quarta-feira, 18 de julho de 2012

Espera

Nas esquinas, paradas de ônibus, ao lado de placas de 'pare', nos estacionamentos pavimentados, e em tantos outros lugares; vejo aqueles rostos, são homens parados, aguardando sua condução ou o que quer que estejam esperando. Em todas essas faces anônimas e inertes, vejo uma tristeza semelhante, não é o frio, não é a manhã pálida, nem a incessante sequência de acordares cedos. É sim um desespero muito contido.

Subitamente, percebo um rosto conhecido entre tantos outros. Um nome me vem à mente, William, isso William, de onde deveria eu conhecer esse sujeito? Da escola, em tempos imemoriais o sujeito deve ter sido um colega de classe, e ao contorcer os corredores de minha memória, tenho certeza que poderei lembrar daquele homem atirando bolinhas de papel nos colegas, atazanando crianças menores no recreio, jogando tazo no horário da aula.

Tudo isso em épocas em que nada se esperava, a própria condução era motivo de alegria, e o acordar cedo era entrecortado de pequenas felicidades por motivos banais. "Ah mãe, tenho mesmo que ir pra aula hoje?", e ninguém pode ver desenhos animados para sempre. E como numa epifania, é triste perceber que nunca mais assistiremos à Sessão da Tarde na Globo, entre cobertas de bichinhos e com aquele copo de chocolate quente.

Já tem vida demais na minha vida. E da janela do ônibus, vejo que William dá um bocejo, vapor condensado sai de seu pulmão, a fumacinha preenche o ar, e se dissolve num rápido movimento de adeus. Aquela esquina fica pra trás, sua condução ainda não chegou, a fumaça se dispersa, e outras crianças devem estar se preparando para bater tazo, atazanar e atirar bolinhas de papel a essa hora.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Blues da Gralha Triste

Como voa triste aquela Gralha lá distante
Vai rodando em eixos fortes
Em suas asas brilha a luz de tanta sorte
Descem lágrimas intensas

É só tristeza esse caminho
A Gralha Triste bate as asas compassadas
A sensação de estar perdido
Na tristeza o amor se esvai e já não é nada

Acostumada a voar alto cinge o asfalto
Tempo ficando para trás
Deixa claro em seus domínios tudo é dor
Felicidade que não há

Então por fim o que há de ser
Desembarcamos e assim estamos em casa
E nessas ruas, nessa hora
A Gralha Triste é todo o mundo à nossa volta

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Hotel Califoraucária

Na Rodovia do Xisto, cool wind in my hair
Warm smell of poluição, rising up through the air
Up ahead in the distance, I saw a shimmering light
My head grew heavy and my sight grew dim
I had to stop for the night

There she stood in the viaduto de entrada da cidade
I heard the alarme da repar
And I was thinking to myself
This could be Heaven or this could be Hell

Then she lit up a candle and she showed me the way
There were voices down the victor do amaral
I thought I heard them say

Welcome to the Rihad Palace Hotel
Such a lovely place (2x)
Such a lovely face
Plenty of room at the Rihad Palace Hotel
Any time of year (2x)
You can find it here

Her mind is Calceaki-twisted, she got the Opala cor de rosa
She got a lot of frequentadores do Bakana, that she calls friends
How they dance in the Praça do Seminário, sweet summer sweat
Some dance to remember, some dance to forget

So I called up the Hissam
Please bring me my tubão
He said: "we haven't had that Campo Largo here since nineteen sixty-nine"
And still those voices are calling from far away
Wake you up in the middle of the night
Just to hear them say

Welcome to the Rihad Palace Hotel
Such a lovely place (2x)
Such a lovely face
We're livin' it up at the Rihad Palace Hotel
What a nice surprise (2x)
Bring your alibis

Mirrors on the ceiling
The Campo Largo on ice
And she said: "we are all just baianos here, of our own device"
And in the Hissam’s chambers
They gathered for the conferência do partido
The stab it with their peixeiras
But they just can't kill the Zezé

Last thing I remember, I was
Running for the portal polonês
I had to find the passage back
To the place I was before
"Relax", said the mendigo do 1 reial

We are programmed to receive
You can check out any time you like
But you can never vazar

terça-feira, 3 de julho de 2012

Cachorro-Peixe

Um dia desses decidi que a partir daquele momento eu seria uma maçã de terno, e nada poderia me impedir de ser assim. O mundo real com todas as suas sobriedades e imposições nos faz um mal muito maior do que podemos imaginar, existem poucas coisas piores do que perder a capacidade de imaginar, de sonhar.

