quinta-feira, 9 de maio de 2013

Noite

Em todos os períodos da humanidade, quando essa se viu tentada a explicar os fenômenos naturais fazendo uso das mais variadas crenças e religiões, de alguma forma ou de outra, em um momento ou em outro, a noite precisou ser separada do dia. Pois que no início.. No início tudo eram trevas.

Duas entidades tão distintas, porém de formas tão coincidentes, assim são Selene e Hélios, os padroeiros e representantes das duas principais divisões temporais dos dias. Claro que poderíamos também falar em crepúsculo e aurora, os eternos meio-termos, momentos duvidosos, porém de beleza incomparável. No entanto, ou se é dia ou se é noite, algumas pessoas são dia e algumas pessoas são noite.

A noite existe como válvula de escape, resultado da rotação, uma das maiores maldições que existem. Válvula de escape para resfriar um mundo que, do contrário, seria ainda mais frio e desaconchegante. Por mais que aquelas explicações deem conta de forma abstrata, está empiricamente comprovado que a noite vem tanto antes quanto depois do dia, sucessivamente, há quanto tempo se possa parar para imaginar.

E é durante a noite que toda essa vaga liberdade que tanto buscamos toma conta das ruas. Quando o sol se esconde, de puro medo, e Selene vem para reinar sobre esse reino compartilhado, é então que todos os sonhos mais ímpios e sujos se tornam realidade. Nas ruas, nas mesmas ruas onde nossa geração se localiza. À noite, a mesma noite que faz ela se sentir tão bem.

A conjunção desses dois fatores sórdidos cria o ambiente perfeito para a propagação das criaturas dessa geração. Como um ser unicelular que só existirá se todos os fatores necessários se fizerem presentes, pois que viver pela metade é o mesmo que não viver.

Então, a situação se desenvolve; o contexto está inserido, o cenário está preparado, e os atores estão plantados. Essa geração determina as matizes de seu próprio zeitgeist, construindo e vivenciando sua própria construção social. Todos os caminhos levam à rua, e todos os caminhos estão escuros, pois é noite.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Rua

Camadas e mais camadas de coisas mortas, meros recondicionamentos do próprio tempo. Extração, filtragem, preparação, alinhamento, e produção, tudo aquilo que respirou há de um dia fazer respirar. Uma massa negra de composto químico-orgânico. Lasanha de petróleo.

Os dias acumulam-se um diante do outro, esperando que chegue a sua vez de estragar com tudo. As noites revezam-se na tentativa de amenizar o caos e o terror dessas vidas. Mas o caos e o terror são benéficos, agem em prol do tempo, agem de acordo com as vidas, com a noite. A noite é possuída pelo caos, ele é visto em cada esquina, em cada amontoado de petróleo. Nessas massas negras de asfalto.

A rua não é necessariamente apenas a rua. O asfalto. A massa negra. Tudo o que não é casa, é rua, quando envoltas pela negritude da noite, e apoiadas pela negritude dos asfaltos. Em todos esses lugares frequentados pela nossa geração, os becos, as travessas, as esquinas com placas deterioradas pela própria noite. A noite não gosta de nomes que as definam. E as ruas não precisam ter nomes sendo que elas têm vida.

Todas as ruas são uma só, são a morada dos melhores cachorros, dos melhores animais, e dos mais terríveis sonhos. É nelas que encontramos o mesmo que perdemos, e perdemos tanto quanto encontramos. Nas ruas, temos a oportunidade de ter o mundo aos nossos pés, e de sermos arrastados pelo asfalto, ficando aos pés do mundo.

É nas ruas que a nossa geração se localiza, se identifica e se pluraliza, essa geração que vem sendo moldada nas últimas décadas, que vem perfazendo uma trilha única e multifacetada ao mesmo tempo, ao longo do tempo. Afinal, todos os caminhos levam à rua.

Esse é a primeira parte (um prefácio talvez) de um tratado que pretende compreender o zeitgeist do nosso tempo, o desenrolar dessa geração que prefere as ruas.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sobre Números e o Depois que Nunca Chega

Sempre gostei de números, é uma habilidade natural de certa forma incongruente com a lógica jornalística. Porém, prefiro os números maiores, acima de 7, sete é um número legal, e todos os terminados com eles. Odeio os números redondos, são coisa de gente acomodada. Talvez por isso a Física seja minha ciência favorita: anti-acomodação e pró-números.

