminasse o poema que a Lua pediu. Mas o relógio só ficava parado na companhia da Lua, nos outros momentos o tempo se lançava vertiginosamente rumo ao futuro.
O ar me ia faltando, as pernas me iam tremendo. Sentíamos falta mutuamente: eu e o ar. O ar não serve para nada se não houver quem o respire, ou ao menos quem use asas para nele pairar. Haveria um mundo se não houvesse ninguém para presenciar a existência do mundo? O mesmo vale para as horas.
A Lua começou a me apressar, queria logo o poema pronto. Oras, todos temos compromissos, não compreende? Oras, temos compromissos com as horas. Nova, crescente, cheia, e minguante: fases também de nossas vidas. E como outrora dito: tudo minguará.
Mas então percebi que se eu nunca terminar o poema, talvez o relógio possa ficar mais vezes parado em companhia da Lua. Mais tempos para que o tempo seja eterno e me falte o ar. E mais oportunidades para poemizar.
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