ílaD rodavlaS

A realidade não foi feita pra mim, como diz a música do Helloween: "I'm living in a world of fantasy / Reality ain´t good enough for me / And all that I can feel is nothing but sobriety / I'm living in a world of fantasy / Reality ain't meant or made for me" (http://letras.mus.br/helloween/1766445/). Vivo meu próprio mundo de fantasias, pois aqui as coisas são melhores.


E todas as pessoas deveriam experimentar a criação de um mundo próprio de alucinação, construindo a própria realidade ao sabor de suas vontades. Pois que é assim que a vida se torna um pouco mais suportável, a realidade deixa de ter seus efeitos devastadores, e podemos ver cores em meio ao cinza, ou cinza em meio ao cores.

ettirgaM èneR

Produzo meu próprio surrealismo através de minha parca literatura, de cinematografia de beco, e de divagações aleatórias, conjuntas e solitárias, sobre qualquer assunto. Esse monte de nada acaba formando um pouco de tudo.

Não tenciono escrever um terceiro manifesto do surrealismo, para isso outros vieram antes, alguns ainda nos fazem companhia nesses sonhos fantásticos. Apenas quero dizer que "Neste verão as rosas são azuis, a madeira é de vidro.A Terra envolta em seu verdor me faz tão pouco afeito quanto um fantasma. Viver e deixar de viver é que são soluções imaginárias. A existência está em outro lugar".

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vazio

“Eu não te amo mais”, foi o que ela disse, com todas as letras e sem titubear. Não teve coragem de repetir, mas nem precisava, uma única vez era suficiente.

Naquele momento tive a sensação, quase certeza, de que o que ela sentia era desamor, e não falta de amor. Algo como o oposto do sol não ser a lua, pois o oposto do sol é o lado de trás do sol, ou de dentro, depende do ponto de vista. Não vejo como pode se deixar de amar, acredito que ou se ama pra sempre, ou nunca se amou de verdade.

Hoje eu sei que o pior sentimento existente é a falta de sentimentos. Houve épocas em que eu acordava sentindo um leve, porém marcante, gosto de sangue na boca, mas dizem que matar só é difícil da primeira vez. Morrer também deveria ser difícil só da primeira vez, a cada vez que eu morro fica mais difícil.

Quando ela disse aquilo e virou as costas para se afastar num elegante movimento de adeus, algo morreu dentro de mim, e não foi o que eu sentia por ela, porque como disse, talvez eu nunca tenha sentido nada... ao menos não por ela.

No exato primeiro momento de ausência dela, passei a perceber que sua presença talvez não fosse tão importante, e aquilo me surpreendeu no começo. Porém, logo assimilei que outras coisas faltavam também, e eu não sentia mais o cheiro da comida.

A partir desse prelúdio de uma catástrofe anunciada, esses abismos sensoriais se tornaram cada vez mais recorrentes, frequentes, insidiosos e destruidores. Na verdade, formava-se um paradoxo complexo com as minhas emoções, pois quanto menos eu sentia, mais eu sentia o não sentir.

Era uma agonia acachapante, aquela sensação de vazio. Precisamente um vazio intenso e único, que afligia todo o meu viver, a palavra precisa era vazio e vazia, pois seu próprio nome se tornava ausente de significado, e era cada vez mais intrusivo.

Havia dias em que eu acordava me sentindo extremamente bem, havia dias em que acordava simplesmente não me sentindo. Então parei de relacionar esses abscessos à partida dela, parecia mais que era tudo natural e esperado, e que teria acontecido de qualquer forma.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Férias

Então chegou a hora de relativizar as férias, e eu odeio férias. Aclamada como a época de descanso, para que se desestressem as pessoas de suas obrigações diárias. O problema é que preciso das minhas obrigações diárias pra continuar me sentindo vivo. Não sair de casa é quase como respirar por aparelhos.

No sábado trabalhei por 16 horas seguidas. Claro que teve o intervalo pra uma viagem de ônibus e uma ou outra cerveja, mas isso não diminuiu a impressão do pique. Assim, sou workaholic, não porque viva em função do trabalho, mas sim porque prefiro o fazer ao não fazer. Como disse em outra oportunidade, sempre preferi o sim ao não.

Depois de tantos experimentos sociais a gente começa a antecipar o comportamento da coletividade e de algumas individualidades, e há que se informar que a calma e tranquilidade são em função do fato de que nada do que houve surpreende, como se ninguém soubesse. Mas as vezes ainda precisamos fazer alguns testes, e já que palavra proferida não volta atrás, há que se magoar alguns corações quando se sabe demais.