Se a mim fosse dada a incumbência de escrever as enciclopédias, assim eu definiria o verbete 'ser humano': "s.m.: única criatura dotada da capacidade, da habilidade suprema, de procrastinar todas as coisas". Assim, pagamos em 12 vezes. Doze também é um número legal, mas não para atitudes financeiras procrastinadoras.

O agora é o momento em que as coisas acontecem. O futuro é abstrato, nada mais do que uma projeção do que planejamos e queremos que seja, e sonhamos que assim será. Dá-se características numéricas para datas e valores que ainda não aconteceram, e que, grandes chances de, nunca acontecerão. Procrastinar é criar pré-requisitos para um futuro hipotético. Vive-se de amanhãs.

A memória, em geral, está no passado. No entanto, essa vontade humana de deixar para depois faz com que tenhamos saudades do futuro, daquele futuro maravilhoso que desejamos, mas deixamos para depois as atitudes que poderiam fazer ele acontecer. Por isso, é possível ter memória do futuro.

A física, e seus números, nos diz que não podemos lembrar do que ainda não aconteceu. E que, por isso, não podemos nos prender ao futuro, ao eterno depois, devemos viver de agora, e aumentar as probabilidade do futuro que queremos que aconteça. Há que se viver de fatos, de fazer os fatos acontecerem, de não pagar em 12 vezes o que pode ser realizado em apenas uma. Pois que, fatalmente e (por que não?) felizmente, algumas vezes o depois nunca chega.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sinestesia

A menina dos meus olhos não tem olhos para mim. Tem sido muito difícil enxergar, fisicamente e abstratamente, abstrai-se a mente e mesmo assim não se vê, não se enxerga o que está diante dos olhos. Pois que o que está diante dos olhos insiste em fugir e dizer, para si mesma e para os outros, que não está. Já desejei cegueira total, seria o cineasta sinetesta, criaria correntes e faria história. Oras, pois se o senhor Ludwig foi surdo ao fim de sua vida...

A repetição do nada não é repetição, é apenas continuidade. Repetição só acontece se a coisa existe uma vez para depois novamente, e assim infinitas tanto quanto infinitas forem. O nada só atrai mais nada, a menos que algum dia ele comece a ser alguma coisa, então não será mais continuidade, pois da segunda vez que for, será repetição. Até agora, tenho tido muito nada. E também muita repetição.

Há que se sincronizar a vida, e algumas sincronias são maravilhosas, e, quem diria, surpreendentes. Oras, pois que tudo deve fazer parte de coincidências com alguma coisa, no entanto algumas coisas são coincidências planejadas, nada mais, e ainda assim sincronia. Cada escala da partitura da minha vida foi composta num tom diferente, assim é tudo tão dissonante. Não há de haver corações pulsando na cena do homem de lata.

E há ainda mais que se sincronizar a vida com essa eterna repetição. Esse eterno amontoado de nadas. Não enxergar é um nada, porém é um nada que primeiro necessita de um tudo. Não existe cegueira sem antes ter existido olhos. Ver é mais difícil do que enxergar. E quem sabe se o surdo, ou um sinetesta, poderia sincronizar as escalas de tons, e produzir harmonia nessa vida. De qualquer forma, o nada já é alguma coisa, pois que, como já disse, todo buraco está cheio de vazio.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sobre Trancar a Porta do Banheiro

Sentados na varanda daquela casa, em meados de alguma época, em fins ou começo de outras, pois que tudo são épocas, e determinar qual é qual só depende do ponto de vista. Sentados lá, é que eles viam o quanto aqueles velhos fantasmas faziam falta. A correria dos gatos pela casa, procurando por todas as horas que lhes faltavam; a insipiência das paredes, que ao contrário do que dizem, só sabem mesmo continuar em pé; a inação dos objetos móveis de grande porte, contemplando por suas pequenas eternidades tudo o que ainda restava.