Revisitam-se os assuntos tratados, e cada olhar distante é uma chama ainda viva, ou apenas uma ironia guardada. E foram tantos encontros e desencontros e uma figura de linguagem já usada. Tantos e todos tontos. Mas o encontro protelado não surtiu efeito. Nenhum deles, encontro ou efeito.

Tenho escrito pouco, duas publicações esse mês, época de pré-ferias é também época de procrastinação, e quando o tempo é pouco faz-se, se o tempo é muito adia-se, pois que tempo sempre há, a diferença é o que cada um faz com ele. Por isso, hoje começo, já que tenho um perfil a concluir, um conto a postar, um livro a publicar, e as reticências para colocar nesse texto, pois que ele não tem fim, até que acabem as férias...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Uma Teoria sobre o Amor e a Física

Escrever essa teoria é uma empreitada arrogante e egoísta de objetivo pouco claro. Porém, a própria vida não tem objetivo tão claro e definido, e tendo em vista que os dois temas a serem aqui explorados são de natureza ainda mais incerta e abstrata, acho então que a própria falta de necessidade da formulação dessa teoria caracteriza a sua necessidade. Dessa forma, aqui veremos como pode, ou deve, ser relacionada a Física com o Amor.

O filósofo austríaco Karl Popper define uma teoria científica como um modelo matemático que descreve e codifica a observação que fizemos. Dessa forma, observamos os dois temas propostos de modo matemático, tirando a característica subjetiva do amor, que o torna tão imprevisível, e aplicando ela à física, que é mais objetiva. Portanto, ambos estarão balanceados de forma a fazer com que o equilíbrio torne a comparação justa.

Assim, começamos pela Teoria do Éter. Acreditava-se que o éter seria uma substância que permeava todo o espaço vazio do universo, serviria como o material condutor da luz. Essa teoria começou a cair em descrédito em fins do século XIX, sendo abandonada de vez após a Relatividade Geral. A comparação a ser feita coloca o amor como uma ‘entidade’ também presente em tudo, completando o universo, existindo em todas as criaturas vivas e não-vivas, conduzindo a luz entre os corpos. Da mesma forma que o éter foi abolido da mentalidade físico-científica mundial, hoje também a maioria das pessoas já não vê o amor como algo onipresente, sendo muito mais freqüente a busca eterna por tal estado de espírito. 

Outra teoria a ser estudada é o Princípio da Incerteza, o qual diz que é impossível saber com precisão a velocidade e a posição de qualquer partícula em um determinado momento, só é possível conhecer um desses dados por vez. Isso porque se conseguíssemos medir as duas grandezas ao mesmo tempo, acabaríamos alterando elas devido à interação necessária para que tal medição seja precisa. No amor é impossível saber com precisão e ao mesmo tempo, os dados relativos aos sentimentos de ambas as pessoas envolvidas em determinado relacionamento, ao ser capaz de mensurar um dos envolvidos, o observador corre o risco de interferir no sentimento do outro em relação ao primeiro. 

Já o Princípio Antrópico funciona no sentido de que não haveria amor se não houvesse uma humanidade para amar. Afinal, sentiriam amor os objetos e as outras coisas? O princípio antrópico diz que tudo o que existe foi desenhado para a existência da humanidade, ou que pelo menos se as coisas fossem minimamente diferentes não seria possível a existência da vida como a conhecemos. Talvez mesmo as menores situações dentro de um relacionamento funcionem no sentido de possibilitar o seu sucesso ou fracasso, no que poderia ser chamado de destino, ou de uma força superior agindo no amor. Ao olhar para trás em um relacionamento poderíamos apontar todas as características que se fossem levemente diferentes impossibilitariam a sua existência. 

A Gravitação Universal diz que todos os corpos possuem uma força de atração, que atua sobre todos os outros corpos existentes, e que é proporcional à sua massa e distâncias entre eles. Assim, todos os corpos do universo manteriam-se em sua órbita constante em virtude dessa força invisível que une todas as coisas, visto que ela agiria como uma espécie de amarra entre os corpos, cada um deles mantendo os outros em suas posições fixas. O amor seria a própria força de gravidade, cada um dos corpos de um relacionamento teria sua própria força de ação, medida pela distância e magnitude dos sentimentos mútuos, e que seria o agente responsável pela união e manutenção da rota entre os corpos físicos a as almas transcendentais de um casal. 

Quanto mais alta a Entropia, menos desordem num determinado sistema, essa teoria explica que a tendência de todas as coisas é evoluir gradativamente até um estado em que tudo esteja estático, em harmonia e perfeição. Essa evolução deve acontecer primordialmente através da troca de calor entre corpos, explicada na termodinâmica, que tende a equilibrar as temperaturas, a partir do momento em que tivéssemos tudo na mesma temperatura, todas as coisas estariam estáticas. Num relacionamento longevo, isso significaria a representação das coisas caminhando rumo à harmonia e calmaria, ultrapassadas as épocas ruins de desordem, acabaria tudo caindo na monotonia da perfeição. Definimos assim que com o passar do tempo a tendência de qualquer sistema, incluindo o amor, é atingir a entropia máxima. 

A teoria da Relatividade Geral revolucionou a física como a conhecemos, ela prevê que a velocidade da luz, apesar de constante, é variável de acordo com o ponto de vista do observador em questão, tornando-se relativa. Da mesma forma acontece quando se trata do amor, pois num relacionamento as coisas boas e ruins que acontecem têm sua velocidade determinada dependendo do ponto de vista das partes envolvidas. Uma das contrapartes pode sentir a relação se deteriorando mais lentamente que a outra parte. Além disso, quanto maior a velocidade, mais energia será usada, tornando a aceleração mais lenta, diminuindo por consequência a velocidade, por isso um relacionamento pode começar e evoluir muito rapidamente, e depois conforme necessita mais energia para mantê-lo, a aceleração diminui e a velocidade também por conseqüência. 

A teoria do Tempo Imaginário Idealizador considera esse um tempo diferente do real que utilizamos e conhecemos, ele cresce com números imaginários e em um ângulo de 90 graus em relação ao tempo real, sendo uma forma de idealizar a realidade. É como dizer que além da forma real com que o amor ou romance se desenvolve, existe também a imaginária, que funciona num vetor diferente e é idealizada de forma a proporcionar uma melhor compreensão quântica da relação. 

Buracos Negros são anamorfias surgidas a partir do colapso de estrelas, possuem massa tão extrema que nem mesmo a luz pode resistir à sua força de atração. Relacionamentos que são belos e intensos como estrelas, possuem massa extrema e tendem a tornar-se buracos negros quando findam, formando uma anamorfia condensadora de massa, e que pode crescer indefinidamente englobando a massa das regiões próximas. Nem mesmo a luz pode escapar à sua força, porém ele emite uma certa radiação por possuir temperatura, como qualquer outro corpo, que seria correspondente ao caso dos relacionamentos ainda acesos, e seus ‘remembers’ recorrentes. Portanto, amores intensos geram anamorfias intensas. 

Chegamos aqui, justamente no fim, à luz das mais importantes correntes teóricas da física contemporânea, e vislumbramos o que pode ser considerada a união comparativa de dois dos mais aclamados e explorados assuntos da humanidade. De um lado, o amor, lírico e poético, das grandes histórias. De outro, a física, com sua busca eterna por explicar a vida e as coisas que a envolvem. Dois assuntos tão distintos, e, como verificamos, tão próximos. 

Há que se desenvolver ainda a tão aguardada TOE, theory of everything, ou teoria de tudo, que busca integrar todas as outras teorias em física. Há ainda muito que se amar e descobrir no amor, tão abstrato e variável que é. Porém, feita a comparação justa, ambos os assuntos deverão sempre ser paralelos, daqui até o fim, quando não houver mais amor nem razão para amar, e quando teoria alguma fizer sentido.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sobre o sim e o não

Pessoas afirmam uma sentença começando a frase com não. Pessoas negam uma sentença começando a frase com sim. Esse tipo de contradição surge quando uma frase não nasce pronta, ela precisa ser moldada e integrada ao contexto. Na verdade qualquer coisa fora de contexto soa falso.

Tenho deixado meus sonhos em casa. Saio pra rua carregando a realidade, seja ela qual for. Sonhos são muito belos e aconchegantes, mas a frieza da realidade é mais pura, é de verdade afinal. Em tempos de amores tão estranhos, de vivência de tamanho retrocesso, me sinto repetitivo. Prefiro chocolate branco, que muito dizem não ser chocolate. Oras, muitos dizem que os sonhos não são reais.

Por outros lados, sinto falta de coisas que nunca tive. Mas as palavras repetidas que já tive tornam essa frase reutilizada, de novo e de novo repetida e incessantemente. Como pular de paraquedas, sinto falta de pular de paraquedas, e isso nada mais é do que analogia à vida decadente que se leva.