Sentados sim, pois que a todas as pessoas deveriam ser feitas referências no plural. Ninguém é um só. Mas todo mundo é só. A companhia dos fantasmas não assombrou naqueles tempos áureos, a sua ausência sim assombrava. Medo da não existência, pois que é mais fácil temer o que não se vê. E quando se vê fantasmas por tempo demais, eles acabam se tornando nossos amigos.

Algumas fotografias serviam de lembranças, mas a melhor câmera fotográfica ainda há de ser a memória, seus registros são mais vivazes, mais intensos. É certo que há o risco de se perder tudo com qualquer pequeno acidente, mas a que(m) estamos enganando? Há constantemente o risco de se perder tudo, ou de se ganhar. E com tudo o que se perde, se ganha também. Afinal, a ausência de fantasmas pode também ser considerada uma vitória.

Registros inertes e insipientes, a todo momento recuperados. E se pergunta porque ainda devemos trancar a porta do banheiro. Por onde andam aqueles fantasmas que os espionavam? Naturalmente, não foi a inação que os fez assim. Andam sozinhos pelos corredores, procurando pelas horas que lhes faltam, esperando uma resposta ou uma ação.

Assim, no plural, sendo mais de um em um só e só. Com a porta trancada, esperando que voltem os fantasmas. Em silêncio, cogitando a inação, contemplando a eternidade dos momentos. Em qualquer coisa que possa ser usada como uma boa analogia para varandas. Varandas nem existem mais. Fantasmas nem existem mais. Aqueles fantasmas devem estar sentados em suas próprias varandas, com a porta do banheiro aberta.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Storytelling

I always liked learning and discovering things I've never had before. To learn the english language was a kind of opportunity that just made itself. As idle times pass by, you always gather something new. You can learn even with nothing.

Some people may believe in fate, I do believe in choices. Destiny is nothing more than a construction of every little choice you make, just put together. Every little choice opens up the opportunity of other choices, creates new ones. Every road that splits in two, has two more roads to be splitted when time comes.

Storytelling may be the art of telling stories, and may seem obvious as it is, but to tell stories is an art, and this is not obvious. No story has ever told itself, stories are made out of people who tell stories. It is, also, one of the things that I like to do the most, and being part of the stories you are telling is even better. People are made out of stories.

Sent later the due application, got late to the test, hasn't had a pen... All of this, put aside, when that plane arrived, and those 19 people left it. Fate may have worked to make those amazing ten days happens. To make then what they were, but choices made it before. The choices of telling stories about fate...

And so has come to an end the best partnership ever... until september.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Caveiras

No final das contas todo mundo é caveira mesmo. Não faz assim tanta diferença quando a pele já está decomposta e apodrecendo. Para os vermes, somos todos a mesma coisa, apenas matéria sobre matéria que por algum motivo banal, de uma fagulha acesa lá na sopa primordial, resolveu sintetizar RNA, e hoje respira.

Então aparecem os dentes, compostos calcificados e duros que demoram bem mais a se deteriorar. E lá está a caveira rindo para você, de todas as suas desgraças, mas mais ainda das desgraças dela própria, que por si só é uma graça. Pois que ela é a própria representante da benção dos homens, aquilo que foi renegado aos firstborn, o final absoluto e supremo a que todos chegam.

É engraçado como a maioria das pessoas pensa que é feliz. Feliz de quem sabe que é infeliz. A grande maioria das pessoas não chega nem minimamente perto de ser minimamente feliz. Mas elas pensam que são. E agem como se fossem, e fazem os outros à sua volta agirem como se todos fossem felizes. Mas você pode ver isso nos olhos delas. Não a tristeza, pois que essa é uma magia de poucos e belos, e uma das coisas mais lindas que existe. Mas sim a pura e serena infelicidade, ou, deveras óbvio decompor o substantivo: a ausência de felicidade.

E então coloque as pessoas sob pressão. Elas demonstrarão ainda mais essa ilusão, sentirão todo o pesar da grande mentira que vivem sem perceberem. E por vezes elas até percebem, mas é muito mais bonito continuar se enganando. Mas é tudo passageiro, e elas sempre darão um nome relativista à situação, e claro, a culpa será de agentes externos, nunca de suas próprias caveiras. Mas isso não muda o fato de que elas definitivamente não são felizes.