Um saudosismo pertinente, umas leituras ultrapassadas, e uma vontade incontida de ressuscitar tudo aquilo que já houve e ouve. Ao menos concursos não envelhecem, apesar da literatura evoluir. Continuo criando e inventando, e que gama de responsabilidades são essas, nada acaba e a cada dia assume-se mais. No entanto, tudo sob controle, fico esperando o dia em que as coisas desandariam. Gosto de ver o circo pegar fogo, e prefiro quando estou dentro do circo.

Assim, de sim e de não, literaturas vêm e vão, saudosismo vem e vai, compromissos vêm e vão, chocolate vem e vai. Também mudam os sonhos e a rua, a realidade e os concursos. Mudam, mas não envelhecem.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Shitberg - parte 02

No início, a merda estava principalmente presente entre os trópicos, o Canadá, por exemplo, era um país quase a salvo do problema, exceto por uma ou outra corrente merdítima que chegava vez por outra.

Em meados do sexto ano da emerdiação mundial, o problema passou a ser mais global. A população sofria como nunca antes, e imigrava para os países árticos. Porém, agora a bosta estava começando a chegar lá também, havia merda condensada na atmosfera em forma de nuvens, e as correntes de ar as carregavam de um lado pro outro, massas de bosta fria e de bosta quente faziam parte das previsões do tempo nos canais de televisão. 

Nas águas as correntes oceânicas também carregavam a merda como se fossem gigantescas estradas de bosta. Então a corrente do gorfo levou fezes até a Groelândia, e lá imensos icebergs constituídos totalmente de merda começaram a se formar. Coprólogos estudaram o ponto de fusão da merda e verificaram que os icebergs de bosta ficariam cada vez maiores e mais fedorentos.

E foi assim que a nova ameaça surgiu, mais um problema num mundo já afundado em merda: o shitberg. Os shitbergs eram massas colossais de bosta, que se aglutinavam e congelavam, a maior parte de sua constituição física ficava abaixo do nível do mar, sendo assim invisível. 

Shitbergs vagavam pelos oceanos, atingindo latitudes cada vez mais próximas ao equador, pois derretiam com mais dificuldade em relação aos icebergs tradicionais. A temperatura da Terra diminuía, devido à presença de merda na atmosfera condensada em forma de nuvens, que por ser mais densa e de cor mais escura, geralmente marrom, refletia a maior parte dos raios solares de volta ao espaço. 

Assim os shitbergs aumentavam, em tamanho e quantidade, e também em periculosidade, e dominavam uma porção cada vez maior dos mares do planeta. As águas já não eram navegáveis, e barco nenhum viajava, nem mesmo os mais fortes suportavam a terrível ameaça dos shitbergs. 

Até mesmo a aviação ficou comprometida devido à grande presença de merda na atmosfera que dificultava a visibilidade, no nono ano já não se locomovia a grandes distâncias pela Terra. 

No próximo inverno do hemisfério norte, as neves vieram com mais força do que em todo o século anterior, e escurecidas pela bosta, pesteava tudo. Algumas pessoas voltaram a migrar para os trópicos, voltando de onde fugiram outrora, quando a merda começou a dominar as cidades costeiras. 

Depois de dez anos do início de emerdiação mundial, a população humana começava a minguar pela primeira vez na história, eram muitas as doenças e pestes; a produção de alimentos diminuíra assustadoramente; não havia mais transporte, e várias regiões do globo estavam completamente inabitáveis. Grandes desertos de merda cobriam os mapas. 

No décimo terceiro ano, a população mundial já era a mesma que na época da revolução industrial, e perecia. Tudo era merda, e o planeta não se recuperava, pois as pessoas continuavam cagando. Bosta na atmosfera, cocô nos oceanos, fezes nas terras emersas. 

E o planeta esfriava cada vez mais, numa era glacial de proporções bostiais, shitbergs cada vez maiores flutuavam pelos oceanos, que eram cada vez mais parecidos com fossas gigantescas. Os shitbergs invadiam os rios, numa piracema escatológica, congelando as nascentes, e contaminando os lençóis freáticos, não havia mais água livre da bosta no planeta. 

Shitbergs colidiam com as cidades costeiras, que desde a última imigração voltavam a ser habitadas, sendo alguns dos lugares menos frios da Terra, causando destruição e ceifando mais vidas. Aqueles colossos de merda eram visto com muita freqüência até mesmo na costa do Brasil e da África. 