E assim, todas as caveiras infelizes se passam por felizes a todo o tempo. Todos aqueles dentes à mostra escondiam muita coisa. E elas não conseguem entender, ou não querem entender, o fato. No dia seguinte, continuam com os assuntos interrompidos, com o curso de suas vidas, com as caveiras sorridentes, até que no fim sejam só caveiras e dentes.

sábado, 9 de março de 2013

Prédios

Abriu a janela lentamente. Dezessete andares de queda livre o observavam de baixo para cima, tal qual o maldito abismo de Nietzsche. Mas o abismo nunca olha de volta porque você olhou primeiro, ele na verdade não se importa minimamente com quem olha ou deixa de olhar pra ele. A visão que tinha diante de si estava, além de tudo, presa às leis de Newton, ela caía, sentia a gravidade. A gravidade que nos prende ao que nos importa, que deixa perto de nós todas as coisas. Mas é ela também que torna aquele abismo de tão intenso. É Isaac Newton que faz com que Friedrich Nietzsche seja tão perigoso... 

Adorava janelas. Tinha uma leve queda por prédios. Janelas são o ápice da liberdade, por onde todas as coisas podem passar, entrar e sair, sem condições ou obrigações, por onde voam aqueles que estão presos ao céu. Ficou observando por longas horas, mas que pareceram minutos, tinha de lá uma bela vista, que começava no céu e descia à cidade, atingindo o chão. 

E é no chão que está a base de todas as coisas, mesmo tudo o que voa esteve um dia no chão quando nascido. Tudo o que está preso ao céu, está também fatalmente e primeiramente preso ao chão. Lá estão as estruturas que permitem a existência desses dezessete andares, é novamente o céu preso ao chão. 

Afastou-se lentamente da janela, mas a manteve aberta, deixando passar por aquele retângulo toda a liberdade existente. Sentou-se no chão do apartamento, um chão construído no próprio céu, por aquelas mesmas bases. 

Pegou um bloco de liberdade na mão e o depôs sobre outro, começou então a preparar uma pilha de liberdades. O céu continuava passando pela janela lá fora, e no céu o tempo deve passar mais devagar. Pássaros são os principais e mais belos viajantes no tempo que existem. 

A pilha de blocos estava cada vez maior, então ele puxou o bloco que sustentava a base, e deixou que todas aquelas liberdades caíssem. Elas desmoronavam uma a uma, ocupando os espaços que lhes cabiam em sua nova configuração existencial. Desciam em câmera lenta, não, lentamente mesmo, mais devagar do que a gravidade as puxava, mais devagar que o próprio tempo, mesmo no céu. 

Pois então caindo, ele assim poderia diminuir a velocidade do tempo... Ao menos era o que parecia. Voltou a se encaminhar para a janela, observar mais um pouco. Percebeu então que construíra e destruíra suas próprias liberdades, e que podia agora construir e destruir o seu próprio tempo. Dezessete andares. Quão devagar passaria o tempo ao longo de dezessete andares? Juntou novamente suas liberdades. Janelas são, reafirmamos, o ápice da liberdade. 

Era um mundo intenso aquele. Vivia regurgitando vidas. Usava blocos para tudo, eram dezessete andares de blocos. Entre os espaços ocupados do mundo, permeava-se o vazio de solidão. E sabe-se que há muito mais espaço vazio do que ocupado no universo. Ou talvez os espaços vazios estejam de fato ocupados de vazio, pois um buraco está sempre cheio de vazio. De qualquer forma, era muita solidão. 

Por isso, ele construía o seu próprio mundo, se utilizando daqueles blocos, das liberdades, do seu tempo, um mundo de fantasias, mas que eram por muitas vezes mais reais do que a realidade em si. Mas ele olhava pela janela, observava o céu, e via o seu próprio tempo passar. Pelo seu mundo. 

Uma ave então passou zunindo, bem próxima, cruzando o tempo. Uma fantasia ela também, uma solidão, um espectro alado de solidão viajando no tempo. Pulou. Dezessete andares, e que passaram muito lentamente. Teve tempo de observar cada centímetro e cada segundo da queda, o tempo passava bem devagar. Visualizou todo o mundo que havia construído, as bases, e vivenciou todo o espaço vazio de solidão que existia no universo daquela queda. 

Então, em determinado momento da lenta queda, o tempo parou, e assim a queda também. Ficou estático em pleno ar por um mísero instante, e, logo depois, viajou no tempo. Passou por uma espécie de vista virtual de si mesmo, teve uma projeção astral e se viu viajando no tempo. Subindo novamente, dezessete andares de ascenção dessa vez. 

Viajar no tempo é um mundo de fantasias também, de solidão e de liberdade. Viaja-se sozinho, mas é a melhor viagem possível. Destrói-se blocos, e os reconstrói de outra forma. Passa-se sozinho por todas as eras, por todas as coisas, sem a companhia nem mesmo do mundo real. Viaja-se de fantasia. 

Parou novamente na janela. E novamente pulou. Dessa vez, sem viagens no tempo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Quero Morrer numa Festa

Odeio essa inquietude e essa angústia, porém não consigo viver sem elas. Acho que é assim que as pessoas são, odiando o que são e o que fazem, mas nunca se livrando disso, porque se livrar disso seria se livrar delas mesmas, e tenho a impressão que isso ninguém quer, ao menos não conscientemente.

O câncer talvez seja a melhor das doenças, pois ele faz com que as pessoas se livrem delas mesmas. O amor é como um câncer, uma deformação nas células, uma mutação, que faz com que elas se multipliquem descontroladamente. O amor talvez seja a melhor das doenças. Ele faz com que as pessoas se livrem delas mesmas, criando universos paralelos de mundos fantásticos, onde a tendência de tudo é dar certo. Repito, tendência.

Mas a paixão platônica talvez seja uma doença ainda pior, ou melhor dependendo do ponto de vista, pois para ela não há remédio. Pensamento polifásico é placebo, projeção do sentimento adquirido na musa é placebo, a própria imaginação é placebo. Mas lindas mesmo são as paixões platônicas que duram algumas horas apenas. Dentro do ônibus as vezes, uma vez por dia. Ou numa festa.

Cachorros de rua estão sempre em festas. Conglomerados de selvageria em meio à selva urbana de civilidade. Agora, quem saberá dizer qual animal é o mais selvagem? Se você levar um cachorro de rua para casa, tratar, dar banho e alimento, cuidar com carinho; não importa, ele vai pular o portão e fugir, cheirar cus por aí e rolar na terra, e por fim pegar sarna. É o que eles fazem, e é o que nós fazemos. Uma vez cachorro de rua, para sempre cachorro de rua.

Na rua também há câncer, e talvez também haja amor... Talvez o próprio câncer ame. Oras, por que não? Talvez ele sinta uma espécie de amor autodestrutivo pelas células que ele mesmo cria, talvez ele até faça isso porque ama demais. Porque, afinal, o amor é de fato uma das melhores doenças. E é também autodestrutivo.

Meu colchão melhorou, o emprego melhorou. Mas melhorar nada mais é do que apenas ficar menos pior. Quem sabe se assim o amor também melhore, ou despiore. E também essa paixão platônica de festa, com uma pitada de câncer. Por isso tudo quero morrer cachorro de rua. Quero morrer numa festa.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Musa Criatura

Se tu não existisses eu te criaria sob a forma de poesia
Para que o mundo pudesse ver, ler e saber
Que eu seria o seu autor, e você a minha musa
E se, por outro lado, minhas habilidades fossem outras
Se eu soubesse e me expressasse por cores
Então eu te criaria em telas, em óleo sobre tela
Em intensas aquarelas, de intensos fulgores
E se um músico eu fosse, hábil com sons
Então te faria com notas e ritmo, batidas e acordes
Te criaria a mais bela, e tu serias melodia
Mas o que faço é escrever, o pouco que faço
Então te desenharia com letras, palavras e versos
Preparados, conectos, pra que formassem você
Pois se tu não existisses, tenho certeza que eu a criaria
Sob a singela forma de uma intensa poesia