No inverno seguinte foi avistado no Oceano Pacífico o maior shitberg já catalogado pela humanidade, com 1.607 quilômetros de comprimento, e nenhum coprólogo conseguiu calcular o tamanho que ele atingia embaixo da água. Um dia ele não estava mais à deriva, e se tornou fixo, como um novo continente de cocô, e passou a crescer cada vez mais, com mais merda congelando a sua volta, como em ilhas vulcânicas. 

Em pouco tempo, novos continentes de merda surgiram, e alguns se aglutinavam, ficando cada vez maiores, as águas de todo o planeta estavam se congelando em bosta, e havia cada vez menos pessoas para presenciar essa glaciação escatológica. No décimo sétimo ano o Oceano Atlântico inteiro virou uma grande massa fecal, as correntes marítimas deixaram de existir. O mundo se tornava uma merda gelada. No inverno seguinte o último ser humano morreu. 

E depois de tanta coprofilia, tanta escatologia, tanta emerdiação, o planeta Terra se tornou um grande e coeso Shitberg à deriva no espaço.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Shitberg - parte 01


Aquela maldita privada entupida mais uma vez, um problema muito freqüente nos últimos meses, e lá vai a conta bancária do encanador engordar um pouco mais.

Era um problema freqüente e cada vez mais presente nas sociedades, não era mais exclusividade desse ou daquele edifício, dessa ou daquela rua, nem mesmo de uma localidade ou país. Era um problema generalizado.

As privadas entupiam simplesmente porque a capacidade de destinação dos detritos provenientes de esgoto estava se esgotando. Era tanta merda que já não tinha mais onde jogar, os aterros sanitários já estavam cheios. Florestas eram derrubadas diariamente com o intuito de criar novos aterros, no entanto com o acordo de Kiev, ficou proibido todo e qualquer desmatamento, não importava o objetivo, pois as matas estavam acabando.

O lixo era reciclado facilmente com as novas tecnologias, comprimia-se e jogava ao espaço, combustível solar, assim, os aterros sanitários já nem precisavam ser usados como depósito de lixo. Mas não havia o que fazer com tanta merda, de todos os apocalipses ecológicos previstos para a humanidade, o escatológico era o menos esperado, e talvez por isso mesmo especialista nenhum se preocupou com ele. Até a água bater na bunda.

Nessa época jogavam cada vez mais bosta nos oceanos, eram as grandes privadas do planeta. Todas as redes de tratamento de esgoto do mundo acabavam nas águas salgadas. E a capacidade de renovação dos mares é limitada, apesar de ser grande, então chegou uma hora em que as águas começaram a virar um merdesteio só.

No início daquele ano algumas praias ao sul da França e da Itália foram interditadas, e em menos de dois meses todo o litoral sul europeu estava inapropriado para receber banhistas. A justificativa era a alta quantidade de coliformes fecais na água, as pessoas já chegavam à areia com furúnculos causados por bactérias da merda.

Não demorou muito para o resto do mundo também bloquear o acesso aos oceanos. Uma epidemia se espalhou na Ásia, causada por frutos do mar contaminados, os peixes estavam se transformando em cocô. Depois disso todas as populações do mundo pararam de pescar, em duas primaveras houve um superpovoamento dos oceanos, o que agravou ainda mais o problema, pois as criaturas marinhas consumiam mais oxigênio da água, diminuindo a capacidade de renovação e de decomposição dos dejetos.

No fim do terceiro ano as cidades costeiras começaram a ser evacuadas, as pessoas não suportavam o cheiro e as pestes, moscas se multiplicavam e chegavam a ter o tamanho de um ovo de galinha.

Cientistas estudavam com afinco possíveis soluções. Mergulhadores eram enviados, e dezenas de pessoas morreram em aventuras a alto mar, cair na água sem uma roupa especial de proteção era suicídio.

A merda começava a evaporar e condensar em nuvens, quando um vento impróprio a levava para o continente, chovia merda, e haviam furacões de merda na primavera. As águas da chuva, antes tão aguardados em determinadas partes do mundo, pra que viessem lavar as almas das pessoas, agora eram odiadas, e preferia-se a seca.

Um dos especialistas no novo problema da bosta dominante passou a estudar a densidade da merda. Ele queria saber porque uma parte boiava, enquanto outra boa quantidade afundava. Os fundos dos oceanos eram massas lodosas de fezes, e por outro lado, havia bosta cobrindo quase toda a superfície. Sua conclusão foi de que a densidade era variável.